Separação

Posted on 20 Fevereiro, 2018

Veio de longe, arrastando o passado em malas e caixas. Cinquenta anos. Sentado no apartamento vazio, foi abrindo uma a uma, deixando escapar a história em capítulos dobrados, amassados e rearranjados em estantes, cabides e gavetas. Animou-se. Parte já não servia no homem magro de agora, outro tanto ninguém vestiria pela extravagancia da moda ultrapassada. Havia ainda o que ficou misturado em tanques e lavadoras e estendido lado a lado nos varais da casa ensolarada. Uma saia, duas camisetas, a bermuda surrada, um moletom comprado em Miami. Separou. Em seguida, mergulhou as mãos nas profundezas de uma caixa transbordada de fotografias de uma época em que as fotografias ocupavam um espaço físico. Folheou pequenos álbuns e reencontrou a vida metida em folhas plásticas apertadas. Tomou tempo para olhar. Frente e verso. Os álbuns de capa pesada anotavam data e local. Esta, a vida organizada em viagens e comemorações. Doces registros familiares. Suspirou e devolveu tudo sem vontade de continuar a se indagar o que guardar e o que queria esquecer. Puxou uma bolsa da Nike, abriu o zíper adivinhando o conteúdo. Bonés, inúmeras carteirinhas plásticas do despachante com documentos dos carros que passaram por ali, a carteira profissional, passaportes antigos, sacos de moedas colecionadas pelo mundo. E, soltas, descuidadas, fotos de encontros apaixonados, rápidos e intensos com mulheres com metade da sua idade no rastro da impossibilidade conjugal. Gestos, olhares carregados de tensão sexual. Paisagens afrodisíacas. Sem saber o destino daquelas experiências, manteve na esbórnia da sacola junto com os óleos de massagem e as velas. Procurou e encontrou a edição moderna do Kama Sutra para Ela e Ele. A obviedade de um homem. Sentiu-se quase feliz. O espírito leve, a garantia de que algumas coisas não obedecem a ordem moral imposta e punitiva. O castigo não vinha dali.
Caixas com fios que não ligavam mais nada a nada e que, no entanto, pareciam indispensáveis. Aí, sim, a ameaça. Centenas de Cd’s, um peso desnecessário numa mala sem rodinhas. Embalados em plástico bolha, os quadros saíram de paredes sólidas, que se mantiveram de pé quando tudo caiu. Trouxe todos considerando a legitimidade da origem. A sua relação estreita com a arte. Mas foi só. O resto era recomprável quando os imóveis fossem vendidos e divididos. Observou com cumplicidade os pequenos tapetes enrolados, coletados nas idas ao Oriente durante a produção do documentário sobre a Al Jazira. Onde estaria a cópia? Ajoelhado, divertiu-se empilhando os livros em arriscadas esculturas. Doeram-lhe as costas. Levantou-se e recostou-se na poltrona apoiando os braços nos braços de couro gastos pelos braços de seu pai. Veio-lhe o proibido. Saltou. Num gesto libertário, foi até a caixa de ferramentas e, munido de um estilete, converteu vários jeans novos e caros em bermudas. Sorriu. Das vantagens de ser um homem solteiro!

