Casando-me

Posted on 3 setembro, 2018

Quando me casei pela primeira vez, eu tinha 14 anos e sabia exatamente o que estava fazendo. Posicionei o menino no altar, caminhei de volta até a porta da Catedral de Guaxupé e, com um buquê de flores colhidas na praça, fiz a entrada triunfal, passo a passo com paradinha e tudo, até encontrá-lo novamente no alto com a expressão quase tão sofrida quanto a do enorme Cristo crucificado atrás. A ordem era para que ele não se movesse até a chegada da noiva e então, que me desse o braço e me acompanhasse até a saída, com seriedade, como se os convidados, distribuídos pelos bancos da nave, estivessem nos observando. Apesar de um ano mais velho e pelo menos 30 centímetros maior do que eu, ele obedeceu sem negociar. Sabia que era assunto serio e que se seguisse à risca, talvez eu topasse brincar de briga de galo, montada nos seus ombros para derrubar um casal de primos na piscina do clube mais tarde.
Muitos anos e alguns casamentos depois, ele não achou estranho me encontrar com três filhas numa livraria em São Paulo. Disse, dando risada, que sempre desconfiou que esse era o meu plano. E que só encarou porque eu era excelente parceira na briga de galo.

O fusca

Posted on 26 agosto, 2018

Papai intermediou a negociação do fusca entre o tio Marcos e o primo Marcelo. Um modelo 79, branco, único dono, quase todo original e em excelentes condições. Chapa de Guaxupé. Foram os entusiásticos elogios numa festa da família em São Paulo que despertaram o interesse do primo, cujo primeiro carro foi justamente um fusquinha, só que azul claro, herdado do avô. Quase todo mundo que teve um fusca um dia diz sentir saudade. Não no sentido de querer tê-lo novamente ou até, mas sobretudo uma melancolia, a constatação de que o carrinho, chamado assim para quem olha para trás, foi cúmplice e parceiro daquele trecho da vida. Dizem que o fusca nunca deixou ninguém na mão, acho que é também dessa lealdade que falam. Movido por todos esses sentimentos e alguma vaidade, já que dirigir um fusca conservadíssimo hoje em dia é atenção certa, o primo tomou um ônibus e mandou-se para Guaxupé, onde encontrou o carro encerado, reluzente, um agrado que meu pai fazia a ambas as partes. O orgulho de ter apresentado quem não queria vender a quem nunca tinha pensado em comprar e realizado o negócio com sucesso. É que o tio tinha uma dificuldade enorme de passar o carro para a frente, nem usava, nem vendia, gostava de saber que ele estava lá, há 39 anos devidamente coberto por uma capa de lona na garagem da fazenda. Só tomou coragem decisiva e à contra gosto quando lhe roubaram um trator e ele percebeu que estavam de olho nas suas posses. Comentou mineiramente na mesa do botequim, voz e olhos baixos, como quem não faz questão que é para não tirarem vantagem dele. Os outros, igualmente mineiros, não demonstraram o interesse que talvez tivessem. Quando o tempo andou é que a coisa se deu na oferta do meu pai. O primo desembarcou e já estava tudo acertado. Passou o dia dando voltas, testando os pneus nos paralelepípedos da cidade, reconhecendo o motor, abrindo e fechando a porta, metendo a cabeça dentro, passando a mão na lataria. Convencido, puxou a antena, ligou o radio e seguiu de volta para para São Paulo cumprindo os 80 quilômetros por hora sinalizados na estrada com a prudência que ele agora tinha ao volante. Foram ultrapassados pelos outros carros e mesmo por um grupo de ciclistas, nenhum outro fusca para comparar. Mergulharam na Marginal, sentiram a pressão da metrópole,
e estacionaram na garagem da casa, em Pinheiros, de onde o carro ainda não saiu e isso já faz dois meses.

No rádio

Posted on 20 agosto, 2018

– Foi aí que você resolveu participar da corrente espiritual da nossa catedral, irmão?
– Foi, pastor, tava tudo dando errado na minha vida. Minha mãe morreu, separei da esposa, minha sócia no salão não queria que eu trabalhasse feminino, só masculino nunca deu dinheiro, e foi quando eu sofri o acidente. A carreta de um caminhão carregado de areia abriu e me enterrou em frente do salão, os clientes tudo viram. Tou com dezoito pino no corpo.
– E agora sua vida deu uma reviravolta, irmão?
– Deu, pastor. Casei de novo, minha esposa, a mãe dela, foi quem me apresentaram para a Glória do Senhor na igreja, Deus abençoou minha sócia levou ela prá outro salão, ampliei o meu pro feminino e estética, deu até prá comprar um Golzinho, é velho, mas é meu. Em nome de Jesus não saio mais da corrente perimetral.
– Espiritual. Amém?

