Casamento ortodoxo

Posted on 10 janeiro, 2018

A amiga, fotógrafa oficial de eventos da comunidade judaica hassídica, de Nova York, fez o convite que há muito eu esperava e nos levou, eu e minha filha, como assistentes num casamento no Brooklin.
Nevava naquela noite, desci do carro, escorreguei no chão congelado do estacionamento e caí de joelhos. Voou a escadinha que ela usa para fazer as fotos do alto, acima dos chapéus de pelo pretos usados pelos homens durante a cerimonia. Segui manquitolando, um frio de lascar, na escuridão e no silencio do bairro, ela puxando um carrinho com o resto do equipamento num passo apertado e decidido. Não é tarefa para qualquer um. Os casamentos atravessam a noite e ela só recolhe as traquitanas depois que o ultimo convidado sai. É judia, nada ortodoxa, mas conhece todas as regras e excessões, os ângulos permitidos, os não autorizados por essa comunidade ultra-conservadora. De vez em quando, avança o sinal e arrisca uma bela foto de algum detalhe emocionante, curioso e proibido. A mãe preparando a filha para a cerimonia, a menina com as mãos branquíssimas sobrepostas. Um registro que vale a trabalheira oficial. Apresentamos-nos na entrada do salão, as duas mal ajambradas em uniforme de guerra, paramentadas de preto da cabeça aos pés. A autoridade à porta, barba e cachinhos nas costeletas, ortodoxamente vestida com chapéu e casaco longo pretos e o talim, um xale religioso com tzitzit, as franjas nas pontas, olhou feio como se desconfiando acertadamente das nossas origens e intenções. Ela atravessou a hierarquia masculina e e entramos.
O enorme salão dividido por um longo biombo, um lado para as mulheres, outro para os homens. Do lado de cá, onde ficamos, mesas decoradas esparramadas nas laterais, dezenas de crianças correndo e um estacionamento de carrinhos de bebê com os bebês dentro. O lado de lá, onde homens que me pareciam gêmeos entre si, cantavam e dançavam abraçados. A gente espiava por uma fresta que as convidadas tinham aberto e onde se divertiam como crianças fazendo coisa errada.
Seguimos com dificuldade as instruções técnicas carregando por toda parte a escada e um mastro com a luz, tentando ser discretas em nossos trajes camuflados e não sendo. Trocamos olhares de viés. A amiga circulava desenvolta, montando grupos, atendendo pedidos para registrar um ou outro familiar, ela também personagem da cena. Atravessar o ritual era mergulhar num mundo fantástico, vindo de outros tempos, parado nesse tempo.
A adolescente proibida de sacar o celular. O que acontece ali, fica ali. Eu queria fotografar na memória cada instante da cerimonia emocionante e, de certa forma, triste. Uma noiva menina, escolhida pelas famílias, mal conhecendo o noivo, seguindo obediente o curso previsto pela religião. Cobrir-se respeitosamente até os pés, cortar o cabelo, usar uma peruca com um lenço por cima, ter muitos filhos e não se interessar pelo que acontece fora da comunidade. Chegou a sua vez. Iluminando o ambiente escurecido pelas roupas dos convidados, ela surge frágil, imaculadamente vestida de branco, véu sobre o rosto, as mãos claríssimas de uma vida na sombra tocadas pela primeira vez pelo noivo.
Na volta, o carro sambando no gelo, a musica no radio acompanhando o ritmo, eu fechada em silencio, profundamente perturbada pela experiência. A amiga checa as mensagens no celular e suspira: amanhã tenho outro, acho que nem vou tirar o equipamento do carro.

