Culpa da NET

Posted on 14 abril, 2019

Por engano, a NET cortou o fornecimento de casa. Explicaram assim, nem pediram desculpas nem nada e pronto. Queixo-me para o bispo e ele manda que eu reze muito, essas coisas de outro mundo acontecem a quem vive em merecida culpa. Sou eu. Fiquei tão nervosa quando percebi que não tínhamos acesso à internet que paguei duas vezes, uma no debito automático, eu sempre devedora de mim, e outra na aflição do momento. Pagaria outras tantas se não fosse minha filha interferir e jurar que a culpa não era minha. Coisa de Minas. A tia e minha avó, já na faixa dos noventa, foram atropeladas por um parente distante que manobrava o carro distraído. Um tranquinho de nada, mas suficiente para derrubar as duas, braços dados, sacos de pão e broas e biscoito de polvilho esparramados pelos paralelepípedos. Assim que liberadas pela Santa Casa, a tia despencou à pé, subindo e descendo ladeiras, até a casa do parente para se desculpar pelo transtorno todo, o susto, um rapaz tão bom, tão educado.
Sem internet, sobretudo sem Netflix, estávamos aquela noite como duas drogadas em tratamento, batendo cabeça pela casa, quando ela teve a idéia de irmos até algum restaurante para um combo, comermos e baixarmos um filme no Ipad. Achei sofisticadíssimo o programa e topei. Não sem antes ligar para o lugar e checar se tinham internet. Ela riu muito. Podia não ter, uai. Pedi uma porção de bolinhos de arroz e cerveja para garantir a extensão do jantar. Ficamos meia hora olhando o cardápio que já conhecíamos e, então comemos lentamente, coordenadas com o tempo do filme. Perguntei varias vezes se estava rolando e me comportei como se ela escondesse uma bomba na mochila. Pisquei para o garçom. Elogiei exageradamente a comida. Ainda pedimos sobremesa para descarregar dois episódios da série que seguimos, caso o filme não fosse bom. Cheguei em casa suada de tensão o que, somado à cerveja, me derrubou nos primeiros minutos do filme. A NET jurou que voltaria no dia seguinte, mas claro que era mentira. Incrível como esse povo não fica com a consciência pesada.

O papagaio

Posted on 9 abril, 2019

De repente, o silencio reflexivo do terapeuta foi atravessado por um cacarejo de galinha solta no pátio. Estico o olho para fora querendo ouvir novamente para me certificar. Imagino a galinha ciscando de um lado para o outro na sala de espera, rio sozinha e me ajeito pela primeira vez naquela poltrona. A casa que abriga a clínica tem uma frente pequena, mas o terreno inclinado corre longo para os fundos e termina pendurado com metade do corpo para fora. As salas de atendimento estão distribuídas por três andares, algumas com terraço e portas duplas de madeira de onde se veem outras casas esparramadas lá embaixo com quintais grandes e mal cuidados. Em pouco, outro longo cacarejo melancólico. O terapeuta segue como se nada, sem perder o fio da meada. Cismo. Serão as galinhas da fazenda em Guaxupé resgatadas pela memória afetiva na sessão? Discutimos os casamentos atuais com filhos de pais e mães diferentes vivendo juntos e emoldurados numa fotografia clássica de família. Lembro a historia de amigos em segundo casamento que contrataram uma babá para cuidar que seus filhos adolescentes, meninos e meninas de idade aproximada, não se envolvessem de forma não fraternal entre eles. O final da frase foi encoberto por latidos agudos de um cachorro. Olho rápido para o terapeuta checando a situação. Sem se alterar, pergunta sobre os pais das minhas filhas. Volto. Seguro as palavras com cuidado tentando ser objetiva para garantir a veracidade dos fatos já sabendo que, no meu caso, a mentira vem dessa forma também. Os ganidos recomeçam com força e dor. Ou o cachorro foi atropelado ou um leão lhe arrancou a perna. Ninguém vai fazer nada, meu Deus? Viro a cabeça inteira e dou com um céu azul impassível, na volta, os olhos dele, azuis também, encontram os meus e me cobram. O que se passa lá fora deve ficar lá fora. Tento me manter inteira na sala e continuar o raciocínio sobre as meninas, com mais avós do que uma arvore genealógica pode carregar e a quantidade de compromissos que uma família multiplicada por três casamentos acarreta. Ele faz que vai comentar, mas com o dedo nos lábios, pede silencio e anuncia: daqui a pouco, a criança vai chorar. E então, o choro mole de um bebê se instala. Daqueles que a gente não sabe se sente pena ou quer matar. Ficamos ouvindo por alguns minutos o som repetitivo, com engasgos para tomar ar e tudo. Ele com a cabeça baixa, como se concentrado, eu disfarçando o pânico. Preciso reagir da melhor forma possível, penso, deve ser um teste e eu tenho que passar senão nunca mais saio daqui. Quando o bebê dá uma trégua e o analista ensaia retomar a conversa, arrumo coragem e pergunto o que é tudo aquilo, a galinha, o cachorro, agora o bebê, que ele já sabia que vinha. Conta que é o papagaio de um vizinho. Tem outras personas também, faz a gargalhada de um Exu, a mulher chamando para o almoço, os lixeiros gritando. Não podemos controlar tudo, sorri.
Penso, otimista, que a síndrome de papagaio, que até agora chamei de complexo de Zelig, é uma definição mais simples e natural para a minha necessidade de entender profundamente o outro, tornando-me o outro. Acho que não vou tratar.

