Guardador de carros

Posted on 21 maio, 2017

No começo era só um guardador de carros no dia da feira. Embora desse as costas para os carros e não guardasse nada, os frequentadores daquele quarteirão estavam acostumados à sua figura negra, alta e forte e porque não ameaçadora, protetora. Falava sem parar, dando instruções sobre vagas e manobras mesmo quando o carro já estava estacionado. Como um comentarista estendendo-se muito depois da jogada. E segurava a porta, as sacolas, o carrinho a ser dobrado no porta-malas. Acenava em longas despedidas em voz alta recomendando a Deus que cuidasse do motorista na volta para casa, o carro cheirando a fruta, peixe, cominho. Mão para fora da janela, o motorista, invariavelmente, agradecia a atenção exagerada e garantida.
Aos poucos, foi soltando as amarras e a voz e cantava com um microfone invisível na mão. A esquina entre o pasteleiro e o florista, um palco improvisado e publico garantido. A turma distraída com o copo de garapa na mão e a coreografia no fundo. Caretas e corridinhas à Bethania, braços escorridos ao longo do corpo. De tempos em tempos, lembrava-se dos carros, largava tudo, abria a porta, apontava um lugar vago, ajudava com as compras. Ofegante no intervalo da apresentação. A turma acompanhando sua trajetória na direção da razão perdida.
Ontem, ele estava maquiado. Sombra azul, blush, batom. Uma dezena de presilhas no cabelo e, ainda assim, despenteado. Uma saia sobre a calça e a camiseta com decote rasgado até a metade do peito. Descalço. Andava apressado de um lado para o outro com o olhar aflito. Não gostei. Ninguém gostou. Ainda falava sem parar, mas agora baixinho, acelerado, quase incompreensível. Fechando a porta de um carro, o rosto colorido na janela, queixou-se de qualquer coisa para o motorista. É que você é muito sensível, disse o senhor de cabeça branca, respeitosamente.

 

Nem tanto

Posted on 15 maio, 2017

Meu pai está trabalhando numa série de presépios de madeira. Começou pelo tradicional, Nossa Senhora, São José, Jesus na manjedoura, os Reis Magos perfilados e os bichos, vacas, ovelhas, um burro. Há outros montados nas cabaças que ele colhe do pé que plantou ao lado da garagem. As figuras ficam menores e mais delicadas lá dentro. E seguiu experimentando como todo artista faz, se quiser honrar o título. Criou umas cenas natalinas bem minimalistas, com figuras sem rosto e animais estilizados que a gente adivinha pelas orelhas, o focinho ou o rabo. Me chamou a atenção uma delas que trazia apenas o menino Jesus entre duas Nossas Senhoras, uma de manto cor de rosa e a outra de azul. Achei admirável que meu pai tivesse ido tão longe na sua liberdade criativa a ponto de colocar duas mulheres ali. Como sempre houve aquela desconfiança disfarçada quanto à concepção do filho de Deus pela gente de pouca fé, entendi o recado. Meu pai propunha uma versão moderna da origem de Jesus. Eu disse a ele que as netas ficariam orgulhosíssimas quando vissem. Sorriu e voltou a trabalhar. No dia seguinte, quando entrei no estúdio, estava com o presépio feminista na mão: Estou aqui quebrando a cabeça para ver como coloco a barba numa delas.

A janela

Posted on 10 maio, 2017

A tia está bem, disse minha mãe voltando da visita. Aos 98, com câncer avançado, a tia passa o dia na cama. No quarto iluminado pela janelão com batentes azuis, ao lado da filha e de uma das netas, conversou e riu lembrando-se de historias ingênuas da família, despediram-se e foi só. Um dia, muitos anos antes, a tia havia me impressionado dizendo que não gostaria jamais de mudar da casa onde morava com a filha e o genro desde que ficou viúva ainda jovem. Fui até a janela e observei o muro com telhas na borda, o mamoeiro crescido, o varal com pernas de bambu e braços de arame e o galpão lá no fundo com o fogão à lenha de onde a gente tirava pedaços de carvão para riscar a amarelinha no cimento mal conservado do quintal. Foi como se me apontasse o passado, o presente e o futuro de uma vez só. Disse mais. Que era feliz olhando todos os dias para aquela janela. Eu vi o que ela via sem poder dizer o mesmo. Meus planos eram de muitas paisagens diferentes e quartos virados para dentro, com romance, espelhos e camas gigantes. A cama dela era, e ainda é, pouco mais larga do que a cama de solteiro, uma cama de viúvo. No criado mudo, havia um terço com perfume de rosas sobre a toalha de crochê e toda noite a gente ia dizer boa noite e a encontrava, já de camisola, com o terço nas mãos, rezando baixinho e achando tão bom estar ali. Quando minha mãe veio contando que a tia estava bem, eu sabia exatamente o que ela queria dizer.

