A touca

Posted on 19 novembro, 2017

Era culto, educado, intelectual e tinha um sobrenome que me transportava para o leste europeu. Eu adorava fazer esse comentário. Fotógrafo. Conhecia o que era relevante no mundo. O resto, Bahia e afins, visitou pela literatura. Emocionava-se às lágrimas durante o concerto, no final do poema, diante da imagem pendurada no museu. Eu fingindo sensibilidade igual. Fazia análise três vezes por semana. Neurótico e atormentado como eu sonhava ser. Lindinho e perfumado. Tomava banho de touca quando não queria molhar o cabelo. Podia tudo. Tinha letra feia e escrevia muito bem. Articulado. Participava de intrincadas discussões sobre cinema e política quando ainda era de esquerda. A barba perfumada do charuto que ele fumava exalando inteligência.
Eu tinha a tendência de idealizar as pessoas, sobretudo os homens, na época, mais poderosos, destacados nas suas áreas, um tom acima das mulheres. Com irracional atração machista, entregava a eles o coração e o meu desejo. A esse, aparentemente mais frágil, mas igualmente superior, entreguei também a auto estima. Sabia que para me aproximar daquela imagem encantadoramente imperfeita, os defeitos assumidos sem medo, eu escondendo os meus, teria que matar, não no sentido figurado, meus pais, meus professores, minha terapeuta e talvez a mim mesma para nascer de novo. Ele era o avesso do avesso do avesso do avesso e eu não conhecia poesia concreta nem a musica. Quando de touca no chuveiro, deixava a barba ensaboada à mostra e me confundia com sinais tão contraditórios.
Uma noite, em Campos do Jordão, deitados na grama de mãos dadas, o céu por testemunha, disse que estava apaixonado pelo amigo. Fiquei em dúvida se deveria recolher ou manter a mão. Mantive para não dar bandeira. Tentei parecer sofisticada e natural, fazer observações inteligentes para a situação e não sair rolando aos gritos pela grama como tinha vontade. Ele chorou. Continuamos a olhar para o alto, perguntei se me queria perto para ajudá-lo naquele momento difícil que eu mesma não compreendia e quando ele se levantou sem responder, continuei ali imobilizada pelo susto até o corpo doer. Passou para quatro sessões de terapia por semana. Com inveja da complexidade do que ele vivia, decidi que poderia ser uma opção para mim também. Me emprestaria a profundidade e o mistério que eu não possuía. Com ares lascivos, aproximei-me de meninas bonitas, sensuais, delicadas. O cabelo, os olhos, o perfume, a personalidade, sobretudo a atenção que algumas me dispensavam num flerte imaginário. Toquei, cheirei e nada. Nenhuma sensação próxima das que eu conhecia com os homens. Eu era uma mulher comum, óbvia, cem por cento heterossexualmente resolvida. Não seria por ali a minha ascensão às profundezas da alma.
Numa conversa, já sem sermos um casal e sendo porque gente sofisticada continua sendo, deixei-o saber que eu também tinha passado por uma crise de gênero. Soou tão artificial e fora de contexto que ele fez uma vírgula e seguiu o raciocínio sobre um documentário que estava filmando. Nunca mais o vi. Soube que encaretou, tornou-se conservador, assumiu os negócios da família, mulher, sogra, filhos e tal. De tudo, o que me intriga é se ele manteve a touca no banho.

Domingo no parque

Posted on 13 novembro, 2017

Me convidou e não sei dizer não. Nos encaminhamos suados, em roupas de corrida, até o Quiosque da Saúde, uma tenda armada no Ibirapuera pela turma da prefeitura. Além de checar a pressão, diabetes e outras preocupações de idosos frequentadores do parque, oferecia um curso rápido de socorro à vítimas de uma parada cardíaca. Não se interessou pela avaliação clínica, queria salvar vidas. Saí da fila do monitoramento. A sombra gratuita contra o céu azul num calor infernal era, inegavelmente, sedutora. A enfermeira Danyelle, com y e dois ll no crachá, fazendo jus ao estereótipo, só não usava uniforme decotado e curto: era loira, bonita, gostosa e atenciosa. Ladeada por outras duas mais fora de forma, que teatralizavam as caretas e contrações da vítima, repetiu os procedimentos, passo a passo, diversas vezes, sem pressa, cobrando feedback do grupo. Se ele parece não estar respirando fazemos o que? Cerca de dez pessoas de todas as idades e sexos, ajoelhadas em colchonetes em frente aos bonecos de borracha partidos ao meio. Do umbigo para baixo não importa numa parada cardíaca, aprendemos. Demontrou como usar um desfibrilador para uma platéia descrente de encontrar o aparelho, obrigatório num local publico. Fizemos mais exercício pressionando o peito dos bonecos do que em qualquer equipamento de academia. Cento e vinte vezes e mais outra série de 120 compressões manuais ininterruptas sob pena de matar a vítima se perdêssemos o ritmo. Com força: mais importante bombear o coração do que manter uma costela. A mulher ao lado queria saber sobre respiração boca a boca. Está fora de moda, não se usa mais, quem diria! Meu pé dormiu. Levantei-me com dor nas costas, os joelhos e as mãos vermelhas, o boneco imóvel. Há outras funções para os socorristas maus fora de forma. Posso, por exemplo, afastar curiosos da cena. Ou ligar para o SAMU agora que decorei o número 192. Muito eficiente a enfermeira Danyelle.

