Tudo já foi escrito

Posted on 3 dezembro, 2020

Tudo já foi escrito, de todas as formas, usaram-se todas as palavras, deram ordens parecidas a elas, ou as desordenaram, montaram-se frases invertidas, conjugaram-se os verbos nos seus tempos possíveis, pontuaram tudo igual. Todas as histórias foram contadas, todos os efeitos literários, os truques esgotados, a verdade esgotada, a mentira esgotada, nenhum novo personagem, nenhuma biografia original. Tudo já foi descrito, as sensações, as lembranças, as infâncias, as adolescências, as velhices, as mortes, todos os romances foram inventados, rememorados, os sinônimos, o contrário deles, usados, gastos, os prazeres necessários repetidos, os reais, os imaginários, fantasias, as mesmas, paixões rimadas em verso, estendidas em prosa, todo o abecedário, em todas as línguas, os crimes em versões diferentes, o riso dramático desde Dostoiévski, desde Shakespeare, as tragédias, as grandes e as pequenas, no momento, em suas consequências, relatadas e sofridas ou nada. Fim.

Pedrada no coração

Posted on 3 dezembro, 2020

Abro os olhos e dou com a Manu já bem perto da cadeira, magrela no biquíni, pezinhos enterrados na areia. O sol e o calor queimando tudo. Duvida que eu jogue uma pedra em você? Aos dois ou três anos, já e sempre em atitude combativa, espera imóvel a resposta. Não me dei conta de que aquele momento O Estrangeiro pudesse “… destruir o equilíbrio do dia” e arrisquei: Duvido.
A pedra, escondida na mãozinha dela, voou certeira e me cortou de leve a testa. Cobri o rosto mal acreditando e chorei, de dor e de susto. Ela assustou-se também, mais com as minhas lágrimas do que com o sangue, sobretudo com o impacto da realidade, e seguiu calada atrás de mim para dentro da casa. Mais tarde, curativo e tal, vendo-a brincar distraída com um gato, compreendi a sua necessidade de ser notada, magrela no biquíni, pezinhos enterrados na areia, por aquela mãe tomando sol de olhos fechados para ela. E me deu uma vontade cheia de culpa de colocar no colo e cobrir de beijos a criatura malcriada. A psicologia absolveu a sociedade moderna de todos os crimes.

A tia solteira

Posted on 26 novembro, 2020

Pouco antes da tia morrer aos 103 anos, graças a uma providencial mudança nos medicamentos, a cabeça voltou. Reconhecia todo mundo, estava atualizada sobre as histórias pessoais de cada um, sabia o preço da saca de café e do latão de leite, acompanhava atentamente a política e a economia do país, tinha e emitia opinião sobre tudo. Foi uma virada num jogo quase perdido. Por um período, ela falou absurdos, trocou nomes, chorou e riu na hora errada. Estávamos tristes com a perspectiva de não tê-la conosco até o final. Cutucando daqui e de lá, o médico propôs um movimento diferente e a resgatou do mundo sem memória. Anunciada a conversão, interou-se dos fatos, mortes, nascimentos, separações, falências na família e voltamos a conviver com ela como se aqueles anos tivessem sido só um intervalo ruim numa história boa. A tia era solteira e foi na sua casa, a que herdou dos nossos bisavós, em Guaxupé, que a maior parte dos encontros familiares se deram. Todos os domingos, na longa mesa da copa, pelo menos cinco gerações de mulheres, em diferentes conversas cruzadas, conversavam. Fomos educadas com rigor a não perguntar o óbvio e prestávamos muita atenção para não perder nada. Esparramados pela sala e no alpendre, os homens se colocavam em duplas ou trios que é como dão conta de acompanhar um assunto. Num canto, estavam sempre um tio e o filho que moravam juntos na fazenda e, no entanto, passavam a tarde ali, entretidos, conversando um com o outro. De vez em quando, aparecia um primo com distúrbios mentais vestido de farmacêutico ou frentista do posto, a profissão que estivesse abraçando no momento, todo mundo na cidade colaborava, entrava, dava um recado ou entregava alguma coisa e saía. Muitos anos mais tarde, minha filha mais nova soube que a tia morreu solteira e perguntou: mas não virgem, né? Não se conformava de que ela não tivesse nem namorado. Que, se tivesse namorado, obrigatoriamente teria casado. Não entendia como era possível que alguém passasse a vida sem sequer beijar na boca. Eu mesma nunca tinha pensado no assunto, entretida que sempre estive com meus próprios beijos e casamentos, e só então observei que, sim, naquele tempo, não casar significava não transar. Especulando sem fonte segura que esse não era assunto da conta de ninguém, concluímos que a tia, na sua sábia solteirice, ouvindo as queixas e relatos dramáticos atravessados na mesa de domingo, constatava que casamento e prazer nem sempre andam juntos. À noite, tercinho nas mãos, ainda comiserando, certamente agradecia a Deus a sua sorte. Antes virgem do que mal acompanhada.
Você, Cristiana Beltrão, Laura Vargas e outras 123 pessoas
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Sereia