comadre

Posted on 7 janeiro, 2018

O ônibus saiu quase vazio de Guaxupé rumo a São Paulo. Em pouco tempo, o de praxe:
-Comadre, vem sentar aqui na frente.
-Ai, não vou, não. Já me arranjei aqui no fundo com as sacola.
-E esse ano que não vira. Virasse, tava melhor.
– E então.
– A Marlene ficou lá cuidando dos cachorro? Tá bebendo muito ainda ela?
-Toma aquele, como se chama?
– O Domeck.
-Então. Mas dá conta do serviço de casa, traz sempre limpinha, arruma a comida, as criança sempre arranjadinha. E faz tudo até às três. Deixa até a janta pronta. Aí, começa beber e vai até a novela.
-Tá certa ela. O Jaldair sempre bebeu. Dormia agarrado na cachaça. Ela dizia, escolhe, Jaldair, é ela ou eu. Ele escolheu a cachaça. Então, a Marlene saiu do quarto. Dorme no sossego dela na sala. Nem tem que aguentar as graça dele de noite. Ficou tudo bem arranjadinho, lençol de cima, cobre leito e tudo.
-Jaldair é trabalhador demais. Se acaba lá no terreno do Waldir, todo mundo sabe. Aí bebe e chega em casa que não se aguenta, falando besteira. Ela deu com o cabo da vassoura nele outro dia. Aí, ele maldou se ela agora trabalha na polícia. Vai vendo. Aí, ela disse que se fosse polícia tinha já jogado ele no mato, ponhado a bebida nele todo e tocado fogo.
– Cachaceiro.
– Então.

Desentortar

Posted on 28 dezembro, 2017

 

Abri a porta e a maca me cumprimentou: boa tarde, dona Marina. Detrás dela, saiu a Poliana, baixinha, gorducha, uniformizada de branco, suada a tal ponto que não me permitiu beijá-la. A mão igualmente molhada despertou dúvidas sobre a decisão de aceitar a massagem, um vale presente de Natal da amiga. Não estou acostumada, mineiro não acha graça nessas intimidades com estranhos. Apontei o quarto e a maca caminhou arquejante de tênis brancos. Mesmo com as costas doendo, ofereci para ajudar, mas ela não aceitou e enquanto estendia um lençol de papel explicou que normalmente as macas são menores e mais leves, mas justo na sua vez só sobrou o modelão antigo. “Todo fim de ano, o movimento aumenta demais. Esse, em especial, por causa da crise, todo mundo travou.” Esparramou óleo, fez movimentos circulares, beliscou com as pontas dos dedos e anunciou que ia subir na maca comigo para usar os cotovelos como se fosse a coisa mais natural do mundo. Fingi que era dor a dor que deveras sentia. Pedi para encerrar.
No dia seguinte, mais entortada, arrastei-me para o quiroprata que me indicaram para terminar o serviço. Nunca tinha recorrido a um. Pensei em quiromancia e achei que podia ser uma saída magica. A pressão era quase insuportável, os presentes, a ceia, as contas, as malas, um esquema para cuidarem das plantas e dos gatos. Quem desentortaria minha vida? Cheguei atrasada, o homem estava parado ao lado da cama, braços cruzados, seríssimo. Mudo. Eu, ansiosa, disparada a explicar o transito e as tarefas injustas de uma mulher no Natal. Ele olhando para mim, calado. Achei que ia me agredir. E ia. Mas não ainda. Perguntou se eu estava com medo dele ou se era timidez abraçar a cadeira daquele jeito. E esses ombros para cima? Larga a bolsa e me conta o que se passa com você. Eu disse que tinha acabado de dizer, uai: “É o fucking Natal, você é homem, não entende.” Sorriu com o ar blasé que os seres espiritualizados adoram nos jogar na cara quando estamos descompensados. Descrevi minha sensação enquanto me deitava. “Estou virando a bruxa da Branca de Neve, lembra? Não consigo me esticar. Como se um elástico gigante puxasse as extremidades e…” Não terminei. Apertou um ponto qualquer perto da coluna, achei que ia desmaiar de dor. Gemi com vontade de chorar e ele garantiu que se eu aguentasse saía nova. Fiz as contas e pensei que se me tirasse uns onze, doze anos, sim, valeria a dor. E então veio uma pressão demorada com o dedão debaixo dos braços, o sofrimento excruciante e o comando: Coragem! Abraça Jesus! Não tive tempo de mandá-lo para o inferno, partiu para a outra extremidade e torceu meus pés para dentro, à Curupira. Achou meu maxilar rígido, fez ganchos com os dedos, meteu-os lá dentro da boca puxando as bochechas para cima como se fosse me pendurar nas suas mãos. Perguntou se eu confiava nele. “Tenho outra alternativa?” Segurou minha cabeça com as duas mãos e com um movimento forte e súbito girou-a como a menina do Exorcista fazia no filme. Ficou decepcionado porque não estalou. Quando terminamos a sessão, perguntou como eu me sentia. “Com muita raiva de você”, respondi. E saquei minha arma letal. Avisei que era escritora e que me vingaria dele assim que saísse dali.