Dona Costura

Posted on 4 agosto, 2018

Dona Costura trabalha aqui?, fiz a piada com a plaquinha na entrada da loja. Trabalha, sim. Pera que eu vou chamar. Ô Costura, vem que tem cliente! Desfilando em traje típico, fita métrica pendurada no pescoço e óculos na ponta do nariz, almofada de alfinetes no pulso, chinelo com meia curta, ela surge de dentro da escuridão do que parece ser o depósito. A dona ou gerente do lugar, uma loira bem arrumada e algum exagero na maquiagem, sai de perto como se quisesse não ter nada a ver com o que se passa naquele canto onde se conserta roupa imperfeita. Nas vitrines dela, impecáveis modelos de gosto duvidoso. Abro a sacolinha de papel e retiro três camisolas compradas num comprimento para mulheres mais altas do que eu. Aquilo andava me incomodando um tanto pela estética mas, sobretudo, porque sendo longas, elas enroscam nas pernas e nem sobem nem descem, ficam feito canga molhada na volta da praia. A loira espiou com o rabo do olho. Dona Costura, nascida Izilda, me contou quando ganhamos intimidade, estendeu uma a uma sobre o balcão, elogiou e me pediu para vesti-las no provador. Fiquei constrangida de estar invadindo o espaço da clientela da loira embora não tivesse entrado ninguém desde que cheguei, exceto um homem com calças para fazer a barra. Saí do provador com a primeira camisola no corpo, decotada, alguma coisa transparente e abaixo do joelho. Fica na luz para a gente marcar direito, isso é coisa fina, olha aqui, mostrou o acabamento virando o tecido do avesso. Segurando meus braços, me posicionou como um dos manequins da loja, à vista de quem estivesse passando pela rua movimentada e com os alfinetes na boca, foi subindo a barra até onde considerava que uma moça de boas pernas, fez uma média, deveria usar. As pessoas vinham pela calçada e davam comigo de camisola de alcinha no vão entre os manequins com figurinos de inverno. Izilda agachada aos meus pés explicando porque tinha que fazer tudo ela mesma, as ajudantes eram preguiçosas e enjoadas, falavam mal das roupas das clientes, querendo ser o que não eram. A gente tem que ter orgulho do que faz, não acha? Quando soube que eu era jornalista, perguntou sem levantar os olhos se o país estava em crise mesmo. Ela achava que era só boato, que a vida das pessoas não tinha mudado nada. Pobre seguia pobre, rico seguia rico. Concordei. Levantou-se, eu de camisola encurtada e aproveitou a oportunidade para tirar a dúvida: Me diga a verdade, a Folha é comunista?

Nas entranhas do DETRAN – Parte 1

Posted on 26 junho, 2018

 

Apontei para mim mesma desacreditando. Eu??? O guarda, armado de metralhadora ou coisa enorme parecida, confirmou com a cabeça e indicou o meio fio onde outros carros eram revistados por fora. Só pode ser grana, falei mais uma vez comigo mesma, observando que os carros parados pareciam novos e de boas marcas e que, enquanto os policiais sadicavam os motoristas em seus carros blindados, dezenas de motoqueiros desfilavam pela avenida aliviados dentro de seus capacetes.
-CNH e documento do carro, por favor.
-CNH…
– Carta de habilitação. Tire do plástico , por favor.
-Seu IPVA não foi pago.
-Não pode ser, moço. Checa lá. Eu me lembro claramente ( mentira, estava em dúvida agora).
– Já checamos.
– Tão rapido? Por favor, olha direitinho de novo ( mais tarde, me contaram que um acessório novo indica de longe, pela placa, qualquer irregularidade).
– Está vencido.
– Moço, se o documento estiver em casa, eu vou voltar aqui, juro.
-Vamos ter que reter o veículo.
-Como assim? Vou deixar o carro aqui?
– Vai ser guinchado.
-Ô meu Deus, ele nunca subiu num guincho antes. Maltrata muito? Mandei lavar essa semana. Onde eu pego de volta?
-Diadema.
-O senhor tá brincando.
-Chave do carro.
-O que?
-Chave do carro, por favor. Aguarde a notificação, vou preencher na viatura.
Saiu sem pedir dinheiro. Olhei a carteirinha plastica com o nome do despachante e liguei. Como não sabia exatamente o que pedir, desliguei.
Meia hora depois, um sol de rachar, vou procurar o meu entre vários guardas. Meti a cabeça na viatura.
– Oi, vai demorar?
-Permaneça no veículo até eu terminar, por favor.
-Só queria dar uma apressadinha porque tenho queijo fresco no carro.
– Volte para o veículo.
Continuou escrevendo à mão. Tive pena da sua dificuldade com a papelada. País atrasado, pensei, mas não comentei. Pela janela, disparou a ordem.
-Pode retirar tudo do carro antes de sair.
Juntei as sacolas de supermercado com o que havia comprado para o jantar que ia oferecer mais tarde. Vinho numa caixa de papelão que o empacotador descolou no depósito. Deixei o cabo rasgado do aspirador e uma sacola com livros de psicologia da minha filha. Achei que ninguém ia se interessar. Peguei um taxi com um motorista com tanta raiva do mundo quanto eu.
– Filhos da puta! Pena que o Datena não vai sair candidato! Acabava com essa brincadeira!
– É.