Um amor inventado

Posted on 8 novembro, 2017

Ele surgiu de repente na minha tela. Estava deitado, sorridente, de avental verde, o soro pingando ao lado, fazendo um sinal de positivo com o dedo. Sempre foi assim, bem humorado apesar da desgraceira que era a nossa vida de jornalista. A última vez que o vi, há muito tempo, circulava pela redação olhando a gente de cima naquele tamanho todo e tão de perto quanto é possível um homem doce olhar. Nunca imaginei que nos aproximaríamos pelo Facebook, nós, os últimos defensores do papel. Fiz uma visita à sua página e entendi que estava com um câncer avançado. Escrevi começando uma conversa que só terminaria no fim da história. Seguiram-se meses de papo online ou pelo telefone sobre política, ali discordávamos, poesia, comida, futebol, aqui a gente concordava na torcida pelo timão. Todos os dias chegaram flores e músicas numa entrega digital. Eu devolvia o carinho com causos bobos para ajudar a passar o tempo entre as cochiladas induzidas pela medicação. À certa altura, ele insistiu e comecei a visitá-lo. Na primeira vez, preparei-me feito uma noiva, perfume e batom, e fui me equilibrando no salto pelo longo corredor, seguindo the yellow brick road e já querendo encontrar o caminho de casa, como Dorothy na Terra de Oz. Estava ligeiramente inclinado na cama, cheirando a sabonete. Pedi um banho antes de você chegar, justificou. Além de um urso, um dinossauro e um coração de pelúcia escrito amor, não havia mais nada naquele quarto onde a luz explodia, não escondia nada. Nossas mãos geladas de emoção. Atrapalhada, quase arranquei a agulha pregada no braço fino. Ele segurou. Falamos de comida e literatura e chegamos, claro, na Nina Horta que cozinha tudo numa panela só e então dei para ele um livro dela autografado para mim que estava na bolsa. O livro passou a ficar ao lado dos bichos e do coração de pelúcia. A enfermeira entrou, ele me apresentou como namorada. Ela sorriu com ar de compaixão e aquilo me deu um calafrio. Tive vontade de brigar com ela exigindo que o tratasse como um homem igual a qualquer outro caminhando lá fora. E fugi inventando um compromisso longe dali. Saí pensando na loucura em que estava nos metendo. Não sentia por ele nada além do amor de amigo e, no entanto, pura covardia, não o desmentia quando me chamava de namorada. Nos meses seguintes, ficamos muito próximos. Fazíamos planos ingênuos para quando ele deixasse o hospital. Tomaríamos sorvete na praça ensolarada. Eu jurando que faria e diria o que fosse necessário para mantê-lo num mundo encantado. Inventei uma missão para mim. Como ele, precisava daquilo para me sentir amada. Estava consciente de que havia um vínculo neurótico de dependência entre nós, a nossa sobrevivência.

Sempre que enfrentava algum procedimento de risco, foram tantos, ele brincava, estou oco, só não me tiram o coração por sua causa. Eu sabia que sentia medo e garantia, segura a minha mão, estou aí com você.

Às vezes, estava entubado e não podia falar. Ficava aquele silêncio desconfortável no quarto, ele sorrindo com os olhos cada vez mais fundos e arregalados, digitando no celular com dificuldade e erros que jamais cometeria, o que queria dizer. Na Páscoa, alimentado pela sonda, pediu à enfermeira que comprasse um ovo na lojinha do hospital, me fez abrir na hora e comer ali na frente dele. Eu querendo chorar, lambuzada de chocolate e ele orgulhoso de poder me dar o presente. Depois, piorou tanto que eu não queria mais ir até lá para não deixá-lo constrangido naquela condição desumana. Ou muito humana, fracos e prepotentes que somos.

Antes que eu respondesse ao seu platônico pedido de casamento, ele se foi. A irmã ligou dando os detalhes do enterro e acrescentou, ele amava muito você. E então, pensei que a gente precisa desesperadamente amar para se manter vivo. E nem assim.

