Herói ordinario

Posted on 22 setembro, 2017

Chovia e fazia frio em Nova York. Procurei abrigo no primeiro cinema que apareceu no caminho. Ghost já tinha começado, mas não tive dificuldade de entender que o fantasma era o marido morto que atentava Demi Moore, a mulher mais linda que eu tinha visto na tela e que deu mole para ele mesmo sabendo que não seria uma relação carnal.
A sessão, no meio da tarde, estava praticamente vazia, exceto por um ou outro desocupado aproveitando a meia entrada concedida naquele horário. Tirei os sapatos molhados e os forrei com o NY Post, um tablóide delicioso, agora mais útil do que nunca, cheio de fofocas da cidade, colunistas divertidos e dicas confiáveis de mostras internacionais de cinema e teatro off off Broadway.
Pouco depois, entraram quatro bombeiros, devidamente uniformizados, capas cinza com riscas amarelas fosforescendo no escuro, enormes capacetes nas mãos, e aboletaram-se algumas fileiras à frente. Para ver o filme. Como assim? Bombeiros não podem ir ao cinema. Sentar-se perto de nós, mortais. Comer pipoca. Estariam cabulando o trabalho? Divertindo-se entre um fogo e outro? Não assisti o filme. Queria acompanhar cada movimento deles, uma risada, uma mexida na cadeira. Cadê o capacete? No colo, descansando. Pensei nas botas deles e voltei obediente a calçar os sapatos. Não cabíamos no mesmo ambiente, um sem gritaria, fumaça e ação. Estava desconcertada. A sobrenaturalidade do filme contaminando tudo. Quando a luz acendeu, levantei-me junto com os homens agigantados pelo uniforme e, ainda que não houvesse mais ninguém no corredor, caminhei colada a eles para saber o que viria a seguir. Será que voltariam a ser bombeiros, entrariam no carro e sairiam em disparada por Manhattan fazendo escândalo com a sirene ligada? Se isso acontecesse, estaria tudo resolvido, eu me sentiria em paz sabendo que o mundo continuava a funcionar como sempre, o mundano nas suas pequeninices, o super-heroico sobre nós, cada coisa em seu lugar. Eu precisava urgentemente que os bombeiros assumissem o seu papel supra-humano. Mas eles pararam na banca de jornal e compraram M&Ms.

Casamento

Posted on 18 setembro, 2017


Na cozinha só tem lugar para um. O outro entra, no máximo, como ajudante. Não que o outro faça questão de ter lugar ali. O outro adoraria estar tomando sol na piscina lá fora. Gostaria de estar escrevendo bobagens no computador muito além da bancada de mármore. Mas não é politicamente correto deixar o um sem reconhecimento. Cozinhar no final de semana, com ares de hobby, é trabalho duro, exige dedicação, vai além de umas pitadas disso ou daquilo. O outro deve colocar-se à disposição para as chatices desimportantes daquela empreitada. O um não concorda que seja desimportante cortar a cebola, amassar o alho, despelar o tomate, ao contrario, é exigente. Ái do ajudante que não fatiar a trufa como se deve ou se distrair no picar da cebolinha. Se não for para dispensar ao prato a seriedade que ele merece, que vá tomar sol ou rabiscar bobagens no computador. O outro, então, executa o serviço com respeito, de vez em quando, pergunta cheio de dedos e medo se é assim mesmo que o um quer. Ele espia apressadamente e diz que sim. O outro fica aliviado e feliz porque funcionam harmoniosamente até na cozinha. Chega a achar charmoso aquele pano de prato, o seu preferido porque foi bordado pela avó, sujo de sangue e gordura, jogado sobre o ombro dele. Anima-se. Aumenta o volume da musica. Se, no entanto, o um decidir que o outro não está prestando ajuda miúda como esperado, ele avança sem cerimonia sobre a intenção e mostra como seria de fato. É assustador. O outro tem vontade de fazer malcriação, de vez em quando faz, e ir embora. Esbarram-se, as facas cortando o ar, duas cuba é pouco, cotovelos batendo entre as cinco bocas, fica de olho no alho, o um dispara, vingando-se das ordens de uma vida inteira. O um pensa em silencio que faria melhor sozinho. Ou com a assistência da empregada, essa, sim, atendendo o que ele não precisa solicitar. O outro concorda. O embate é mudo para não desandar. O um beberica o vinho, o outro sabe que não deve beber e ajudar. Vai ser servido depois depois, na mesa, com ares de visita, fazendo que vê pela primeira vez o prato enfeitado que já viu nu e cru ali atrás. Comem analisando as dificuldades e conquistas daquela empreitada culinária e concordando, com observações gourmets, que está excelente. O um agradece. O outro saboreia o domingo.

