O Bruno

Posted on 8 fevereiro, 2021

Ontem, morreu o Bruno e eu fiquei como a viúva da novela, a que foi sem nunca ter sido.
Eu era uma menina tonta. Ele, um homem maduro e, aos meus olhos, poderoso. Me deu seu numero e eu liguei para falar de trabalho. Uma mulher atendeu e perguntou se eu queria falar com o Bruno pai ou o filho. Dada a nossa diferença de idade, assumi que ele era o pai, mas quem veio ao telefone foi um senhor de mais de setenta anos, o verdadeiro Bruno pai, com quem ele vivia.
Bruno Pardini Junior era solteiro, bem sucedido no mercado publicitário, tinha um carro conversível e um cachorro lindo. Era extremamente engraçado e inteligente. Punha os melhores apelidos nas pessoas, desses que a gente acha que é elogio até perceber que é gozação. Não me arrumou um emprego, fiz isso sozinha, mas se encantou por mim e me supervisionava de longe. Todo mundo sabia desse amor, ele não escondia. Eu tinha um misto de vaidade com vergonha. E era encantada com ele também, um homem charmoso e culto, que sabia um pouco de tudo e muito de algumas coisas. Eu lia, assistia, experimentava tudo que ele recomendava. E conversávamos horas sobre os temas que nos interessavam, sobretudo cinema e literatura. Uma vez, papeando no parque, ele pediu para o vendedor de sorvete estacionar o carrinho ao lado e tomamos um número absurdo de picolés, um atrás do outro. Enquanto teve assunto, teve sorvete.
Me cortejava com gestos exagerados como deixar de presente um Jeep cheio de flores na porta da minha casa. Mande esse senhor levar isso embora, disse meu pai. Numa Páscoa, veio com um ovo tão grande e pesado que precisávamos de uma marretinha para quebrar os pedaços na hora de comer. E me deu um cocker spaniel preto e branco, alegre e querido, que batizamos de Bruno. Italianíssimo, gostava de ópera e de chorar na ópera. De vinho e de pasta. Tinha uma mania que eu odiava que era a de juntar as mesas no restaurante toda vez que encontrava um dos seus inúmeros amigos.
Foram anos de amizade, carinho e cumplicidade. Amadurecemos os dois naquela travessia misteriosa. Ele acompanhou meus namoros, tinha ciúme, sofria, mas sabia que a nossa era uma paixão impossível. Acho até que inventada, apesar de real.
Quando me casei, ele mandou uma coroa de flores com uma mensagem de pêsames. Mas era só para marcar presença, um ato de encerramento do drama porque, na verdade, estava muito bem sozinho. Me confessou uma vez que eu era a sua desculpa para ficar solteiro.
Gisela Heizenreder Cury, Laura Vargas e outras 283 pessoas
102 comentários
3 compartilhamentos
Curtir

 

Comentar
Compartilhar

A casa e a rua

Posted on 3 fevereiro, 2021

Sentado na esquina, o jovem morador de rua, barbudo e descabelado, dispara impropérios desconexos e raivosos para o alto. Outro, mais velho, inchado de bebida, vem pela rua carregando um saco de lixo preto no ombro, fumando. Aproxima-se do cabeludo e oferece a minúscula bituca do cigarro. Com a mão imunda, o outro aceita e mete o quase nada na boca. Solta fumaça. O mais velho diz que tem um presente para ele. Diz isso e repete mais de uma vez enquanto mexe no bolso e dali tira o que parece ser um chaveiro já com chaves penduradas. O mais novo examina o objeto inútil como um índio diante de um relógio, com curiosidade e ceticismo. Estende a mão devolvendo a bituca. O mais velho faz um carinho distraído na cabeça dele, o olhar perdido. O sinal verde arrasta o táxi e os mendigos até aqui, mas eu já não volto para casa. Abro a porta e entro no mundo. Sem a proteção do isolamento, sem protocolo, sem máscara, sem paredes. Estou inteira com eles, passando o cigarro, fazendo cafuné, trocando presente achado por aí. Estou suja, descabelada, gritando xingamentos de raiva. Enlouquecendo. Salvando-me com gestos de afeto, de cumplicidade, de acolhimento. Estou desprotegida e desalmada. Eu sou o tempo que passa e distancia a casa da rua. Sou o táxi que segue quando o sinal autoriza. E o homem sujo que fica ali até acabar.

