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Sem peso na consciência

Posted on 18 novembro, 2011

No auge de uma discussão, ela, vítima da tradicional perseguição familiar contra seus arroubos consumistas, decidiu topar a proposta do marido: “Te dou uma peça nova para cada quilo que você esvaziar do armário.” Otimista, armou-se de enormes sacos de lixo, entrou no closet e começou pelos sapatos. O critério era o peso, claro. Dois ou três pares de sandália de salto Anabela (de madeira), um par de botas de couro legítimo (mais pesado que o ecológico), um par de galochas (nem tem chovido tanto…). Os casacos de inverno foram saindo um a um, preferencialmente os mais longos, os coloridos e os de corte variado. Ficou um pretinho clássico.
Jeans, jeans, jeans, tudo pro saco. Camisetas promocionais que estavam guardadas para situações que, graças a Deus, não surgiram, como uma limpeza, uma caminhada solitária, uma mão de tinta num móvel. Lembrou-se de que o algodão puro é mais pesado do que o misturado e do que o 100% poliéster. Achou que nesse caso valia a pena manter menos peças e ficar no algodão, um luxo a que todo morador de país tropical deveria ter direito. De quantas pashminas eu preciso para me sentir charmosa no inverno? No final, encheu três sacos grandes. O marido e a filha pesaram um a um na balança do banheiro: deu 27, 31 e 22 , um total de 80 quilos. A partir de agora, ela tem carta branca para comprar 80 novos itens para o seu guarda-roupa. Sem ter que esconder as sacolas debaixo da cama!

Nego

Posted on 16 novembro, 2011

Quando viemos de Nova York depois de dez anos, achei que seria bom fazer uma avaliação do estado emocional das crianças, abaladas com a mudança para o Brasil e, sobretudo, com a separação dos pais. Contamos, em momentos separados, com a ajuda de dois terapeutas, “a Otávia” e “o Patrício”. Tava na cara que não daria certo.

Numa conversa na mesa, Manuela contou que uma colega estava tirando notas baixas e que a professora explicou que os pais da menina estavam se separando. “Eu mudei de país, de escola, de casa, meus pais se separaram, minha mãe se casou novamente e já vou ter um irmãozinho e nem por isso eu vou mal na escola!”

Aparentemente, elas lidavam com naturalidade com a questão dos meus casamentos. Uma ocasião, havia um grupo de crianças tomando lanche em casa e eu gritei da cozinha: “Nego, que horas são?”
“Quem é Nego?”, perguntou uma menininha.
“É assim que minha mãe chama os maridos dela”, respondeu uma das minhas.

Adolescendo online

Posted on 4 outubro, 2011

Fui buscar a Laura numa baladinha e ela veio toda assanhada, rindo e trocando mensagens pelo Blackberry. “O que foi, Lau, que você está tão feliz? Você ficou com alguém?”
“A-ham”, respondeu sem nem tirar os olhos do celular.
“Que nojo! Você fica beijando esses meninos de quem você nem gosta!”
E ela: “Mãe, se eu gostasse, eu namorava. Como eu só acho bonito, eu beijo.”

Outro dia ela me perguntou:“Mãe, o que é mais forte: estar apaixonado ou amar?” Eu, que sempre tenho uma resposta pronta pra tudo na vida, respondi sem pensar: “Ah, paixão é muito mais forte do que amor.” O carro, cheio de meninas de diferentes idades, seguiu em absoluto silencio.

“Mãe, terminei o namoro com o Lucas e ele me fez o maior desaforo no Facebook! Me chamou de vadia e tudo!”, contou quase chorando.
Tentei consolá-la: “Que horror, Lau. Mas não esquenta, é pura dor de cotovelo.”
E ela desesperada: “Mas 132 pessoas curtiram!”

