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Inveja

Posted on 23 agosto, 2013

Em Washington, conheci uma dama. Dessas que a gente lê a respeito no jornal, vê as fotos e imagina uma vida perfeita. Que a casa, a família, o dia-a-dia, expressão, aliás, por demais mundana para se aplicar a ela, não tem uma única mácula. O humano, com seus desacertos e falhas, nem se aproxima. Acompanha-a o criado pelo homem, objetos, regras, obrigações sociais, conceitos estéticos. Diante dela, mesmo a natureza é submissa. As flores no vaso escondem desigualdades, o jardim não tem vontade própria, a água que cai nas pedras é obediente, não corre livre, jamais esparrama. Comportamento irretocável até na desgraça. Jackie Kennedy. Seu choro, seu medo, sua dor, são invejáveis. A gente chega a querer passar por aquilo para poder reagir como ela.
Com salto e bolsa Chanel, a dama de Washington me levou a museus, saraus, grupos de leitura, almoços com outras damas. Nos piqueniques no jardim das esculturas, da National Gallery of Art, em dias de céu absolutamente azul e temperatura amena, eu torcia sadicamente para que uma folha voasse sobre as taças de champanhe ou que uma única formiga arriscasse um passeio até a louça, mas nunca aconteceu. Um sobrenatural controle da situação. Eu ficava ali, fazendo que pertencia, contando histórias inventadas sobre o brasileiro, criando teses sobre a nossa cultura exótica, a mulherada anotando mentalmente. Fomos companheiras de muitas jornadas monótonas enquanto nossos maridos empreitavam outra espécie de monotonia, a da imprensa oficial. Ela achava graça na minha curiosidade sobre o protocolar, atendia e a alimentava de informação, adivinhando com inteligência o que viria depois, o fastio. O preço dessa generosidade era um olhar espontâneo e vivo que eu tinha diante das revelações e que ela tomava emprestado quando necessário, quando o ensaiado já não dava conta de impressionar os presentes.
Uma tarde, enquanto devorávamos uma torta inteira em fatias finíssimas porque estávamos de dieta, confessou-me um pecadilho, uma brincadeira que só ela poderia dar-se ao luxo de fazer. Ao longo de muitos anos frequentando festas e solenidades da alta roda de Washington, a dama adquiriu uma invejável coleção de guardanapos e toalhinhas de cambraia de linho, dessas que acompanham os petit fours na bandeja ou que os garçons nos estendem junto com o copo e que ela, discreta e sistematicamente, levava escondido para casa. A gaveta fechou-se com seus segredos. Dormi muito tempo encantada com o momento de intimidade conquistado, com a humanidade finalmente revelada e, sobretudo, com os paninhos que ela imodestamente exibiu, ricamente bordados em monogramas variados, cuidadosamente engomados, delicadamente rendados, um enxoval requintadísimo, verdadeira paixão mineira. Pois foi.
Dessas coisas que é preciso atribuir ao inconsciente, vários anos depois, quando a nossa amizade já nem acontecia, fui à uma recepção elegante numa embaixada da cidade, bebi o quanto não deveria e, contam testemunhas, passei a noite arrancando ostensivamente guardanapos das mãos dos garçons e enfiando na bolsa à vista de qualquer um. Até do lavabo, voltei algumas vezes, trazendo toalhinhas de mão e comentando a qualidade do linho antes de entregar para o meu marido, pedindo desculpas por interromper a conversa com um colega e que ele colocasse no bolso, por favor. Fomos embora cedo, dizem que a festa, como sempre, estava chata. No dia seguinte, prometi nunca mais beber e tentar ser chique.

Indignação

Posted on 17 agosto, 2013

O caco de vidro esperava escondido na areia e entrou fundo no pézinho que desceu pelo escorregador. Não sentiu na hora e o choro só veio quando ela viu o chão sujo de sangue. Peguei com carinho e a carreguei no colo para a clínica infantil bem perto do parquinho onde íamos com frequencia, ao lado de casa, em Nova York. Não fossem os gritos dramáticos de Eu não quero morrer, por favor, não me deixe morrer, ouvidos pelo bairro todo, o percurso teria sido rápido porque a Manuela era uma menina magrelinha e leve. Para não facilitar as coisas, ela não admitia mostrar a calcinha e exigia que a todo momento eu parasse para arrumar o vestido curto amassado nos meus braços. Fomos atendidas pela Dr.Green, a pediatra responsável pelo plantão naquele dia. Era uma mulher baixinha, de cerca de 50 anos, óculos e cabelo curto, envergando um avental longo que parecia maior do que ela. A sua deselegância explicou-se quando aproximou-se para examinar o corte e percebemos que ela era corcunda. Tinha uma grave deformidade nas costas que a obrigava a andar arqueada, com um ombro bem mais alto do que o outro. Ficamos as duas surpresas e impressionadas num primeiro momento, mas ao longo da consulta em que ela limpou o ferimento e deu pontos manipulando com destreza agulha e linha sobre a pele delicada, o foco da minha atenção voltou-se para o procedimento. A Manuela, por sua vez, hipnotizada pela figura incomum da médica, já não pensava em morrer. Rostinho sujo de limpar as lágrimas com as mãos sujas, tinha outras preocupações. E me chamava querendo comentar o que eu já adivinhava e não poderia responder ali. Mammy, ela dizia, em inglês como combinado porque era indelicado com os outros conversarmos numa língua incompreensível para eles. Eu fazendo que não ouvia. But mammy… Em casa, Manu! A médica duplamente debruçada sobre ela suturando, limpando, dando acabamento. A expressão da Manuela era a de uma braveza que eu conhecia bem. Dr. Green conversava conosco ignorando a natureza da inquietação da sua pequena paciente. Terminou o atendimento, fez uma receita de antibiótico, despediu-se educada e gentil e afastou-se manquitolando pelo corredor. Mal deixamos a clínica e a Manu, empunhando o enorme curativo, disparou furiosa, agora na língua materna: Como é que você tem coragem de me trazer aqui e me entregar para uma médica que sequer sabe cuidar dela mesma?

