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O Rio

Posted on 19 abril, 2013

Domingo, diria o carioca, não é dia de correr na praia. Fui. Os caras da barraca de coco a caminho, era cedo para eles, ninguém é de ferro. Pendurei, então, minha roupa e as havaianas numa rede de vôlei enrolada antes do jogo. Senti a areia geladinha da manhã, o vento carregado de maresia, estiquei o olhar para o fundo do mar, pense numa pessoa de sorte, sou eu, isso aqui tudo é meu, só meu. Alonguei lembrando-me das lições tomadas emprestadas do Tony Ramos, que caminha ali diariamente com o seu personal trainer e, uai, que mal há em repetir de longe os movimentos que eles fazem, sem dar pinta, claro? Fui do Leblon ao Arpoador desacelerando só para atravessar o canal com água até a cintura, força contra a corrente e muita reza contra índice de coliforme fecal que eventualmente deságua ali. O turista não sente firmeza no meu desempenho e pede que tire uma foto dele com a namorada, o Dois Irmãos ao fundo, aproxima-se sorridente com o celular na mão, eu obedeço suando, sem ar, ele agradece como se não tivesse interrompido minha corrida. Mergulhei na água gelada no final da praia, altura da Bangu II, a barraca de um gente fina que também às vezes guarda minhas coisas, não como na Paraíso do Leblon, onde sou atendida sem comanda, uma distinção que pouca gente conquista e que, modéstia à parte, dona Marcia aqui conquistou em pouco tempo. Volto à rede de vôlei, agora desenrolada separando dois times de coroas sarados, veteranos de praia que se chamam por apelidos bizarros, se xingam de coisas que eu nem sabia que existiam e se beijam nas carecas suadas com uma intimidade que há muito suas mulheres não são beijadas. Tenho inveja dessa irmandade. Não encontro as minhas coisas. Achei que havia me enganado, que tinha pendurado noutro lugar, fiquei ali indo e vindo, não acreditando na má sorte. Perguntei. Tudo jurado de morte, ninguém viu, ninguém sabe. E então aceito a situação e entendo que preciso tomar uma atitude.  O sol agora está forte, a praia cheia, a areia fervendo. Vou aos pulinhos até o calçadão e então, caminho disfarçando, como se estar descalça e de biquíni molhado na rua fosse uma escolha, um estilo, um recado para a sociedade. Sete quarteirões até minha casa. Passo pelos cafés servindo brunch, sinto os olhares de estranhamento, os coxinhas do Leblon, ái, ainda se eu carregasse uma prancha, seria uma. Tento não pensar na calçada suja nem no fato de que eu sou uma mulher seminua atravessando a movimentada Ataulfo de Paiva. O asfalto pegando fogo. Não olho para o lado da farmácia que me vende tarja preta sem receita. Faço que não vejo os garçons do restaurante onde como toda semana. Não cumprimento os empacotadores do supermercado que eventualmente me ajudam com as compras. Sou uma mulher seminua, molhada, descabelada, descalça e muito séria. Através da grade do prédio, o porteiro me vê, abre o portão eletrônico, peço a cópia da chave do apartamento sem explicar, paulista otária, pé sujo, voltando da praia com ar de arrastão, sigo para o elevador. Não foi a coisa mais estranha que ele já viu entrar, mas sinto que ali perdi o seu respeito para sempre.

 

Acaso

Posted on 10 abril, 2013

Num dos muitos estágios a que me sujeitei na vida, fui como produtora de filmes publicitários encarregada de visitar uma fabrica de fibra de vidro. Pouco antes de entrar, ainda no carro da empresa, um colega me ofereceu um Halls, aquela bala ardida que suga o ar que a gente respira. Ele sempre levava aquilo no bolso para não ter que escovar os dentes. Aceitei a bala na pura inocência, foi a minha primeira vez. Era uma bomba relógio com hora certa para explodir. Assim que nos apresentamos na recepção, o dispositivo mentho-lyptus foi detonado e percebi que não poderia suportar a boca queimando por muito tempo. Queria me livrar da bala, mas não achava jeito. Aquilo estava me enlouquecendo, eu a jogava de um lado pro outro, segurava com os dentes, empurrava com a língua. Foi na subida de uma escadaria vazada, a caminho da sala de reunião, que tomei coragem, discretamente cuspi o Halls na mão, deixei a bala escorregar lá de cima entre os degraus e ainda ouvi o barulhinho da sua queda no solo. Depois da conversa para acertar os detalhes do projeto, descemos novamente e, já a caminho da porta, o gerente apontou orgulhoso uma enorme maquete da fabrica, feita em fibra de vidro, claro, e montada sobre uma estrutura de concreto. Aproximamos-nos. E então notei com terror que lá estava ele, o Halls. A bala havia caído exatamente ao lado do prédio principal. Como uma nave espacial estrategicamente pousada no heliporto, transparente como todas as peças do projeto e na proporção exata das figuras da maquete. Meu coração disparou. Senti novamente o hálito que me incriminaria. Ao meu lado, o gerente descreveu as instalações, e agradeceu a visita estendendo formalmente a mão. Foi a primeira vez que me encantei com um homem por não me beijar.