Nas entranhas do Detran Parte 2 – O resgate

Posted on 2 junho, 2018

 

Para a liberação do veículo, o site do Detran pede que o infrator defina a que batalhão pertence a Policia Militar que o abordou na blitz. Nem sabia que era a PM. Nunca tinha pensado no assunto dos uniformes, exceto quando o prefeito repaginou os marronzinhos, agora amarelinhos, e a Cidade ficou Linda.
Às sete em ponto do dia seguinte, desço a escadaria da estação Armênia do metrô. A primeira senha. No guichê, soube que o valor, IPVA, multas e outras punições, teria que ser pago em dinheiro vivo ou no débito e eu não tinha nem uma coisa outra porque o valor ultrapassava o limite do cartão. Atravesso apressada o pontilhão atrás de um banco esquecendo que só abre às dez. Diminuo o passo e dou com simpáticas lojinhas de bairro e simpáticos vendedores. Comprei amêndoa e pistachio, dentaduras de açúcar, jujuba, miçangas coloridas, chita. Tudo por quilo. Passei por um barbeiro/bar, uma afiadora de alicate de unha e dezenas de portas com acessórios falsos para celular. Na padaria, onde me permitiram ficar por quase duas horas numa mesa com um copo de café, assistimos a Globo na Copa, pobres repórteres que, como eu, tentavam achar graça na desgraça que é cavar matéria nova todo dia. A fila na porta do banco já estava formada por três ou quatro idosos conversando. Eu com cem quilos de compras na bolsa. Outra senha. O rapaz do caixa tira o dinheiro, conta as notas e separa em montinhos com elástico me instruindo a distribui-los pelos bolsos. Alertou sobre os perigos do bairro. Pensei que ali quem não era assaltante era extremamente gentil. Abraçada nos meus bolsos, volto ao guichê do Detran, agora com centenas de pessoas com números de senha abaixo da minha. Pago uma pequena fortuna e recebo papéis que devo apresentar noutro guichê. Senha. Pediam cópias de documentos que eu deveria levar ao Detran de Diadema, mas que seriam carimbados ali. Dirijo-me ao xerox/lanchonete do outro lado da rua e espero a minha vez na fila entre pessoas que almoçavam ao longo do mesmo balcão. Na volta, nova senha, passei por um guichê exclusivo para despachantes, quem dera, e esperei ao lado de um casal muito simples, ela, mirradinha, ameaçando a sogra de morte “a véia desgraçada”, dois namorados segurando os capacetes da moto e se pegando de dar inveja, gente sentada, gente de pé, crianças correndo, a clientela diversificada. Chamaram o 154, agora eu já chegava espiando a senha do outro, eu com a 177. Entrego os documentos e a moça garante, eu fiz jurar, que ligava para avisar que eu podia ir até Diadema recuperar o carro. Não ligou. No dia seguinte, meti-me num Uber e, por minha conta e risco, mãe cê tá louca, parti para aquele município achando que era uma viagem, nem foi. Como desgraça burocrática pouca é bobagem, era dia de jogo do Brasil e o país parava de funcionar às duas da tarde. As ruas com ares de fim do mundo. O Detran de Diadema lotado. Entro, puxo a senha mecanicamente, fila, apresento a autorização do Detran de São Paulo. Sem a emoção que corresponderia ao momento, o rapaz anunciou que o veículo estava à minha espera no pátio a quinze minutos dali. Outro Uber. Esse, sem aplicativo e sem noção do destino: a senhora pode me dirigir, por favor? Claro, vamos trocar de lugar , tive vontade de responder. Lembrando um presídio, o gigantesco portão de ferro abria o suficiente para passar uma pessoa de cada vez. Uma multidão aguardava rendida o chamado para adentrar um puxado de laje sem ar-condicionado, receber uma senha e ser atendido, se é que se pode chamar assim, em três guichês fechados com vidro escuro, à prova de