Bidu

Posted on 9 abril, 2019

Vinham em silencio no carro, pai, mãe e filho, e foi quando de um tranco surgiu o cachorro. Não deu tempo de nada. O bicho atravessou a rua em disparada como se fugindo ou perseguindo, sem atenção ou interesse noutra coisa que não alcançar o que procurava. Não gritou. Ficou imóvel sangrando. Desceram do carro assustados, tocaram de leve o corpo e correram a pedir ajuda para o cachorro de pelo curto, branco e cinza, de uma raça que até hoje, pelo peso da culpa, tratam de não conhecer. Desorientados, foram a uma oficina mecânica, a uma padaria, à casa lotérica, não conseguiram socorro a tempo. O animal foi a óbito ali mesmo junto do pneu ainda quente. Recolheram-no e seguiram sem dizer nada, o bicho estendido ao lado do filho no banco de trás. O canavial da pequena cidade acompanhando o trajeto tinha um apelo aberto e escondido. Abriram uma cova, cobriram-na e partiram com o peito apertado, mas já concluindo que atropelar um cachorro era melhor do que atropelar uma pessoa, que o cachorro tinha se suicidado ele mesmo, que Deus é que escolhe hora e lugar para chamar companhia. Na manhã seguinte, a mãe no supermercado comprando Qboa e um cartaz em papel sulfite pregado na entrada com a foto do cachorro e o nome que lhe pareceu acertado: BIDU. Chegou perto, anunciavam o sumiço e ofereciam recompensa para quem soubesse do paradeiro daquele que era “como um filho para a viúva solitária”. Voltou para casa apressada sem a Qboa para dividir a notícia com a família. Não fariam nada até segunda ordem. Um grupo de quase 30 pessoas já tinha se organizado na internet e trocava informações contraditórias sobre o sumiço do cachorro. Um jurava tê-lo visto na cidade ao lado, o outro suspeitava de um vizinho com cachorro novo nas cores do Bidu, um terceiro lembrou que a carrocinha circulava incógnita na periferia a recolher cachorro para fazer sabão. Os possíveis culpados amaldiçoados em comentários raivosos. Solidária, a radio repetia o pedido da viúva de ter seu companheiro de volta “a qualquer preço, dentro das suas possibilidades.“ Alguém anunciou que o Bidu teria aparecido em Goiânia. Boato falso. A família recolhida dentro de casa pressentia uma invasão de cidadãos enfurecidos. Sonhavam com o cachorro morto, com a viúva doente, com urubus sobrevoando a casa a entregar os criminosos. Cartazes se multiplicando em postes e muros da cidade. Já não tinha volta. Já não podiam ser os inocentes atropeladores de um mártir. Não comentaram o assunto no almoço, no jantar, no café da manhã. Bidu nunca mais.