 

 

 

 

 

O Copa

Posted on 5 dezembro, 2017

Fui convidada para uma festa elegante no Copacabana Palace. Show de Elza Soares, o toque cool para convidados que, de outra forma, jamais a ouviriam. Levei meu vestido longo, o único, mandei passar no hotel, pendurei o cabide na porta do armário. O quarto com vista para a piscina mais famosa do país, a que já foi testemunha de célebres encontros e desencontros, porres, discursos e performances escandalosas, hóspedes ricos de verdade, falsos ricos, roqueiros e misses, o chique, o chique despojado e o novo chique. Ao lado da cama, sobre o tapete iraniano, o salto 12 tinha antecedentes desagradáveis. Escorregou comigo no palco encerado de um teatro em São Paulo durante a entrega de um prêmio de jornalismo. Fui salva por um movimento ágil de bailarino do Zeca Camargo, meu par no evento, que me segurou com elegância no momento do vôo e a quem serei eternamente grata. Olhei para o bico fino do sapato, ele olhou para mim. Não fizemos as pazes. Fugi para Ipanema e passei o dia de dieta para caber no vestido, só na água de coco e biscoito. Fim de tarde, pôr do sol carioca perfumado de maconha, atravesso a rua para um gin tônica escondido no Fasano, concorrente do Copa, imagina se ficam sabendo. O barman, com sotaque baiano matador, me convence a tomar outro. Tiro um cochilo de biquini sobre o edredon de pena de faisão dos alpes suíços e quando acordo, dou de cara com uma triste figura refletida no espelho. Sigo para a árdua tarefa de auto-restauração que invariavelmente impacta o porteiro do meu prédio: Opa! Se reproduziu toda, hein, dona Marina? Meia hora tentando descobrir o segredo do chuveiro. Me encaixo debaixo do chuveirinho, para a minha estatura é até melhor. O cabelo precisa de secador e gel. A maquiagem, emprestada da filha, esparramada pelo espetacular mármore branco. Dá vontade de deitar na pia. Peço uma caipirinha com cachaça para chegar no tom da Elza. Preço de uma refeição. Comento com o funcionário que trouxe e ele diz que para o dólar está barato. Yes. Encho a banheira para um banho de espuma. Não é porque estou sozinha que não vou sensualizar. Antes, tiro um uísque do frigobar, não encontro o gelo, depois encontro, mas já é tarde. Agora eu sou cowboy e o meu cavalo só falava inglês. Ou era a noiva do cowboy? Escorrego na espuma. Sem querer, molhei de novo o cabelo. Ligo para uma amiga que também vai à festa e ela me aconselha a pedir champanhe com aquela conversa do “eu mereço” que já faliu muita gente que merecia mesmo ficar pendurada no cartão para largar mão de ser besta. Vem outro rapaz. Coloca o balde na mesinha. Dou uma gorjeta no valor da caipirinha. Volto para a maquiagem e levo um beliscão do curvador de cílios. Sinto vontade de chorar. Ligo a televisão e está passando As Pontes de Madison que com champanhe fica ainda mais triste. Vou borrando a maquiagem até o fim da garrafa. O vestido justo pendurado, mole, cheio de preguiça. O salto doendo nos pés ainda descalços. Sinto um desânimo enorme e me lembro da minha avó deitada, camisola bordada, tercinho na mão, com pena da gente indo para o baile em Guaxupé. Agora eu sou ela na sua cama confortável. Peço um sanduíche que vem com batata frita e picles debaixo da tampa de prata. Coca-Cola. Me esparramo no sofá embrulhada no robe macio assistindo Seinfeld. Ái, o Copacabana Palace!