Medidas

Posted on 16 agosto, 2013

Dona Marcia, disse o rapaz da barraca de coco, meu filho é lindão, olha a foto, gosto demais dele. Agora, o casamento está uma desgraça.Toda vez que chego em casa, minha esposa tá com o menino no peito. Não é possível que uma criança mame tanto. Eu cozinho, faço bolo, lavo a roupa na laje, sei fazer direito, mas não foi prá isso que minha mãe me criou. Outro dia, liguei prá minha sogra, gente finíssima, expliquei a situação e avisei que ia deixar minha esposa e o bebe na casa dela até ele desmamar. Ela concordou.

Exemplar

Posted on 1 agosto, 2013

A jovem bezuntada de protetor solar está deitada na canga tomando sol. De repente, levanta-se e caminha até o rapaz de óculos que lê o Globo sentado à sombra do guarda-sol. A relação dele com o jornal, ainda que na praia, não parece ocasional, mas séria, comprometida. A menina chega sorridente e pergunta, muito `a vontade, se ele pode emprestar o jornal “`a medida em que for lendo”. ” Como assim?”, ele demora a entender. “Vai me passando os cadernos quando você terminar de ler”, ela explica o que lhe parece óbvio, mantendo o sorriso. Ele segue: “Por enquanto, só li o primeiro caderno.” E ela: “Então, não é o meu preferido, mas posso começar por aí.” Pega o jornal e volta para a areia onde se estende novamente. O rapaz ri sozinho, ainda não acreditando muito no que acaba de acontecer.
Sou do tempo em que jornal era sinonimo de status, de controle da informação. Em casa, nós todos, incluindo minha mãe, só podíamos tocar o jornal depois que meu pai terminava a leitura. Ele fazia questão de encontrá-lo impecável, dobrado exatamente como veio da banca, sem nenhuma sujeira ou amassado. Lia de ponta a ponta e distribuia as notícias já editadas de acordo com o interesse de cada um. Éramos crianças e achávamos magico que ele soubesse antecipadamente o que aconteceria na novela `a noite. Não sei porque naquela época, minha mãe, que já era uma educadora experiente e dona de uma opinião pessoal sobre os fatos, não brigava pelo jornal. Hoje, certamente desrespeitaria essa regra como tantas outras que foi colocando abaixo com o tempo. Mas não se faz necessário já que ele abriu mão da leitura prioritária e mais, vira e mexe, lê o jornal no computador observando cuidadoso: “All the News that’s Fit to Click” é o slogan da versão digital do New York Times, substituindo o centenário “Fit to Print”!
Continua com o hábito, herdado de meu avô, de passar as informações que considera relevantes para cada membro da família de acordo com seus interesses. E manda emails, antes eram cartas, para os jornais criticando o desempenho de políticos ou apontando erros da redação. Depois forra as gaiolas dos seus muitos passarinhos com ele. Cem por cento de aproveitamento.
Em Nova York, onde morei por alguns anos, aprendi a conviver com naturalidade com o hábito dos norte-americanos de abandonar o jornal usado, especialmente os tablóides pelo tamanho, em qualquer lugar, imaginando que alguém vá aproveitá-lo. E isso acontece de fato, os exemplares são passados de mão em mão nos parques, no metrô, no taxi, nas poltronas do cinema. Numa temporada que meu pai passou lá em casa,  sempre que ia ao supermercado, voltava com o jornal debaixo do braço e depois passava horas lutando para ler com a ajuda do dicionário. Ele achava que as pilhas que estavam dispostas na entrada, junto aos caixas, eram gratuitas e vinha roubando sistematicamente o seu exemplar.
Meu marido era um jornalista das antigas. Nascido e criado na redação. Gostava do cheiro e dos dedos sujos da tinta do jornal. Quando comentava uma matéria qualquer, passava a mão sobre ela, acariciando a informação. Eu admirava esse amor genuíno e tinha ciúme da atenção e importância que ele dedicava a essa sua paixão maior. Para mim, ficavam as portas marcadas com impressões digitais comprovando a autenticidade da relação.
Pensando bem, a cena da praia, diferentemente da estranheza que me causou, pode ser lida como um momento romântico, tanto para o possível futuro casal quanto para o jornal, que cumpriu, mais uma vez, o honroso papel de carregar belas histórias.