O tempo

Posted on 15 janeiro, 2019

O tempo. Minha casa se foi. Minha mãe se foi. Minha filha se foi. A casa é transitória. A mãe é irreversível. A filha é previsível. No quarto emprestado, me escondo das perdas debaixo do cobertor cheirando a mofo. O tempo. Estou sozinha sufocada pelo peso dos fatos. Não sonho nem desejo. Não duvido. Esse estado das coisas é real e a dor me garante que estou vivendo. A dor é viva, sou grata por isso. O tempo. Olho para a frente e me deixo registrar o momento sólido, suspenso, sem futuro. Como uma fotografia.

O mar

Posted on 7 janeiro, 2019

A onda chegou antes e maior do que eu calculava. Talvez tenha sido minha porção mineira, acostumada às montanhas sólidas e imutáveis, que impediu uma reação adequada. Quando me dei conta, já não havia tempo para mergulhar nem fugir e para falar a verdade, não sei o que fiz, se fiz. Num movimento rápido, a água puxou o tapete sob os meus pés e me jogou para trás com violência. O primeiro soco no rosto. Engoli a água salgada, o mar inteiro desceu pela minha garganta e entrou também, no sentido contrario, pelo nariz. O ouvido zumbia como efeito de lança perfume. As imagens rodavam em camera lenta. O segundo soco nas costas. Soltei o corpo sem resistir, ao contrário, me entregando à imensidão do mar. Não teria sido uma morte ruim de forma alguma. Mais do que medo ou sofrimento, senti a verdade da natureza, o meu tamanho e o tamanho da onda. Há algum prazer em aceitar a derrota. Um descanso. Entrei num redemoinho iluminado pelo sol, vi a areia circulando, o fundo do mar subindo, meu corpo girando solto feito roupa na maquina de lavar. E então, fui rolando até o raso em cambalhotas impulsionadas pelas lambadas da água. Um chute no bumbum. Outro nos joelhos. Outro na cabeça. E quando achei que nunca mais me levantaria, operou-se o milagre. Veio a onda num volume perfeito e um salto de ginasta devolveu-me de pé ao chão. Inacreditável, pensei! Não fui a nocaute! Saí devagar num andar trôpego de bêbado infeliz. O ouvido doía muito e brotava água dali e do nariz. O cabelo duro de areia e desgrenhado de quem apanhou. Mas o biquini firme no lugar, mesmo a parte de cima, uma pequena vitória devolvendo dignidade à alma machucada.

Casando-me

Posted on 3 setembro, 2018

Quando me casei pela primeira vez, eu tinha 14 anos e sabia exatamente o que estava fazendo. Posicionei o menino no altar, caminhei de volta até a porta da Catedral de Guaxupé e, com um buquê de flores colhidas na praça, fiz a entrada triunfal, passo a passo com paradinha e tudo, até encontrá-lo novamente no alto com a expressão quase tão sofrida quanto a do enorme Cristo crucificado atrás. A ordem era para que ele não se movesse até a chegada da noiva e então, que me desse o braço e me acompanhasse até a saída, com seriedade, como se os convidados, distribuídos pelos bancos da nave, estivessem nos observando. Apesar de um ano mais velho e pelo menos 30 centímetros maior do que eu, ele obedeceu sem negociar. Sabia que era assunto serio e que se seguisse à risca, talvez eu topasse brincar de briga de galo, montada nos seus ombros para derrubar um casal de primos na piscina do clube mais tarde.
Muitos anos e alguns casamentos depois, ele não achou estranho me encontrar com três filhas numa livraria em São Paulo. Disse, dando risada, que sempre desconfiou que esse era o meu plano. E que só encarou porque eu era excelente parceira na briga de galo.