Questão de gosto

Posted on 16 Fevereiro, 2018

Na mesa ao lado, redonda como convém a um grupo ímpar de convivas, a algazarra ainda está no couvert com braços estendidos e encolhidos e estendidos novamente, a manteiga sumindo, o pão que me enche a boca de água, a água, quem diria, importada no país da água. Colorindo a toalha branca, os tons diferentes de vinho nas personalidades dos vinhos e de seus respectivos consumidores. Risadaria. O cardápio comentado.
Escrever sobre comida, do ponto de vista de uma pessoa que não faz caso de comer, é um ato de bravura. Já o seria quando culinária não era moda e as pessoas cozinhavam para alimentar a família e fazer o gosto desse e daquele de vez em quando. No momento em que tornou-se tema de saúde, gente “cool” e entretenimento midiático, é particularmente difícil se posicionar de forma não entusiástica diante da simples menção de um prato. Tem sempre algum incomodado psicologizando o assunto e trazendo à mesa a auto-privação do prazer e a impossibilidade de ser feliz sem a saciação desse desejo primário. Grande parte da população mundial passa fome e isso me dói diariamente. Agradeço o pedaço de pão que engulo. Aqui, não se trata de comer para matar a fome ou só para desocupar, como diria um tio de Guaxupé. Falo do ato de levar à boca gostosuras da alma de que fala com sabedoria a Nina Horta. A comida da mãe, a a afrodisíaca, a molecular, a do Bocuse, que Deus o tenha cozinhando no céu. Essa é que me falta. É dessa que passo fome. É essa que tenho dificuldade de apreciar como meus pares. É a minha grande diferença com a sociedade, exceto aqueles que têm distúrbios alimentares com os quais também não tenho afinidade em nenhum aspecto. Que não me ouça o querido Josimar Melo, um profissional dessa cultura, aqui e acolá. O ato de comer não ocupa lugar nenhum na minha vida. Tem pouco espaço no cotidiano, nas ocasiões especiais. E aí entra a aparente frieza, a antipatia, o defeito, o desapontamento que me afasta da maior parte das pessoas. Não há discurso que convença o outro de que esse momento confraternizante de estar à mesa me é mais confraternizante do que apetitoso. Que a conversa sem haver necessariamente comida envolvida me é tão saborosa quanto aquela que se cerca de iguarias. O vinho, o dry martini, a cerveja, a pinga, que tanto aprecio, podem e devem estar acompanhados de uma pouca coisa gostosa, um pedacinho disso ou daquilo. Não cabe todo mundo. Alguns têm que ficar de fora do meu estômago tímido. A cultura gastronômica com seus temperos, cheiros e sabores me encanta. Posso passar horas ao lado do fogão de lenha na fazenda ou nas cozinhas mais sofisticadas com seus Vikings à mostra ouvindo comentários sobre o que estamos preparando. Quem não come, não cozinha bem. Me desmente uma cozinheira peruana que conheci e que, talvez pelo gênio ruim de um marido pescador, fazia os peixes mais incríveis sem nunca sequer prová-los. A cozinha é o ambiente de que mais gosto numa casa. Das publicações de decoração, além de salas cobertas de estantes com livros, só o que me interessam são as cozinhas. Tenho recortes delas pregadas em frente ao computador como garantia de esperança, acolhimento e um respiro para a vida sem concretude da produção intelectual. A minha não tem espaço para mais nada tantas são as panelas penduradas, colheres de pau sobre a pia, facas estendidas sobre metais, cestas com cebola e alho e batata. Fora a coleção de livros de culinária. Os gastos e sujos da Julia Child do tempo de experimentação fracassada, pobres das crianças, na minúscula cozinha em Nova York. Os impecáveis da Nina Horta porque só os leio no sofá, divertindo-me com a literatura sofisticada de forno e fogão. O apenas para ver, com receitas espanholas e louças desenhadas do Picasso. O das carnes e pasqualinas uruguaias por razões do coração. Tantos outros. Que posso fazer se a profissional de feng-shui, alçada num momento em que tudo dava errado na vida, mexeu na casa inteira e só me perdoou a cozinha, identificando a excelente energia daquele ambiente? Caso-me com um homem que ama fazer, servir e comer. Uma contradição desmentida com amor todos os dias. Peço perdão àqueles que decepciono com minha convivência insípida. Perdão pela falha de caráter. Prometo tentar ser uma pessoa melhor. Senão por tudo que o prazer gastronômico propõe, pela cumplicidade no momento de alegria que a mesa garante.