bala, diziam os que estavam há horas presos ali. No último guichê a placa com os preços, dependendo da categoria do carro, de quantos dias “usou” o estacionamento, taxa de guincho e tais. Outra pequena fortuna. De um pequeno alto-falante abafado, soando fanho, saíam os nomes e números das senhas dos infratores. O tempo correndo, o jogo se aproximando. A má vontade dos funcionários ajudando a apertar o relógio. Ninguém entedia o que o microfone dizia. Ansiosa, enlouquecendo de calor, postei-me com a ouvido colado nele e passei a fazer a tradução aos gritos. Vinha Walter Wilson da Silva, eu repetia Walter Wilson da Silva! Os gritos pelo Walter Wilson se multiplicavam pela multidão até o Walter Wilson chegar ao guichê. Um ou outro mais lento era carregado para a frente. Uma senhora mostrou a mancha roxa no braço e contou que ao receber a chamada para o resgate do carro, arrancou a agulha da hemodiálise e correu. Outra passou o lencinho de papel para um rapaz suando: tá limpo, pode usar, só chorei nele. A menina da vez tentava escrever o nome com a mão esquerda, a direita engessada. Num misto de generosidade e desespero, me ofereci para preencher o formulário por ela e já estava no sobrenome do meio quando ouvi o grunhido do outro lado do vidro dizendo que só ela podia fazer isso. O jogo chegando. A turma se tornando inquieta. Um homem tremia tanto que não conseguia contar o dinheiro. Depois de xingar aos palavrões o Detran, o governo, o time do Brasil, as mães de uns tantos filhos seus, anunciou que ia fumar um baseado e voltava depois. Era de novo o cartão de débito ou dinheiro vivo. O pessoal, sempre na segunda opção, empurrava as pilhas de notas por uma pontinhola giratória de onde mal ouvia-se a ordem para finalmente dirigir-se ao pátio. Eu ajudando a despachar aquele e apressar o próximo. Vamos gente, prestenção, quer perder o jogo? Quando me chamaram, enlouqueci. Era como se fosse a chance de subir no ultimo helicóptero saindo de Saigon. Suada e sorridente, com ar de superioridade, abri caminho entre a turma de senha na mão e subi o ladeirão até o pátio onde os carros tomavam sol. Pediram que eu checasse o veículo, dentro e fora, entregaram a chave, digitei São Paulo no Waze, liguei o radio para ouvir o segundo tempo do jogo e segui para casa certa de que tinha me dado bem.

O sol

Posted on 28 maio, 2018

Num dia, desses em que os velhos e os gatos brigam pelo sol que atravessa as vidraças da casa, segui minha filha, sem aula por uma greve ou por outra, até a cama dela e nos deitamos bem pertinho uma da outra dividindo a mancha amarela esparramada ali. Ouvi longe os trabalhadores de uma obra gritando e rindo, gestalt operária. Na cama, os hálitos de hortelã e o cheiro de shampoo a um palmo de distância. O livro não durou nem um minuto nas minhas mãos e o celular dela também escorregou rápido para a colcha. Senti o calor de fora, o do corpo dela e, sobretudo, o da paz daquele momento que desde que ela era pequena não se repetia. A soneca da tarde é proibida para o adulto saudável. Em Minas, é um hábito mal visto, sinal de preguiça, coisa de índio vagabundo. Acorda-se com as galinhas e dorme-se pouco depois que escurece, sem espaço para cochilos intermediários. Arriscando-me a ficar mal falada, fiz que não ia e fui em silêncio atrás dela. Adolescente dorme sem pena de perder tempo. Senti saudade de quando era menina e me deitava com minha mãe depois do almoço para estudar, ela lendo a matéria para mim. De costas, fingia que estava ouvindo e, ela sabendo, dormia o sono seguro das pessoas que são amadas. Não se passou meia hora e eu acordei com o sol inteiro dentro de mim.

