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Nunca Fui Santa

Posted on 27 janeiro, 2013

Sou daquele tipo tão culpado que quando tentei terminar um namoro e o cara chorou, fiquei noiva para consertar. Do tipo que gostaria de jogar na loteria, mas não pode nem pensar em ganhar porque tem gente que precisa da grana muito mais do que eu. Do tipo que é atropelada por uma bicicleta e leva o atropelador para tomar água com açúcar porque ele se assustou com o sangue do meu joelho. Do tipo que quando pede férias para o chefe, ele diz que não dá: “E quem vai sofrer por nós na sua ausência?”
Que veio da conservadora origem mineira, católica, eu sei, mas para onde vai essa culpa? Para o corpo, diria minha analista, na forma de um tumor ou qualquer coisa assim. Para o espírito, eu pensava quando era criança: “Com tanto sofrimento, sou candidata a santa e só escapo dessa se começar a pecar, sem culpa, já”. Mastigava a hóstia na missa com gosto, mas comer o corpo de Cristo era o máximo que fazia sem me sentir imediatamente um monstro egoísta. Os outros tantos prazeres saboreei contando com a indigestão. Não há Engov para isso. Nada que se possa fazer antes ou depois para se prevenir do dissabor da extravagância espiritual. Contando que o mal-estar inevitavelmente viria, o prazer já estava comprometido desde a sua intenção. Bastava desejar e vinha a inquisição: quem é você para merecer?
Ninguém atravessa a vida sem alguma forma de padecimento. Para a dor que sentia nos ombros, o médico recomendou que usasse uma bolsa mais leve. “Mas é a cruz que carrego”, tentei explicar, ” não posso largar no meio da caminhada. Posso, no máximo, ir trocando de ombro. Me dá um remedinho que eu não paguei todos os pecados ainda”.
Muitas vezes, no auge do vigor da minha existência, cheguei a rezar pedindo a Deus forças para vencer as tentações que me levariam ao inferno ali na frente. Para me sadicar, uma amiga que não conhece culpa de nenhum gênero e que se guia apenas por seus valores éticos e morais, sugeriu que recorresse `as graças da santa de barba, cultuada desde o século XIV, na Igreja do Loreto, em Praga. Uma jovem muito bonita que sofria porque não gostava de ser cortejada pelos homens e queria se guardar pura e casta a qualquer preço. Tanto pediu e rezou que uma manhã acordou de barba e bigode, um milagre que a afastou definitivamente dos olhares lascivos dos machos da aldeia. Para castigá-la pela rebeldia e humilhação, o pai mandou crucificá-la com barba e tudo. Me tornei imediatamente devota da santa e mantive uma vela acesa durante muito tempo, mesmo desconfiando que ela fosse simpatizante da causa gay e não da minha.
Terceirizar  o problema não o resolveu, talvez por falta de fé. Na verdade, nunca torci para ser hostilizada pelos homens, ao contrário, gosto da atenção. Meu medo era de mim mesma e da minha vontade de engolir o mundo com uma energia que a igreja e minha mãe condenariam. Me estiquei no divã metade da minha vida para entender que quem precisava me absolver era o juiz rigoroso que carregava dentro de mim. Foi aí que se deu o milagre. Passou. Não a vontade, mas o medo e a culpa. Um dia, acordei consciente de que o inferno é aqui mesmo e que vou lidar com ele na medida em que pisar na bola. Passou no amarelo, vem a multa. Crucificada pelo DSV. Simples assim. Hoje posso usar, ainda que só mentalmente por questão de educação, uma expressão que sempre invejei na boca dos outros: foda-se.

O bom repórter

Posted on 17 janeiro, 2013

Estou com a equipe de TV no Little Italy, bairro italiano de Nova York onde a mafia operava, fazendo uma matéria sobre segurança na cidade. Numa das ruelas, uma procissão se arrasta lentamente. Crianças vestidas de anjo, mulheres levando velas acesas, Nossa Senhora bem acomodada numa espécie de liteira carregada por homens de terno. Uma banda acompanha o cortejo entoando marchas religiosas, o sol forte do verão novaiorquino refletido no metal dos instrumentos. Não é tudo. Misturado àquela multidão, vestindo um elegante terno cinza, está Al Pacino. Aí fica claro: flagramos a filmagem de O Poderoso Chefão!
O cinegrafista enlouquece com a oportunidade, liga a camera e começa a gravar as cenas do filme e o trabalho da gigantesca equipe que, aos poucos, vamos identificando pelos fones de ouvido, radios de comunicação, pranchetas nas mãos. Estamos afastados por um cordão de isolamento, mas é possível perceber que o diretor Francis Ford Coppola nos observa de longe. Arrisco e grito, agitando os braços: “Mr. Coppola, Brazilian TV!”  E, para surpresa geral, ele caminha na nossa direção. Vem calmamente, segurando um sorvete de casquinha e diz, educado: “Yes?” Eu congelo. O cinegrafista pede nervoso:”Pergunta, Marina! É nessa hora que se conhece o bom repórter!” Eu muda. Coppola lambe o sorvete derretendo. “Vai,Marina! PQP! Fala com ele!” Não consigo pensar em nada e, tocando seu braço, digo qualquer coisa como:”Sou sua fã. É uma honra estar aqui. Nem acredito!” Ele sorri, agradece e volta sem pressa para o set comendo a casquinha.
No escritório da emissora, assistimos o material dezenas de vezes tentando editar alguma coisa que fizesse sentido sem a intervenção vital da repórter. A matéria nunca foi ao ar. O cinegrafista nunca me perdoou.

