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O ídolo

Posted on 28 dezembro, 2012

 

Adoro boxe. Quando morava em Nova York, fui diversas vezes assistir Mike Tyson, Sugar Ray Leonard, George Foreman, Evander Holyfield e outros nem tão famosos em embates memoráveis no Madison Square Garden. Era sangue e suor para todo lado e algumas vezes voavam cadeiras também. Encarei a breguice de Atlantic City e Las Vegas atrás de uma boa luta. Infelizmente, conheci Muhammad Ali, com quem sonhava todas as noites depois das lutas, já de terno e gravata, sem nenhuma chance de voltar ao ringue. Eu tremia mais do que ele que já sofria de parkinson na época. Fiz uma declaração de amor desavergonhada, falei da sua ginga, da atitude provocadora e da coragem que eu admirava e ganhei seu coração desenhado num pedaço de papel. O mesmo que, mais tarde, Tom Jobim também usou para rabiscar um elogio bêbado aos meus talento vocais. Assim, tenho em casa emoldurados os autógrafos sobrepostos de dois grandes homens numa história cuja única testemunha viva sou eu. mohammad_ali

A se pensar

Posted on 24 dezembro, 2012

Minha mãe reportando as dificuldades familiares em Guaxupé. A prima está aflita com a teimosia do irmão que tem glaucoma e está praticamente cego. Não aceita bengala, nem cachorro, nem braço de ninguém para andar na rua. Pior, ainda outro dia, chamaram a prima para ajudar a fazer um doce e ela não queria arredar pé de casa esperando ele voltar da fazenda para onde tinha ido dirigindo a caminhonete. Agora resolveu se separar da mulher. E a prima: “E cego pode ter esse enjoamento?”

A tia ficou viúva e a gente se preocupando com ela sozinha depois de tantos anos casada: “Não me parece infeliz”, alfineta minha mãe, “a casa, por exemplo, está toda enfeitada com luzinhas de Natal”.
A prima volta do banco encharcada de chuva. Minha mãe pergunta se não levou a sombrinha e ela diz que esqueceu.
-“E porque não correu quando a chuva caiu?”
-“Eu, uma mulher casada, correndo na rua?”

Minha mãe vai visitar a prima, não a encontra em casa e decide roubar um bom maço da erva cidreira com ares da Provence plantada no jardim. Chega em casa, faz um chá e toma uma xícara com meu pai: “Uma pena me desencontrar dela”. Dias depois, dá com a prima na rua e comenta o furto já adiantando que tinha gostado demais do chá. A prima esclarece já não mora naquela casa e que minha mãe não só tinha invadido a propriedade alheia como arrancado um maço de citronela, plantada há muito para o remédio de espantar mosquito, e não erva cidreira como ela pensava.

Maternidade

Posted on 19 dezembro, 2012

– Luisa, fico triste pensando em você sozinha aí em Berlim.
– Mãe, eu não me sinto sozinha.
– Monstro ingrato! Igualzinho como quando você era bem pequena e foi dormir pela primeira vez fora de casa. Eu perguntei:
-Sentiu saudades da mamãe?
E você, com a carinha mais angelical do mundo:
-Não.

Prá cima de mim?

Posted on 19 dezembro, 2012

Já faz muito tempo que a Milene, que trabalha aqui em casa, ganha flores na feira. Toda quarta ela volta carregando um buquê ou um vaso de uma espécie diferente. Diz ela que o “presenteador” não é da barraca de flores, mas da barraca vizinha, de frutas, e que deve ter um acerto com o colega, algum tipo de permuta. Cada semana, ele escolhe uma bem linda e faz a dedicatória : “orquídea para durar como o meu amor”, “girassol para aquecer a sua vida” e por aí vai. Ela deixa tudo aqui em casa para não ter problema na dela. Mulher séria que é, apenas agradece o galanteio e vem embora. E ái do rapaz que ajuda a carregar as compras se esboçar um sorriso de cumplicidade.
-Mas, Milene, tadinho, você nunca nem perguntou o nome dele?
-Tadinho nada. Mulher não pode ter pena de homem. Se fraquejar, acabam as flores e entra roupa prá lavar!