Um cérebro encolhido

Posted on 28 novembro, 2017

Minha mãe já tinha feito a observação de que estou emburrecendo quando não respondi de pronto uma pergunta dela. Vindo dos rigores da minha mãe, tendo sido criada por ela, a crítica não incomodou. Fiz uma malcriação, corri para acertar a resposta, ela nem ouviu e estava resolvida a questão. Agora, não muito tempo depois, alguém comenta sem fazer alarde que o cérebro das pessoas encolhe com o tempo, o da população como um todo, não apenas o das mulheres como poderia sugerir a piada. Não há uma idade certa para que isso aconteça, com o correr dos anos, já não usamos todas as células do cérebro e ele vai diminuindo. As dezenas de perguntas sobre os detalhes dessa maldição genética ele não sabia responder e nem estava interessado, aceitava os desmandos da natureza humana. Saí como louca usando as poucas células que me restavam para escrever listas com informações importantes, datas de aniversários, contas a pagar, textos de gaveta, receitas, para que quando a coisa apertasse eu pudesse, pelo menos, rever a lista e seguir com a vida em dia. Burra, mas cumpridora. Consultando especialistas em sites na internet, entendi que passamos a usar menos células do cérebro e as sedentárias vão se acomodando até não terem mais serventia. Vamos ficando mais seletivos com o que absorvemos, encostamos informações inúteis que só aceleram os pensamentos num fliperama mental e trabalhamos apenas com o essencial. O cérebro, ressentido, então se vinga encolhendo. Além das listas, tentei colocar num texto minha ultimas palavras inteligentes, as que selecionei entre milhares de supérfluas, as que ainda cabem no meu cérebro retraindo-se acelerado. Sob pressão, cada minuto perdido uma célula a menos, a voz da minha mãe abrindo caminho, não consegui desenvolver nada interessante, estava fadada a conviver com o que as células julgassem útil. E se eu não concordasse? E aí uma idéia me reconfortou. A de que eu poderia pensar firme, incessantemente, em coisas consideradas importantes para quem gosta de bicho, de mar e rio, de gente excepcionalmente simples, de criança brincando, de futebol. E guardando essas informações na cabeça, sem deixás-las escapar, eu teria selecionado a porção realmente útil para me sobrar no cérebro.