Um detalhe de somenos importancia

Posted on 5 maio, 2011

Era aniversário do Helio, meu marido. Comprei vários presentes e à noite, a caminho de casa, parei no posto para colocar gasolina no carro. O frentista perguntou se eu queria ver o óleo e me lembrei das inúmeras vezes que ele me pede, sem sucesso, para fazer isso: “Sim, cheque o óleo”, respondi. O rapaz veio com aquele longo palito de metal que e´enfiado, como um termometro, no motor e anunciou que o óleo estava sujo, que seria bom fazer a troca.
Estava cansada e sem paciência, eram quase oito da noite, mas pensei: “Este, sim, é o presente” e concordei. Como, graças a Deus, nunca fiz uma troca de óleo na vida, achei que seriam cinco minutos, sem sair do carro. O frentista, agora acompanhado de um colega, informou que o serviço levaria cerca de 20 minutos, e que eu deveria esperar do lado de fora. Vi quando subiram o carro numa estrutura alta e começaram a operação. Sentada numa banqueta num canto do posto, tirei o celular e fiz fotos para documentar a aventura.
A certa altura, a dupla recomendou que trocássemos também o filtro. Sacudiram a peça no ar como se estivesse num estado inaceitável. Topei. “Vamos fazer isso direito. O Helio vai ficar muito feliz”, pensei. E quarenta minutos mais tarde, segui para casa, morta de fome, com a sensação de missão cumprida.
Quando ele chegou, foi aquela alegria! Fomos entregando os presentes que ele abria e, bem treinado, elogiava um a um. “E agora, o melhor de todos!”, anunciei. “Fiz a troca de óleo no carro!” O rosto dele se distorceu como se tivesse sentindo uma dor insuportável. Era uma expressão de horror. “Você está brincando, não é? Você não fez isso…” E eu sem entender: “Claro que fiz! Não foi o que você pediu?” Ele berrava: “Burra! Eu não acredito! Você não sabe que não se troca o óleo de carro novo? Não tem nem 5 mil quilômetros rodados! Agora perdemos a garantia!”
E as meninas riam muito, o que piorou a situação. “Mas você disse…”, tentei justificar. “Eu falei CHECAR o óleo! Em que posto foi isso? Eu vou matar esses idiotas!” Fiquei completamente desapontada. Emburrei, fui para o quarto, apaguei a luz e dormi. Ele jantou sozinho. No dia seguinte, pediu desculpas porque tinha ficado nervoso com uma coisa que, afinal, não era tão importante. E me tirou o carro novo.

Excentricidades paternas

Posted on 1 março, 2011

Dei de presente para o meu pai a biografia do pintor Marc Chagall, cuja história, sem trocadilhos, tem tons fortes. Judeu russo, atravessou as duas Grandes Guerras e sofreu com o nazismo na Europa. Ainda assim, em seus quadros, as imagens que mostram as atrocidades da guerra foram equilibradas por símbolos de esperança. Alguns dias depois, devolveu o livro dizendo que não o leria porque não gostava do trabalho de Chagall: “Ele rouba no jogo. Se faz de ingênuo, de inocente.” Não me aborreci. Adoro os quadros de Chagall e mesmo que não gostasse, leria a sua biografia. Paciência.