Lendo os sinais

Posted on 13 dezembro, 2012

Recém separada, ela encontrou um cara que namorou na juventude e ele a reconheceu no ato. Achou que era um sinal. Foi no balcão de frios do Pão de Açúcar num domingo de manhã, outro sinal. “Quem compra frios no supermercado a essa hora? Almas gêmeas”, concluiu. Ele vestia bermuda e camiseta para fora da calça, um detalhe determinante em homens na faixa dos 5o/60 anos. “Barriga absolutamente aceitável”, observou generosa. Contra as suas expectativas, que se deu conta de que estava de cabelo sujo, moleton e crocs “e  já não sou menina prá ficar engraçadinha nessa situação”, ele mostrou-se interessado. Trocaram telefones e combinaram um almoço no dia seguinte. Ela estava nervosa, há anos não saía com outro homem que não fosse o marido e não tinha certeza de que haveria tempo suficiente para se preparar, mas “a vida estava mandando sinais que eu não poderia desconsiderar”.

Não falaram sobre trabalho na curta conversa de menos de um quilo de frios fatiados. Em casa, correu para o facebook tentar saber se não seria esquartejada e colocada numa mala já no primeiro encontro desde a separação. O perfil dele era discretíssimo, advogado, poucos amigos, poucas fotos, sempre desacompanhado. “Um sinal positivo,não é?” Mesmo concluindo que ele não era um aficcionado, fez um “face lifting”, pequenos acertos no seu próprio perfil especialmente para a ocasião. Consultou as amigas diversas vezes para saber que fotos deveria manter, quais as que a envelheciam ou a engordavam: “Meu ex era péssimo nisso, acho que fazia de propósito para ninguém se interessar por mim”, que amigos “agregavam”, quais os que “entregavam” e por aí vai.
Sobre a sua formação e experiência profissional, achou melhor pegar leve para não assustá-lo. “Ele era maluquinho quando o conheci, mas pela armação dos óculos parece que evoluiu para conservador. Esses preferem que a mulher fique`a sua sombra, o que tudo bem, né? Já trabalhei tanto, posso ser dondoca agora”. Formada em engenharia na Poli , PHD em gestão urbana, é uma referencia na área de sustentabilidade.  Na onda dos eco-tudo, leva essa preocupação `as ultimas consequências, não toma banho demorado, consulta os sites das empresas antes de consumir seus produtos, é voluntária em organizacões ambientais, vegetariana, adepta de comida natural e orgânica. Limpou tudo isso do perfil , deixou apenas o ambíguo  “interesse em recursos naturais”.
No dia seguinte,  levantou-se `as 6h, foi ao salão, depilou todos os pelos depiláveis do seu corpo, fez mão, pé, sobrancelha, escova. Teve um insight, correu até o shopping e comprou um CD da Bebel Gilberto que eventualmente seria “a nossa trilha”. E partiu para o escritório dele onde haviam combinado de se encontrar. Na entrada, tropeçou na cabeça de uma onça estendida num tapete exótico. ” Achei que era uma brincadeira. Um sinal positivo porque eu também acho engraçado provocar as pessoas”. Na ante-sala havia um enorme urso de pé  com a boca escancarada e uma placa de WELCOME pendurada no pescoço. Sentiu um aperto no peito. Na sala dele, as pernas fraquejaram  com a visão estarrecedora de dezenas de cabeças de animais com chifre, sem chifre, olhos brilhando, olhos sem vida, toda uma selva decapitada e pregada nas paredes ao lado dos diplomas de Direito e  licenças de caçador. Para ganhar tempo e recobrar os sentidos, disse que queria tirar uma foto do lugar ” tão surpreendente” e se escondeu atrás do celular. Ele sorriu orgulhoso e ajeitou a cintura da calça, agora com a camisa por dentro e uma barriga enorme bem marcada. Ela ainda conseguiu aceitar o copo d’agua e saiu tropeçando nas carcaças, peles e couros distribuídos pelo ambiente. Anunciou que estava passando mal, que a pressão tinha caído e sem dar chance para que ele a alcançasse, fugiu dirigindo seu carro elétrico pela Vila Madalena e passou, sem perceber, pelo sinal vermelho.

