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Ao vivo

Posted on 28 setembro, 2013

Sou da geração pré YouTube. Este é um pensamento que me reconforta cada vez que me lembro do que já fiz quando era repórter e apresentadora de televisão. Entre outros desastres como trocar nomes de entrevistados, entrar no ar com rolinhos no cabelo e ter ataque de riso até chorar, certa vez, na bancada do Jornal da Noite, na TV Cultura, chamando uma matéria sobre o aniversário da Estátua da Liberdade consegui, num défict momentâneo de atenção, dizer que Mikhail Gorbachov havia dançado na festa em homenagem à Independência dos Estados Unidos quando deveria ter dito Mikhail Baryshnikov, claro. Pouca gente notou, a associação ao bailarino é imediata e a audiência daquele jornal, aqui entre nós, era pouco mais do que um traço. Mas até hoje sinto o friozinho na barriga do momento em que me dei conta do acontecido e já era tarde para consertar. Foi a conta de dizer: “Uma boa noite”.

Telejornal

Posted on 26 setembro, 2013

Na rua, em São Paulo, lá atrás.
– Você é aquela moça que apresenta o Jornal da Cultura ?
– Sou eu.
– Puxa! Muito prazer! Assisto você todos os dias!
– Ah, que ótimo!
– Posso te dizer uma coisa? Você é muito bonita e simpática, mas não daria para falar um pouco mais devagar que às vezes a gente não entende e perde a notícia?

Fred, o coelho

Posted on 22 setembro, 2013

Não gostar de animais é um pecado universal imperdoável. Ao lado de bebês, celebrações de casamento, o por do sol e outros, os animais são objetos de sensibilização coletiva e estão associados à pessoas afetivas, de bom coração. Venho de uma família especialmente ligada aos bichos. Nem tanto o lado fazendeiro dela, que lida com galinhas, porcos e bois basicamente como alimento, e cachorros e gatos como presenças naturais em qualquer casa. A porção urbana da família é que trouxe o conceito de animal de estimação, um bicho retirado de seu habitat e feito gente, com nome e qualidades humanas atribuídas. Meu pai é conhecido pelos cães de raças variadas, gatos e passaros que o acompanham ao longo da vida. E meus irmãos, tios e primos trocam fotos e informações sobre seus bichos o tempo todo. Nesse contexto, me olham torto porque, diferentemente dos outros, prefiro uma reprodução em madeira ou tecido `a criatura em carne e osso, propriamente dita. “ Tia, é verdade que você não gosta de bicho? “ , me perguntou uma sobrinha bem pequena. “É. E nem de criança”, devolvi com malcriação. Todas as noites, quando me ponho de joelhos, incluo nas minhas preces o pedido de perdão a Deus por ser, nesse aspecto, uma pessoa ruim. O tema é recorrente também nas sessões de terapia em que tento explicar a culpa pela insensibilidade animal para alguém que gostaria de ouvir crimes maiores.
Mas porque sou mãe, e as mães são seres temporariamente irracionais, já tive cachorros, gatos, hamsters, passarinhos, peixes. E, há cerca de um mês, num momento de fraqueza, adquiri por cerca de quatrocentos reis, um kit completo de gaiola, comedouro, bebedoro, ração e o coelho Fred, rapido e charmoso como o jogador do Fluminense e da seleção.
Fred veio por insistência da minha filha de 15 anos que ficou namorando o roedor tempo suficiente para justificar a sua aquisição. Todo dia, saía da escola e seguia direto para a pet shop de onde voltava cheirando à ração. Escolhemos o machinho, único com dupla coloração e, naquela época, pelo menos uma orelha em pé. Sempre que conto que comprei um coelho anão, a reação é de gargalhadas que expressam a denúncia: “Caiu no golpe”. Dizem que ele cresce como uma capivara dessas avistadas nas margens do Tietê.
Fred ficou 3 semanas comendo tudo o que encontrou pela frente, tapetes, fios, rodapés e até a revista Piauí, ao que, obviamente, me dei o crédito. Era alegre e manso. Atendia pelo nome. Adorava cafuné. Um dia amanheceu entrevado. Orelhas caídas. Não andava, não se mexia, não comia. Como estávamos convenientemente saindo de férias, deixamos o coelho paralisado na gaiola e tocamos para o aeroporto. Eu, ligeiramente aliviada pelo destino que a natureza havia decidido dar a ele e minha filha aos prantos, trocando emails com os amigos que pesquisavam na internet um diagnóstico para ele. Avisamos meu marido que o problema estava em casa aguardando os cuidados dele. Esbravejou nervoso como todo homem diante de um cano entupido ou uma criança com febre. No dia seguinte, o coelho foi despachado para a única clínica veterinária que aceitava animais silvestres como pacientes. E passamos a trocar emails com a médica, ela própria uma espécie rara e provavelmente em extinção, que se compadeceu do bichinho e decidiu dar a ele uma chance maior do que merecem os animais nessa situação.
Os primeiros boletins medicos nos davam conta de que o estado do paciente era crítico e ele teria que ser internado numa espécie de UTI a um custo alto que só eu, criatura insensível, questionei. Vieram outros comunicados depois com entediantes detalhes técnicos que descreviam  pequenos progressos como a “ingestão de alimentos líquidos”, apresentados pelo coelho. Posso imaginar o momento do dia em que essa mulher, enjaulada numa clínica com micos, lagartos e passaros, sentava-se emocionada no computador para falar com a família do animal. Quando ele estava mais forte e precisava de espaço, ela achou por bem levá-lo para casa e nos enviou um email em que comunicava a sua decisão: “Quanto ao Fred, cheguei em casa e soltei o mesmo, pois ele estava ansioso para brincar e eu queria aproveitar os bons momentos de diversão com ele…”  Fazendo jus ao nome, Fred era um sedutor e estava claramente tirando vantagem da fragilidade emocional da veterinária. Ela agora vivia aos caprichos “do mesmo”.
Por fim, veio a notícia da alta hospitalar com “total recuperação do coelho Fred, sem sequelas, podendo retornar ao convívio dos seus”. Eu, particularmente, nunca me considerei nada do coelho, portanto, concluí que nesse momento deveria soltá-lo no mato para conviver com os seus. Sou uma pessoa má, mas não o fiz.

