Manuela nasceu em Nova York, no dia 2 de novembro, Dia de Finados. Quando liguei para o Brasil para dar a notícia, minha mãe fez duas perguntas: se esse era o nome definitivo da criança e se não poderíamos registrá-la em outra data que não essa “tão pesarosa.” Até aquele momento, eu não havia me dado conta de que era Dia de Finados porque já estava morando fora há um bom tempo e lá esse feriado não existe. Alterar a data estava fora de cogitação. Era como se eu, prepotentemente, quisesse mudar a natureza ou as leis divinas. Achei ruim também que ela começasse a vida já trocando a data de nascimento. Uma mulher tem que escolher a hora certa de mentir. Minha mãe é mineira de Guaxupé, uma cidade pequena onde o Dia de Finados é uma data respeitadíssima em que as famílias correm ao cemitério numa espécie de gincana para ver quem enfeita mais o túmulo dos seus entes queridos. O cemitério fica no alto da cidade. Tenho lembranças assustadoras de longos e exaustivos cortejos pelas ruas de paralelepípedo atrás do carrinho com o caixão. No portal de entrada do cemitério há um recado naquele tom mineiro da religiosidade que não acredita em milagres: “Eu sou o que tu és. Tu serás o que eu sou.” Ontem, na visita que nos fez para se despedir, minha mãe comentou o clima pré Finados em Guaxupé. Disse que as tias sugeriram: “Porque você não traz umas flores diferentes de São Paulo?” e ela se sentiu cobrada por não enfeitar o túmulo dos meus avós com as últimas novidades do paisagismo. O medo da fofoca é que pega: “Diz que o túmulo de fulano está pobrezinho…Colocaram lá umas gerberas e pronto. Coitado, um homem tão bom…” Preocupada com os comentários e com medo de ficar para trás, minha mãe ligou aqui de casa mesmo e expediu a ordem para meu pai, em Guaxupé: “Pega o tesourão e corta bastante flor na fazenda, especialmente agapanto que eu gosto e traz para colocar no cemitério amanhã. Eu vou chegar na hora do almoço e aí já será tarde para ornamentar os túmulos. Vão falar.”
No ano passado, fomos passar o aniversário da Manu em Oaxaca, no México, onde o Día de Los Muertos é uma festança esparramada pela cidade toda, com barracas de artesanato, comida e bebida, muita musica, flores, velas, caveiras enfeitadas, bandas nas ruas e uma celebração animadíssima à noite nos cemitérios da cidade. Havia gente fantasiada de todo jeito, desde esqueletos, fantasmas e bruxas até lindas Fridas Khalo e caveiras de bigode. Assistimos parte de um casamento que se realizava entre os túmulos. O aniversário foi comemorado com um jantar temático em que o dono do restaurante, além das bandeirolas e velas com motivos tétricos, providenciou musica típica, arranjos de flores, toalhas e guardanapos coloridos e nos serviu pisco em garrafas decoradas especialmente para a ocasião.
Minha mãe ficaria horrorizada, mas era exatamente assim que eu via o aniversário da minha filha, um Dia de Finados às avessas, a celebração da vida em toda a sua grandeza, em todas as suas dimensões. O nascimento da Manuela no dia em que as pessoas se lembram dos seus mortos queridos, foi o recado mais acertado que eu poderia receber: a vida é maior do que nós.