Tantos amores

Posted on 20 Janeiro, 2018

Uma mulher pode ter muitos amores. E pode até se casar com um ou mais deles. Casar-se com um amor não invalida os outros, que permanecem boiando de longe na mesma água. Apenas no papel, reconhecido pelo juiz, é que só vale um casamento, o que, cá entre nós, nunca valeu de verdade. Certa vez, registrando algum documento no cartório, fui flagrada gaguejando meu estado civil. Eu não me sentia casada apenas com quem estava casada. Havia espaço no meu coração para outros eventuais amores. De certa forma, naquele momento, eu era solteira. Foi aí que me faltou firmeza. Tentei descrever esse estado de espírito, tão distante do civil, com a poesia e a profundidade que ele pedia. Não alcançou: Minha senhora, bigamia é crime, sabia? Preferi não argumentar com o funcionário do cartório que, além de tudo, me pareceu um marido burocrático, daqueles que só reconhecem a sua firma quando fazem sexo com a esposa. Esposa não é mulher. O manual interno da Folha de São Paulo, há muitos anos, sugeria que os jornalistas usassem o termo esposa quando se referissem a uma mulher casada com alguém citado na matéria, a esposa de x ou a ex-esposa de y. Como se a breguice se estendesse de estar noiva até ser esposa. Desposar é antônimo de acasalar. Bom mesmo é quando numa disputa de mulheres, uma delas adota “o meu homem.” Muito mais quente do que “o meu marido”, que fica morno no instante em que se pronuncia o status legalizado. Na cena de um filme, a mulher exigiu sair ao lado do marido na foto da carteira de identidade dele. Revelava, por trás da piada, a necessidade inevitável de ser dono da pessoa que se ama. É legítimo querer documentar para sempre a sensação momentânea de propriedade que a paixão impõe. Eu preferiria a documentação assinada com nossos nomes pela fumaça de um avião sobrevoando a praia diante dos olhos de centenas de testemunhas. Vai com o vento, mas é muito romântico e honesto. As testemunhas da paixão alheia deveriam ser como os banhistas observando no céu o amor entre duas pessoas. Como nos casamentos em Las Vegas que vemos nos filmes. As testemunhas lá, como aqui, são desimportantes. Apenas emprestam as suas presenças para aquele arroubo do coração. Testemunha de um casamento meu, a amiga seguiu conosco numa longa viagem de lua-de-mel de carro e quase foi deixada na estrada, arrependidos que estávamos de tê-la convidado. Foi na euforia da bebida, ela estava linda na cerimonia, tinha uma bolsa vermelha que me encantou e um decote profundo que encantou meu marido. Nunca mais a vimos e o casamento eventualmente acabou.

Na poltrona da frente do avião em que me encontro, o rapaz descansa a cabeça no ombro do outro e deixa à mostra a marca branca da aliança no dedo anular. Me lembrei de quando os homens escondiam a aliança para enganar mulheres solteiras e a gente fingia que não percebia para não perder a noite também. Aqui, acho mais fácil que seja a marca assumida do fim de uma história recente. Uma declaração de amor escancarada. Ou seria o proibido que excita? Não importa. Do meu privilegiado ponto de vista, observando os cocurutos colados, está claro que nesse momento, eles estão casados enquanto dure.

