Modernidades

Posted on 27 agosto, 2016

Por insistência das amigas, adentrou o Tinder. Já tinha espiado de fora, aquele não era lugar para uma mulher disponível há tão pouco tempo. Devia cumprir o luto da separação por, pelo menos, um ano, uma conta que estabeleceu a partir da média da maioria das mulheres largadas, versus a raiz quadrada de uma ou outra mais assanhada, noves fora a opinião da mãe e das tias. Cedeu com reservas. Vou só para conhecer, sem compromisso de ficar.

Sozinha em casa, ligou na novela para disfarçar o interesse, digitou o endereço e seguiu, pé ante pé. Correu os candidatos com o coração aos pulos com medo de estar sendo observada por Deus, de haver uma câmera no computador registrando sua vontade, de um filho dar flagrante.
Desenvolveu critérios instintivos. Não queria foto de homem com a mãe, com filho, com cachorro, com carro, barco ou moto. É achar que a gente é burra, não caio. Foto na piscina de casa, na churrasqueira, na cozinha com pano de prato no ombro, ela descartava. Foto usando óculos escuros, nem pensar. Quero ver a cara do malandro frequentador dessa joça. Não aceitava ninguém formado em faculdade com prefixo Uni. Sou dessa opinião, diga-me que escola frequentaste e te direi quem és. Podia até ser leonino, convencido e vaidoso, mas preferia homem de touro por razões óbvias. Gêmeos, signo do ex, só com carta de recomendação. Nome começando com W e ou terminando com N estava fora. Acho cafona. Descobriu que era exigente quanto à aparencia. Não valia barriga grande, perna fina, dentes ruins, barba até o peito, peito sem pelo ou muito peludo. O bairro era determinante. Não sou mulher de atravessar a cidade por causa de homem.
Ali ficou ciscando, rodeando, talhando a companhia perfeita, até que um dia, dividiu um uber pool com Wilson, professor da Unip, que morava na zona leste onde ela ia consultar a taróloga a cada seis meses e ao Tinder nunca mais voltou.

Posted on 18 agosto, 2016

O artista fez o desenho dela. Apaixonou-se primeiro pelo desenho, depois pelo artista. Quando a paixão apagou-se, tentou apagar o desenho e já não pode porque estava protegido dentro da moldura. Devia ter emoldurado a paixão, pensou.O artista fez o desenho dela. Apaixonou-se primeiro pelo desenho, depois pelo artista. Quando a paixão apagou-se, tentou apagar o desenho e já não pode porque estava protegido dentro da moldura. Devia ter emoldurado a paixão, pensou.

Dia dos Pais

Posted on 15 agosto, 2016

Pouco antes do Dia dos Pais, em Nova York, anos 90, fomos convocados para uma reunião na escola infantil onde minhas filhas estudavam. Para comemorar a data, a escola propôs que os pais passassem o domingo consertando o encanamento, o telhado, pintando os móveis e paredes, recuperando o que estava desgastado ali onde seus filhos passavam boa parte do tempo. O que nos parecia uma punição eram tarefas relativamente rotineiras para os americanos, mesmo os de Nova York, que se orgulhavam de economizar dinheiro não terceirizando os serviços. Conheci gente que fazia troca de óleo no carro, afinava o piano e cortava o cabelo dos filhos em casa. A idéia do mutirão foi recebida com entusiasmo.
Naquele ano, um casal de mulheres fazia parte do grupo e a discussão arrastou-se longamente quando elas anunciaram que queriam participar da atividade. Os homens achavam injusto que fossem homenageadas ali como pais e adiante, talvez limpando as salas e lavando o chão, como mães.

O outro

Posted on 10 agosto, 2016

Eu morava em Nova York quando soube da morte do Rubem Braga, no Rio. Fiquei imensamente triste. Com medo. Era uma sensação estranha de que todo mundo que eu gostava morreria enquanto eu estava fora. Morte à traição. A gente se distrai, olha para o outro lado e pronto, acontece. Estou de volta e vira e mexe essa mesma angústia me assalta. A morte é sempre traição.

Quitando

Posted on 3 agosto, 2016

Foi ao banco acertar a última das 36 parcelas do carro. A funcionaria do caixa, dando-se conta da importância do momento, parabenizou-a em voz alta de tal forma que todo mundo ali ouvisse e então seguiu-se uma gritaria nas filas, preferenciais e comuns, nas mesas dos gerentes, entre os motoboys, o cliente preso na porta giratória, a turma dos boletos, a do cheque especial, a da senha cancelada, a que não confia na internet. No alto do seu posto, imagino, o vigilante arriscou uma sambadinha contida também. A vitória dela era a de cada um ali. Com as bochechas vermelhas de vergonha e alegria, voltou correndo e foi direto para o fogão, fez um bolo de chocolate e brigadeiros, que é como ela sabe comemorar. A Milene, que trabalha aqui em casa.