Gato e rato

Posted on 30 agosto, 2017

 

Sentada no sofá, descalça, a escritora. Era uma manhã de sol e as janelas da aprazível residência dos meus pais, em Guaxupé, estavam abertas. Levantei os olhos do teclado, naquele olhar para o nada de quem busca inspiração e dou de cara com Piruá, o gato, saltando na minha direção com um rato na boca. Recolhi rapidamente os pés e gritei, ái, ái, mas a voz não saiu. O bicho esperneava atravessado entre os dentes do inimigo, a cabeça e o traseirão para fora. Como de costume, o gato só queria exibir-se sadicamente e demonstrar para a gente, e talvez para os cachorros presentes, como é esperto. Sem interesse no rato propriamente dito, logo abriu a boca e deixou cair a presa. O rato atravessou o tapete desnorteado e subiu a escadaria aos galopes. Eu atrás, saltitando de medo e anunciando que estávamos sendo atacados. Ninguém. Ele entrou num dos quartos onde as crianças estavam dormindo e ficou zanzando entre as roupas e os sapatos esparramados no chão, escondendo-se nos cantos escuros. Tentei assustá-lo sacudindo um travesseiro no ar, em silencio para não acordar as meninas e provocar uma comoção coletiva. Mas foi o chinelo atirado contra a parede que o obrigou a sair dali. Eu em cima da cama. As crianças desacordadas. A ratazana desceu novamente, escorregando em cada aterrissagem nos degraus, e seguiu em direção à cozinha, onde minha mãe trabalhava de costas junto à pia. Agora eu podia gritar e gritei. Ela não se moveu. Meu pai veio lá dos fundos com uma vassoura na mão e, em cinco minutos, encurralou e matou o bicho. Depois, pegou pelo rabo, jogou no lixo perto do fogão e saiu. Eu, transtornada, descrevendo a criatura repulsiva, seu olhar assassino, seus dentes afiados. Narrando em voz alta cada detalhe do que tinha sido uma das piores experiências da minha vida. Indiferente ao que acontecia, ainda sem se virar, minha mãe interrompeu: Se você já tiver terminado de escrever, vem me ajudar a picar a salsinha que estamos atrasadas com o almoço.

Amor em japonês

Posted on 27 agosto, 2017


Atsuo veio para o Brasil fugindo dos rigores da educação japonesa. Aos 19 anos, convenceu os pais de que o português era a língua do futuro. Fez alguns contatos e desembarcou em São Paulo com o dinheiro contado para dar certo em pouquíssimo tempo ou voltar. Dava expediente numa agencia de publicidade com sede em Tóquio e escritório em São Paulo. Conseguiu o estágio depois de passar vários dias sentado, de terno, na recepção da agencia. Alguém se compadeceu da sua situação e botou o menino para dentro. Com forte sotaque japonês, logo falava e entendia razoavelmente o idioma local, inclusive as armadilhas plantadas para ele pela turma da agência. Quando sentia cheiro de sacanagem no ar, perguntava sorrindo: Ironia, né? deixando claro que sabia que aquele assunto não era sério. Atsuo adorava a palavra ironia e sempre que podia lançava mão dela porque sentia que causava uma boa impressão, a de que era sofisticado na língua. Implacável consigo mesmo, fugia dos conterrâneos a maior parte do tempo. Não aceitava os convites para comer no japonês perto do escritório e poucas vezes acompanhou a turma no karaokê da Liberdade depois do expediente. Queria ser, temporariamente, cem por cento brasileiro. Foi adotado sem restrições pelo lado ocidental do escritório. Jogava futebol no time da agência para ver se, descontando os palavrões, ampliava o vocabulário suando a camisa. Dicionário em punho, enfrentava galhardamente uma batalha por dia. O português não se dobra fácil, tem regras austeras e, ao mesmo tempo, se permite exceções que traem qualquer cidadão distraído. Não Atsuo, um samurai aplicado, que preferia morrer com honra a viver sem ela, falando ou escrevendo errado.
Por fim, aconselhado por amigos e movido pelo natural interesse da idade, tentou a via romântica. Uma vendedora da loja da Havaianas do bairro, de cabelo colorido e tatuagem nos braços. O namoro, todo mundo sabe, é uma das formas mais rápidas e eficientes de se aprender um idioma. Se continuar dedicado e Santo Antônio ajudar, muito em breve, Atsuo estará totalmente integrado à língua e aos costumes locais. Havaianas e tudo.

Minas

Posted on 23 agosto, 2017

A chuva despencou pesada em Guaxupé e pegou a tia de surpresa, voltando do banco. Chegou em casa completamente molhada, chateada por não ter levado a sombrinha. Mas tia, porque a senhora não deu uma corrida? Eu, uma mulher casada, correndo na rua?