Casamento ortodoxo

Posted on 10 Janeiro, 2018

A amiga, fotógrafa oficial de eventos da comunidade judaica hassídica, de Nova York, fez o convite que há muito eu esperava e nos levou, eu e minha filha, como assistentes num casamento no Brooklin.
Nevava naquela noite, desci do carro, escorreguei no chão congelado do estacionamento e caí de joelhos. Voou a escadinha que ela usa para fazer as fotos do alto, acima dos chapéus de pelo pretos usados pelos homens durante a cerimonia. Segui manquitolando, um frio de lascar, na escuridão e no silencio do bairro, ela puxando um carrinho com o resto do equipamento num passo apertado e decidido. Não é tarefa para qualquer um. Os casamentos atravessam a noite e ela só recolhe as traquitanas depois que o ultimo convidado sai. É judia, nada ortodoxa, mas conhece todas as regras e excessões, os ângulos permitidos, os não autorizados por essa comunidade ultra-conservadora. De vez em quando, avança o sinal e arrisca uma bela foto de algum detalhe emocionante, curioso e proibido. A mãe preparando a filha para a cerimonia, a menina com as mãos branquíssimas sobrepostas. Um registro que vale a trabalheira oficial. Apresentamos-nos na entrada do salão, as duas mal ajambradas em uniforme de guerra, paramentadas de preto da cabeça aos pés. A autoridade à porta, barba e cachinhos nas costeletas, ortodoxamente vestida com chapéu e casaco longo pretos e o talim, um xale religioso com tzitzit, as franjas nas pontas, olhou feio como se desconfiando acertadamente das nossas origens e intenções. Ela atravessou a hierarquia masculina e e entramos.
O enorme salão dividido por um longo biombo, um lado para as mulheres, outro para os homens. Do lado de cá, onde ficamos, mesas decoradas esparramadas nas laterais, dezenas de crianças correndo e um estacionamento de carrinhos de bebê com os bebês dentro. O lado de lá, onde homens que me pareciam gêmeos entre si, cantavam e dançavam abraçados. A gente espiava por uma fresta que as convidadas tinham aberto e onde se divertiam como crianças fazendo coisa errada.
Seguimos com dificuldade as instruções técnicas carregando por toda parte a escada e um mastro com a luz, tentando ser discretas em nossos trajes camuflados e não sendo. Trocamos olhares de viés. A amiga circulava desenvolta, montando grupos, atendendo pedidos para registrar um ou outro familiar, ela também personagem da cena. Atravessar o ritual era mergulhar num mundo fantástico, vindo de outros tempos, parado nesse tempo.
A adolescente proibida de sacar o celular. O que acontece ali, fica ali. Eu queria fotografar na memória cada instante da cerimonia emocionante e, de certa forma, triste. Uma noiva menina, escolhida pelas famílias, mal conhecendo o noivo, seguindo obediente o curso previsto pela religião. Cobrir-se respeitosamente até os pés, cortar o cabelo, usar uma peruca com um lenço por cima, ter muitos filhos e não se interessar pelo que acontece fora da comunidade. Chegou a sua vez. Iluminando o ambiente escurecido pelas roupas dos convidados, ela surge frágil, imaculadamente vestida de branco, véu sobre o rosto, as mãos claríssimas de uma vida na sombra tocadas pela primeira vez pelo noivo.
Na volta, o carro sambando no gelo, a musica no radio acompanhando o ritmo, eu fechada em silencio, profundamente perturbada pela experiência. A amiga checa as mensagens no celular e suspira: amanhã tenho outro, acho que nem vou tirar o equipamento do carro.

comadre

Posted on 7 Janeiro, 2018

O ônibus saiu quase vazio de Guaxupé rumo a São Paulo. Em pouco tempo, o de praxe:
-Comadre, vem sentar aqui na frente.
-Ai, não vou, não. Já me arranjei aqui no fundo com as sacola.
-E esse ano que não vira. Virasse, tava melhor.
– E então.
– A Marlene ficou lá cuidando dos cachorro? Tá bebendo muito ainda ela?
-Toma aquele, como se chama?
– O Domeck.
-Então. Mas dá conta do serviço de casa, traz sempre limpinha, arruma a comida, as criança sempre arranjadinha. E faz tudo até às três. Deixa até a janta pronta. Aí, começa beber e vai até a novela.
-Tá certa ela. O Jaldair sempre bebeu. Dormia agarrado na cachaça. Ela dizia, escolhe, Jaldair, é ela ou eu. Ele escolheu a cachaça. Então, a Marlene saiu do quarto. Dorme no sossego dela na sala. Nem tem que aguentar as graça dele de noite. Ficou tudo bem arranjadinho, lençol de cima, cobre leito e tudo.
-Jaldair é trabalhador demais. Se acaba lá no terreno do Waldir, todo mundo sabe. Aí bebe e chega em casa que não se aguenta, falando besteira. Ela deu com o cabo da vassoura nele outro dia. Aí, ele maldou se ela agora trabalha na polícia. Vai vendo. Aí, ela disse que se fosse polícia tinha já jogado ele no mato, ponhado a bebida nele todo e tocado fogo.
– Cachaceiro.
– Então.

