Estou num apuro danado desde ontem, quando meu marido me chamou para dizer que iria transferir uma multa para o meu nome, já que eu era a “condutora do veículo no momento da infração”.
Já estou acostumada a essa rigidez dele em relação às questões da lei e aceito os pontos que me cabem (na carteira), portanto concordei imediatamente. A saia justa aconteceu quando ele me pediu uma cópia da carteira de motorista e eu percebi que ela estava vencida. O meu problema não é estar impossibilitada de dirigir. É enfrentar o marido. Estou disfarçando até agora, empurrando a hora da verdade para frente. Ou tentando ganhar tempo para renovar o documento, o que deve levar uns 30 dias, pela minha conta.
E ele anda atrás de mim, cobrando: “Deixa o documento, Marina”. E eu: “Calma, estou penteando o cabelo. Não me apresse.” Dali a pouco: “Marina, cadê a sua carta de motorista?” Respondo com voz firme: “Nossa, que fixação! Esquece isso um pouquinho!”
Todo esse sofrimento porque eu não falei a verdade de cara. É assim o tempo todo. Raspei o carro? São três dias no Alemão, meu funileiro favorito, quase sócio. Os caras correndo com o serviço “engana marido” e eu de táxi para cima e para baixo inventando histórias sobre o destino do carro. Que deixei no escritório, que minha filha pegou emprestado.
Mas a mentirada não é privilégio do meu marido. Para me livrar da encrenca, ela vale para qualquer um. Quando ainda vivia em Nova York, um amigo me pediu que trouxesse um tênis para ele quando viesse de férias para o Brasil. Eu esqueci, claro, e quando cheguei e ele me ligou perguntando pela encomenda. Respondi que estava comigo. E tive que sair correndo para a Galeria Pajé ou coisa parecida atrás de um tênis que custou mais caro e com certeza era falsificado só para não contar a verdade.
Dizem que a mentira tem pernas curtas. Sou eu, com as minhas perninhas, a personificação da mentira! Não tenho esquemas elaborados, nem mentiras sofisticadas. É aquela qualidade mais barata de mentira, só para sair do aperto. “Cadê tal coisa que você ficou de trazer?” “Humm…Tá no carro.” “Então vai pegar!” Eu saio e volto três horas depois, suada, carregando o que deveria ter dito de cara que esqueci ou não quis trazer ou o que seja.
Certa vez, cismei que era aniversário de uma amiga. Eu era ainda menina, não dirigia, e minha mãe me levou até a casa dela. À noite e num dia de semana. Quando paramos em frente ao portão, achei estranho aquela casa toda no escuro, nenhum carro, nenhum movimento. Ainda assim, me despedi da minha mãe e desci. Quando a mãe da menina veio abrir a porta desconfiei de que havia algo errado. Ela estava muito desarrumada para um dia de festa. Mas foi só já na sala da casa, onde o resto da família assistia televisão de pijama e moletom, que tive certeza do desastre: a festa definitivamente não era naquele dia. A sorte é que o presente era pequeno, enfiei entre as almofadas e lá deixei. Fiquei sentada, fazendo cara de naturalidade diante da situação mais esdrúxula do mundo. Os minutos mais longos da minha vida. Depois, pedi para usar o telefone e falei baixinho para a minha mãe: “Vem me buscar rápido. E não dê os parabéns. Em casa eu te explico.”
Ninguém nunca tocou no assunto comigo. Uma gente muito educada.