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A mentira, eu e minhas pernas curtas

Posted on 2 dezembro, 2010

Estou num apuro danado desde ontem, quando meu marido me chamou para dizer que iria transferir uma multa para o meu nome, já que eu era a “condutora do veículo no momento da infração”.
Já estou acostumada a essa rigidez dele em relação às questões da lei e aceito os pontos que me cabem (na carteira), portanto concordei imediatamente. A saia justa aconteceu quando ele me pediu uma cópia da carteira de motorista e eu percebi que ela estava vencida. O meu problema não é estar impossibilitada de dirigir. É enfrentar o marido. Estou disfarçando até agora, empurrando a hora da verdade para frente. Ou tentando ganhar tempo para renovar o documento, o que deve levar uns 30 dias, pela minha conta.
E ele anda atrás de mim, cobrando: “Deixa o documento, Marina”. E eu: “Calma, estou penteando o cabelo. Não me apresse.” Dali a pouco: “Marina, cadê a sua carta de motorista?” Respondo com voz firme: “Nossa, que fixação! Esquece isso um pouquinho!”
Todo esse sofrimento porque eu não falei a verdade de cara. É assim o tempo todo. Raspei o carro? São três dias no Alemão, meu funileiro favorito, quase sócio. Os caras correndo com o serviço “engana marido” e eu de táxi para cima e para baixo inventando histórias sobre o destino do carro. Que deixei no escritório, que minha filha pegou emprestado.
Mas a mentirada não é privilégio do meu marido. Para me livrar da encrenca, ela vale para qualquer um. Quando ainda vivia em Nova York, um amigo me pediu que trouxesse um tênis para ele quando viesse de férias para o Brasil. Eu esqueci, claro, e quando cheguei e ele me ligou perguntando pela encomenda. Respondi que estava comigo. E tive que sair correndo para a Galeria Pajé ou coisa parecida atrás de um tênis que custou mais caro e com certeza era falsificado só para não contar a verdade.
Dizem que a mentira tem pernas curtas. Sou eu, com as minhas perninhas, a personificação da mentira! Não tenho esquemas elaborados, nem mentiras sofisticadas. É aquela qualidade mais barata de mentira, só para sair do aperto. “Cadê tal coisa que você ficou de trazer?” “Humm…Tá no carro.” “Então vai pegar!” Eu saio e volto três horas depois, suada, carregando o que deveria ter dito de cara que esqueci ou não quis trazer ou o que seja.
Certa vez, cismei que era aniversário de uma amiga. Eu era ainda menina, não dirigia, e minha mãe me levou até a casa dela. À noite e num dia de semana. Quando paramos em frente ao portão, achei estranho aquela casa toda no escuro, nenhum carro, nenhum movimento. Ainda assim, me despedi da minha mãe e desci. Quando a mãe da menina veio abrir a porta desconfiei de que havia algo errado. Ela estava muito desarrumada para um dia de festa. Mas foi só já na sala da casa, onde o resto da família assistia televisão de pijama e moletom, que tive certeza do desastre: a festa definitivamente não era naquele dia. A sorte é que o presente era pequeno, enfiei entre as almofadas e lá deixei. Fiquei sentada, fazendo cara de naturalidade diante da situação mais esdrúxula do mundo. Os minutos mais longos da minha vida. Depois, pedi para usar o telefone e falei baixinho para a minha mãe: “Vem me buscar rápido. E não dê os parabéns. Em casa eu te explico.”
Ninguém nunca tocou no assunto comigo. Uma gente muito educada.

Nina Horta

Posted on 31 agosto, 2010

Eu e a Milene, que trabalha em casa, somos seguidoras da Nina Horta. A gente acompanha os seus escritos desde sempre, temos livro, discutimos receita, comentamos seus posts no facebook. Tanto atrás do avental quanto à frente do computador, a Nina Horta é muito sofisticada e chique, mas disfarça bem e a gente até acredita que ela é uma de nós. Lendo seus textos, uma mulher tem orgulho dos seus objetos de cozinha, da força do seu fogão, da sua faca bem afiada, das frutas e legumes que compra, dos cheiros que identifica na feira, no pomar, no jardim e que traz para dentro de casa. Com ela compreendemos que gostar de comida é gostar da vida e que as nossas vidas cotidianas são muito mais saborosas do que se poderia imaginar. Durante muito tempo, imaginei como seria essa mulher pessoalmente e foi uma alegria imensa quando meu amigo Josimar Melo, crítico de gastronomia da Folha, contou que a conhecia e que era parcialmente responsável por ela se tornar uma colunista daquele jornal. Minha história com o Josimar é cheia de boas surpresas. Durante meses, namorei um rapaz que me mandava flores com bilhetes inacreditáveis, extremamente bem escritos, engraçados, românticos, inteligentes. Não há nada mais sedutor do que um bom texto ( de preferência com letra bonita). Me encantei com ele, em grande parte, por causa disso. Construí um personagem a partir dos seus escritos e o vesti com esse figurino intelectual. Muitos anos depois que o namoro já tinha acabado, descobri que o Josimar, que eu não conhecia na época, era muito amigo daquele rapaz e que, a pedido dele, escrevia os maravilhosos bilhetes para mim. “Nunca te vi, sempre te amei” é o nosso filme, um encontro carinhoso via literatura que dura até hoje.

Pedi ao Josimar fazer uma embaixada junto à Nina e nos apresentar. Coisa de gente simplória mesmo. Ele foi e fez. Trocamos emails, marcamos um jantar e ela disse que eu escolhesse o restaurante, imagine a responsabilidade. Pensei logo num de grife, mas que serve comida feita com carinho e criatividade, sem afetação ou carregamento, o Carlota, da querida Carla Pernambuco, que no final a Nina também conhecia e adorava. E lá fui eu, em uma noite de temporal em São Paulo, feito aquelas fãs que ganham o jantar num sorteio, encontrar minha ídola. Na porta do restaurante, meus óculos caíram e a enxurrada levou. Eram óculos de perto que eu uso para ler e que coloquei só para ver um recado no celular. Esperei minha convidada com a ansiedade de uma noiva. A Nina, além de tudo, é linda. Uma senhora elegante, de traços delicados e o cabelo branco preso num coque com muita personalidade. A Dona Benta, como se apelidou. É a avó que qualquer menina queria ter. Ou ser.
Nem nos apresentamos muito e fomos seguindo uma conversa parada lá atrás, de mulheres que gostam de tempero picante. Pena que, na época, eu estava usando aparelho nos dentes e não por vaidade, era uma daquelas experiências que o meu dentista vive fazendo comigo, a mulher que não sabe dizer não, agora um teste de gengiva.
O fato é que justo naquela semana eu estava com uma cerca de arame farpado na boca. Como aquilo estava me machucando demais, o dentista receitou uma pomada que eu passava toda hora, anestesiando tudo, inclusive o sabor da comida. Nem falar direito eu conseguia. Era um sofrimento enorme, mas coisa pequena para cancelar um encontro daquela importância. O que salvou foi o uísque que nós duas apreciamos e que dividimos logo de cara. Saboreei cada palavra, cada gesto dela naquele encontro improvável permeado pela benção do Josimar. Desde então, toda vez que leio a sua coluna, agora no computador, comento em voz alta: Deixa eu ver o que diz hoje a minha amiga Nina Horta! Só para matar a Milene de inveja.