Cadarços amarrados

Posted on 19 maio, 2018

O louco atravessou a rua num passo curto e arrastado com os cadarços dos tênis amarrando um pé ao outro. Parecia louco porque estava sujo, tinha o cabelo desgrenhado, panos cobrindo o corpo e sobretudo porque não fazia caso da aparência de presidiário em fuga. Era a verdade naquele momento. A contraditória liberdade daquela fantasia traduzia sem rodeios o seu sentimento. Seguiu pela calçada caminhando com dificuldade, cabeça erguida, denunciando a pena imposta a ele por sua história de abandono. E quem viu, fez que não.

Extermínio

Posted on 12 maio, 2018

Os corpos foram exibidos com discreto contentamento de ambas as partes. Os donos da casa voltaram a dormir e os exterminadores sumiram na escuridão contando as notas. Fazia uma semana que os sons ecoavam da cozinha, ladrilhos e azulejos, como se uma alma penada viesse invisivelmente comer no meio da noite porque mal se acendiam as luzes e o barulho parava. A ração do cachorro começou a aparecer espalhada e uma banana mordida foi arrastada até o comedouro como sobremesa. Gentepragmática que era, deixaram os fantasmas para lá e enfrentaram a dura realidade da presença de ratos na casa. Num primeiro momento, armaram o chão de ratoeiras daquelas com cola, substituindo a medieval guilhotina metálica, sugestão do funcionário da loja de material de construção do bairro e esperaram o resultado que por alguma razão não veio. Estavam diante de criaturas mais do que rápidas, perspicazes. Deviam conhecer a armadilha, popular, antiga, citada em livros infantis com final infeliz para eles. Então, trancaram o pobre gato, um minúsculo exemplar preto e branco de rabo quebrado, recém adotado num abrigo, que nunca tinha dado fim numa única lagartixa, para que caçasse os roedores. Na manhã seguinte ao abrirem a porta, lá estava ele, o Kiko, em cima do fogão, com olhar estatelado, restos de frutas e pão deixados propositadamente à mostra, beliscados no chão. Muito tempo depois, o Kiko ainda tratava de se recuperar do susto dormindo aos pés do casal.
Ela então, armou-se de coragem, esperou o silencio da casa, posicionou-se de forma a flagrar a visita noturna. À certa altura, nem tão tarde, surge a ratazana, solitária, enorme, gorda, rabo longo e expressão assassina, muito à vontade, alargando seus limites até a sala e passa a roer… o tapete! Abusou. Correram as duas, ela aos gritos para acordar o marido, a outra a balançando o traseiro para debaixo fogão. De pijama, ele abre o computador buscando socorro e o encontra entre dezenas de exterminadores de pragas, aberto 24 horas. Em São Paulo, a gente resolve tudo desde que consiga pagar, comenta sem tirar os olhos da tela. Pouco depois das duas da madrugada, surge a dupla em camisetas da Sem Dó Nem Piedade – Extermínio de Pragas, armada de algum equipamento. O senhor quer acompanhar o serviço? Não, só quero ver o cadáver. Fecham-se na cozinha. Do sofá, ouvem as batidas e os guinchos do animal. Terminada a execução, apresentam o corpo sem vida e ainda ameaçador da ratazana. Enquanto um ocupa-se de sumir com a carcaça, o outro mostra o celular carregado de imagens de diversos ratos abatidos. Para o companheiro era um serviço como outro qualquer. Não para ele. Sentia prazer no que fazia, orgulhava-se de chacinar o inimigo. Despediram-se. Boa noite, senhores. Sempre à disposição.

