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Testemunho

Posted on 21 julho, 2013

– Foi aí que você resolveu participar da corrente espiritual da nossa catedral, irmão?
– Foi, pastor, tava tudo dando errado na minha vida. Minha mãe morreu, eu se separei da esposa, minha sócia no salão não queria que eu trabalhasse feminino e só masculino nunca deu dinheiro e foi quando eu sofri o acidente. A carreta de um caminhão carregado de areia abriu e me enterrou em frente ao salão, os clientes tudo assistiram. Tou com dezoito pinos no corpo.
– E agora sua vida deu uma reviravolta?
– Deu, pastor. Eu se casei de novo, Deus abençoou minha sócia e levou ela prá outro salão de cabeleleiro, ampliei o meu pro feminino e estética, deu até prá comprar um Golzinho, é velho mas é meu. Nunca mais deixo a corrente.
– E a senhora? Veio agradecer a graça do tumor ter sumido?

Existirmos, a que será que se destina?

Posted on 12 julho, 2013

Um coco, dona Marcia? O rapaz da barraca da praia. Me deu preguiça de consertar. Me deu também um conforto essa distancia do nome errado. Como de uma intimidade só de aparências. Só que não. A gente se encontra quase todos os dias cedinho quando deixo minha bolsa com ele para correr. Na volta, tomo uma água de coco e falamos do tempo, da família, da inevitabilidade do nosso destino, xingamos o governador, o que está muito na moda aqui no Rio. E ficamos em silencio olhando o mar. Essa, a medida. Qualquer gesto aproxima, outro afasta. O avesso da gente nem a gente conhece e conviver com o interno dos outros é um comprometimento para a alma. Depois que você vê fica amarrado para sempre na promessa ou na culpa. Não somos. A nossa conversa, difícil no começo pelas diferenças de origem e crescimento, foi ganhando um modo comum entre o meu e o dele e hoje me sinto como quando embrenhada nos sertões de Guimarães Rosa, já longe do estranhamento, na velocidade do terreno conquistado. Ele também segue tateando minhas reações, arriscando um comentário ironico, ri e espera meu riso tão depressa que se explica antes que minha boca se abra e eu nem tenho tempo de fazer que entendi. Como outro dia, quando disse que bebe desde os 9 anos e mostrou os dentes com os que lhe faltam também para reforçar que era engraçado mesmo sendo verdade e tão triste. Eu ri, mas já era tarde. Sei o nome dele, Rafael. Na barraca disseram que não. Fiquei com o que ele me deu pelas razões que teve naquela hora. A nossa conversa não depende de quem somos fora dali. Se constrói sem antecedentes, no acontecer das coisas, ou só no observar. Me empenho na sua manutenção, no entanto, recupero ontem, provoco o que virá. Sei que já existe e que me fará falta uma hora. Essa a razão, a importancia tão grande de não perder o fio, mais do que isso, de acreditar.

Amor em São Paulo

Posted on 11 julho, 2013

Suando no carro blindado, ela desvencilhou-se do cinto e quis estender os beijos para movimentos mais ousados. Partiu para cima dele, jato de adrenalina, sem medo do que havia lá fora e do que a esperava ali dentro. Errou o giro e ficou presa no volante, o traseiro buzinando ininterruptamente. Passantes, que até aquele momento só viam o que não viam, os vidros embaçados, pararam tentando adivinhar. Em tempos de violência urbana, romance é a ultima alternativa. Ele ameçou vestir-se, querendo desenroscá-la, ligar o ar-condicionado, os braços curtos para qualquer tarefa. Ficaram naquela dança imóvel, besouros nadando no couro do banco, até que o suor azeitou os corpos e escorregaram, exaustos, mal amados, para a rua congestionada, o rush. A luz pontilhada dos faróis incidiu sobre os espelhos com ar de festa. No retrovisor, o cabelo colado à testa. Ele arrependeu-se da investida, lembrou-se das placas, era dia de rodízio.

 

Cena carioca

Posted on 9 julho, 2013

Ela fumava na calçada, na porta da empresa, no Jardim Botanico. Tinha saído um bocadinho para aliviar a tensão de processos profissionais e pessoais que estava vivendo. Gente que fuma há muitos anos precisa dessa senha sensorial, a tragada, para encontrar soluções inteligentes. Notou os dois rapazes “meio uniformizados” a poucos metros olhando enviezado, checando a situação. Disfarçou e segurou firme o celular. Eles continuavam ali observando cada gesto dela. O coração disparou quando se movimentaram na sua direção. Jogou fora o cigarro, apagou rápido com o pé e preparou-se para o pior. “Boa tarde, somos funcionários da Comlurb, do Programa Lixo Zero, e vamos lhe aplicar uma multa por conta da bituca de cigarro que a senhora jogou na calçada”, um deles comunicou educadamente enquanto o outro sacava o bloco e anotava os dados da infração.
“Cento e cinquenta e sete reais não é nada perto do que achei que aconteceria. A multa veio na hora certa. Fiquei aliviadíssima.”

 

A troca

Posted on 2 julho, 2013

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A senhorinha estava sentada com o talher no colo. Não tinha uma barraca como os demais expositores da feira de antiguidades, em Nice. Aboletou-se numa banqueta, forrou as coxas delicadas de mulher francesa com uma pequena toalha branca de linho bordada e acomodou as facas, garfos e colheres de forma a valorizar o conjunto. As peças tinham os cabos decorados em relevo na prata lustrada, na verdade, os garfos de sobremesa eram desenhados também nos dentes, uma agradável surpresa para os olhos mais caprichosos. Não era um talher completo, faltavam algumas colheres para servir, aquelas maiores, muito úteis, que qualquer dona de casa aprecia. Por isso, ela vendia por um preço mais acessível. Era uma figura encolhida, de coque grisalho, sem uma estrutura de proteção, com um tesouro no colo. Estava vendendo um pedaço da sua história e garantia, sem dor no coração. Pode levar sem peso, piscou sorrindo. As mãos enrugadas acolhendo as peças numa moldura viva, pulsante e fragil. O sol começava a se esconder por detrás das nuvens, ela ajeitou o xale nas costas. Meu dinheiro não valia nada naquela hora. Comprava o que não se vende, o tempo, a experiencia vivida, a memória. Os objetos carregam histórias, mas não passam de mensageiros sem coração. Esquecem-se de onde vieram, o que viram, com quem conviveram. Seguem seu destino sem olhar para trás. Mortos, numa certa medida, ainda que sobrevivam a nós. Pensei no chá quente que esperava por ela em casa. No brioche que compraria no caminho. Na gaveta onde colocaria o dinheiro. Entristeci na conta que fiz. O sentido perdido daquela negociação. Elogiei o talher, mostrei que reconhecia o valor daquilo de que ela se desfazia ali. Mas já não havia significado algum. Não conferi, não toquei. Não pude. Ela amarrou tudo com cuidado na toalhinha, colocou numa bolsa velha de pano e me entregou.