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A primeira pedra

Posted on 24 junho, 2012

Quando me lembro da triste história da iraniana Sakineh Ashtiani ― inicialmente condenada a receber 99 chibatadas pelo crime de adultério (pena que lhe foi efetivamente aplicada), e, mais tarde, à morte por apedrejamento, por trair o marido e tramar o seu assassinato ― a primeira coisa que me vem à cabeça é o absurdo desta punição medieval. Claro que carro blindado, insufilm, carteira falsa também são recursos medievais que adotamos na nossa rotina com extrema naturalidade. Mas é estranho pensar em marmanjos escolhendo pedras no chão e atirando com raiva contra uma mulher imobilizada. Um desgaste desnecessário em tempos de iPad, de cirurgia a laser de miopia, de massa pronta para bolo, débito automático, GPS e tantas outras facilidades do nosso cotidiano.
Me lembrei de um trecho do filme “A vida de Brian”, do Monty Python. A cena se passa na Judéia, ano 33 d.C. As mulheres, proibidas de participar dos apedrejamentos, muito comuns na época, compram barbas postiças e se disfarçam toscamente de homens para poder ir. Além das barbas, vendidas em bancas nas ruas como as dos nossos camelôs, há o comercio de pedras em diversos tamanhos e formatos, adquiridas a caminho da execução. No filme, o condenado é um homem acusado de blasfêmia porque profanou o nome de Jeová, e a massa de carrascos é formada basicamente de mulheres barbadas, excitadíssimas com a oportunidade de externar livremente a sua agressividade.
Não acho justo matar uma mulher que traiu o marido. Nem mesmo se ela tramou o seu assassinato. Vai saber. Pobre de quem tem que julgar a vida dos outros. No entanto, a meu ver, muitas mulheres poderiam ser apedrejadas para largar mão de besteira. Essas que carregam bichos de pelúcia quando vão viajar merecem uma pedra na cabeça. As que fazem voz de “cliancinha” para o namorado também. E as que espremem cravos dos maridos na praia e ainda elogiam o tamanho do bicho colado às suas longas unhas. Tenho vontade de apedrejar uma mulher que viaja com os pés descalços, expondo unhas pintadas e calos à vontade, no painel do carro. As que vão pegar as crianças na escola às 5h da tarde com roupa de ginástica e motorista, eu apedrejaria de inveja. As que estão congelando com microvestidos na fila da balada poderiam ser apedrejadas já antes de sair de casa. Mulher histérica que chora em show precisa tomar pedrada. As que dirigem feito homem, no mau sentido, competindo por cada milímetro de rua, xingando e mostrando o dedo do meio. Mulher que faz biquinho pra foto, especialmente se já tem mais de 30. E tantas outras.
Pensando bem, não há pedras suficientes.

Nem tudo está perdido

Posted on 9 junho, 2012

Eu e meu marido na ótica escolhendo óculos novos numa cena digna de Jack Nicholson e Diane Keaton em “Alguém Tem que Ceder”. Experimento uma armação colorida e ele me diz que estou linda, talvez porque não estivesse enxergando direito naquele momento. Ficar bonita de óculos é a última coisa que eu desejaria a esta altura, mas decido encarar o prejuízo com bom humor. A vendedora esperta não me chama de senhora e mostra várias opções extremamente alegres dizendo que combinam com “o meu astral.” Aprovei e contei para ela que na última vez em que estive ali, ela me deu um spray para limpar as lentes dos óculos. Joguei o frasco na bolsa e mais tarde, com dor de garganta, confundi com o frasco de remédio e mandei ver sabão na garganta. A história tragicômica teve efeito contrário e reforçou a depressão.
Ajudo a escolher os óculos dele também e me pego dizendo que armação cinza fica bacana com os seus cabelos grisalhos. Ele olha para o espelho resignado. Na hora de pagar, me diz que os óculos que gostei tanto serão o presente de Dia dos Namorados. Sorrio, dou um beijinho agradecendo e penso: “Ano que vem te dou uma bengala, no outro você me dá um aparelho para surdez, aí te dou uma dentadura…” Ele deve ter sentido a minha dor porque na saída propôs: “Vamos tomar uma cervejinha naquele boteco ali antes de ir pra casa?” e beliscou o meu bumbum.