Mrs Robinson

Posted on 25 julho, 2016

Mrs Robinson
 
Casou-se com a italiana desejada pelo bairro. Lindinha e séria, aos 25, carregava o sotaque nas esculturas que fazia nos fundos de casa, um renascimento adaptado para o Brás conservador daquele momento. Apaixonou-se com respeito e admiração pela artista que ela se tornaria, era um jornalista de família quatrocentona, gente de muitos livros e referências, em termos intelectuais, sabia no que estava se metendo. Quando conheceu a futura sogra, descobriu Sofia Loren viúva, os vestidos pretos decotadíssimos, olhos verdes realçados com delineador num luto provocador. Mãe e filha brigavam e amavam-se com a mesma intensidade, ele paulista de fala baixa e palavras escolhidas, camisa social e gravata, assistindo LaTraviata ao vivo na cozinha. Um dia, a sogra deixa cair o sapato e esfrega de leve o pé no calcanhar dele por debaixo da mesa. Olhou para os lados, ninguém notou, fez que não sentiu nada, sentindo o mundo explodir por dentro. Ao sair do banheiro uma noite, ela segurou a porta e deixou que ele a visse quase desembrulhada na toalha. Tantos convites inaceitáveis! Bastava um copo de vinho e então era como se não houvesse mais ninguém ali além dos dois e Jesus sofrendo na cruz empoeirada da sala. Ela fumava. Ele engolia o macarrão, os olhos na mulher, todo o resto na outra. Estava sempre pronto para uma possibilidade que afinal nunca aconteceu. Além da tensão física, havia uma conversa que não terminava sobre as artes, o cinema, a música e até a política onde ela era mais conservadora do que nos outros assuntos. Davam-se bem os três naquele estranho equilíbrio, o interesse de uma no que vinha da pedra, o da outra no que estava encerrado, o dele no que escapava das duas.
Hoje, vi a foto postada durante uma viagem à Itália. A mulher ainda séria e bonita olhando para o mar, ele careca conduzindo a sogra, joelhos à mostra, numa cadeira de rodas. A fidelidade não merece a má fama que tem.

O vôo

Posted on 1 julho, 2016

Entrincheirada entre dois alemães no avião a caminho de Berlim. O da direita, assiste Polonia e Portugal, o da esquerda, os odiados do Tarantino. Meu filme, escolhido na opção comedia romântica, sai da piada ingenua, faz uma curva acentuada e mergulha sexo adentro. Corpos nus e suados esfregando-se na tela, eu nem tão romântica nem achando engraçado, constrangida entre os dois desconhecidos. Tenho vergonha de continuar assistindo e me falta coragem para desligar. Com o canto do olho checo a atenção dos vizinhos, aparentemente entretidos, braços cruzados, imóveis, germanicamente circunspectos. Nenhum deles tirou o sapato durante a noite. Entendo o recado, nada de intimidade. Sem mexer a cabeça, posso espiar o sangue jorrando do pescoço atingido à queima roupa de um lado, o jogo empatando de outro. Imagino que eles também possam ver o que se passa à minha frente, se quiserem. Faço que não estou assistindo ou que estou, mas sem interesse. Passo um creme nas mãos. O casal agora transando no tapete. E em seguida no sofá. Decido assumir. É sexo, sim. Qual é o problema? Nunca viram? Nunca fizeram? Cristiano Ronaldo abre uma jogada espetacular, a câmera fecha no sorriso plastificado dele, e Samuel Jackson mete mais dois tiros na cara de alguém dentro do cabana gelada. O alemão da direita mexe-se na cadeira, fico apavorada com a perspectiva de que ele veja o que eu vejo, que me condene mesmo na opção comédia romântica. Levanta-se e sai. O da pancadaria sanguinária cochila apesar de cabeças explodindo. Aproveito para desligar rapidamente a TV. Finjo que estou dormindo até dormir. Nem bom dia no café da manhã.

Para viajar

Posted on 29 junho, 2016

Amanhã eu vou viajar. Vou a contragosto porque viajo mais longe em casa, olhando as árvores pela janela, minha cabeça pegando fogo de inquietação e curiosidade. Mesmo as gentes que busco nos lugares distantes são mais distantes do que as das ruas aqui. Não tenho curiosidade geográfica, nenhuma paisagem transatlântica me assombrou mais do que a oficina do sapateiro do bairro, quanta história ali! E ainda que os cheiros e gostos do desconhecido me excitem os pensamentos, castanhas fumegantes nas esquinas estrangeiras, cobras e lagartos assando no chão de terra, mercados populares perdidos no tempo, um café turco com a minha sorte no fundo da xícara, se é tempo de pamonha em Guaxupé ou se a Milene inventa um bolo de paçoca porque não encontrou fubá, pronto, já fui e voltei à todas as emoções do mundo. Não há razão para tanto alvoroço, tanto deslocamento, digo já arrependida de dizer. Sei o que foi.
Dei uma volta no jardim há pouco e vi um passarinho morto. Pernas secas para o alto. Acho que foi esse vôo desastrado dele que me desanimou. Ou antes, a natureza dele de voar. Minha vontade disfarçada encontrando a vontade dele e as nossas pernas secas para o alto.

o Gordo

Posted on 27 junho, 2016

Mal aboletei-me na poltrona da primeira classe comemorando o upgrade às custas das milhas corporativas e uma multidão barulhenta avança na minha direção. No centro, celebridade experiente, paciente, sorridente, estava Ronaldo, o Fenômeno, gordíssimo na época. Senta-se ao lado conversando com a turma, com os comissários de bordo, assinando autógrafos, suado, agitado, gostando da coisa. Levanta-se. Tira da bagagem de mão uma roupa confortável, a camisa ele troca ali mesmo, exibindo o barrigão sem constrangimento. Ainda em pé, de frente para a torcida, saca um colírio, pinga e esfrega os olhos. Saca umas gotas para o nariz, funga e assoa emitindo sons molhados desagradáveis. Esvazia uma garrafa de água num gole só. Segue, então, para o banheiro e fica tanto tempo lá dentro que decido não entrar ali nem que todos os banheiros do avião estejam interditados. Quando volta, mete protetor nos ouvidos, joga-se na cadeira e ronca. Alguns metros atrás, na classe executiva onde, definitivamente, eu deveria estar, distrai-se com um livro, o Raí, inesquecíveis suéter e meias azuis, um príncipe lindo, elegante e educado. Este clássico, pensei, o São Paulo ganhou de goleada.