Do que meu corpo se lembra

Posted on 11 janeiro, 2013

Dessas coisas que a gente acha que faz sem querer, estiquei o braço na estante de casa e pesquei um livro há anos disfarçado de livro lido. Como a capa é muito bonita, meus olhos podem tê-lo fisgado. O nome, What the Body Remembers, escrito por  Shauna Singh Baldwin, é também muito atraente e outras partes minhas devem ter atuado naquele momento. Mas o que se passa ali dentro só meu coração poderia intuir e querer.
Na India/ Paquistão de 1937, a menina pobre de 16 anos, torna-se a segunda esposa de um sikh, rico proprietário de terras. A primeira esposa, uma “senhora” de cerca de 40 anos, não conseguiu dar filhos a ele e pelas regras locais, uma nova mulher cumprirá esse papel, embora os filhos sejam criados pela primeira.
Pelas mãos de mulheres que circulam e falam sem parar, entramos no gigantesco palácio, iluminado pelo sol, assombrado pelo vento, perfumado pelas especiarias e colorido pelos tecidos indianos, onde cada esposa sofre a parte que lhe cabe no processo de rejeição e renúncia da irreversível vida a três.
A mais velha, preterida fisicamente, luta com todas as armas para manter seu lugar na sociedade e, sobretudo, no coração do marido. Responsável pela casa, aprecia os sabores da cozinha, os encantos da vida doméstica, supervisiona com rigor o desempenho dos empregados, recebe convidados ao lado do marido. Com ela, aprendemos que a ervas são espiãs e podem nos contar os segredos das pessoas. Depois de oferecer longos banquetes a homens poderosos, o marido pedia a ela que traduzisse as reais intenções de cada um deles e ouvia a leitura não muito imparcial que a esposa fazia desses convidados.
De outro lado, a menina de olhos e cabelos negros, é doce, frágil, carente e quer ser amada a qualquer custo. Descrita com sensualidade contagiante pela rival, “quando solta o cabelo, um rio escuro desce o vale de suas costas” e “o cor de rosa forte de seus interiores é a tinta viva pintando o prazer.” Tem saudades de casa, sente-se sozinha, desprezada pela concorrente, usada pelo marido e angustiada por ter que abrir mão dos filhos que eventualmente parirá. Ingênua, não entende porque seu corpo perfeito é objeto de tanta ansiedade.
A época é de tensão social provocada por disputas entre hindus, muçulmanos e sikhs e pelas mudanças que os ingleses causaram ao deixar a colonia e dividir o território entre India e Paquistão. Deliciosas discussões políticas, religiosas e culturais aproximam o primeiro casal. A primeira esposa é uma mulher inteligente, de personalidade marcante, empenhada na briga contra a invasão cultural inglesa, companheira de todas as horas. Como no ocidente, essas qualidades não são suficientes para que ela seja a única na vida do marido. Na disputa com a menina, que já herdou suas melhores roupas e jóias, perde o olhar desejoso e as noites de sexo e carinho com ele.
Muitas vezes tive que colocar  o livro de lado tanto me doía a luta dessas mulheres solitárias competindo pela atenção do homem. Tive pena de mim mesma e do meu esforço incansável para ser desejada, amada, única. Mulher Maravilha, capaz de prover tudo o que um homem precisa e deseja. Entristeceu-me pensar que vivemos uma fantasia mentirosa e infantil que cobra o melhor de nós e nos devolve frustração. Tive inveja dos homens, não porque se permitem mais, mas porque se satisfazem com menos.