Pas de deux

Posted on 16 setembro, 2013

Se me resta alguma dignidade, devo ao Zeca Camargo. Há muitos anos, convidados para entregar um prêmio de jornalismo, subimos ao palco de um teatro, eu e ele, vestidos a rigor. A madeira do piso estava encerada e eu sobre um salto agulha altíssimo. A combinação perigosa lançou-me para cima no primeiro passo que dei em direção ao microfone. Levantei vôo e atravessaria o palco nesse rasante não fosse a agilidade e elegancia do Zeca que segurou-me no ar como num movimento ensaiado de balé e colocou-me de pé novamente. Desde então, ele está fora das malcriações e amaldiçoamentos do domingo à noite.

Tarde demais

Posted on 8 setembro, 2013

Minha mãe comentou, constrangida, que eu cometi “um errinho de português” num post outro dia.
– Ái, meu Deus, fala logo! Onde? O que? De que jeito?
– Você escreveu “dautônico”, com “u”, naquela história sobre a confusão com as cores da tinta comprada pelo seu pai. Quando ele mandou pintar a casa de uma cor e o muro de outra. Para ele é tudo a mesma coisa, você sabe, e não se pode mexer no assunto…
– E é com “l” ? Que vergonha! Foi a primeira vez que escrevi essa palavra! E a ultima! Por que você não me avisou antes, mãe?
– E adiantava? Você já tinha esparramado prá todo mundo na internet, uai.

Fé na areia

Posted on 5 setembro, 2013

De barco alcançamos uma praiazinha de água transparente e areia branca dessas típicas do litoral de Angra. Ao longe, bandeirolas coloridas, provavelmente esquecidas de uma festa junina, agitam-se ao vento e nos espia o bico da torre da igrejinha escondida atrás das árvores. Mergulho na água gelada e nado até a praia atraída pelo lugar. Sigo caminhando por uma propriedade protegida por um muro e portão alto de madeira fechado com cadeado. Atravesso um ancoradouro de embarcações pobres onde pescadores, como num domingo, vestem calça e camisa social, tomam cerveja e conversam debaixo das árvores. Estou na praia, de biquini portanto, mas a presença da igreja inibe esse despojamento. A areia termina onde começam as pedras que machucam os pés e me pergunto também se não deveria estar respeitosamente calçada. Há uma placa junto à escadaria de cimento caiado anunciando a presença da igreja de Santa Ana, construída em 1796 ali, na vila de Freguesia de Santana, em Ilha Grande, um importante centro industrial e agrígola do século XVII. Sou pega de surpresa pelo repicar do sino que bate entusiasticamente como convêm aos sinos em momento de celebração. Fogos de artifício explodem no céu azul assustando os cachorros que dormem no sol. Uma criança chora no colo da mãe. E uma procissão começa a sair do interior da igreja. Quero correr, mas é tarde demais. Como uma índia nua e assustada, desço a escada aos pulos e me escondo parcialmente do cortejo. Na frente vêm duas meninas paramentadas com longos aventais brancos carregando enormes cruzes de metal. Outros jovens, também de branco, acompanham com velas nas mãos. Quatro homens carregam a imagem de Santana num andor, uma jangada balançando no oceano, resultado da marcha solene no piso irregular. Algumas mulheres, aparentemente em suas melhores roupas, levam terços na mãos e lenços na cabeça. Há pelo menos um padre que segue no bloco da frente puxando a Ave Maria. Rezo com eles indagando se não seria pecado. A procissão passa sem prestar atenção à essa mulher molhada e suja de areia. Entram cantando e rezando por uma picada e somem na mata. É um momento de profunda conexão espiritual e o sentimento de pertencimento me enche de inveja. Volto para o barco com braçadas solitárias, as batidas do sino ecoando na minha cabeça, querendo estar com meu vestido estampado e sandálias no almoço dos devotos a base de peixe e pirão, querendo ter fé.