Cemitério

Posted on 16 agosto, 2017

Desde que minha avó morreu, todo domingo de manhã, minha mãe e a tia vão juntas ao cemitério, em Guaxupé. A ligação, cinco minutos antes de sair, seria só para combinar no carro de quem elas irão, mas a conversa tem a formalidade de quem respeita um telefonema: Bom dia, como passou a noite? Levantou muito cedo? E a novela, hein? Já encaminhou o almoço? E, então, partem para a avenida no alto da cidade onde, de braços dados, fazem a rota das lápides da família, inspecionando a sua limpeza e conservação. Munidas de flanelas, lustram as molduras das fotos coladas no mármore, tiram a poeira das esculturas de anjos e santos e ajeitam as floreiras, agora decoradas com flores artificiais, uma solução que relutaram a tomar, mas que comprovou-se prática e não de todo deselegante. Não há histórico de vandalismo ou roubos no cemitério de Guaxupé. O que as preocupa é o mau tempo, a chuva ou o vento, que maltrata a conservação dos túmulos. Depois, o que os outros vão dizer? Coitada, uma pessoa que foi tão boa e ninguém para cuidar direito da sua última morada!
Ir ao cemitério aos domingos é um hábito ao mesmo tempo, triste e reconfortante. Ali, estão enterradas a maior parte das pessoas com quem minha mãe e a tia conviveram na cidade, considerando família, quase família, como se fosse da família e os outros. Caminhando com cuidado pelo acidentado chão de terra, conversam e dão risada baixinho lembrando-se de cômicos incidentes de vivos e mortos.
No ultimo domingo, estavam as duas a ajeitar as flores do túmulo de uma prima, quando avistaram o coveiro trabalhando. Aproximaram-se e perguntaram quem seria enterrado ali. O senhor disse o nome e acrescentou que o velório, ao lado, estava para terminar. Demoraram um pouco a se lembrar quem era o falecido, o coveiro ajudou explicando que era pai de tal e tal, viúvo de tal e, como não estavam com pressa, resolveram dar um pulo no velório e fechar o programa: Era um homem bom, não custa a gente ficar um pouco lá. Quem sabe se hoje não almoçamos fora para variar?

O outro

Posted on 9 agosto, 2017

Funcionava em duas etapas. Na primeira, identificava a expectativa do outro. Na seguinte, tentava, caprichava, dedicava-me a atendê-la. Com o exercício incessante ao longo do tempo, modéstia a parte, fui me aperfeiçoando até chegar perto da perfeição. Tornei-me o Zelig de saia, um camaleão humano. Escapei de descargas elétricas e drogas que, no filme, tentam tratar a misteriosa anomalia psíquica do personagem. Aqui não há enigma, só um mimetismo grosseiro para garantir a segurança de não sentir-me excluída e, ao contrário, ser aceita, até amada, pelos pares através das suas imagens espelhadas. Os mais narcisistas, apaixonaram-se. Exaustivo, mas gratificante. Quando o exaustivo ultrapassou o gratificante e a preguiça desse trabalho todo já não valia sair da rede, as conquistas não valiam o território ocupado, virei o espelho para mim mesma e doeu o que vi. Encarei. E não é que a figura que me assustava era agora, na coragem, amiga? A auto-ajuda funciona em duas etapas. Identifico a minha expectativa e tento, capricho, dedico-me a atende-la. Só alegria.

Acidente

Posted on 29 julho, 2017

Passei o dia inteiro trancada num quarto de hotel em Nova York com Paulo Maluf. A Veja me pediu esse freela, pelo qual eu deveria ter cobrado três vezes mais. Não pela entrevista, uma animada conversa com o ego dele, mas pelo que veio depois. Do meu gravadorzinho impotente, transcrevi horas de um monólogo em que o então prefeito falava das pontes, elevados, túneis e outros feitos que encantavam os taxistas de São Paulo e outros tantos malufistas ferrenhos. Precavidamente, fiquei fechada no quarto enquanto as meninas brincavam de futebol na sala. No segundo tempo do jogo, entediadas, elas entraram com bola e tudo e, num chute certeiro, derrubaram e quebraram o computador. O gol quem fez, sejamos justos, foi a Manuela. O deadline era em menos de uma hora. Gritei e chorei e jurei trancafiá-las por toda a vida no porão escuro de uma casa que eu compraria com as moedas do porquinho delas. As duas correram assustadas, mas já não me interessava o seu sofrimento. Estava desesperada. Lavei o rosto, respirei fundo e tentei me acalmar para reescrever aquilo tudo. Não deu certo. Já não havia tempo para arrumar o computador e a matéria não saiu. Mais tarde, veio o pedido de desculpas que eu guardo até hoje para lembrá-las que a minha provável carreira de sucesso como jornalista fracassou por culpa delas.
“Mamãe querida, a Manuela sente muito por ter arruinado seu trabalho. Eu nunca mais vou ver você trabalhando de novo. Desculpe, com amor, Luisa e Manuela.”