Cheia de razão

Posted on 7 abril, 2013

Quebrou o nariz do marido, 16 anos mais novo, e não fez curativo nem quando se arrependeu mais tarde. Sabia que para ser respeitada era preciso se manter firme ainda que o coração amolecesse. O soco estava armado desde o dia em que ela desconfiou que arrancar os pelos do peito e das costas com cera quente era sacrifício demais para um homem querendo agradar a esposa. Na época, era depiladora num salão e a pedido dele, fez o serviço em casa, sob o olhar atento do filho pequeno entre encantada com o gesto galante dele e cismada de que os recentes atrasos não eram resultado de hora extra coisa nenhuma. O soco direto é dado com a mão dianteira. É um golpe muito importante pois é o de mais longo alcance. Tem diversas serventias como medir a distância do oponente, afastá-lo, dar o primeiro golpe de uma série de ataques e testar a defesa do adversário. E´um ótimo golpe pois requer o mínino deslocamento. Quando ele chegou em casa`as 11 da noite com cheiro de sabonete, ela partiu para cima usando instintivamente o que tinha aprendido no treinamento de luta. Acumulava agora o emprego de segurança num baile funk nos finais de semana para completar o dinheiro do mês. Revistava as bolsas das mulheres na entrada, dava incertas no banheiro feminino para garantir que não havia venda de drogas, farejava confusão na pista e avisava os colegas. Com os sentidos aguçados pela função, sentiu logo a mentirada do marido e mandou um direto na cara dele. Tinha experiência na matéria. Como lembrou a mãe no dia seguinte quando foi pedir um pouco de gelo para “desinchar o desgraçado”: “Você não tem moral para bater em homem nenhum. Pelo tanto que já aprontou, bem podia ser um deles”. No casamento anterior, era ela quem dava suas voltas. Cansada da rotina matrimonial, arrumou um namorado do outro lado da cidade e duas ou três vezes por semana, fazia uma baldeação romantica antes de voltar para o lar e encarar o fogão. Chegava em casa exausta, mas feliz. Um dia o marido desconfiou, plantou-se na porta do barraco alheio e, quando saíram, jurou matar os dois. Ela chorou, mostrou arrependimento e para acalmar a fera, tatuou o nome dele, Valdosul (irmão de Valdoeste), de ponta a ponta logo acima do bumbum . “Fiz de propósito para aniquilar qualquer má intenção. Inclusive as minhas”. Como pau que nasce torto, não conseguiu endireitar e arrumou outro namorado ainda mais longe de casa. Para não desrespeitar o marido e, sobretudo, não desgostar o outro, usava um emplastro Sabiá sobre a tatuagem com o pretexto de que tinha dor crônica na região lombar, também chamada de lombaldia. Trabalhava como recepcionista numa clínica de RPG naquela época e a idéia lhe veio com muita naturalidade. Dessa forma, nos rápidos momentos da paixão tórrida vividos com o namorado entre o trem , o metro e os ônibus, o adesivo escondia o Valdosul e a monotonia do casamento. Mas a estratégia durou apenas até o verão que, naquele ano, veio cheio de personalidade e com temperaturas altas o suficiente para derreter qualquer emplastro colado num corpo suado e em movimento. Cansada de tanto esforço, achou mais prático separar-se de uma vez e arrumar um marido mais jovem, com vigor suficiente para que ela voltasse para casa sem baldeação. O tal que terminou depilado, frente e verso, e com o nariz quebrado. Agora, ela planejava pegar a vaga anunciada no açougue da rua de cima.