Eu e a Milene, que trabalha em casa, somos seguidoras da Nina Horta. A gente acompanha os seus escritos desde sempre, temos livro, discutimos receita, comentamos seus posts no facebook. Tanto atrás do avental quanto à frente do computador, a Nina Horta é muito sofisticada e chique, mas disfarça bem e a gente até acredita que ela é uma de nós. Lendo seus textos, uma mulher tem orgulho dos seus objetos de cozinha, da força do seu fogão, da sua faca bem afiada, das frutas e legumes que compra, dos cheiros que identifica na feira, no pomar, no jardim e que traz para dentro de casa. Com ela compreendemos que gostar de comida é gostar da vida e que as nossas vidas cotidianas são muito mais saborosas do que se poderia imaginar. Durante muito tempo, imaginei como seria essa mulher pessoalmente e foi uma alegria imensa quando meu amigo Josimar Melo, crítico de gastronomia da Folha, contou que a conhecia e que era parcialmente responsável por ela se tornar uma colunista daquele jornal. Minha história com o Josimar é cheia de boas surpresas. Durante meses, namorei um rapaz que me mandava flores com bilhetes inacreditáveis, extremamente bem escritos, engraçados, românticos, inteligentes. Não há nada mais sedutor do que um bom texto ( de preferência com letra bonita). Me encantei com ele, em grande parte, por causa disso. Construí um personagem a partir dos seus escritos e o vesti com esse figurino intelectual. Muitos anos depois que o namoro já tinha acabado, descobri que o Josimar, que eu não conhecia na época, era muito amigo daquele rapaz e que, a pedido dele, escrevia os maravilhosos bilhetes para mim. “Nunca te vi, sempre te amei” é o nosso filme, um encontro carinhoso via literatura que dura até hoje.

Pedi ao Josimar fazer uma embaixada junto à Nina e nos apresentar. Coisa de gente simplória mesmo. Ele foi e fez. Trocamos emails, marcamos um jantar e ela disse que eu escolhesse o restaurante, imagine a responsabilidade. Pensei logo num de grife, mas que serve comida feita com carinho e criatividade, sem afetação ou carregamento, o Carlota, da querida Carla Pernambuco, que no final a Nina também conhecia e adorava. E lá fui eu, em uma noite de temporal em São Paulo, feito aquelas fãs que ganham o jantar num sorteio, encontrar minha ídola. Na porta do restaurante, meus óculos caíram e a enxurrada levou. Eram óculos de perto que eu uso para ler e que coloquei só para ver um recado no celular. Esperei minha convidada com a ansiedade de uma noiva. A Nina, além de tudo, é linda. Uma senhora elegante, de traços delicados e o cabelo branco preso num coque com muita personalidade. A Dona Benta, como se apelidou. É a avó que qualquer menina queria ter. Ou ser.
Nem nos apresentamos muito e fomos seguindo uma conversa parada lá atrás, de mulheres que gostam de tempero picante. Pena que, na época, eu estava usando aparelho nos dentes e não por vaidade, era uma daquelas experiências que o meu dentista vive fazendo comigo, a mulher que não sabe dizer não, agora um teste de gengiva.
O fato é que justo naquela semana eu estava com uma cerca de arame farpado na boca. Como aquilo estava me machucando demais, o dentista receitou uma pomada que eu passava toda hora, anestesiando tudo, inclusive o sabor da comida. Nem falar direito eu conseguia. Era um sofrimento enorme, mas coisa pequena para cancelar um encontro daquela importância. O que salvou foi o uísque que nós duas apreciamos e que dividimos logo de cara. Saboreei cada palavra, cada gesto dela naquele encontro improvável permeado pela benção do Josimar. Desde então, toda vez que leio a sua coluna, agora no computador, comento em voz alta: Deixa eu ver o que diz hoje a minha amiga Nina Horta! Só para matar a Milene de inveja.