Morrer em Minas

Posted on 2 maio, 2018

Quando a tia morreu, minha mãe mandou que eu fosse ajudar a vesti-la para o velório. Eu não tinha mais do que 15 anos e nunca tinha visto um morto de perto, na sua intimidade.
Naquele tempo, nas cidades do interior de Minas, quase todo mundo morria e era velado em casa. Vinha o médico, o padre e o pessoal da funerária, gente que provavelmente conheceu o morto desde criança, estudaram juntos, no atrevimento, tiveram um flerte. No caso da tia, que era bem mais velha e foi professora de uma geração inteira, a relação era de respeito e admiração.
O caixão ficou sobre a longa mesa da sala, debaixo do teto cinza com anjos, nuvens e flores pintadas à mão. Até que o sol se escondesse, as luzes coloridas dos vitrais atravessavam a parte superior dos janelões e pintavam o corpo com pinceladas surrealistas. De vez em quando, um passarinho distraído entrava e saía apressado dando-se conta de que não era lugar nem hora de errar o caminho. O rosto da tia estava coberto por uma rede onde os mosquitos zumbiam e eram afastados por alguma mão carinhosa.
Aquela era a sala em que, ao longo de seus 102 anos, ela recebeu a família para o lanche aos domingos depois da missa. Homens, não muitos, fumando no alpendre. Mulheres, dezenas delas, na copa, onde o som das conversas e risadas, das xícaras descendo sobre os pires, dos garfos nos pratos de bolo e do mastigar biscoito de polvilho atraíam mais as crianças do que o bate-papo masculino à meia voz. Na copa, os assuntos se cruzavam sobre a mesa feito bolinha de fliperama e não se perdia nenhum detalhe de nenhuma das conversas. Nós, as meninas, crescemos ali e, claro, afiamos nossos ouvidos à perfeição. Hoje, modéstia a parte, damos conta de acompanhar qualquer quantidade de conversas ao mesmo tempo. A cena ali, inclusive pela longevidade das mulheres da família, nos parecia eterna, congelada como as paisagens dos quadros nas paredes da casa. Brincávamos de amarelinha sobre os ladrilhos hidráulicos ou nos preparávamos com sacos de papel cobrindo a cabeça para caçar morcegos no porão. Debaixo da casa, o cheiro de umidade prendia a respiração. Suando, agitávamos vassouras de palha no escuro para obrigar os morcegos a voar e então, na gritaria da excitação, tentar abate-los, o que nunca aconteceu.
Quando entrei no quarto, a tia estava estendida na cama de casal apesar de ser solteira. Metidas no armário, separando roupas com a calma de profissionais experientes, outra tia, irmã mais nova dela, de cerca de 90 anos, e a empregada da casa que adorávamos e temíamos por ser a única autoridade sobre nós. A tia estava de camisola cor de rosa como se ainda dormisse o sono de quando morreu. Sobre a tampa de mármore do criado-mudo, varias caixas de remédio, o terço e um copo onde devia estar a dentadura, ou mentira, foi a força da minha imaginação porque sempre imaginávamos que ela tirava os dentes para dormir. Chamou-me a atenção seus pezinhos descalços pela primeira vez. E me lembro das varizes que ela escondia com meias grossas enroladas até os joelhos. Sob a transparência da camisola, pude ver os peitos que não fiquei olhando muito pela vergonha. Seu corpo estava amarelado apesar de ser a mais morena das tias. Fiquei ali parada, obedecendo a ordem da minha mãe, mas não tinha nada para fazer. As duas vestiram a tia sobre a camisola mesmo, como se fosse uma combinação, colocaram meia e sapato. Do resto, cabelo, batom, brincos e o colar de pérolas herdado da minha bisavó, alguém cuidou porque ela estava toda arrumada no caixão. O cheiro das flores e das velas era muito diferente do cheiro do café sempre perfumando a casa. Minha mãe estava muito triste, talvez por isso tenha me chamado para substitui-la na dura tarefa de preparar o corpo para aquele ultimo encontro. Uma prima começou a cantar uma musica religiosa e caiu mal, ninguém gostou da sua intervenção, mas a fala do padre lembrando as vantagens de se ir para o céu, mesmo cheia de erros de concordância, foi aprovada por todos. O caixão foi empurrado num carrinho aberto até o cemitério no alto da cidade. Que escolha infeliz, pensei. Porque diabos escolheram aquele lugar, já que quase todo dia morria alguém e a escalada pelas ruas de paralelepípedo era sacrificadíssima. Minha mãe ficou brava com a inapropriada observação. Acima do portão do cemitério, havia um escrito que sempre me assombrou: Eu sou o que tu és, tu serás o que eu sou. Enterramos a tia num túmulo grande onde já havia fotos e nomes de vários membros da família. Na saída, as pessoas pediam desculpas pelo desrespeito enquanto pisavam os outros túmulos mais baixos porque não havia espaço entre eles para caminhar.
A casa da tia foi posta à venda. O jardim virou um matagal e a área externa foi alugada para um estacionamento. Aboletadas em mesinhas na calçada da lanchonete ao lado, com a boca roxa de açaí, assistimos a procissão passar. Em Minas, a vida nunca perde o sentido.