Desentortar

Posted on 28 dezembro, 2017

 

Abri a porta e a maca me cumprimentou: boa tarde, dona Marina. Detrás dela, saiu a Poliana, baixinha, gorducha, uniformizada de branco, suada a tal ponto que não me permitiu beijá-la. A mão igualmente molhada despertou dúvidas sobre a decisão de aceitar a massagem, um vale presente de Natal da amiga. Não estou acostumada, mineiro não acha graça nessas intimidades com estranhos. Apontei o quarto e a maca caminhou arquejante de tênis brancos. Mesmo com as costas doendo, ofereci para ajudar, mas ela não aceitou e enquanto estendia um lençol de papel explicou que normalmente as macas são menores e mais leves, mas justo na sua vez só sobrou o modelão antigo. “Todo fim de ano, o movimento aumenta demais. Esse, em especial, por causa da crise, todo mundo travou.” Esparramou óleo, fez movimentos circulares, beliscou com as pontas dos dedos e anunciou que ia subir na maca comigo para usar os cotovelos como se fosse a coisa mais natural do mundo. Fingi que era dor a dor que deveras sentia. Pedi para encerrar.
No dia seguinte, mais entortada, arrastei-me para o quiroprata que me indicaram para terminar o serviço. Nunca tinha recorrido a um. Pensei em quiromancia e achei que podia ser uma saída magica. A pressão era quase insuportável, os presentes, a ceia, as contas, as malas, um esquema para cuidarem das plantas e dos gatos. Quem desentortaria minha vida? Cheguei atrasada, o homem estava parado ao lado da cama, braços cruzados, seríssimo. Mudo. Eu, ansiosa, disparada a explicar o transito e as tarefas injustas de uma mulher no Natal. Ele olhando para mim, calado. Achei que ia me agredir. E ia. Mas não ainda. Perguntou se eu estava com medo dele ou se era timidez abraçar a cadeira daquele jeito. E esses ombros para cima? Larga a bolsa e me conta o que se passa com você. Eu disse que tinha acabado de dizer, uai: “É o fucking Natal, você é homem, não entende.” Sorriu com o ar blasé que os seres espiritualizados adoram nos jogar na cara quando estamos descompensados. Descrevi minha sensação enquanto me deitava. “Estou virando a bruxa da Branca de Neve, lembra? Não consigo me esticar. Como se um elástico gigante puxasse as extremidades e…” Não terminei. Apertou um ponto qualquer perto da coluna, achei que ia desmaiar de dor. Gemi com vontade de chorar e ele garantiu que se eu aguentasse saía nova. Fiz as contas e pensei que se me tirasse uns onze, doze anos, sim, valeria a dor. E então veio uma pressão demorada com o dedão debaixo dos braços, o sofrimento excruciante e o comando: Coragem! Abraça Jesus! Não tive tempo de mandá-lo para o inferno, partiu para a outra extremidade e torceu meus pés para dentro, à Curupira. Achou meu maxilar rígido, fez ganchos com os dedos, meteu-os lá dentro da boca puxando as bochechas para cima como se fosse me pendurar nas suas mãos. Perguntou se eu confiava nele. “Tenho outra alternativa?” Segurou minha cabeça com as duas mãos e com um movimento forte e súbito girou-a como a menina do Exorcista fazia no filme. Ficou decepcionado porque não estalou. Quando terminamos a sessão, perguntou como eu me sentia. “Com muita raiva de você”, respondi. E saquei minha arma letal. Avisei que era escritora e que me vingaria dele assim que saísse dali.

 

 

 

 

 