O fusca

Posted on 26 agosto, 2018

Papai intermediou a negociação do fusca entre o tio Marcos e o primo Marcelo. Um modelo 79, branco, único dono, quase todo original e em excelentes condições. Chapa de Guaxupé. Foram os entusiásticos elogios numa festa da família em São Paulo que despertaram o interesse do primo, cujo primeiro carro foi justamente um fusquinha, só que azul claro, herdado do avô. Quase todo mundo que teve um fusca um dia diz sentir saudade. Não no sentido de querer tê-lo novamente ou até, mas sobretudo uma melancolia, a constatação de que o carrinho, chamado assim para quem olha para trás, foi cúmplice e parceiro daquele trecho da vida. Dizem que o fusca nunca deixou ninguém na mão, acho que é também dessa lealdade que falam. Movido por todos esses sentimentos e alguma vaidade, já que dirigir um fusca conservadíssimo hoje em dia é atenção certa, o primo tomou um ônibus e mandou-se para Guaxupé, onde encontrou o carro encerado, reluzente, um agrado que meu pai fazia a ambas as partes. O orgulho de ter apresentado quem não queria vender a quem nunca tinha pensado em comprar e realizado o negócio com sucesso. É que o tio tinha uma dificuldade enorme de passar o carro para a frente, nem usava, nem vendia, gostava de saber que ele estava lá, há 39 anos devidamente coberto por uma capa de lona na garagem da fazenda. Só tomou coragem decisiva e à contra gosto quando lhe roubaram um trator e ele percebeu que estavam de olho nas suas posses. Comentou mineiramente na mesa do botequim, voz e olhos baixos, como quem não faz questão que é para não tirarem vantagem dele. Os outros, igualmente mineiros, não demonstraram o interesse que talvez tivessem. Quando o tempo andou é que a coisa se deu na oferta do meu pai. O primo desembarcou e já estava tudo acertado. Passou o dia dando voltas, testando os pneus nos paralelepípedos da cidade, reconhecendo o motor, abrindo e fechando a porta, metendo a cabeça dentro, passando a mão na lataria. Convencido, puxou a antena, ligou o radio e seguiu de volta para para São Paulo cumprindo os 80 quilômetros por hora sinalizados na estrada com a prudência que ele agora tinha ao volante. Foram ultrapassados pelos outros carros e mesmo por um grupo de ciclistas, nenhum outro fusca para comparar. Mergulharam na Marginal, sentiram a pressão da metrópole,
e estacionaram na garagem da casa, em Pinheiros, de onde o carro ainda não saiu e isso já faz dois meses.

No rádio

Posted on 20 agosto, 2018

– Foi aí que você resolveu participar da corrente espiritual da nossa catedral, irmão?
– Foi, pastor, tava tudo dando errado na minha vida. Minha mãe morreu, separei da esposa, minha sócia no salão não queria que eu trabalhasse feminino, só masculino nunca deu dinheiro, e foi quando eu sofri o acidente. A carreta de um caminhão carregado de areia abriu e me enterrou em frente do salão, os clientes tudo viram. Tou com dezoito pino no corpo.
– E agora sua vida deu uma reviravolta, irmão?
– Deu, pastor. Casei de novo, minha esposa, a mãe dela, foi quem me apresentaram para a Glória do Senhor na igreja, Deus abençoou minha sócia levou ela prá outro salão, ampliei o meu pro feminino e estética, deu até prá comprar um Golzinho, é velho, mas é meu. Em nome de Jesus não saio mais da corrente perimetral.
– Espiritual. Amém?

