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Acupuntura

Posted on 25 maio, 2013

Meu primeiro contato com a técnica foi em Nova York, nos anos 90, através um médico chinês frequentado por jornalistas, escritores, poetas e artistas de um modo geral. Apesar do consultório localizado num sofisticado endereço no Upper West Side, o preço das sessões era acessível e ele lidava bem com a dificuldade dessa clientela de cumprir horários e seguir com regularidade o tratamento. Filtrava a indisciplina dos pacientes e devolvia com agulhadas em pontos que, se não resolviam a queixa que os levou ali, proporcionavam um bem-estar tão grande que a pessoa jurava nunca mais desrespeitar as regras da ciência milenar. Numa das inúmeras vezes em que estive ali procurando conforto para a hay fever que conheci assim que cheguei aos Estados Unidos, ele me espetou as suas famosas agulhas de ouro, esterilizadas numa caixinha de metal cheia de álcool e ligada à tomada para aquecer. O cheiro forte me lembrou o das marmitas que os operários das construções em São Paulo esquentavam em fogareiros rústicos. Tentei comentar isso e outros num artifício para disfarçar o medo e a tensão, mas ele fez um gesto para que eu me calasse e o repetiu em outras sessões quando não fiquei em silêncio como manda o ritual. Nossa comunicação foi praticamente gestual, exceto por duas ou três expressões básicas: first time acupuncture? hurt? relaaaaaax. O linguajar monossilábico talvez fosse uma forma de se proteger da tribo carente que batia `a sua porta querendo discutir do ponto de vista taoísta os mais de 300 pontos de energia distribuídos pelo corpo.
Depois do que me pareceram longas horas de “relaxamento”, espetada como um boneco de vodu sobre uma maca numa salinha à meia luz, ele me entregou uma receita escrita em chinês para que comprasse medicamentos fitoterápicos num fornecedor específico no Chinatown. Sem muito espaço para questionamentos, saí dali direto para o metrô com o papelzinho hieroglifado na mão e atravessei Manhattan em direção ao desconhecido. Achei que as pessoas me encaravam no trem de uma forma que não é comum nem recomendável em Nova York, olho no olho. Depois relaxei concluindo que era cisma por causa das agulhas, coisa de mineiro caipira achando que todo mundo está vendo os furinhos. Entrei na pequenina farmácia e estendi a receita para o primeiro oriental que vi e que, claro, não era funcionário, devia ser um morador do bairro que achou a maior graça e ficou olhando para mim e rindo durante muito tempo. Não era tão engraçado e me aborreceu um pouco aquele exagero, mas estava em território duplamente estrangeiro, me fiz de boba e sorri de volta. Munida das ervas embaladas em pequeninos envelopes de papel, tomei o metro de volta para casa. Novamente, tive a estranha sensação de que não me tiravam os olhos durante o percurso. “Essa mania de perseguição ainda vai acabar comigo”, pensei. Em casa, quando fui tomar banho e me olhei no espelho, entendi porque tantos olhares no metro, tanta risada na farmácia. Algumas raras vezes, a agulha da acupuntura pega uma veiazinha e sangra. No meu caso, mais raro ainda, varias veiazinhas sangraram e, mesmo com os procedimentos que o medico fez para estancar, finos riscos vermelhos saíram do alto da minha cabeça, atravessaram as têmporas, escorregaram pelo pescoço e secaram sobre a pele tatuando no meu rosto um desenho assustador como o de uma daquelas máscaras de Halloween. Queria ligar para minha avó em Guaxupé só para ouvir dela, mais uma vez, “Larga mão disso. Vembora, filhinha”.

Descuido

Posted on 22 maio, 2013

O rapaz caminhava com o golden retriever  na coleira. De repente, abaixou-se, abraçou e beijou o cachorro. Quando se viu flagrado no gesto por mim e talvez por ele mesmo, desculpou-se sem graça: “Beijei meu cachorro”. E eu, implacável:”Eu vi”.

Lost in translation

Posted on 18 maio, 2013

Repórter de TV em Nova York, anos 90, me deram a pauta: “Faça uma matéria sobre um restaurante especializado em “game”. Entreviste o dono, os clientes, mostre o serviço”. Meu inglês ainda era limitado, mas o orgulho juvenil me impediu de perguntar exatamente do que se tratava. Desci com a equipe, um cinegrafista e um assistente, diante de um restaurante elegante, num endereço bacana de Manhattan. O ambiente era luxuoso, mas achei de mau gosto as cabeças de animais com aqueles olhos vitrificados e chifres enormes, distribuídas pelas paredes. O lugar estava cheio, as mesas quase todas ocupadas, muita conversa, risadas e descontração. Pensei: “Eles devem beber bastante enquanto jogam”. Procurei o proprietário, um italiano sizudo de avental e comecei a entrevista ali mesmo na cozinha: “Como é um restaurante de “games?” Ele fez um olhar surpreso e respondeu abrindo um enorme freezer: ” Isso é javali. Isso é leão. Isso é canguru…” e seguiu mostrando pedaços enormes de carne. Insisti: “Certo. Já vi  que os animais são mortos. Agora me explique como são os games”.  Perdendo a paciência que não tinha, ele me pede num sotaque carregado que vá ao salão, olhe as mesas. Saímos percorrendo o lugar, o maitre sempre colado, e entrevistando os clientes que elogiavam a comida, contavam detalhes do seu preparo, mostravam os pratos, mas “game” que é bom eu não via nenhum e devo ter demonstrado minha frustração porque, de repente, o italiano começou a gesticular de longe, chacoalhando o cardápio no ar. Nesse momento, fiz o que deveria ter feito assim que entrei no restaurante: abri o cardápio e li. O tal “game”  não era “jogo” como na tradução literal do inglês, mas “caça, animal selvagem”. O restaurante servia filé de leão, javali assado, chilli de canguru e outras bizzarices que aqueles ricos excêntricos apreciavam. Fiz um sinal aliviado para o câmera, ainda havia tempo para recomeçar. A cena do italiano apontando a geladeira aos berros ” The game is overrrr here!”  abriu a matéria, que foi ar no dia seguinte.