A touca

Posted on 19 novembro, 2017

Era culto, educado, intelectual e tinha um sobrenome que me transportava para o leste europeu. Eu adorava fazer esse comentário. Fotógrafo. Conhecia o que era relevante no mundo. O resto, Bahia e afins, visitou pela literatura. Emocionava-se às lágrimas durante o concerto, no final do poema, diante da imagem pendurada no museu. Eu fingindo sensibilidade igual. Fazia análise três vezes por semana. Neurótico e atormentado como eu sonhava ser. Lindinho e perfumado. Tomava banho de touca quando não queria molhar o cabelo. Podia tudo. Tinha letra feia e escrevia muito bem. Articulado. Participava de intrincadas discussões sobre cinema e política quando ainda era de esquerda. A barba perfumada do charuto que ele fumava exalando inteligência.
Eu tinha a tendência de idealizar as pessoas, sobretudo os homens, na época, mais poderosos, destacados nas suas áreas, um tom acima das mulheres. Com irracional atração machista, entregava a eles o coração e o meu desejo. A esse, aparentemente mais frágil, mas igualmente superior, entreguei também a auto estima. Sabia que para me aproximar daquela imagem encantadoramente imperfeita, os defeitos assumidos sem medo, eu escondendo os meus, teria que matar, não no sentido figurado, meus pais, meus professores, minha terapeuta e talvez a mim mesma para nascer de novo. Ele era o avesso do avesso do avesso do avesso e eu não conhecia poesia concreta nem a musica. Quando de touca no chuveiro, deixava a barba ensaboada à mostra e me confundia com sinais tão contraditórios.
Uma noite, em Campos do Jordão, deitados na grama de mãos dadas, o céu por testemunha, disse que estava apaixonado pelo amigo. Fiquei em dúvida se deveria recolher ou manter a mão. Mantive para não dar bandeira. Tentei parecer sofisticada e natural, fazer observações inteligentes para a situação e não sair rolando aos gritos pela grama como tinha vontade. Ele chorou. Continuamos a olhar para o alto, perguntei se me queria perto para ajudá-lo naquele momento difícil que eu mesma não compreendia e quando ele se levantou sem responder, continuei ali imobilizada pelo susto até o corpo doer. Passou para quatro sessões de terapia por semana. Com inveja da complexidade do que ele vivia, decidi que poderia ser uma opção para mim também. Me emprestaria a profundidade e o mistério que eu não possuía. Com ares lascivos, aproximei-me de meninas bonitas, sensuais, delicadas. O cabelo, os olhos, o perfume, a personalidade, sobretudo a atenção que algumas me dispensavam num flerte imaginário. Toquei, cheirei e nada. Nenhuma sensação próxima das que eu conhecia com os homens. Eu era uma mulher comum, óbvia, cem por cento heterossexualmente resolvida. Não seria por ali a minha ascensão às profundezas da alma.
Numa conversa, já sem sermos um casal e sendo porque gente sofisticada continua sendo, deixei-o saber que eu também tinha passado por uma crise de gênero. Soou tão artificial e fora de contexto que ele fez uma vírgula e seguiu o raciocínio sobre um documentário que estava filmando. Nunca mais o vi. Soube que encaretou, tornou-se conservador, assumiu os negócios da família, mulher, sogra, filhos e tal. De tudo, o que me intriga é se ele manteve a touca no banho.