Relatividade

Posted on 9 janeiro, 2013

Quando éramos crianças, a gente se entupia, literalmente, de jabuticaba na fazenda em Guaxupé. Não havia convite melhor. Era escutar “tá dando jabuticaba” e o coração diparava. A molecada se pendurava nas árvores salpicadas de preto e ia apanhando, chupando e jogando algumas no cesto lá embaixo para mais tarde. A única preocupação era com os marimbondos que disputavam as frutas conosco e mais nada. Eu achava que, assim como qualquer outra árvore, jabuticabeira não tinha dono. Nunca poderia imaginar que aquele gigante da natureza, que tem vida própria, que dura muito mais do que a gente, que existe para dar sombra e frutos, pudesse pertencer a alguém. Mais tarde, a escola confirmou minha visão quando nos mostrou a Carta do Cacique Seattle, de 1854, uma resposta `a proposta do governo americano de comprar suas terras: “Como podes comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal idéia nos é estranha. Se não somos donos da pureza do ar ou do resplendor da água, como então podes comprá-los?”
Hoje, escalando as jabuticabeiras da minha casa na praia, apostando corrida com os passarinhos para ver quem come mais rápido as bitelonas que ficam lá no alto, me entristece pensar que sou, efetivamente, dona delas e que nunca mais entenderei o mundo como então.

A felicidade por um fio

Posted on 8 janeiro, 2013

Pouco antes de embarcar para Buenos Aires, já no aeroporto, notei um fio de sobrancelha fora de lugar. Foi como se tivesse descoberto que meu marido tem uma amante e não conseguia pensar noutra coisa. Quis comprar uma pinça ali mesmo e arrancar a idéia fixa pela raiz. Não houve tempo, chamaram o vôo e segui vencida o meu destino. Na cabeça re-running a cena de um episódio do Seinfeld : “Acho que as sobrancelhas dela não são iguais. Incrível. As sobrancelhas dela são desiguais. Eu vou agüentar ficar olhando para sobrancelhas desiguais o resto da minha vida?”

Não sou muito vaidosa, ao contrário, muitas vezes peco pelo descaso com minha aparência, mas tenho “umas coisas” e cada um tem  “as suas coisas”. E´assim com as manias e cismas e teimas. Caso da própria sobrancelha, que nunca na vida tirei, e agora aquele fio fora da fila me olhava de um jeito tão desafiador que comprei a briga.

Mal pisei em terras portenhas e me pus atrás de uma farmácia, sem saber como se diz pinça em espanhol (acabou que nem é tão diferente, “pinza”). Achei as “pinzitas”  numa loja de souvenirs e vejam o que é uma boa ideia: estavam acondicionadas numa caixinha colorida e eram decoradas com o rosto de mulheres famosas. Escolhi logo a da Frida Kahlo, a artista mexicana que tinha aquelas sobrancelhas lindas, mas quase coladas uma na outra, a popular “monocelha”. Imagem apropriadíssima para “una pinza”. Minha filha adolescente, moreninha de cabelos pretos, se parece um pouco com ela e já foi vestida de Frida numa festa escolar, mas detesta a comparação. Ficou traumatizada com aqueles auto-retratos em que, além das sobrancelhas grossas, a pintora fez questão de marcar um bigode de deixar o Sarney com inveja. Como nenhuma biografia explica a sua relação com o bigode, ficamos sem saber se ela não conseguia se livrar dele por dificuldades técnicas da época ou se era uma proposta surrealista, como muitas de suas obras.

Várias mulheres têm buço, nome científico daquela penugem fina acima dos lábios. É chato, mas esteticamente aceito. Bigode é outro departamento. Tive uma colega de trabalho que era bigoduda assumida. Jovem, bonitinha, casada, dois filhos pequenos. Ainda que agência de publicidade tenha um ambiente liberal, há um código estético  ( e nesse caso ético) informal que orienta a turma e permite uma convivência sem grandes agressões visuais. Podem acreditar: é muito perturbador conviver com uma mulher de bigode. Não há como não notar, é escuro, grosso, impossível, para homens e mulheres, evitar um certo mal-estar. A amigas ela declarou que não deixou de clarear os pelos porque andou sem tempo, nem esqueceu ou estava sem dinheiro para depilá-los. Aceitar-se como veio ao mundo foi uma escolha consciente, como quem decide ser vegetariano ou evangélico.
Sempre achei que quanto mais natural a nossa aparência, melhor, e mantive os pelinhos claros por muito tempo. Vivi confortável assim até o dia em que meu chefe, com a franqueza que lhe é peculiar, observou: “ Esse seu bigode está muito loiro”. Eu tinha clareado com Blondor, produto que toda mulher, peluda ou não, conhece e respondi: “Você preferiria que estivesse preto?” E ele: “Não, preferiria que você não tivesse.” Aquilo me atormentou tanto que tirei o bigode para sempre. A laser. Agora, toda vez que falamos de salário, me joga na cara que eu é que estou devendo a ele: “Um favor desses não tem preço”.