Comadres

Posted on 16 outubro, 2020

O ônibus saiu quase vazio de Guaxupé rumo a São Paulo. Em pouco tempo, a conversa atravessa o corredor:
– Comadre, vem sentar aqui na frente.
– Ai, não vou, não. Já me arranjei aqui no fundo com as sacola.
– E esse ano que não vira, hein? Virasse, tava melhor.
– E então.
– A Marlene ficou lá cuidando dos cachorro? Tá bebendo muito ainda ela?
– Toma aquele… como se chama?
– O Domeck.
– Então. Mas dá conta do serviço, traz a casa sempre limpinha, arruma a comida, as criança sempre arranjadinha. Faz tudo até às três. Deixa até a janta pronta. Aí, começa beber e vai até a novela.
– Tá certa, ela. O Jaldair sempre bebeu. Dormia agarrado na cachaça. Ela dizia, escolhe, Jaldair, ou é eu ou é ela. Ele escolheu a cachaça. Então, a Marlene saiu do quarto. Dorme no sossego dela na sala. Nem tem que aguentar as graça dele no meio da noite. Ficou no sofá com tudo bem arranjadinho, lençol de cima, cobre leito e tudo.
Silêncio. Fecho os olhos. Seguem:
– Jaldair é trabalhador demais. Se acaba lá no terreno do Waldir, todo mundo sabe. Aí, bebe e chega em casa que não se aguenta, falando besteira. Foi tanta desfeita que ela deu com o cabo da vassoura nele outro dia. Marcou tudo as costa.
– Num conta.
– Vai vendo. Ela também tinha tomado que já era pra lá de seis e meia. Você agora trabalha na polícia, é? Ele perguntou. Aí, ela disse que se fosse polícia tinha logo jogado ele no mato, ponhado bebida nele todo e tocado fogo.
– Cachaceiro.
– Então.
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Dia do professor

Posted on 16 outubro, 2020

Fui uma aluna medíocre, não prestava atenção, falava o tempo todo, zanzava pela classe atrás de diversão miúda, espetar a bunda de alguém com o compasso, assoar o nariz na cortina, jogar a borracha no chão para espiar a calcinha das freiras. Nunca era culpa minha, sempre fui queridinha das professoras. O tamanho ajudava. Ser pequena quando a gente é pequeno provoca aquela fofurice nos adultos. Ao longo dos anos, eu e minha melhor amiga, a Stela, nos revezávamos na primeira posição da fila por ordem de tamanho. Depois de muito tempo, ela confessou que não foi gentileza me ceder a frente no primeiro dia de aula, gesto acolhedor que eu guardei no coração. Foi pelo prazer de ver que havia alguém menor do que ela no mundo. A Stela era uma aluna excepcional, fazia as lições todas, tinha um estojo arrumado com lápis apontados e trazia lanches de pão de forma sem casca recheados de presunto e queijo ou salaminho com manteiga e cortados na diagonal como os das festas. Eu tinha inveja do caprichado da vida dela. Mãe que não trabalhava fora e uma disciplina doméstica que me acalmava. A minha casa era alegre e barulhenta, mais irmãos e menos mãe, uma bagunça, cachorros que fugiam, gatos que atacavam passarinhos, até macaco teve. A gente vivia numa correria louca para dar conta das atividades, natação, inglês, brincar com os vizinhos na rua. Tinha que caber tudo até escurecer. A aflição nunca passou e, mesmo sem sair do lugar, sigo correndo até hoje. As professoras gostavam de mim porque eu era apaixonada por elas. Não era mentira, mas eu tinha consciência do poder da sedução e caprichava nesse aprendizado. Tirava nota baixa, zero às vezes, e minha mãe ouvia desconfiada elogios sobre a minha inteligência não refletida nas provas. Uma professora, a tia Inês, a quem eu amei profundamente e sofri com a separação, sempre me punha no colo na hora da roda de leitura. Ela usava peruca, descobri pela nuca, esmalte cor de vinho e um perfume que devia ser dulcíssimo porque eu adorava. No final daquele ano, a tia Inês me convidou para ser dama de honra no seu casamento. Fiquei dias sem dormir imaginando a entrada triunfal na igreja, a atenção, o vestido, a tiara, a cestinha com as alianças, ela me explicou a importância da minha tarefa. Cresci uns centímetros na auto-imagem. Minha mãe conversou com ela, agradeceu e disse que eu estaria no meio das férias em Guaxupé e não me traria. Fiquei angustiada, queria fazer parte da história dela, tinha medo de que ela me esquecesse. Eu nem chorei porque naquele tempo tinha medo de expressar tristeza e nunca mais ser feliz de novo, mas reclamei com minha mãe mais tarde. Ela nem ligou. Aí, eu não liguei também.

