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A parada é essa

Posted on 9 junho, 2013

Diz que que tem 82, mas não acredito. Não é o cabelo preso num rabo de cavalo, nem a roupa colorida e justa, nem o tenis moderno, nem as poucas rugas. A jovialidade do taxista Antonio está na firmeza da voz, no olhar vivo e na energia. Me pegou em frente ao Municipal, na saída do show da Gal, `as 10h30 da noite e quando paramos no Baixo Gávea para dar carona para minha filha, a conversa já corria solta e ele achou de mostrar que dança bem o forró. Aumentou o volume do som, desceu do carro e dançou na calçada rabiscando passos miudinhos com a ponta dos pés, as mãos segurando com delicadeza o corpo invisível da mulher, umas quebradinhas com a cabeça que só profissional conhece. Conta que a neta de quatro anos aponta o dedinho e acusa: “Você trai a minha avó! ” Ele não se defende: “E por que você diz isso?” Ela devolve como ele gosta: “Você usa rabo de cavalo, é bonito e gosta de dançar!” Explicou que a personalidade sociável e cuidadosa com a aparência é típica do libriano: “Não vê como o meu carro é arrumado e perfumado?” Seguiu discorrendo sobre o zodíaco até a porta de casa, onde estacionou ainda com o som alto, e contou o dinheiro numa matemática ritmada fazendo troco e batucando ao mesmo tempo.
A sensação de que os cariocas são encantadores, especialmente aqueles que tem que se virar para faturar algum e ainda honrar o espírito vida boa, já estava comigo desde cedo quando cruzei com um varredor de rua que curvou-se com a vassoura na mão e fez um meneio, abrindo um sorriso e os braços como um mestre-sala para me dar passagem. Me parece que o charme suburbano carioca foi desenvolvido como uma forma de manutenção da espécie, para compensar a incompetência ou a preguiça. Ainda de manhã, na praia, o rapaz do quiosque fez uma confusão danada com as caipirinhas e nos serviu literalmente o que lhe veio à cabeça, longe do que havíamos pedido. Para justificar o erro, falou e gesticulou sacudindo o facão no ar , explicando como é grande o movimento ali e como ele tem que calcular o número de cocos para não perder muito nem ficar devendo para gente que vem de longe só para tomar os seus cocos e como o clima anda instável prejudicando os negócios e quando nos demos conta, não havia mais caipirinha para reclamar.
Se Pero Vaz de Caminha aportasse hoje no Rio, o email para o rei sobre o achamento da nova terra, além de descrever os habitantes como “pardos, nus, sem coisa alguma que cubra as suas vergonhas”, certamente mencionaria o falatório excessivo que permeia as relações cariocas. Deve ser estratégia do manual da malandragem. Como os movimentos feitos pelos mágicos com as mãos para distrair os olhos do espectador, o carioca fala compulsivamente para tirar o foco do que, de fato, interessa, o percurso do carro, o preço do produto, a peça que você escolheu e que ele não tem mais. Ele desconversa, canta, conta história, é sorridente, charmoso, sedutor e ama esse jogo de desorientação permanente. Não tenho queixas, já comprei o que não precisava, comi o que não gostava, perdi o onibus ouvindo explicação sobre as vantagens que o prefeito leva com as mudanças no transporte público. Invariavelmente termino o dia achando que mais vale a diversão do que um serviço impecável. Mas isso sou eu, uma mulher perdulária de tempo e dinheiro. Imagina um americano classe média do midwest. Imagina na Copa.

Autoajuda

Posted on 1 junho, 2013

Depois de ler o material, o experiente editor fez a recomendação:”Escreva alguma coisa na linha da autoajuda. Vende melhor. Os textos têm que ter utilidade, entende? Ninguém mais tem tempo para ler histórias engraçadinhas.” Saí frustrada da reunião pensando no enorme tempo perdido com minhas crônicas inúteis. Estava experimentando o pesadelo do jornalista que decide escrever ficção, que deixa de cumprir seu dever cívico para se distrair com mentiras sinceras, que passa para o outro lado do balcão. Uma alma vendida. Aceitei o veredicto dele e minha natureza barroca de mineira católica reconheceu a sombra dos rococós talhados no espírito culpado, o pecado do prazer pelo prazer.”Tem que ter utilidade, entende?”
Havia na sugestão dele o desafio de auto ajudar as pessoas através de histórias recheadas, imaginei, de sabedoria. Logo eu, que choro comprando passagem aérea errada pela internet, que me meti em casamentos e empregos sem sucesso, que vivo atrás de consertar confusões provocadas por mim mesma, que tomo caldo no raso. Com que autoridade uma pessoa que se auto destrói diariamente em percursos errados pela cidade, discussões estéreis por motivos banais, decisões equivocadas com pequenas e grandes implicações, pode apontar caminhos para os outros? Imaginei meu livro na prateleira da categoria ao lado dos best-sellers em que os autores indicam destemidamente aos leitores como devem administrar suas vidas.
Além da coragem, me falta otimismo para convencer os outros de que os esforços positivos e repetidos valem a pena. Apesar do temperamento alegre e irreverente, tenho vocação para a morbidez e idéia fixa com a tragédia humana, com o enorme sofrimento de nos mantermos vivos sabendo que a morte nos espreita. E aqui repito o que o Otto Lara Rezende um dia definiu, como sempre, tão bem: “A morte é a única coisa absolutamente insubornável. Só ela é universal, democrática, pessoal, secreta e intransferível. Virá como um ladrão”. Sou filha, irmã, mãe, esposa e tenho muitos bons amigos que contam, no mínimo, com a delicadeza da minha presença produtiva nas suas vidas.Estou, portanto, impossibilitada de exercer a depressão com a intensidade e na extensão que ela pede, mas isso não impede que eu tenha consciência da nossa finitude  e de que todo esse nosso empenho prático e espiritual para justificar a existência é inútil.
Autoajuda não é uma opção literária para mim. Ainda que venda. Ainda que tenha mais serventia. Tenho que admitir que não sou modelo e não tenho um conselho, nem uma indicação, um método ou um exercício que melhore a vida de ninguém. Desconfio que minhas filhas saibam disso e que talvez, intuitivamente, façam uma leitura às avessas do meu exemplo, aprendendo com meus tropeções e tombos. Olha o meu joelho. Nunca escondi as marcas.