O artista Victor Lema Riqué

Posted on 8 maio, 2017

A entrega. Render-se, sujeitar-se, submeter-se, abandonar-se, capitular.
O artista é nada, um corpo pulsando à deriva, em mar aberto, arrastado pela paixão, sem controle, sem garantias, querendo chegar, às vezes chegando e, então, ele é maior do que tudo, é Deus sobre todas as coisas.

Abertura da espetacular mostra
La vida de las personas extraordinarias
Museo Nacional de Artes Visuales – Montevideo

A garçonete educada

Posted on 8 maio, 2017

A garçonete veio loirinha e sorrindente até a mesa, estendeu os cardápios e falou qualquer coisa muito baixo que não entendemos. Sorrimos de volta e agradecemos. Saiu. Voltou com pãezinhos quentes e perguntou algo inaudível. Concluímos que queria saber o que comeríamos. Dissemos o que havíamos escolhido e ela anotou prontamente. Repetiu os pratos lendo quase para ela mesma e quando terminou, respondemos alto, sim! sim! é isso! invertendo instintivamente a situação, como se ela é que não nos escutasse. Mostrou a carta de vinhos, apontando um ou outro e seguiu comentando as marcas num tom de voz tão baixo que tínhamos que esticar a cabeça e prestar muita atenção nos movimentos dos seus lábios para acompanhar. Concordamos com a sugestão dela mais para terminar com o desconforto do que pela qualidade ou o preço do vinho. Adiante, voltou à mesa perguntando num sussurro se estava tudo certo. Respondemos positivamente com um gesto.

Por algum tempo, cada um de nós achou que estivesse ficando surdo e foi um alívio geral quando confessei que não entendi uma só palavra do que ela disse. Graças a Deus, disse a amiga, achei que era só eu! No final da noite, ela ainda tentou explicar sem emitir praticamente nenhum som, uma sobremesa flambada, especialidade do chef. Pedimos café e a conta. Excesso de educação pode ser um problema.

A sorte

Posted on 26 abril, 2017

Acabo de encontrar entre os meus guardados, o recibo da taróloga Rosa Castro, da empresa Abracadabra, localizada no Bronx, em Nova York. Recomendadíssima por uma amiga californiana cuja vida foi, até o fim, pautada pelos sugestionamentos dessa profissional de sensibilidade aguçada, Rosa foi responsável por organizar uma “psychic party” ( é o que diz o recibo) de aniversário para mim quando morava lá. Além dos seus serviços no tarô, tivemos outras mesas com leitura da borra do café, de búzios, da aura, das linhas da mão. Profissionais do sindicato da Rosa, cartomantes e videntes certificadas por ela. A idéia da festa era uma noite com as amigas de fé (quatorze, de acordo com o recibo), docinhos, bolo e champanhe. As mesas foram decoradas com lindas toalhas brancas, velas, cristais e outras esoterices e ainda montaram uma barraca fechada para dar privacidade a um do atendimentos, já não me lembro qual. O apartamento era grande, mas a sala não foi suficiente e as sensitivas, mulheres que reuniam todos os ícones da feminilidade através dos tempos, cabelos longos, unhas longas, cílios longos, saias longas, anéis, pulseiras e panos na cabeça, espalharam-se pelos quartos também. As meninas foram dormir na casa de amigos e a beliche delas adaptada para acomodar os acessórios paranormais das bruxas. O marido viajando. A minha sorte estava decidida antes da festa. Por pena ou educação, ninguém passou nem perto, previram um futuro cor de rosa para a aniversariante, mas pouco tempo depois, meu casamento acabou. E isso não está no recibo. Comemos e bebemos ouvindo descrições minuciosas do que seriam os nossos pares perfeitos, homens apaixonados, dedicados, bem sucedidos, masculinos na medida certa. Minha amiga californiana tinha câncer e, por recomendação da Rosa taróloga, foi buscar no México um chá com propriedades curativas que levava a gente às profundezas da terra de onde só se voltava com barro nas mãos. Um mergulho dentro do mais íntimo de nós. Fui e voltei com o coração pendurado do lado de fora onde está até hoje. À certa altura, uma música espiritualizada, entre Clara Nunes e David Bowie, obrigou-nos a oferecer nossos corpos aos deuses e dançamos muito e de uma forma quase anti-social. Ainda me pergunto se o que veio a seguir trazia algum recado do além. Acordei no chão da barraca, abraçada à bola de cristal, vestida de Mother of all Saints, a janela da sala aberta num frio terrível, ainda se fumava naquela época, e os quatro canarinhos, Didi, Vavá, Zico e Djalma Santos, mortos, congelados na gaiola.