Posted on 19 novembro, 2020

Veio séria, ereta, lenço e avental escuros, máscara cobrindo o nariz e a boca, carregando a bandeja de café. A luz bateu no brinco balançando no ar e eu só esperei ela virar para confirmar a bunda grande numa bermuda de lycra justa. O contraste entre a fachada comportada e a traseira provocante aparentemente não chamou a atenção de ninguém e eu me senti um homem, no sentido mais masculino da palavra, porque só pensava naquilo. Na mulher gostosa e sensual mal escondida naquele uniforme, debochando de nós. Não de mim, que saquei logo a sua natureza. Tive vontade de ir atrás e dizer a ela que eu sabia de tudo, do ridículo daquele uniforme e a bandeja estendida. Queria ir até a cozinha dizer que eu adivinhava o seu peito decotado, o batom debaixo da máscara, o rabo da sereia.
Que eu era mais do que um homem. Que não me fizesse de tonta.

Comadres

Posted on 16 outubro, 2020

O ônibus saiu quase vazio de Guaxupé rumo a São Paulo. Em pouco tempo, a conversa atravessa o corredor:
– Comadre, vem sentar aqui na frente.
– Ai, não vou, não. Já me arranjei aqui no fundo com as sacola.
– E esse ano que não vira, hein? Virasse, tava melhor.
– E então.
– A Marlene ficou lá cuidando dos cachorro? Tá bebendo muito ainda ela?
– Toma aquele… como se chama?
– O Domeck.
– Então. Mas dá conta do serviço, traz a casa sempre limpinha, arruma a comida, as criança sempre arranjadinha. Faz tudo até às três. Deixa até a janta pronta. Aí, começa beber e vai até a novela.
– Tá certa, ela. O Jaldair sempre bebeu. Dormia agarrado na cachaça. Ela dizia, escolhe, Jaldair, ou é eu ou é ela. Ele escolheu a cachaça. Então, a Marlene saiu do quarto. Dorme no sossego dela na sala. Nem tem que aguentar as graça dele no meio da noite. Ficou no sofá com tudo bem arranjadinho, lençol de cima, cobre leito e tudo.
Silêncio. Fecho os olhos. Seguem:
– Jaldair é trabalhador demais. Se acaba lá no terreno do Waldir, todo mundo sabe. Aí, bebe e chega em casa que não se aguenta, falando besteira. Foi tanta desfeita que ela deu com o cabo da vassoura nele outro dia. Marcou tudo as costa.
– Num conta.
– Vai vendo. Ela também tinha tomado que já era pra lá de seis e meia. Você agora trabalha na polícia, é? Ele perguntou. Aí, ela disse que se fosse polícia tinha logo jogado ele no mato, ponhado bebida nele todo e tocado fogo.
– Cachaceiro.
– Então.
Você, Roberto Gervitz, Matthew Shirts e outras 167 pessoas
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Dia do professor