Um amor inventado

Posted on 8 novembro, 2017

Ele surgiu de repente na minha tela. Estava deitado, sorridente, de avental verde, o soro pingando ao lado, fazendo um sinal de positivo com o dedo. Sempre foi assim, bem humorado apesar da desgraceira que era a nossa vida de jornalista. A última vez que o vi, há muito tempo, circulava pela redação olhando a gente de cima naquele tamanho todo e tão de perto quanto é possível um homem doce olhar. Nunca imaginei que nos aproximaríamos pelo Facebook, nós, os últimos defensores do papel. Fiz uma visita à sua página e entendi que estava com um câncer avançado. Escrevi começando uma conversa que só terminaria no fim da história. Seguiram-se meses de papo online ou pelo telefone sobre política, ali discordávamos, poesia, comida, futebol, aqui a gente concordava na torcida pelo timão. Todos os dias chegaram flores e músicas numa entrega digital. Eu devolvia o carinho com causos bobos para ajudar a passar o tempo entre as cochiladas induzidas pela medicação. À certa altura, ele insistiu e comecei a visitá-lo. Na primeira vez, preparei-me feito uma noiva, perfume e batom, e fui me equilibrando no salto pelo longo corredor, seguindo the yellow brick road e já querendo encontrar o caminho de casa, como Dorothy na Terra de Oz. Estava ligeiramente inclinado na cama, cheirando a sabonete. Pedi um banho antes de você chegar, justificou. Além de um urso, um dinossauro e um coração de pelúcia escrito amor, não havia mais nada naquele quarto onde a luz explodia, não escondia nada. Nossas mãos geladas de emoção. Atrapalhada, quase arranquei a agulha pregada no braço fino. Ele segurou. Falamos de comida e literatura e chegamos, claro, na Nina Horta que cozinha tudo numa panela só e então dei para ele um livro dela autografado para mim que estava na bolsa. O livro passou a ficar ao lado dos bichos e do coração de pelúcia. A enfermeira entrou, ele me apresentou como namorada. Ela sorriu com ar de compaixão e aquilo me deu um calafrio. Tive vontade de brigar com ela exigindo que o tratasse como um homem igual a qualquer outro caminhando lá fora. E fugi inventando um compromisso longe dali. Saí pensando na loucura em que estava nos metendo. Não sentia por ele nada além do amor de amigo e, no entanto, pura covardia, não o desmentia quando me chamava de namorada. Nos meses seguintes, ficamos muito próximos. Fazíamos planos ingênuos para quando ele deixasse o hospital. Tomaríamos sorvete na praça ensolarada. Eu jurando que faria e diria o que fosse necessário para mantê-lo num mundo encantado. Inventei uma missão para mim. Como ele, precisava daquilo para me sentir amada. Estava consciente de que havia um vínculo neurótico de dependência entre nós, a nossa sobrevivência.

Sempre que enfrentava algum procedimento de risco, foram tantos, ele brincava, estou oco, só não me tiram o coração por sua causa. Eu sabia que sentia medo e garantia, segura a minha mão, estou aí com você.

Às vezes, estava entubado e não podia falar. Ficava aquele silêncio desconfortável no quarto, ele sorrindo com os olhos cada vez mais fundos e arregalados, digitando no celular com dificuldade e erros que jamais cometeria, o que queria dizer. Na Páscoa, alimentado pela sonda, pediu à enfermeira que comprasse um ovo na lojinha do hospital, me fez abrir na hora e comer ali na frente dele. Eu querendo chorar, lambuzada de chocolate e ele orgulhoso de poder me dar o presente. Depois, piorou tanto que eu não queria mais ir até lá para não deixá-lo constrangido naquela condição desumana. Ou muito humana, fracos e prepotentes que somos.

Antes que eu respondesse ao seu platônico pedido de casamento, ele se foi. A irmã ligou dando os detalhes do enterro e acrescentou, ele amava muito você. E então, pensei que a gente precisa desesperadamente amar para se manter vivo. E nem assim.

 

 

 

 

 

 

O vôo

Posted on 30 outubro, 2017

Entrincheirada entre dois alemães no avião a caminho de Berlim. O da direita, assiste Polonia e Portugal, o da esquerda, os odiados do Tarantino. Meu filme, escolhido na opção comedia romântica, sai da piada ingenua, faz uma curva acentuada e mergulha sexo adentro. Corpos nus e suados esfregando-se na tela, eu nem tão romântica nem achando engraçado, constrangida entre os dois desconhecidos. Tenho vergonha de continuar assistindo e me falta coragem para desligar. Com o canto do olho checo a atenção dos vizinhos, aparentemente entretidos, braços cruzados, imóveis, germanicamente circunspectos. Nenhum deles tirou o sapato durante a noite. Entendo o recado, nada de intimidade. Sem mexer a cabeça, posso espiar o sangue jorrando do pescoço atingido à queima roupa de um lado, o jogo empatando de outro. Imagino que eles também possam ver o que se passa à minha frente, se quiserem. Faço que não estou assistindo ou que estou, mas sem interesse. Passo um creme nas mãos. O casal agora transando no tapete. E em seguida no sofá. Decido assumir. É sexo, sim. Qual é o problema? Nunca viram? Nunca fizeram? Cristiano Ronaldo abre uma jogada espetacular, a câmera fecha no sorriso plastificado dele, e Samuel Jackson mete mais dois tiros na cara de alguém dentro do cabana gelada. O alemão da direita mexe-se na cadeira, fico apavorada com a perspectiva de que ele veja o que eu vejo, que me condene mesmo na opção comédia romântica. Levanta-se e sai. O da pancadaria sanguinária cochila apesar de cabeças explodindo. Aproveito para desligar rapidamente a TV. Finjo que estou dormindo até dormir. Nem bom dia no café da manhã.