Monologando

Posted on 22 janeiro, 2021

Cutucando as plantas e falando sozinha. Comemorando um broto surgindo, sacando fora as folhas secas, avaliando a muda que veio da fazenda, com pena de tê-la tirado da terra boa e larga. Uma conversa comigo mesma de carinho e reclamação, organizando a tarefa em voz alta, sabendo-me acompanhada. Pensei no Geraldo Vandré, que encontrei há muitos anos quando fui ao Campo de Marte fazer uma matéria sobre a escola de pilotagem. Alguém me apontou o Vandré lá no fundo, cabeça branca, macacão de mecânico, metade do corpo enterrado num avião pequeno, cutucando o motor. “Ele vive aqui, fica mexendo em motores velhos e falando sozinho. A gente deixa porque tem respeito pela história dele.” Cheguei perto, mas não tive coragem de me apresentar. Para não dizer que não falei das flores era o chavão que ele não precisava ouvir e do qual talvez até fugisse. Nem que quisesse poderia afastá-lo daquele mundo onde me pareceu absolutamente à vontade. Conversando com os motores como eu com as plantas. Deixa quieto.

Pedaços da gente

Posted on 11 janeiro, 2021

Esparramadas sobre a colcha de retalhos, irmãs e primas, competíamos para ver quem se lembrava de onde vinha cada tecido. Recontávamos a nossa história ali entre o algodão dos shorts e blusinhas, o crepe dos vestidos longos, a flanela dos pijamas, de vez em quando, um quadrado de lã de algum casaco. Ríamos pensando nos modelos, estampas e cores de um mundo em que quase todas as roupas eram escolhidas nas revistas e reproduzidas por costureiras. Tinha a Dita Verde, que pegava ou não costura dependendo do seu estado mental naquele momento. Minha mãe parava o fusca com o motor ligado e mandava uma de nós tocar a campainha. Se ela nos recebesse bem, descíamos com os tecidos. Se xingasse, era correr de volta para o carro e partir. Uma outra, a que tinha tantos gatos que não podíamos contá-los, fez o diagnóstico definitivo, éramos meninas pequenas e ainda hoje as suas palavras ecoam entre nós: Uma é magra demais, a outra gordinha, essa aqui até que tem o corpo bom. Nossos vestidos, blusas e mesmo calças compridas saíam daquelas saletas amontoadas de panos, pelos, pó, um espelho ruim, e, claro, a máquina de costura, onde elas montavam a cada decisão tomada e pedalavam com convicção. Depois o que foi roupa terminou recortado em colcha. As saias e camisas da minha mãe, das tias, da avó. A excitação de reconhecer um retalho da saia da tia que nos levava para nadar no antigo tanque de lavar café na fazenda. Os joelhos arranhados pelo cimento grosso do tanque. E a água roxa do banho com violeta genciana na volta. O pedacinho da camisa que ela usava por baixo do casaco de tricô combinando. Nós pendurados na mangueira, ela embaixo apontando as frutas maduras e esperando com a cesta. Com o caroço bem chupado e seco, fazíamos bonequinhos loiros. As flores da bermuda da prima solteira que lia a sorte nas linhas da mão. O nosso destino inventado. Os cheiros, as vozes e risadas de então misturados nos daquele momento no quarto, as lembranças vindo na roupa inteira dela. O quadradinho da seda da camisa preta de bolinhas brancas que a avó usava com um colar de pérolas em ocasiões especiais e que ficava tão elegante e comprometida naquela atitude de respeito com a ocasião! Ainda não tínhamos saudade dela. O pedaço de crepe do vestido que uma de nós usou no baile em que ficou sentada a noite inteira porque nenhum menino a tirou para dançar. Nunca tomei toco, disse minha irmã. A graça amarga. Retalhos de vestidos das mais velhas herdados pelas menores. Mãe, esse vestido nasceu meu ou ficou para mim? Retalhos de estampas iguais em tons diferentes de vestidos iguais em tamanhos diferentes distribuídos entre nós. Sobras de toalhas de mesa de renda em que tantas vezes comemos bolo e cantamos parabéns. A xadrez em que tomamos canja divididos em grupos dos que comiam pescoço e pés da galinha e dos que não podiam com isso, eu incluída. Deitadas na cama, caçando memórias, emendando experiências, éramos, como os retalhos da colcha, costuradas umas nas outras, tão diferentes, tão iguais, tão necessárias cada uma no todo do afeto compartilhado.