Posted on 16 outubro, 2020

Fui uma aluna medíocre, não prestava atenção, falava o tempo todo, zanzava pela classe atrás de diversão miúda, espetar a bunda de alguém com o compasso, assoar o nariz na cortina, jogar a borracha no chão para espiar a calcinha das freiras. Nunca era culpa minha, sempre fui queridinha das professoras. O tamanho ajudava. Ser pequena quando a gente é pequeno provoca aquela fofurice nos adultos. Ao longo dos anos, eu e minha melhor amiga, a Stela, nos revezávamos na primeira posição da fila por ordem de tamanho. Depois de muito tempo, ela confessou que não foi gentileza me ceder a frente no primeiro dia de aula, gesto acolhedor que eu guardei no coração. Foi pelo prazer de ver que havia alguém menor do que ela no mundo. A Stela era uma aluna excepcional, fazia as lições todas, tinha um estojo arrumado com lápis apontados e trazia lanches de pão de forma sem casca recheados de presunto e queijo ou salaminho com manteiga e cortados na diagonal como os das festas. Eu tinha inveja do caprichado da vida dela. Mãe que não trabalhava fora e uma disciplina doméstica que me acalmava. A minha casa era alegre e barulhenta, mais irmãos e menos mãe, uma bagunça, cachorros que fugiam, gatos que atacavam passarinhos, até macaco teve. A gente vivia numa correria louca para dar conta das atividades, natação, inglês, brincar com os vizinhos na rua. Tinha que caber tudo até escurecer. A aflição nunca passou e, mesmo sem sair do lugar, sigo correndo até hoje. As professoras gostavam de mim porque eu era apaixonada por elas. Não era mentira, mas eu tinha consciência do poder da sedução e caprichava nesse aprendizado. Tirava nota baixa, zero às vezes, e minha mãe ouvia desconfiada elogios sobre a minha inteligência não refletida nas provas. Uma professora, a tia Inês, a quem eu amei profundamente e sofri com a separação, sempre me punha no colo na hora da roda de leitura. Ela usava peruca, descobri pela nuca, esmalte cor de vinho e um perfume que devia ser dulcíssimo porque eu adorava. No final daquele ano, a tia Inês me convidou para ser dama de honra no seu casamento. Fiquei dias sem dormir imaginando a entrada triunfal na igreja, a atenção, o vestido, a tiara, a cestinha com as alianças, ela me explicou a importância da minha tarefa. Cresci uns centímetros na auto-imagem. Minha mãe conversou com ela, agradeceu e disse que eu estaria no meio das férias em Guaxupé e não me traria. Fiquei angustiada, queria fazer parte da história dela, tinha medo de que ela me esquecesse. Eu nem chorei porque naquele tempo tinha medo de expressar tristeza e nunca mais ser feliz de novo, mas reclamei com minha mãe mais tarde. Ela nem ligou. Aí, eu não liguei também.

Pé de guerra

Posted on 30 setembro, 2020

Do quarto, com a porta entreaberta para o livre trânsito dos gatos, ouço os ganidos do aspirador lutando com todas as forças nas mãos da senhora que faz a limpeza. Agora, vencidas pela necessidade, ela de sair de casa e eu de contar com seus valorosos serviços, temos esse encontro uma vez por semana. Vem de máscara no Uber de um rapaz onde ela faz limpeza também e ficamos nos comunicando de longe, aos berros, as duas insatisfeitas com a situação.
Tenho pena dele, do aspirador. É novo, daquelas compras de impulso no início da pandemia quando procurávamos prazer nas coisas mais idiotas. Tão bonito e elegante, custou caro, com garantia de pura satisfação. Mas ela não gosta, implica, diz que não tem potência, que não dá conta do recado. Por último, veio me perguntar se por engano não joguei fora uma pecinha, parte do filtro, que ela tinha lavado e deixado para secar no tanque. Sem a peça, ele não vale de nada mesmo, só tem belezura. Não joguei. Talvez um dos gatos tenha escondido de propósito. Eles têm horror ao barulho. Pois eu vou atrás que essa guerra não perco. É um aspirador bom e tem belezura, sim, mas não acho que isso tire o seu valor. Talvez seja mal compreendido. Nunca lemos o manual, deve ter qualidades não exploradas, segredos mágicos, delicadezas como uma ponta especial que chupa o pó dos fios das luminárias ou um pincel que limpa o fundo das tomadas. Olha quanto encaixe que a gente não usa! Ela não quer saber. Não tem tempo a perder com falsas expectativas. Aumenta o volume da música e canta pedindo forças ao Senhor. Volto para o quarto, respiro fundo e anuncio aos gritos que vou recuperar o antigo que passei para a minha filha e que nunca ouviu malcriação. Sem desligar o aspirador nem abaixar o volume do rádio, ela concorda. Da próxima vez que der vontade de gastar dinheiro, a senhora me avisa.