Pé de guerra

Posted on 30 setembro, 2020

Do quarto, com a porta entreaberta para o livre trânsito dos gatos, ouço os ganidos do aspirador lutando com todas as forças nas mãos da senhora que faz a limpeza. Agora, vencidas pela necessidade, ela de sair de casa e eu de contar com seus valorosos serviços, temos esse encontro uma vez por semana. Vem de máscara no Uber de um rapaz onde ela faz limpeza também e ficamos nos comunicando de longe, aos berros, as duas insatisfeitas com a situação.
Tenho pena dele, do aspirador. É novo, daquelas compras de impulso no início da pandemia quando procurávamos prazer nas coisas mais idiotas. Tão bonito e elegante, custou caro, com garantia de pura satisfação. Mas ela não gosta, implica, diz que não tem potência, que não dá conta do recado. Por último, veio me perguntar se por engano não joguei fora uma pecinha, parte do filtro, que ela tinha lavado e deixado para secar no tanque. Sem a peça, ele não vale de nada mesmo, só tem belezura. Não joguei. Talvez um dos gatos tenha escondido de propósito. Eles têm horror ao barulho. Pois eu vou atrás que essa guerra não perco. É um aspirador bom e tem belezura, sim, mas não acho que isso tire o seu valor. Talvez seja mal compreendido. Nunca lemos o manual, deve ter qualidades não exploradas, segredos mágicos, delicadezas como uma ponta especial que chupa o pó dos fios das luminárias ou um pincel que limpa o fundo das tomadas. Olha quanto encaixe que a gente não usa! Ela não quer saber. Não tem tempo a perder com falsas expectativas. Aumenta o volume da música e canta pedindo forças ao Senhor. Volto para o quarto, respiro fundo e anuncio aos gritos que vou recuperar o antigo que passei para a minha filha e que nunca ouviu malcriação. Sem desligar o aspirador nem abaixar o volume do rádio, ela concorda. Da próxima vez que der vontade de gastar dinheiro, a senhora me avisa.

O que pensam de mim

Posted on 5 setembro, 2020

“Sasha nega boato de que nasceu sem c* e fala países que quer visitar.” A chamada da matéria surge no meu celular sem pedir licença, já achando que está falando com o interlocutor certo. Gostaria muito de saber como os algoritmos concluíram que eu teria interesse nos detalhes físicos do bebê Sasha ou nas próximas viagens que a filha da Xuxa fará. Não me ofendo com propaganda de aumentador de pênis ou de um abridor de ostras, coisas que dificilmente vou consumir, mas que de alguma forma fazem parte do meu imaginário. Fico pensando que a sagrada leitura do nosso inconsciente, expressa a muito custo através de manifestações artísticas, por exemplo, em algum momento vai ser auto censurada. Se atentos a ela, vai nos inibir. O que a internet pensa de mim?
Há muitos anos, um bonitão de esquerda afim de se exibir, abriu a camisa e mostrou a enorme cicatriz no ombro descrevendo o acidente de moto sofrido numa viagem pelo Peru, a trilha de Che. Numa coincidência infeliz, para uma amiga comum, ele ostentou a cicatriz como marca das sessões de tortura que sofreu nos porões da ditadura. Fiquei ofendida. Então ela parecia mais madura e radical do que eu? Que parte minha o bonitão viu e entendeu que faria mais sucesso sendo romântico e cinematográfico? Bem, ele entendeu certo, gostei mais da imagem que ele me vendeu do que a dela. A minha prometia futuro, a dela era só passado.
Para além da espionagem da internet, somos uma coleção de sinais e reações e expressões, somos o que manifestamos mesmo em silencio. Mas é melhor não estar alerta para isso o tempo todo. A consciência muitas vezes é vaidosa e controladora, quer a fotografia perfeita. O espontâneo é tão mais raro e prazeroso! O que a internet terá coletado de dados sobre mim já não importa. Quero emprestada a ingenuidade dos artistas verdadeiros. E pensando bem, escrevendo sobre o c* da Sasha, acabei de dar motivos para receber outras tantas publicações sobre assuntos escatológicos correlatos.