Nas mãos da pedicure

Posted on 6 junho, 2012

“Eu poderia matar a mulher que inventou esse negócio da igualdade dos sexos!”, bradou a pedicure agitando o alicate no ar. Nem cogitei argumentar que não foi bem assim que começou a revolução feminina nos idos dos anos 1960.
Imobilizada em posição quase ginecológica diante da profissional de grande porte e personalidade idem, concordei com o discurso antifeminista dela: “Ficou difícil prá gente, não é?”
Ela seguiu sem perder o raciocínio: “Que vantagem Maria leva em trabalhar feito louca na rua, voltar pra casa e enfrentar sozinha a cozinha, a roupa e os filhos como quem esteve ali `a toa o dia inteiro?”
Preferi não dar corda para evitar que ela perdesse o foco e me mutilasse um dedo. Contemporizei: “Com o tempo os homens vão entender a nossa situação e colaborar mais. Veja os das gerações mais novas como já estão mais solidários”.
Mas, pelo visto, nada mudaria o destino daquela conversa: “Meu marido queima uma frigideira por semana no único dia em que ele tem que fritar os bifes porque eu chego tarde. Eu pego a frigideira e nem me dou ao trabalho de colocar de molho, jogo direto no lixo e mando ele comprar uma nova. Você acha que eu vou cozinhar em panela queimada?”, perguntou em voz alta.
“Aí complica”, falei, solidária, sem tirar os olhos do pé que ela manipulava com familiaridade. Pensei na comida dela e, para falar a verdade, fiquei meio enojada imaginando aquelas mesmas mãos pegando na massa de pastel.
“Eu trabalho para pagar as minhas coisas. Detesto abrir a gaveta e só ver calcinha velha. Não gosto de dar satisfação dos meus gastos. Já viu aquelas mulheres que fazem mercado com os maridos e tem que justificar cada produto que vai pôr no carrinho? Eu, hein?” Senti a pressão da lixa no calcanhar.
“Homem é tudo folgado. Meu irmão mesmo, se a mulher tá empregada, ele logo pede demissão e fica em casa. Então ela não trabalha mais. E exige tudo do bom e do melhor. Até da pílula [anticoncepcional] ele é quem cuida porque ela esquece. Nisso eu invejo ela.”
“A gente é orgulhosa e sai perdendo. O melhor é ser dondoca…”, não terminei a frase e ela emendou: “Meu marido é pintor profissional. Pois a panela de pressão estourou outro dia e deixou as paredes e o teto manchados de feijão. Pergunta se ele pintou? Tô eu lá esfregando tudo pra ver se sai. Eu queria era ver os pedacinhos do “célebro” dele agarrados no teto e eu limpando com Veja!” E caiu na risada.
Gargalhei junto, nervosa, sentindo o palito de madeira afundar nos cantos da unha.
“Tudo culpa daquela filha da mãe que inventou a igualdade. Queria matar aquela mulher. Você sabe se ela ainda é viva?”

O casamento morreu

Posted on 3 junho, 2012

Quando postei a foto do casal de noivos-caveira no Facebook com a legenda “O casamento morreu”, muita gente se apressou a desmentir a afirmação, sobretudo as mulheres, o que me pareceu uma tentativa desesperada e inútil de salvar a milenar instituição. Como se negar mil vezes a afirmativa fosse capaz de convencê-las e, especialmente aos homens, do contrário. A resposta rápida e incisiva das minhas colegas me assustou um pouco. O comentário era apenas uma brincadeira para não deixar passar em branco a oportunidade de mostrar o casalzinho de esqueletos, lembrança de uma viagem à Oaxaca no Dia de los Muertos.
Nunca fiz grandes análises sobre o casamento, talvez porque já desconfiasse de que o assunto não resistiria a uma acareação mais dura. Ao mesmo tempo, como desde que me casei pela primeira vez, e lá se vão alguns casamentos, nunca mais fiquei solteira, havia essa culpa mineira/católica de criticar uma coisa que me serviu tão bem até agora. Quando há muitos anos minha analista, uma mulher sábia e bem humorada, me absolveu de alguns questionamentos dizendo que hoje em dia seria ridículo exigir que os casamentos funcionem dentro das mesmas rígidas regras que os regem desde o seu nascimento (a fim de servir os interesses econômicos das religiões institucionalizadas), saí da sessão dando cambalhotas de alegria.
Não sei o que isso me permitiria fazer, mas aquela alforria para os meus sentimentos não muito nobres era suficiente para me colocar noutro patamar, lá em cima, junto dos meus amigos homens. Fora do âmbito familiar, eles expressavam suas insatisfações com os limites que o casamento impunha, e mais do que isso, entre eles, comentavam os prazeres de se vencer esses limites, no popular “pular a cerca”. A euforia durou pouco. Na realidade, não sei se por uma questão cultural ou hormonal, se é o medo das pedradas medievais ou o privilegio da maternidade, nós, mulheres, temos uma necessidade enorme de romance. É isso que nos quebra as pernas na pulada de cerca.

Ainda que se conquiste um pouco mais de liberdade a cada dia, a vontade de se dedicar de corpo e alma a um só homem (por vez) é maior do que a de se entregar a uma conquista passageira quase sempre despojada de romance. Conheço pouquíssimas mulheres livres nesse aspecto e mesmo essas, vez ou outra, acabam sonhando com flores no dia seguinte.