Sem chance

Posted on 11 dezembro, 2012

Acaba a bateria do celular, minha filha não está na porta do clube como combinado, não encontro lugar para estacionar nem tempo para entrar e resgatar a adolescente folgada. Dou uma volta xingando no quarteirão mais engarrafado da cidade e vejo a saída óbvia: o orelhão! Paro o carro de qualquer jeito. Tento usar moedas. Não sei onde comprar um cartão. Já não consigo me relacionar com aquele que tantas vezes me salvou a vida. Sigo as instruções quase apagadas no aparelho e faço uma ligação a cobrar. Ouço a musiquinha que vem na contra-mão, agora sou eu e não ela pedindo socorro, e a ordem constrangedora de dizer meu nome e de onde estou falando. Faço malcriação: “É sua mãe e vou te matar.”
Ela desliga.

 

 

 

 

 

Papo de pescador

Posted on 11 dezembro, 2012

São quase 9h da noite quando meu pai liga me convidando para uma palavrinha no jardim que separa as nossas casas. Falamos sobre o calor, o gato dele que teve o rabo comido pelo cortador de grama, o livro Carcereiros, do Drauzio Varella, e outras amenidades. Aí ele abre a razão do chamado:
– Você e seus irmãos têm que organizar um jantar de bodas para mim e sua mãe no dia 24 de janeiro.
– E quantos anos de casamento vocês estão comemorando?
– Não importa. Posso dizer que são Bodas de Pedra Sabão. O fato é que eu precisava de uma desculpa para escapar da pescaria e foi a que me ocorreu na hora.
Há anos meu pai sai por cerca de dez dias com os amigos numa viagem de pesca ao Mato Grosso onde um deles tem um “rancho” , uma pequena casa de madeira que boia sobre tambores na água escura do Rio Arinos. O rancho é tão pequeno que, certa vez, eles inflaram um bote no seu interior e depois não conseguiram sair com ele de lá.Passam a temporada a pão, churrasco e o que pescarem, bebem tudo o que puderem carregar e se contam as mesmas histórias, com pequenas variações que a memória vai elaborando. Há códigos entre eles. Não esquecer o “colírio” significa lembrar de levar a pinga. Coisas assim, de homens maduros que são.
O longo percurso é feito parte de avião, um trecho de ônibus e um tanto de carro. Um deles, o que dirige a maior parte do tempo, fez uma cirurgia pesada na bacia e tem uma prótese na perna, detalhes que não incomodam ninguém porque ele desenvolve boa velocidade mesmo assim. Meu pai, que não é o cara mais preocupado com assepsia e tem hábitos só relevados por nós por se tratar de um “legítimo Motta intelectual e artista”, é quem limpa os peixes. Um outro, “um chato sistemático”, segundo ele, é o responsável pela lista do que cada um deve levar, pelos horários e pela divisão de tarefas. Graças ao chato, a cada temporada novos acessórios são acrescentados à bagagem, boné mosquiteiro, aparelho de medir a pressão, desfibrilador. Meu pai tem horror à regras, nunca carrega documentos e fica extremamente ofendido quando o guarda o pega em alta velocidade, sem cinto de segurança nem carteira de motorista: “Eu não acredito que você vai me fazer ir até em casa buscar”, argumenta mal humorado.
Na tal pescaria, a incompatibilidade com o colega metódico é quase incontornável quando, por exemplo, ele se aproxima da sacola térmica e o chato avisa:”Opa! Cerveja só daqui a 15 minutos!”
Todos os anos, o grupo avalia suas condições físicas, familiares e financeiras e invariavelmente decide que são as ideais para a viagem.
Aconteceu que um deles, o responsável pelo levantamento dos custos e controle dos gastos, sabe Deus se por cansaço ou culpa, resolveu levar a mulher. Meu pai, então, emburrou: “Assim eu não vou. Ela é muito boazinha, pode até ajudar a lavar as coisas, mas me tira a liberdade.”  A pressão cresceu e veio o recado: “Se você não for dessa vez, não precisa ir mais”. Aí, ele saiu com essa: “São as minhas bodas. Eu tinha esquecido. E os meninos fazem questão absoluta de nos oferecer um jantar.” O argumento irrefutável convenceu seus pares: “Eu poderia ainda ter dado um tiro de misericórdia acrescentando uma missa às comemorações, mas preferi não sadicá-los”, disse querendo cumplicidade.
Prometi confirmar a história se fosse consultada. Voltei para casa pensando se deveria ligar para meus irmãos e tratar de armar, de fato, uma festa no 24 de janeiro. Depois achei que era levar longe demais a conversa de pescador do meu pai.