 

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Milagre

Posted on 3 setembro, 2020

O amigo conta que estava na feirinha e por milagre encontrou um livro que queria. Aquela pequena grande alegria, alçada à condição de milagre, me encheu de esperança. Como se o fato dele ficar feliz naquele momento, e depois de novo quando me contava, possibilitasse a qualquer um que o encantamento momentâneo com quase nada se transformasse em algo extraordinário. O menino e a formiga carregando a folha. A tia e o ponto do tricô que deu certo. Meu pai e o peixe na vara. É estender o momento gratificante. Segurar o achado no ar. Veja que a coisa mais besta quando observada pelo poeta é poema. E para nós outros, às vezes, é milagre.

Recomeçar

Posted on 30 agosto, 2020

Tive uma amiga árabe, fomos companheiras durante um período em Nova York quando nossos filhos estudavam numa escola distante e tomavam o Yellow Bus juntos. Assim as crianças o chamavam. Ônibus Amarelo é a perua escolar, a tradicional americana, que já passou por vários modelos ao longo dos anos, mas segue amarela. A cor foi escolhida porque chama mais atenção do que qualquer outra e é sobre ela que as letras pretas do School Bus são visualizadas com mais facilidade, especialmente nas primeiras horas do dia. Uma conferencia organizada em 1939 por Dr. Frank Cyr, um professor da Universidade de Columbia, reuniu durante uma semana especialistas em transporte público, fabricação e pintura de ônibus escolares dos 44 estados americanos. Ali, ficaram definidas as medidas seguras e a cor oficial do transporte de alunos no país. Pelo seu esforço, o Dr. Cyr foi agraciado com o título de Pai do Ônibus Escolar Amarelo.
Mas voltando à minha amiga árabe, a gente embarcava as crianças e seguíamos para uma caminhada atlética de cerca de uma hora à margem do rio Hudson. Ela queria perder peso e precisava. Caminhava maquiada, de saia, camisa e sapatinho de salto. Com muito esforço consegui convencê-la a deixar a bolsa, que ela levava no braço, em casa. Ia manquitolando, suando e gemendo e contando historias bonitas do Líbano que não combinavam em nada com a expressão de sofrimento que carregava durante o percurso. Os piqueniques familiares, as brincadeiras ingênuas com as amigas na praia. Nunca perdia a formalidade. Contou que durante os bombardeios que enfrentou quando morava lá, mantinha um procedimento padrão que os filhos conheciam e acompanhavam. Ao contrário da maior parte das pessoas que corriam às ruas à procura de abrigo como estivessem, pijama, roupão, embrulhados em toalhas, ela vestia-se, colocava os sapatos, sentava-se no sofá da sala e esperava que o barulho terminasse e o prédio parasse de tremer. Por sorte, não sofreu nenhum acidente maior. O apartamento chacoalhava, quebraram-se vasos, quadros, mas não foi destruído. Tinha sempre uma resposta pronta para qualquer situação desconfortável que eu estivesse vivendo. Uma delas era: Volte para casa, tome um banho, mude de roupa, recomece o dia. Esse vai ser melhor. Lembrei disso hoje quando, por distração, li as noticias no jornal e me deu vontade de sumir. Fui tomar banho de novo. É preciso ter fé.
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Distânciamento