O que se ouve

Posted on 8 janeiro, 2021

O som macio dos pneus contra os pedregulhos veio crescendo. Mantive a pisada, não desacelerei nem apertei o passo, entretida com o meu próprio barulho na estradinha de terra. Pipocas estourando debaixo dos pés. O motor era silencioso apesar da idade da caminhonete. Os velhos fazem barulhos, pensei. É preciso estar atento para não gemer a cada gesto puxado, por exemplo. A música do radio chegou logo em seguida tocando baixinho, sem pressa, no ritmo do movimento do carro. Quando me alcançou, aí, sim, quase parando, o motorista cumprimentou pela janela aberta, boa tarde, virando a cabeça no momento exato em que o cachorro ao seu lado também o fez. Respondi, a voz saiu fininha, estridente, talvez porque guardada muito tempo, quebrando a afinação do momento. Ele mudou a marcha e seguiu levantando poeira e deslizando pelas pedrinhas até sumir na curva. Passarinho piou e foi só.

Questão de gênero

Posted on 19 dezembro, 2020

O amigo liga aflito. Preciso da sua experiência: gravidez emburrece? Acho que é brincadeira e entro. Claro! Ainda há pouco, dei com uma mulher em adiantado estado de burrice no supermercado. Uns sete ou oito meses. Queria que o funcionário explicasse por que banana nanica é a grande. Não riu. Meu casamento acabou, disse, não reconheço minha mulher. Transformou-se numa criatura primitiva, não raciocina como a pessoa evoluída que foi, não alcança nada além do que é instintivo. Sabe como é? Não sei. Tudo agora é preto ou branco, não tem meio tom. Quando tento elaborar, ela lança um olhar vazio de quem já não está mais ali. Ouço. Falta-me energia para iluminar a incompreensão masculina. Dizer que somos animais durante a gravidez é reduzir o processo mais humano que uma mulher experimenta na vida. Assistir o corpo transformando-se irreversivelmente, esticando, pesando, arredondando para abrigar outra pessoa é perturbador. Carregar o barrigão sabendo que ali dentro se desenvolve uma criatura que amanhã estará vestida, comprando pão, clareando os dentes, lendo um livro, é muito estranho. A consciência impartilhável da gestação com tudo o que ela significa pode ser enlouquecedora. Ser livre nesse momento é estar só. Tento mostrar naturalidade. Nós todas vamos para um lugar onde não cabe mais ninguém e voltamos depois acompanhadas. Não se preocupe. Ela já está comendo terra?

Corrigindo

Posted on 14 dezembro, 2020

E os amores??
Auditados??
Aquietados?? Odeio essa merda de corretor!
Achei injusto o amigo xingar o corretor nesta mensagem que mandou para mim. Faz todo sentido numa certa altura da vida perguntar se os amores estão auditados. Eu responderia, sim, meus amores foram analisados, revistos, discutidos. Não só pelo filtro freudiano, jungiano em incontáveis sessões de terapia ao longo dos anos, como pela escrita, onde confessei meus pecados e fiz deles minha literatura. Sobretudo, auditei com Deus, mortificada pela culpa dos tantos prazeres que esses amores me deram. Então, meu amigo perguntaria se estão aquietados. E eu diria que aquietar os amores significa acalmá-los, aqui o corretor concordaria, e isso eu não tenho intenção de fazer nem agora nem nunca. Ao contrário, chego pertinho, cutuco, rego com água fresca, dou uma chacoalhada e se cair alguma coisa, folha ou fruta, sinal de que está vivo em algum lugar da memória, deixo que me atormente um pouco que é para ter certeza de que estou viva também.