O que pensam de mim

Posted on 5 setembro, 2020

“Sasha nega boato de que nasceu sem c* e fala países que quer visitar.” A chamada da matéria surge no meu celular sem pedir licença, já achando que está falando com o interlocutor certo. Gostaria muito de saber como os algoritmos concluíram que eu teria interesse nos detalhes físicos do bebê Sasha ou nas próximas viagens que a filha da Xuxa fará. Não me ofendo com propaganda de aumentador de pênis ou de um abridor de ostras, coisas que dificilmente vou consumir, mas que de alguma forma fazem parte do meu imaginário. Fico pensando que a sagrada leitura do nosso inconsciente, expressa a muito custo através de manifestações artísticas, por exemplo, em algum momento vai ser auto censurada. Se atentos a ela, vai nos inibir. O que a internet pensa de mim?
Há muitos anos, um bonitão de esquerda afim de se exibir, abriu a camisa e mostrou a enorme cicatriz no ombro descrevendo o acidente de moto sofrido numa viagem pelo Peru, a trilha de Che. Numa coincidência infeliz, para uma amiga comum, ele ostentou a cicatriz como marca das sessões de tortura que sofreu nos porões da ditadura. Fiquei ofendida. Então ela parecia mais madura e radical do que eu? Que parte minha o bonitão viu e entendeu que faria mais sucesso sendo romântico e cinematográfico? Bem, ele entendeu certo, gostei mais da imagem que ele me vendeu do que a dela. A minha prometia futuro, a dela era só passado.
Para além da espionagem da internet, somos uma coleção de sinais e reações e expressões, somos o que manifestamos mesmo em silencio. Mas é melhor não estar alerta para isso o tempo todo. A consciência muitas vezes é vaidosa e controladora, quer a fotografia perfeita. O espontâneo é tão mais raro e prazeroso! O que a internet terá coletado de dados sobre mim já não importa. Quero emprestada a ingenuidade dos artistas verdadeiros. E pensando bem, escrevendo sobre o c* da Sasha, acabei de dar motivos para receber outras tantas publicações sobre assuntos escatológicos correlatos.

 

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Milagre

Posted on 3 setembro, 2020

O amigo conta que estava na feirinha e por milagre encontrou um livro que queria. Aquela pequena grande alegria, alçada à condição de milagre, me encheu de esperança. Como se o fato dele ficar feliz naquele momento, e depois de novo quando me contava, possibilitasse a qualquer um que o encantamento momentâneo com quase nada se transformasse em algo extraordinário. O menino e a formiga carregando a folha. A tia e o ponto do tricô que deu certo. Meu pai e o peixe na vara. É estender o momento gratificante. Segurar o achado no ar. Veja que a coisa mais besta quando observada pelo poeta é poema. E para nós outros, às vezes, é milagre.

Recomeçar

Posted on 30 agosto, 2020

Tive uma amiga árabe, fomos companheiras durante um período em Nova York quando nossos filhos estudavam numa escola distante e tomavam o Yellow Bus juntos. Assim as crianças o chamavam. Ônibus Amarelo é a perua escolar, a tradicional americana, que já passou por vários modelos ao longo dos anos, mas segue amarela. A cor foi escolhida porque chama mais atenção do que qualquer outra e é sobre ela que as letras pretas do School Bus são visualizadas com mais facilidade, especialmente nas primeiras horas do dia. Uma conferencia organizada em 1939 por Dr. Frank Cyr, um professor da Universidade de Columbia, reuniu durante uma semana especialistas em transporte público, fabricação e pintura de ônibus escolares dos 44 estados americanos. Ali, ficaram definidas as medidas seguras e a cor oficial do transporte de alunos no país. Pelo seu esforço, o Dr. Cyr foi agraciado com o título de Pai do Ônibus Escolar Amarelo.
Mas voltando à minha amiga árabe, a gente embarcava as crianças e seguíamos para uma caminhada atlética de cerca de uma hora à margem do rio Hudson. Ela queria perder peso e precisava. Caminhava maquiada, de saia, camisa e sapatinho de salto. Com muito esforço consegui convencê-la a deixar a bolsa, que ela levava no braço, em casa. Ia manquitolando, suando e gemendo e contando historias bonitas do Líbano que não combinavam em nada com a expressão de sofrimento que carregava durante o percurso. Os piqueniques familiares, as brincadeiras ingênuas com as amigas na praia. Nunca perdia a formalidade. Contou que durante os bombardeios que enfrentou quando morava lá, mantinha um procedimento padrão que os filhos conheciam e acompanhavam. Ao contrário da maior parte das pessoas que corriam às ruas à procura de abrigo como estivessem, pijama, roupão, embrulhados em toalhas, ela vestia-se, colocava os sapatos, sentava-se no sofá da sala e esperava que o barulho terminasse e o prédio parasse de tremer. Por sorte, não sofreu nenhum acidente maior. O apartamento chacoalhava, quebraram-se vasos, quadros, mas não foi destruído. Tinha sempre uma resposta pronta para qualquer situação desconfortável que eu estivesse vivendo. Uma delas era: Volte para casa, tome um banho, mude de roupa, recomece o dia. Esse vai ser melhor. Lembrei disso hoje quando, por distração, li as noticias no jornal e me deu vontade de sumir. Fui tomar banho de novo. É preciso ter fé.
Matthew Shirts, Roberto Gervitz e outras 85 pessoas
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