Dei de presente para o meu pai a biografia do pintor Marc Chagall, cuja história, sem trocadilhos, tem tons fortes. Judeu russo, atravessou as duas Grandes Guerras e sofreu com o nazismo na Europa. Ainda assim, em seus quadros, as imagens que mostram as atrocidades da guerra foram equilibradas por símbolos de esperança. Alguns dias depois, devolveu o livro dizendo que não o leria porque não gostava do trabalho de Chagall: “Ele rouba no jogo. Se faz de ingênuo, de inocente.” Não me aborreci. Adoro os quadros de Chagall e mesmo que não gostasse, leria a sua biografia. Paciência.

Meu pai é uma criança manhosa. Sempre foi assim. Na Páscoa, se os nossos ovos fossem maiores que o dele, emburrava. Minha mãe tinha que comprar tudo igual. E ainda no ano passado, na noite de Natal, peguei um rabo de conversa em que ele reclamava que os adultos não tinham nada para brincar no dia seguinte do Natal. O que, no caso dele, é uma mentira e uma ingratidão muito grande.
Sabendo como é, temos o cuidado de procurar um presente com que ele possa se divertir e não uma camisa ou uma calça que está precisando e que minha mãe insiste em nos recomendar já com a numeração, as medidas e tudo. Ele ganha uma almofada em formato de elefante que vem com porta-controles de TV na tromba. Ganha abajur com corpo de vaca que acende quando se balança o rabo. Ganha tinta, pincéis, material de marcenaria. Eu mesma dei para ele um carneiro de madeira e lã lindíssimo de pernas longas, tamanho natural, e está lá na sala, tomando conta dos porta-retratos, o que deixa minha mãe de mau humor.
Não basta para o menino. Ele chega na mesa e diz: “Sua mãe não quer me deixar pendurar na porta aquele cabideiro com cabeça de ornitorrinco que você me deu. Diz que é para levar para o quarto.”
Meu pai sempre gostou muito de animais. Tivemos muitos cachorros. Não um de cada vez, mas muitos ao mesmo tempo. Aos sábados, meu pai entrava no chuveiro com a cachorrada e depois ia liberando um por um. Eles chegavam na cozinha, na frente da minha mãe e se sacudiam para se secar. Por ultimo vinha meu pai, cheiroso. Aí ela perdoava.
Tivemos macacos, gatos, hamsters, aquários enormes, papagaios e até um jacaré que a empregada matou a vassouradas. Mas ele sempre gostou mesmo de aves. Fazia experiências genéticas na fazenda. Misturava pato com ganso, galinha com pavão. Vendia, trocava. Ainda o faz, agora mais sofisticadamente, pela internet. Compra e vende animais, troca informações, (aprendeu uma receita de biscoito pros cachorros e faz fornadas e fornadas para eles).
As crianças dizem que ele é invejoso. Toda vez que um neto ganha um bicho, ele fica louco e arruma um igual. Agora mesmo, lembram-se do gatinho da minha filha, o Meio-Quilo? Primeiro ele disse que o gatinho era magro, horroroso, depois ficou desesperado quando a viu se divertindo e conseguiu um igualzinho para ele. Chama-se Meu Guri.
Meu pai sempre ficou à vontade nesse universo animal. Em toda foto dele há um bicho. Tem uma nojenta, que as crianças amam, em que ele está beijando a mula da fazenda na boca. Não respeita nada. Pintou sobrancelhas nos cachorros galgos, que dizia se parecerem com figuras de Modigliani, só faltando as sobrancelhas finas.
E sempre que é cobrado por alguma incoerência ou heresia, defende-se com o argumento de que “isso é subjetivo” ou que “tudo é questão de ponto de vista”.
Só meu pai, católico de vela acesa no quarto, enriqueceria o presépio da família colocando entre os reis magos bonequinhos como o Snoopy, a Hello Kitty ou o Shrek, que ele roubou dos netos. Só ele para pendurar o Papai Noel gay cheio de purpurina que eu trouxe de Londres e que rebola quando se abre a porta.
Por que será que tendo um pai livre como esse, que se permite tanta coisa, eu nunca acreditei que era possível ser diferente e dar certo? Passei a vida toda tentando ser certinha e, por isso, inatacável. Só muito recentemente baixei a guarda. A melhor coisa do mundo é a gente se aceitar como é, acreditar, apostar no que somos e ainda, se possível, ganhar dinheiro com isso.