 

 

 

 

 

 

Estrela

Posted on 30 outubro, 2017

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A notícia triste “chegou pelo interurbano em longas espirais metálicas”, escreveu Vinicius de Moraes. Recebi pelo celular, mas doeu igual. Dona Janine teve um AVC e está na UTI, em São Paulo. Eu a imagino, aos 79, de camisolinha de renda, batom, cabelo arrumado e unhas vermelhas, pé e mão, presa`a cama impessoal do hospital. Posso vê-la, vaidosa e coquete, pedindo, ou melhor, cobrando um espelho da enfermeira, preocupada com a aparência descuidada na frente dos médicos e das visitas, para quem ela detestaria parecer estar entregando os pontos. Queria poder entrar com uma pinça escondida na bolsa e tirar um ou outro fio desalinhado da sobrancelha que ela capricha para não perder o desenho `a Marlene Dietrich, embora seja fã mesmo de Marilyn Monroe. A sua festa surpresa de 70 anos teve o “Furacão Marilyn” como tema. O neto, chef de cozinha, fez o bolo de três andares decorado com a figura da loira no famoso vestido voando sobre o bueiro do metrô. As filhas, genros, netos e o namorado, 30 anos mais novo que ela, cuidaram de ambientar o espaço com imagens de cenas famosas da estrela. A homenageada chegou pronta para crime, vestida num modelito curto com estampa de oncinha, sandálias douradas de salto 12, uma flor no cabelo: “É preciso estar sempre pronta para uma oportunidade que talvez nunca aconteça”, preconizou.
Nunca vi Dona Janine sem salto. Ou sem um figurino que tenha lhe tomado, pelo menos, algumas horas na frente do espelho. Sentada elegantemente na mesinha da recepção do consultório odontológico onde a filha e o genro nos atendem, cuida da agenda de pacientes como quem escreve um diário, anotando à mão os horários e as observações pessoais que julga necessárias: Beatriz- Passar na frente porque tem aula de inglês, Luciana- Lembrar de entregar o creme da Natura , Sergio- Perguntar sobre emprego para o filho de fulado de tal, num networking invejável. A porta é também responsabilidade dela e o molho de chaves se agita a cada toque da campainha. Em passinhos miúdos e o gingado particular da idade, abre o consultório sem qualquer restrição e acolhe solidária as dores e queixas alheias. Sorte dos ladrões que no dia do assalto levaram tudo, até as próteses dentárias descansando no balcão, que Dona Janine não estava ali. Ninguém passa impunemente por ela.
Além do crochê ininterrupto, da TV ligada, do telefone que não para, das consultas ao site da Bolsa de Valores, ela usa o tempo no consultório para vender roupas, a maior parte de couro, material que ela adora, e justas. Se a peça não ficar agarradíssima, ela não libera. Me faz experimentar ali mesmo na ante-sala e desfilar para ver se ficou como imaginava. Comprei algumas peças que, é claro, nunca usei, mas quem consegue convencê-la de que uma mulher pode ser feliz sem usar e abusar das curvas que Deus lhe deu? As saias curtas com meias arrastão, saltos altíssimos e um bom decote ela guarda para o baile do domingo que frequenta com o jovem namorado “ciumentíssimo, o único defeito dele”. Sempre dançou muito e quando o rapaz se cansa, sai rodando pelo salão com outros homens e diz que flerta respeitosamente com seus pares, afinal é educado corresponder aos movimentos, mesmo dos olhos, do outro.
Quando ligou animadíssima me convidando para o lançamento do Calendário Sensual da Terceira Idade, não entendi que ela era um dos meses. Foi só com o meu exemplar em mãos que vi as suas fotos ilustrando Junho, frente e verso. Apoiada num piano, de vestido longo vermelho, olhos nos olhos com um senhor de terno igualmente elegante e na piscina, meio corpo para fora da água, num maiô dourado combinando com a touca na cabeça. E matei a charada: Dona Janine é muito maior do que a sala de espera daquele consultório, ela é uma estrela de fato, a nossa Marilyn Monroe.
Estou aqui, fazendo o que ela sempre me pediu que fizesse pelos outros, rezando e torcendo pelo seu bem-estar. Que ela se levante, faça um penteado que valorize a cabeleira loira, pinte as unhas, pé e mão, com o esmalte mais vermelho que houver, retoque as sobrancelhas, vista um modelo justíssimo, o salto 12 e vá já para o consultório abrir a porta para mim!