Meu pai é uma criança manhosa. Sempre foi assim. Na Páscoa, se os nossos ovos fossem maiores que o dele, emburrava. Minha mãe tinha que comprar tudo igual. E ainda no ano passado, na noite de Natal, peguei um rabo de conversa em que ele reclamava que os adultos não tinham nada para brincar no dia seguinte do Natal. O que, no caso dele, é uma mentira e uma ingratidão muito grande.
Sabendo como é, temos o cuidado de procurar um presente com que ele possa se divertir e não uma camisa ou uma calça que está precisando e que minha mãe insiste em nos recomendar já com a numeração, as medidas e tudo. Ele ganha uma almofada em formato de elefante que vem com porta-controles de TV na tromba. Ganha abajur com corpo de vaca que acende quando se balança o rabo. Ganha tinta, pincéis, material de marcenaria. Eu mesma dei para ele um carneiro de madeira e lã lindíssimo de pernas longas, tamanho natural, e está lá na sala, tomando conta dos porta-retratos, o que deixa minha mãe de mau humor.
Não basta para o menino. Ele chega na mesa e diz: “Sua mãe não quer me deixar pendurar na porta aquele cabideiro com cabeça de ornitorrinco que você me deu. Diz que é para levar para o quarto.”
Meu pai sempre gostou muito de animais. Tivemos muitos cachorros. Não um de cada vez, mas muitos ao mesmo tempo. Aos sábados, meu pai entrava no chuveiro com a cachorrada e depois ia liberando um por um. Eles chegavam na cozinha, na frente da minha mãe e se sacudiam para se secar. Por ultimo vinha meu pai, cheiroso. Aí ela perdoava.
Tivemos macacos, gatos, hamsters, aquários enormes, papagaios e até um jacaré que a empregada matou a vassouradas. Mas ele sempre gostou mesmo de aves. Fazia experiências genéticas na fazenda. Misturava pato com ganso, galinha com pavão. Vendia, trocava. Ainda o faz, agora mais sofisticadamente, pela internet. Compra e vende animais, troca informações, (aprendeu uma receita de biscoito pros cachorros e faz fornadas e fornadas para eles).
As crianças dizem que ele é invejoso. Toda vez que um neto ganha um bicho, ele fica louco e arruma um igual. Agora mesmo, lembram-se do gatinho da minha filha, o Meio-Quilo? Primeiro ele disse que o gatinho era magro, horroroso, depois ficou desesperado quando a viu se divertindo e conseguiu um igualzinho para ele. Chama-se Meu Guri.
Meu pai sempre ficou à vontade nesse universo animal. Em toda foto dele há um bicho. Tem uma nojenta, que as crianças amam, em que ele está beijando a mula da fazenda na boca. Não respeita nada. Pintou sobrancelhas nos cachorros galgos, que dizia se parecerem com figuras de Modigliani, só faltando as sobrancelhas finas.
E sempre que é cobrado por alguma incoerência ou heresia, defende-se com o argumento de que “isso é subjetivo” ou que “tudo é questão de ponto de vista”.
Só meu pai, católico de vela acesa no quarto, enriqueceria o presépio da família colocando entre os reis magos bonequinhos como o Snoopy, a Hello Kitty ou o Shrek, que ele roubou dos netos. Só ele para pendurar o Papai Noel gay cheio de purpurina que eu trouxe de Londres e que rebola quando se abre a porta.
Por que será que tendo um pai livre como esse, que se permite tanta coisa, eu nunca acreditei que era possível ser diferente e dar certo? Passei a vida toda tentando ser certinha e, por isso, inatacável. Só muito recentemente baixei a guarda. A melhor coisa do mundo é a gente se aceitar como é, acreditar, apostar no que somos e ainda, se possível, ganhar dinheiro com isso.

O toco

Posted on 19 janeiro, 2011

Tenho uma amiga que é a campeã absoluta de foras, tocos ou como queira chamar o momento em que um homem te deixa na mão. Dessa vez, o telefone tocou e a voz eufórica não me permitiu dizer alô:
” Você não vai acreditar! Sabe aquele cara bonitão, presidente da ONG Tudo Pelo Impossível?
“Sei.”
“Tá arrastando a maior asa prá mim.”
“Puxa, é mesmo?”
“É. Marcamos um encontro hoje naquele hotel chiquérrimo aqui em São Paulo. Ele mora em Curitiba, lembra?”

Fiz que sim. Mais tarde, ela ligou novamente: “Estou aqui  preparando a banheira, montei um clima super-romântico, velas, flores, talvez abra um vinho para relaxar”.
“Ai, que inveja! Bom, me conta amanhã como foi. Boa sorte. Uhu!”
Meia hora depois, ela de novo no telefone: “Ele está atrasado, mandou um torpedo avisando.”
“Tudo bem, mas vem vindo, não é?”
“Claro! Estou te ligando de pura ansiedade. Abri o vinho, vou colocar sais na banheira, quando ele chegar estarei na espuma perfumada.”
“Delícia, amiga. Super sensual. Boa sorte aí.”
Mais meia hora e é ela: “Ái, desculpe chamar novamente, mas estou achando estranha a demora. Vou abrir outra garrafa para enganar o tempo. E talvez eu saia um pouco da água porque já estou toda enrugada.”
“Faça isso, querida. Se embrulha num roupão, também fica sexy. Falamos amanhã. Aproveite.”
Duas horas depois o telefone me acorda. E´ ela: “Marina”, diz com a voz já meio pastosa, “ele não apareceu nem atende o celular. Eu tinha esperança de que o avião tivesse caído, mas nada. Está vivo e forte em algum outro lugar. Vou ter que pagar a conta e sair amanhã cedo. Mais uma vez.”