O Copa

Posted on 5 dezembro, 2017

Fui convidada para uma festa elegante no Copacabana Palace. Show de Elza Soares, o toque cool para convidados que, de outra forma, jamais a ouviriam. Levei meu vestido longo, o único, mandei passar no hotel, pendurei o cabide na porta do armário. O quarto com vista para a piscina mais famosa do país, a que já foi testemunha de célebres encontros e desencontros, porres, discursos e performances escandalosas, hóspedes ricos de verdade, falsos ricos, roqueiros e misses, o chique, o chique despojado e o novo chique. Ao lado da cama, sobre o tapete iraniano, o salto 12 tinha antecedentes desagradáveis. Escorregou comigo no palco encerado de um teatro em São Paulo durante a entrega de um prêmio de jornalismo. Fui salva por um movimento ágil de bailarino do Zeca Camargo, meu par no evento, que me segurou com elegância no momento do vôo e a quem serei eternamente grata. Olhei para o bico fino do sapato, ele olhou para mim. Não fizemos as pazes. Fugi para Ipanema e passei o dia de dieta para caber no vestido, só na água de coco e biscoito. Fim de tarde, pôr do sol carioca perfumado de maconha, atravesso a rua para um gin tônica escondido no Fasano, concorrente do Copa, imagina se ficam sabendo. O barman, com sotaque baiano matador, me convence a tomar outro. Tiro um cochilo de biquini sobre o edredon de pena de faisão dos alpes suíços e quando acordo, dou de cara com uma triste figura refletida no espelho. Sigo para a árdua tarefa de auto-restauração que invariavelmente impacta o porteiro do meu prédio: Opa! Se reproduziu toda, hein, dona Marina? Meia hora tentando descobrir o segredo do chuveiro. Me encaixo debaixo do chuveirinho, para a minha estatura é até melhor. O cabelo precisa de secador e gel. A maquiagem, emprestada da filha, esparramada pelo espetacular mármore branco. Dá vontade de deitar na pia. Peço uma caipirinha com cachaça para chegar no tom da Elza. Preço de uma refeição. Comento com o funcionário que trouxe e ele diz que para o dólar está barato. Yes. Encho a banheira para um banho de espuma. Não é porque estou sozinha que não vou sensualizar. Antes, tiro um uísque do frigobar, não encontro o gelo, depois encontro, mas já é tarde. Agora eu sou cowboy e o meu cavalo só falava inglês. Ou era a noiva do cowboy? Escorrego na espuma. Sem querer, molhei de novo o cabelo. Ligo para uma amiga que também vai à festa e ela me aconselha a pedir champanhe com aquela conversa do “eu mereço” que já faliu muita gente que merecia mesmo ficar pendurada no cartão para largar mão de ser besta. Vem outro rapaz. Coloca o balde na mesinha. Dou uma gorjeta no valor da caipirinha. Volto para a maquiagem e levo um beliscão do curvador de cílios. Sinto vontade de chorar. Ligo a televisão e está passando As Pontes de Madison que com champanhe fica ainda mais triste. Vou borrando a maquiagem até o fim da garrafa. O vestido justo pendurado, mole, cheio de preguiça. O salto doendo nos pés ainda descalços. Sinto um desânimo enorme e me lembro da minha avó deitada, camisola bordada, tercinho na mão, com pena da gente indo para o baile em Guaxupé. Agora eu sou ela na sua cama confortável. Peço um sanduíche que vem com batata frita e picles debaixo da tampa de prata. Coca-Cola. Me esparramo no sofá embrulhada no robe macio assistindo Seinfeld. Ái, o Copacabana Palace!

Um cérebro encolhido

Posted on 28 novembro, 2017

Minha mãe já tinha feito a observação de que estou emburrecendo quando não respondi de pronto uma pergunta dela. Vindo dos rigores da minha mãe, tendo sido criada por ela, a crítica não incomodou. Fiz uma malcriação, corri para acertar a resposta, ela nem ouviu e estava resolvida a questão. Agora, não muito tempo depois, alguém comenta sem fazer alarde que o cérebro das pessoas encolhe com o tempo, o da população como um todo, não apenas o das mulheres como poderia sugerir a piada. Não há uma idade certa para que isso aconteça, com o correr dos anos, já não usamos todas as células do cérebro e ele vai diminuindo. As dezenas de perguntas sobre os detalhes dessa maldição genética ele não sabia responder e nem estava interessado, aceitava os desmandos da natureza humana. Saí como louca usando as poucas células que me restavam para escrever listas com informações importantes, datas de aniversários, contas a pagar, textos de gaveta, receitas, para que quando a coisa apertasse eu pudesse, pelo menos, rever a lista e seguir com a vida em dia. Burra, mas cumpridora. Consultando especialistas em sites na internet, entendi que passamos a usar menos células do cérebro e as sedentárias vão se acomodando até não terem mais serventia. Vamos ficando mais seletivos com o que absorvemos, encostamos informações inúteis que só aceleram os pensamentos num fliperama mental e trabalhamos apenas com o essencial. O cérebro, ressentido, então se vinga encolhendo. Além das listas, tentei colocar num texto minha ultimas palavras inteligentes, as que selecionei entre milhares de supérfluas, as que ainda cabem no meu cérebro retraindo-se acelerado. Sob pressão, cada minuto perdido uma célula a menos, a voz da minha mãe abrindo caminho, não consegui desenvolver nada interessante, estava fadada a conviver com o que as células julgassem útil. E se eu não concordasse? E aí uma idéia me reconfortou. A de que eu poderia pensar firme, incessantemente, em coisas consideradas importantes para quem gosta de bicho, de mar e rio, de gente excepcionalmente simples, de criança brincando, de futebol. E guardando essas informações na cabeça, sem deixás-las escapar, eu teria selecionado a porção realmente útil para me sobrar no cérebro.