O tapeceiro

Posted on 25 outubro, 2017

Escolhendo o tecido para a poltrona que ele iria forrar, comentei que tinha pressa por causa de um compromisso no centro. Não entrei em detalhes sobre as aulas de espanhol com a jovem cearence que morou no Peru e que, além da língua, conheceu a fundo a gastronomia local e misturando ingredientes nordestinos com iguarias dos Andes, fazia um inacreditável Ceviche no dendê.
Optamos por uma camurça estampada lavável, devolvi o mostruário, ele saiu desviando dos móveis, sobreviventes aleijados pelo tempo, atravessou a tapeçaria apinhada e trouxe o bloco onde anotou o pedido depois de afastar o pó da página com a mão, um gesto automático e talvez desnecessário.
Sem levantar os olhos, disse que estava indo para a mesma área fazer uma entrega e que se eu quisesse, me dava uma carona. Pensei no metrô, mais cheio do que show do Justin Bieber, diz a adolescente de casa, e aceitei.
Ele despachou umas instruções com o assistente, um rapaz de ar abobado e boné do MC Kevinho, e gritou a mulher. Dos fundos, claramente a contragosto, veio a Ivoneide. Achei bom, não estava muito confortável de andar de carro sozinha com o homem que, apesar de anos de convivência, eu não conhecia bem. Sandália de plataforma e unhas vermelhas, batom, perfume, cabelo longo com progressiva, apresentou-se, “prazer, Ivoneide”, e sorriu com cumplicidade causando o efeito contrário, me senti pequena, mal arrumada, pouco feminina.
A Kombi estava estacionada irregularmente na esquina, ele, então, arrancou a multa do para-brisa, amassou e jogou na calçada. Refreei o impulso de recolher. Ela acendeu um cigarro. Os homens abriram as portas duplas e meteram lá dentro mais cadeiras do que eu imaginava que fosse possível, um lego improvisado e inacreditavelmente funcional. Ficou claro que iríamos os três no banco da frente. Ivoneide entrou e sentou-se coladinha nele, a saia justa subiu até o alto das coxas e eu entendi porque ele não a deixava sozinha na tapeçaria com o ajudante de ar sonso.
Aboletei-me perto da janela, girei a maçaneta macia, o vidro desceu revelando minha cara embaçada no espelho retrovisor.
O ajudante voltou lá de dentro com uma caixa grande e um bolo dentro, produção caseira da Ivoneide, que seria deixado numa cliente no caminho. Ajeitei como pude a bolsa no chão, o bolo no colo. Me pediu para repetir o endereço, ligou o radio e seguimos sem trocar uma palavra chacoalhando as cadeiras ao som de forró gospel até o guarda dar o sinal.
Ele encostou, abaixou o som e mandou que ela tirasse os documentos do porta-luvas. Enfiou a mão no bolso, tive medo de que fosse uma arma, era dinheiro. Com movimentos de ilusionista, estendeu os papéis com as notas embutidas. O guarda pegou o que interessava e nos liberou. Fez mais, esticou o braço e deu sinal na avenida para que pudéssemos entrar novamente. “Que susto, hein?”, me escapou. Nem uma palavra de volta, nenhum comentário. Ivoneide guardou de novo os documentos, ele aumentou o volume do radio, anunciou que me deixaria na próxima esquina e que a poltrona estaria pronta dali a três semanas.

Manicure a domicílio

Posted on 10 outubro, 2017

Em Guaxupé, manicure a domicílio, é aquela que a gente pega em casa e depois devolve. E assim foi. Já na volta da fazenda, trouxemos a Dádiva, filha da Diva, que mora convenientemente ao lado da padaria. A mulherada fazendo fila na cozinha. A conversa que dispensa fofoca de revista. Agora com foto no celular, a filha da cunhada do marido da vendedora da Pernambucanas rapidamente identificada. A gente também entregando o ouro que amanhã estará na casa da vizinha. Seis mãos depois, doze na realidade, e dois pés, quatro de fato, tias, sobrinhas e a avó brilhando no esmalte acetinado, recolhem-se as bacias, o algodão, o pano, o paninho, a toalha bordada de flor e ela toma o café com bolo de laranja que estava aguando desde que chegou. Fazemos a conta a lápis no verso da receita medica do meu pai. Somado tudo dá menos do que um pé, dois na verdade, no podólogo de São Paulo. Na despedida, o cachorro finalmente levanta-se e permite que ela movimente a cadeira. Gente, foi um prazer, da próxima vez eu trago o Da Cor do Pecado que ocês gostam. E então, o impasse. O carro parado, ligado em frente ao portão da casa, esperando ela entrar em segurança. E ela, educadamente, aguardando o carro seguir para entrar. Nem seguimos, nem entra. Longos minutos até que a gente se dê conta de que a domicílio, em Guaxupé, é assim.

A torta do dentista

Posted on 10 outubro, 2017

Boca aberta e babador. Um celular toca, eu e meu nada ortodoxo dentista nos olhamos, não são os nossos telefones. Ele então se lembra de que é o alarme avisando que a torta ficou pronta. Liga para casa, pede para a empregada tirar do forno e deixar esfriar coberta com o pano de prato. Volta ao meu dente.