O tapeceiro

Posted on 25 outubro, 2017

Escolhendo o tecido para a poltrona que ele iria forrar, comentei que tinha pressa por causa de um compromisso no centro. Não entrei em detalhes sobre as aulas de espanhol com a jovem cearence que morou no Peru e que, além da língua, conheceu a fundo a gastronomia local e misturando ingredientes nordestinos com iguarias dos Andes, fazia um inacreditável Ceviche no dendê.
Optamos por uma camurça estampada lavável, devolvi o mostruário, ele saiu desviando dos móveis, sobreviventes aleijados pelo tempo, atravessou a tapeçaria apinhada e trouxe o bloco onde anotou o pedido depois de afastar o pó da página com a mão, um gesto automático e talvez desnecessário.
Sem levantar os olhos, disse que estava indo para a mesma área fazer uma entrega e que se eu quisesse, me dava uma carona. Pensei no metrô, mais cheio do que show do Justin Bieber, diz a adolescente de casa, e aceitei.
Ele despachou umas instruções com o assistente, um rapaz de ar abobado e boné do MC Kevinho, e gritou a mulher. Dos fundos, claramente a contragosto, veio a Ivoneide. Achei bom, não estava muito confortável de andar de carro sozinha com o homem que, apesar de anos de convivência, eu não conhecia bem. Sandália de plataforma e unhas vermelhas, batom, perfume, cabelo longo com progressiva, apresentou-se, “prazer, Ivoneide”, e sorriu com cumplicidade causando o efeito contrário, me senti pequena, mal arrumada, pouco feminina.
A Kombi estava estacionada irregularmente na esquina, ele, então, arrancou a multa do para-brisa, amassou e jogou na calçada. Refreei o impulso de recolher. Ela acendeu um cigarro. Os homens abriram as portas duplas e meteram lá dentro mais cadeiras do que eu imaginava que fosse possível, um lego improvisado e inacreditavelmente funcional. Ficou claro que iríamos os três no banco da frente. Ivoneide entrou e sentou-se coladinha nele, a saia justa subiu até o alto das coxas e eu entendi porque ele não a deixava sozinha na tapeçaria com o ajudante de ar sonso.
Aboletei-me perto da janela, girei a maçaneta macia, o vidro desceu revelando minha cara embaçada no espelho retrovisor.
O ajudante voltou lá de dentro com uma caixa grande e um bolo dentro, produção caseira da Ivoneide, que seria deixado numa cliente no caminho. Ajeitei como pude a bolsa no chão, o bolo no colo. Me pediu para repetir o endereço, ligou o radio e seguimos sem trocar uma palavra chacoalhando as cadeiras ao som de forró gospel até o guarda dar o sinal.
Ele encostou, abaixou o som e mandou que ela tirasse os documentos do porta-luvas. Enfiou a mão no bolso, tive medo de que fosse uma arma, era dinheiro. Com movimentos de ilusionista, estendeu os papéis com as notas embutidas. O guarda pegou o que interessava e nos liberou. Fez mais, esticou o braço e deu sinal na avenida para que pudéssemos entrar novamente. “Que susto, hein?”, me escapou. Nem uma palavra de volta, nenhum comentário. Ivoneide guardou de novo os documentos, ele aumentou o volume do radio, anunciou que me deixaria na próxima esquina e que a poltrona estaria pronta dali a três semanas.