A touca

Posted on 19 novembro, 2017

Era culto, educado, intelectual e tinha um sobrenome que me transportava para o leste europeu. Eu adorava fazer esse comentário. Fotógrafo. Conhecia o que era relevante no mundo. O resto, Bahia e afins, visitou pela literatura. Emocionava-se às lágrimas durante o concerto, no final do poema, diante da imagem pendurada no museu. Eu fingindo sensibilidade igual. Fazia análise três vezes por semana. Neurótico e atormentado como eu sonhava ser. Lindinho e perfumado. Tomava banho de touca quando não queria molhar o cabelo. Podia tudo. Tinha letra feia e escrevia muito bem. Articulado. Participava de intrincadas discussões sobre cinema e política quando ainda era de esquerda. A barba perfumada do charuto que ele fumava exalando inteligência.
Eu tinha a tendência de idealizar as pessoas, sobretudo os homens, na época, mais poderosos, destacados nas suas áreas, um tom acima das mulheres. Com irracional atração machista, entregava a eles o coração e o meu desejo. A esse, aparentemente mais frágil, mas igualmente superior, entreguei também a auto estima. Sabia que para me aproximar daquela imagem encantadoramente imperfeita, os defeitos assumidos sem medo, eu escondendo os meus, teria que matar, não no sentido figurado, meus pais, meus professores, minha terapeuta e talvez a mim mesma para nascer de novo. Ele era o avesso do avesso do avesso do avesso e eu não conhecia poesia concreta nem a musica. Quando de touca no chuveiro, deixava a barba ensaboada à mostra e me confundia com sinais tão contraditórios.
Uma noite, em Campos do Jordão, deitados na grama de mãos dadas, o céu por testemunha, disse que estava apaixonado pelo amigo. Fiquei em dúvida se deveria recolher ou manter a mão. Mantive para não dar bandeira. Tentei parecer sofisticada e natural, fazer observações inteligentes para a situação e não sair rolando aos gritos pela grama como tinha vontade. Ele chorou. Continuamos a olhar para o alto, perguntei se me queria perto para ajudá-lo naquele momento difícil que eu mesma não compreendia e quando ele se levantou sem responder, continuei ali imobilizada pelo susto até o corpo doer. Passou para quatro sessões de terapia por semana. Com inveja da complexidade do que ele vivia, decidi que poderia ser uma opção para mim também. Me emprestaria a profundidade e o mistério que eu não possuía. Com ares lascivos, aproximei-me de meninas bonitas, sensuais, delicadas. O cabelo, os olhos, o perfume, a personalidade, sobretudo a atenção que algumas me dispensavam num flerte imaginário. Toquei, cheirei e nada. Nenhuma sensação próxima das que eu conhecia com os homens. Eu era uma mulher comum, óbvia, cem por cento heterossexualmente resolvida. Não seria por ali a minha ascensão às profundezas da alma.
Numa conversa, já sem sermos um casal e sendo porque gente sofisticada continua sendo, deixei-o saber que eu também tinha passado por uma crise de gênero. Soou tão artificial e fora de contexto que ele fez uma vírgula e seguiu o raciocínio sobre um documentário que estava filmando. Nunca mais o vi. Soube que encaretou, tornou-se conservador, assumiu os negócios da família, mulher, sogra, filhos e tal. De tudo, o que me intriga é se ele manteve a touca no banho.