Posted on 24 agosto, 2020

Quando começamos numa agência de publicidade japonesa, meu chefe advertiu: são japoneses de verdade, não os interrompa quando estiverem falando, não deboche das regras e, sobretudo, não fique tocando neles. Foi como se tivesse me dado uma ordem para fazer as três coisas. Às vezes, simultaneamente. Era avistar um colega japonês, tão distinto, tão silencioso e me dava um comichão, não podia me segurar. Cumprimentava beijando e abraçando, amassando seus ternos e vestidos impecáveis. Fazia uma pergunta e à menor menção dele responder, emendava um comentário e outra pergunta em cima e já ia respondendo como se não precisasse nem ter perguntado. A reação era de desgosto educado. Numa visita ao escritório em Tóquio, vi dezenas de cartazes com o desenho de duas pessoas de perfil com as bocas abertas e a orientação, traduzida por um funcionário local: Conversem entre vocês! Uma campanha para que o ambiente da firma fosse mais interativo. Pedi para levar como prova de defesa das acusações de irreverência corporativa e já ia arrancando da parede, ele sorriu amável e respondeu monossilábico: Não.
Ao contrário do que se poderia esperar, o tempo não flexibilizou as nossas relações e até o fim seguimos, eu avançando o sinal e eles firmes no seu quadrado. Me lembrei disso esses dias. Um metro pode ser pouco, mas pode ser tanto!

Autobiográfico

Posted on 22 agosto, 2020

Fui ter com o amigo, escritor de renome, e arrisquei dizer que andava pensando em, talvez, escrever um livro. Respondeu sem levantar os olhos do computador: Mas não é autobiográfico, é? Todo mundo acha que a sua vida dá um livro. Para mim, isso é preguiça. Menti que nem havia me passado pela cabeça essa vaidade, imagine, estava justamente pesquisando a história de uma família em viagem pelas tundras gélidas da Sibéria quando foi atacada por gigantescas plantas carnívoras que a devorou aos bocados, roupa, sapato, mochilas e tudo. Sobrou uma criança, autora do relato duvidoso. Ah, sensacional! Isso, sim, dá um romance e tanto! Estava agora olhos nos olhos comigo, dois escritores num momento de cumplicidade. Tentei acompanhar o seu entusiasmo disfarçando um sorriso num movimento muscular forçado até doer o rosto. Evoluímos no roteiro da tragédia, ele sugerindo situações do banquete humano para torná-lo mais apetitoso. Disse isso e riu da própria piada. Quase me convenci ali de que, ficção por ficção, a história da família dizimada era melhor do que a minha que nunca teria gente engolida e, longe do cenário exótico siberiano, se passaria basicamente numa cidadezinha pacata de Minas Gerais. Depois, para ser franca, deu preguiça mesmo. Não há movimento sem curiosidade. Não consegui digitar mais do que um parágrafo sobre o assunto e voltei a atenção para os meus pés embaixo da mesa. Quando eles saltitam é sinal de excitação. Sou um jabuti. Carrego minha vida nas costas e conheço o seu peso, paro no momento que quiser, pesquiso para além do meu casco porque viver não é suficiente, e escrevo.

O elefante quadrado

Posted on 19 agosto, 2020

Os pés da mesinha são cabeças de elefante esculpidas na madeira, as trombas se esticando até o chão. Olhos e presas desuniformes pintadas à mão por artesãos indianos. Pétalas e folhas colorindo o tampo como se o animal carregasse uma manta florida. O elefante quadrado esconde-se ao lado do sofá para ouvir histórias que nunca mais serão esquecidas. Como a do primo tido como autista e que na verdade era um anjo. Sentava-se e conversava com os mendigos, levava comida, comia com eles. E um dia, voou. Ou a da tia muito feia que perdoava as escapadas frequentes do marido e era motivo de pena da família para no leito de morte confessar que ela também tinha um amante. E a do tio que andava com a cabeça ruim e mastigou um dos Reis Magos do presépio da casa da filha.
Sobre o elefante há uma vela numa cumbuca de metal decorado. Quando aceso, o fogo desenha figuras que se movem na parede e assombram o ambiente. Mas o elefante indiano não tem medo de nada. Nem dos mortos, nem dos loucos, nem das pessoas que acham que não são personagens das histórias estranhas dos outros.