Dona Costura

Posted on 4 agosto, 2018

Dona Costura trabalha aqui?, fiz a piada com a plaquinha na entrada da loja. Trabalha, sim. Pera que eu vou chamar. Ô Costura, vem que tem cliente! Desfilando em traje típico, fita métrica pendurada no pescoço e óculos na ponta do nariz, almofada de alfinetes no pulso, chinelo com meia curta, ela surge de dentro da escuridão do que parece ser o depósito. A dona ou gerente do lugar, uma loira bem arrumada e algum exagero na maquiagem, sai de perto como se quisesse não ter nada a ver com o que se passa naquele canto onde se conserta roupa imperfeita. Nas vitrines dela, impecáveis modelos de gosto duvidoso. Abro a sacolinha de papel e retiro três camisolas compradas num comprimento para mulheres mais altas do que eu. Aquilo andava me incomodando um tanto pela estética mas, sobretudo, porque sendo longas, elas enroscam nas pernas e nem sobem nem descem, ficam feito canga molhada na volta da praia. A loira espiou com o rabo do olho. Dona Costura, nascida Izilda, me contou quando ganhamos intimidade, estendeu uma a uma sobre o balcão, elogiou e me pediu para vesti-las no provador. Fiquei constrangida de estar invadindo o espaço da clientela da loira embora não tivesse entrado ninguém desde que cheguei, exceto um homem com calças para fazer a barra. Saí do provador com a primeira camisola no corpo, decotada, alguma coisa transparente e abaixo do joelho. Fica na luz para a gente marcar direito, isso é coisa fina, olha aqui, mostrou o acabamento virando o tecido do avesso. Segurando meus braços, me posicionou como um dos manequins da loja, à vista de quem estivesse passando pela rua movimentada e com os alfinetes na boca, foi subindo a barra até onde considerava que uma moça de boas pernas, fez uma média, deveria usar. As pessoas vinham pela calçada e davam comigo de camisola de alcinha no vão entre os manequins com figurinos de inverno. Izilda agachada aos meus pés explicando porque tinha que fazer tudo ela mesma, as ajudantes eram preguiçosas e enjoadas, falavam mal das roupas das clientes, querendo ser o que não eram. A gente tem que ter orgulho do que faz, não acha? Quando soube que eu era jornalista, perguntou sem levantar os olhos se o país estava em crise mesmo. Ela achava que era só boato, que a vida das pessoas não tinha mudado nada. Pobre seguia pobre, rico seguia rico. Concordei. Levantou-se, eu de camisola encurtada e aproveitou a oportunidade para tirar a dúvida: Me diga a verdade, a Folha é comunista?

Nas entranhas do DETRAN – Parte 1

Posted on 26 junho, 2018

 

Apontei para mim mesma desacreditando. Eu??? O guarda, armado de metralhadora ou coisa enorme parecida, confirmou com a cabeça e indicou o meio fio onde outros carros eram revistados por fora. Só pode ser grana, falei mais uma vez comigo mesma, observando que os carros parados pareciam novos e de boas marcas e que, enquanto os policiais sadicavam os motoristas em seus carros blindados, dezenas de motoqueiros desfilavam pela avenida aliviados dentro de seus capacetes.
-CNH e documento do carro, por favor.
-CNH…
– Carta de habilitação. Tire do plástico , por favor.
-Seu IPVA não foi pago.
-Não pode ser, moço. Checa lá. Eu me lembro claramente ( mentira, estava em dúvida agora).
– Já checamos.
– Tão rapido? Por favor, olha direitinho de novo ( mais tarde, me contaram que um acessório novo indica de longe, pela placa, qualquer irregularidade).
– Está vencido.
– Moço, se o documento estiver em casa, eu vou voltar aqui, juro.
-Vamos ter que reter o veículo.
-Como assim? Vou deixar o carro aqui?
– Vai ser guinchado.
-Ô meu Deus, ele nunca subiu num guincho antes. Maltrata muito? Mandei lavar essa semana. Onde eu pego de volta?
-Diadema.
-O senhor tá brincando.
-Chave do carro.
-O que?
-Chave do carro, por favor. Aguarde a notificação, vou preencher na viatura.
Saiu sem pedir dinheiro. Olhei a carteirinha plastica com o nome do despachante e liguei. Como não sabia exatamente o que pedir, desliguei.
Meia hora depois, um sol de rachar, vou procurar o meu entre vários guardas. Meti a cabeça na viatura.
– Oi, vai demorar?
-Permaneça no veículo até eu terminar, por favor.
-Só queria dar uma apressadinha porque tenho queijo fresco no carro.
– Volte para o veículo.
Continuou escrevendo à mão. Tive pena da sua dificuldade com a papelada. País atrasado, pensei, mas não comentei. Pela janela, disparou a ordem.
-Pode retirar tudo do carro antes de sair.
Juntei as sacolas de supermercado com o que havia comprado para o jantar que ia oferecer mais tarde. Vinho numa caixa de papelão que o empacotador descolou no depósito. Deixei o cabo rasgado do aspirador e uma sacola com livros de psicologia da minha filha. Achei que ninguém ia se interessar. Peguei um taxi com um motorista com tanta raiva do mundo quanto eu.
– Filhos da puta! Pena que o Datena não vai sair candidato! Acabava com essa brincadeira!
– É.