Why does it have to be me?

Posted on 23 abril, 2017


Me deu o disco como já havia feito antes com outros tesouros escavados na tulha da fazenda, um livro e uma faca de abrir cartas. Parou por um instante segurando o grande círculo preto no ar com a ponta dos dedos, virando-o para a faixa de luz enquanto assoprava a poeira. Disse que tinha sido da mãe e que agora era meu porque conheci Tony Bennet em Nova York e me gabei disso numa crônica. Ponho debaixo do braço com naturalidade, como se merecedora indiscutível do prêmio. É assim com ele, o distribuidor de sonhos, e comigo, sempre com fome. A herança que não me pertenceria de outra forma, ouro puro. Ele segue atento para os objetos esquecidos ali. A historia de cada um, a sua historia recontada e a historia emprestada do colecionador, a do antiquário, ele é agora dono do tempo. Vou atrás, eu também querendo inventar, ser dona do assunto. Esse, o tesouro maior.

A carona

Posted on 23 abril, 2017

Estava grávida, mas não posso culpar meu estado interessante pelo deslize. Já havia acontecido antes e aconteceria depois. Cumprimentamo-nos com um aceno através dos caixas do supermercado, outros consumidores entre nós. Não me lembrava exatamente de onde eu o conhecia. A sensação era de muita familiaridade, sem ser família, claro, porque fui educada com disciplina, nunca me enganaria com um parente. Já seguia com as sacolas e o barrigão em direção ao carro, quando ele me alcançou e se ofereceu para ajudar. Entreguei tudo imediatamente pensando nas varizes e perguntei se ele estava de carro. Disse que veio caminhando. Aceitou a carona e fomos conversando sobre qualquer coisa bem supérflua como o tempo ou os preços para evitar algum constrangimento. No caminho, cheguei à conclusão de que ele morava no meu prédio. Sim, era isso!
Fui embicando o carro na garagem e ele, então, pediu licença para descer antes de entrarmos. Agradeceu e seguiu pela calçada. No dia seguinte, comprando frios na padaria, reconheci por trás do avental e da redinha na cabeça, o meu carona. Sorriu: só isso hoje?

Mexico

Posted on 13 abril, 2017

Estávamos sentados no banco da impressionante catedral de Guadalupe. Eu e o menino mexicano. Percorríamos a construção lentamente com os olhos, procurando dispender tempo em cada detalhe. As colunas torcidas, os arcos perfeitos, a luz atravessando os vitrais e explodindo nos lustres e o teto, perto do céu, com figuras aladas pintadas à mão. Que escada chegaria até lá? o menino se pergunta. O artista trabalhava deitado? Não lhe doíam as costas? eu querendo adivinhar. Anjos e passarinhos voando pela nave dourada. Nós dois torcendo as cabeças, acompanhando o movimento. Os santos e suas histórias esculpidas com dramaticidade, sangue, dor, sacrifício em tamanho original. Os olhinhos dele se abrem, as pernas chacoalham no ar, quer comentar com a mãe, mas ela é dura e fervorosa, faz com que se cale com um gesto. Ele atende. Sinto mais tristeza do que medo. A gente humilde submetida a uma autoridade inquestionável. Eu tenho licença, faço malcriação, sou desobediente. Não o menino ou a sua mãe. Penso em minha mãe também, só para não desacompanhá-lo. À nossa frente, uma senhora com traços índios e véu na cabeça reza com um pirulito na boca. Um jovem obeso e sujo, com visíveis problemas mentais, senta-se ao meu lado querendo conversar e não sei como, toma a minha mão e a beija. Digo que meu marido ficará muito bravo e ele se vai. O menino testemunha assombrado. No corredor central, uma loira de cabelos cacheados, corpo curvilíneo, vestido colorido justo, ajoelha-se e segue assim, arrastando-se pela passadeira vermelha e rezando até o altar. Os fiéis adivinhando os pecados nos joelhos ralados dela. O menino chama a mãe novamente, bate no peito dela, cutuca, quer saber. Ela continua impassível na conversa com Deus e perde a nossa comoção. Paciência, colega, eu digo, o arrebatamento também passa. Um dia você deixará de ser menino e eu, com sorte, me tornarei uma mulher de fé.