Tempo

Posted on 11 dezembro, 2020

Ajeitou o pano de prato no puxador do fogão de forma que a vira do bordado ficasse para fora com as pontas dobradas do mesmo tamanho. Nesse gesto, repetido ao longo do dia, a vida inteira, ninguém tinha reparado. Era um capricho com ela mesma, o de manter o pano alinhado como quem checa de vez em quando o cabelo ou o brinco na orelha, ou ainda, uma mania curta, um jeito de pontuar as suas atividades na cozinha, devolvendo involuntariamente o pano estendido a cada uso até o próximo movimento. Foi só muitos anos depois, quando a criança veio com a mãozinha esticar o pano, que a tia se deu conta, riu e falou alto, gente, ela faz igualzinho à mamãe! O que a menina buscava era ver o desenho todo pintado no tecido, a cena da fazenda com a vaca e o bezerrinho, o homem de chapéu no cavalo e o cachorro sorrindo. Não havia nenhuma intenção vaidosa, nenhum traço de cuidado na cozinha, ao contrário, era a história longe dali que ela queria e ninguém entendeu. Fez que achou graça também e voltou o pensamento para a bisavó, de quem ouvia falar ou se dava conta da existência pela primeira vez. Quem seria a mãe da tia? De excitação, chacoalhou o corpo. Que maravilha! Quantas incontáveis histórias em quantos panos ela teria conhecido! Eu e a mãe da tia, nós duas, o nosso segredo escondido, decifrado, bordado nas figuras dos panos de prato! Voou para a gaveta.
Naquele dia, lá atrás, era um peixe que a bisavó preparava. Foi pescado no açude e, apesar da água escurecida pelo barro que veio com a chuva, tinha a pele clara e a carne cor de rosa. Cheirou. Não era por ser peixe. Cheirava o que lhe caía às mãos, o opaco, um livro, uma tesoura, uma caixa de papelão. Só para provocar a memória. Abriu, limpou, acomodou o almoço de olho arregalado na travessa. O olho imóvel do bicho parou os olhos dela também. Entre dormindo e acordados, fixos no nada. Lembrou-se de quando era pequena e viu um peixe boiando no rio, a barriga inchada. Mostrou para o pai. Está morto, respondeu. Morto de quê, se não o pescaram? De velho, uai. E existe peixe velho? Pensou, mas não ousou retrucar. Foram muitos dias e noites povoadas de peixes velhos, arqueados, com barbatanas brancas e olhar cansado de peixe quase morto. Chacoalhou o corpo. Lavou as mãos, cheirou, ajeitou o cabelo e o pano de prato na porta do fogão.

O tombo do gato

Posted on 5 dezembro, 2020

O tombo do gato que lhe fraturou a perna, fosse noutro momento, não teria o mesmo impacto. Foi o tombo dele e a infecção pulmonar da diarista e a possível Covid dos amigos, de familiares e da terapeuta. O pé de hortelã que secou. O câncer da amiga que reapareceu. As tantas pessoas ficando pelo caminho. O acidente do gato nos pegou num momento de fragilidade e medo. Estávamos nos equilibrando, como ele, num beiral estreito, qualquer vento nos ameaçando tirar o chão. Estávamos todos os dias recontando os dias, comemorando um quase nada, o fato de estarmos vivas e saudáveis até aquele dia. Um calendário registrando o que não merecia registro. O susto com o gato acelerou o susto esperado a qualquer momento, a adrenalina dos sintomas identificados, o resultado do teste, a notícia de mais alguém doente. A falta de notícia é uma boa notícia, diz o ditado americano, agora mais verdadeiro do que nunca. Torcida e reza e esforço para que tudo siga exatamente igual, dia após dia. Para que nada saia do lugar. O gato caiu e se machucou e sofreu e sentimos culpa pelo que não cuidamos o suficiente, nós que só fazemos cuidar. Como se cuidar do que é vivo fosse a única tarefa de cada hora, cada dia, cada mês. O acidente do gato nos desestabilizou, chacoalhou o chão feito terremoto, tirou as coisas do lugar, deixou rastro de pó pela casa que vínhamos limpando obsessivamente para enganar a sujeira interna do momento. O tombo do gato, ele que salta, rola, se estica, sobe, voa, aterrisa, nos tirou a firmeza sobre as patas, a garantia de que a nossa natureza inteligente nos protegeria. Provocou desarmonia em cadeia. Já não estávamos seguras de nada, da receita da comida, da posição na yoga, da qualidade do sono, dos planos para depois de amanhã. Desaprendemos a nos manter de pé, a caminhar com leveza, a nos distrair com pensamentos e emoções longe daqui. Nos demos as mãos para não cair também.

 

Comentar
Compartilhar

Tudo já foi escrito

Posted on 3 dezembro, 2020

Tudo já foi escrito, de todas as formas, usaram-se todas as palavras, deram ordens parecidas a elas, ou as desordenaram, montaram-se frases invertidas, conjugaram-se os verbos nos seus tempos possíveis, pontuaram tudo igual. Todas as histórias foram contadas, todos os efeitos literários, os truques esgotados, a verdade esgotada, a mentira esgotada, nenhum novo personagem, nenhuma biografia original. Tudo já foi descrito, as sensações, as lembranças, as infâncias, as adolescências, as velhices, as mortes, todos os romances foram inventados, rememorados, os sinônimos, o contrário deles, usados, gastos, os prazeres necessários repetidos, os reais, os imaginários, fantasias, as mesmas, paixões rimadas em verso, estendidas em prosa, todo o abecedário, em todas as línguas, os crimes em versões diferentes, o riso dramático desde Dostoiévski, desde Shakespeare, as tragédias, as grandes e as pequenas, no momento, em suas consequências, relatadas e sofridas ou nada. Fim.