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Hipoteticamente falando

Posted on 17 março, 2013

No restaurante com a Manuela há alguns anos.
– Mãe, eu gostaria tanto de ter um filho! Se eu ficasse grávida, você cuidaria dele? 
– Você tem 17 anos. Prefiro não pensar no assunto.
– Cuidaria?
– Não.
– Como não? Você e´a avo´dele! Como eu vou estudar, então?
– Você teria que dar um jeito, não sei. Eu trabalho, tenho outras coisas para fazer. 
– Você deveria parar tudo para olhar seu neto!
– Não, minha filha. Nem eu nem você estamos na idade disso. Se você tem essa expectativa, reveja o plano porque não vai rolar. 
– Nunca pensei que você seria omissa assim! Como você acha que eu iria sustentar esse bebê?
– Filha, fale baixo. Você não poderia ter um filho agora…
– Você e´tão egoísta! Prefere gastar todo o seu dinheiro comprando bolsas e sapatos do que as fraldas do meu filho!
– Aí, que vergonha. Pare de gritar, tá todo mundo olhando.Gente, ela nem tem namorado, juro!

Uma corridinha

Posted on 13 março, 2013

O locutor da radio JB anunciou às 7h da manhã que a máxima seria de 38 graus. Sugestionada pelo boletim meteorológico, senti a pressão baixar e rezei para não sermos cozidos coletivamente num ritual satânico contemporâneo. De qualquer forma, como a esportista que não sou e com o bom senso que não possuo, desconsiderei a temperatura sufocante e achei de correr na praia como faço todos os dias. Uma autêntica etíope descalça, falsa carioca de biquini, pé na areia. Meu estilo não deve ser muito convincente. Se levada a sério, os vendedores não me abordariam com biscoito Globo, picolé, queijo coalho pelo caminho. Os turistas não me parariam estendendo o celular e pedindo para fotografá-los, invariavelmente com o morro Dois Irmãos ao fundo. Não esmoreço. Depois de poucos metros percorridos, empapada de suor, entendi para que servem os cílios. Eles são a “calha” que segura o suor e o conduz para fora dos olhos de forma a não ficarmos cegos como fiquei quando a “calha” se rompeu com o excesso de transpiração. Para enxugar os olhos, esfreguei as mãos sujas de protetor solar e piorei o mal-estar. Já no meio do percurso, com os olhos ardendo e as pernas pesadas, atropelei uma mulher deitada na canga, chutei areia nela e fugi como fazem os covardes nessa situação. Segui, então, para a beira d’ água onde recuperei o equilíbrio. Podia ouvir a trilha de Carruagens de Fogo enquanto meus pés pisavam a areia molhada em câmera lenta e tentei ser elegante como os corredores na cena clássica do filme, mas isso não durou mais do que cinco minutos. Senti câimbras e terminei manquitolando e gemendo junto à rede de vôlei onde havia pendurado minha roupa e as havaianas. Quando deixei minhas coisas ali, ainda não havia ninguém na praia e como me pareceu um bom varal, seguro e discreto, engastalhei tudo na corda e fui correr. Agora a rede estava ocupada por dois times de mulheres uniformizadas, fortes e furiosas que me cortariam em pedaços só com o saque. Tentei pescar meus pertences com a pontinha dos dedos de forma discreta para não atrapalhar o embate entre o que me pareciam os times olímpicos de Cuba e China que vi na televisão e nunca esqueci tanto medo senti daquelas mulheres. Como estava cansada demais, meio trêmula pelo esforço exagerado, o gesto mal calculado fez as havaianas tomarem impulso e voarem entre as jogadoras. Num último esforço, pedindo a Deus que o jogo não parasse, me arrastei na areia quente, apanhei as sandálias e fui para o mar tentar me afogar para esquecer.

 

 

 

 

 

As entranhas expostas

Posted on 9 março, 2013

Sempre me atraíram as personalidades controvertidas e polêmicas de grandes homens. Os chamados gênios mal compreendidos. Tenho um desejo louco de acolhê-los, dar a eles a estabilidade e o apoio que precisam para exercerem na plenitude sua vocação, seu talento, sua missão divina. Para esses não há alternativa, não há outra escolha senão viverem aquilo que nasceram para ser . Me emociona o sofrimento exposto desses diabos atormentados. Porque a vida social cotidiana, da forma como está estabelecida, não tem lugar para os excepcionais. Não pode haver política de inclusão para os gênios indomáveis. Os que não encontram conforto em casa, tem que pagar aluguel em algum coração mais carente que o deles. Como jornalista e, com total isenção técnica, sempre preferi Maradona a Pelé, Picasso a Monet, Glauber Rocha a Walter Salles, Miles Davis a Herbie Hancock, os boxeadores aos tenistas. As manifestações de desconforto com as regras sociais, a inadaptação `as normas de comportamento e, sobretudo, o mal-estar exposto, incontido, vomitado, me hipnotizam. Como se de seus peitos abertos escapassem todos os fantasmas escondidos no meu. Sinto inveja da sua incapacidade de dominar os demônios que eu e outros tantos tão bem controlamos. Da entrega absoluta quando precisam se expressar e sentem que o palco, a tela, o instrumento, o ringue são insuficientes. Tenho inveja da exaustão e da dor após a explosão genial. Do cansaço de viver intensamente.