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As Marinas

Posted on 27 outubro, 2013

Sou Marina nas duas pontas, de pai e de mãe. A avó Marina Ferraz, mineira de Guaxupé, certa vez, sozinha comigo no carro e mantendo os olhos sempre para a frente, tomou coragem e me perguntou como era se casar mais de uma vez. Três para ser mais precisa. Não encontrei espaço para uma conversa íntima e respondi apenas que era três vezes melhor e três vezes pior, dependendo do dia. Acho que ela tinha uma opinião formada sobre o assunto e o que aparentemente seria uma crítica aos meus maus costumes ou inveja da libertinagem era, na verdade, pena de mim. Mulher séria, de poucas palavras, mas certeira na malcriação. Quando elogiavam sua excelente forma física já na faixa dos 90 anos, dizia apenas: “É que fiquei viúva cedo”. Não havia ali uma crítica a meu avô, mas ao casamento de modo geral e o que aquilo representava de dedicação, investimento pessoal, renúncia e abnegação para as mulheres daquela época. De fato, na velhice, minha avó era a mais saudável, bonita, elegante, bem disposta e sobretudo, a mais confortável consigo mesma, entre as cinco irmãs. A exceção que comprova a regra, é a tia Nair, que ficou solteira e segue falante e curiosa como sempre foi ao longo dos seus 103 anos. Bem, terei que nascer de novo para comparar as experiências.
A outra Marina, carioca, carregava nas veias o sangue liberal e artístico dos Motta. Cantava, tocava piano, escrevia poesia, fazia piada de tudo, especialmente das preocupações, na sua opinião, excessivamente banais de meu avô. Era um médico dedicado e um homem focado nas soluções práticas e eficientes para as dificuldades do dia-a-dia. Tinha a mania de consertar tudo o que tivesse alguma chance de sobrevida, de uma xícara com a asa quebrada à armação solta dos óculos numa reciclagem sem fim. Ganhou dela o apelido de “doutor goma arábica”, uma cola antiga bastante popular, porque não desgrudava das pessoas enquanto não finalizasse uma conversa por mais trivial que fosse o assunto. Ela, em contrapartida, nunca tinha ouvido falar em “meia sola” ou “roupa cerzida” e vivia num mundo paralelo onde só cabiam os seus sonhos, as suas fantasias, a poesia, a musica, o romance. Contava que, filha de senador e irmã de ministro, cresceu num ambiente cercado de proteção e só foi conhecer as delícias do cotidiano ao se casar com meu avô e ganhar passe livre para as ruas. Me encantava com as suas observações sarcasticas, e talvez inapropriadas para os ouvidos de uma menina, sobre os prazeres e desapontamentos do amor: “Não há nada científico, mas estou certa de que os carecas são mais viris” ou “Fuja dos homens bonitos que quase sempre são burros e não há nada mais odioso do que a companhia de uma pessoa burra”. Contava que, novinha, passou vários dias flertando com um rapaz que se plantava do outro lado da rua, bem em frente ao casarão da família, olhando para ela de longe e escrevendo qualquer coisa no tronco de uma árvore com um canivete. Ela jurava que era uma mensagem, um poema, uma declaração e mal pode esperar o dia em que finalmente conseguiu correr até a árvore onde, recortada na madeira, estava a palavra absolutamente gratuita: “formiguinha”.
Gostava de assistir luta livre e me convidava para dormir com ela nos plantões de meu avô para torcermos juntas pelo Ted Boy Marino. Às vezes, fugíamos de tarde para um boteco perto da casa dela onde bebíamos, ela cerveja e eu guaraná, em pé no balcão, ao lado dos frequentadores menos nobres do bairro.
Uma ocasião, pedi que fizesse um biquini de croche para mim, em moda no Rio naquele verão. Não era exatamente uma mulher de prendas domésticas, mas ficou entusiasmada com a idéia de me ver usando uma peça feita por ela. De brincadeira, acrescentei que deveria fazer só a parte de baixo, que não se usava mais a de cima. “E seu pai não acha ruim?”, perguntou. “Ele não gosta muito, mas o negócio agora é topless, vovó”. Esqueci o assunto. Uma semana depois ela me entrega a encomenda. Uma calcinha de croche cor de areia, com lacinhos amarrados nas laterais, sem o sutiã. “Ái, que inveja”, lamentou.

Noivado

Posted on 20 outubro, 2013

Mal fecharam-se as portas do metrô, a menina pergunta: “E pode, mãe?” A capa da revista estampava a foto de Daniela Mercury e esposa, ambas lindamente vestidas de noiva, véu, buquê, tudo dobrado. Uma matéria sobre o casamento da cantora baiana com a jornalista que cuida da sua agenda descrevia os detalhes da cerimonia e a alegria do casal a caminho da lua-de-mel em Fernando de Noronha. A mãe, politicamente corretíssima, respondeu com segurança para que todos no vagão ouvissem: “Claro que pode, querida. O mundo mudou e hoje, duas pessoas do mesmo sexo podem casar-se e ter filhos, constituir família.” A menina seguiu analisando atentamente as fotos, recuperando o foco a cada solavanco do trem. “Eu vou querer assim também. Duas meninas. Acho muito mais lindo.” A mãe correu os olhos checando a reação dos outros passageiros. “Não gosto da roupa de noivo. Aquela calça e o paletó cinzas. Mesmo quando colocam uma flor no bolso tentando enfeitar.” Duas senhoras sentadas ao lado sorriram achando graça na espontaneidade do comentário. Em detalhe, no canto da página, duas mãos femininas entrelaçadas, com alianças e esmalte cor de rosa. A menina demorou-se ali. A mãe ficou tensa e tratou de encaminhar a conversa: “Não é isso que importa. A gente não se casa pela cerimonia, mas para oficializar um relacionamento perante a lei e Deus.” Testou novamente a resposta do publico. Gelo. Sentiu-se, então, desafiada: “O casamento é uma decisão extremamente importante, para a vida inteira. Olha o vovô e a vovó, a mamãe e o papai, a gente tem o Antonio Eduardo, você…” A menina correu o dedinho pelo vestido tomara-que-caia de Daniela e acrescentou agora em voz alta: “Acho melhor duas meninas também porque a gente gosta das mesmas coisas, pode brincar de Barbie, de maquiagem… Você acha que eu posso me casar com a Gabi?” Risadas. A mãe partiu para o tudo ou nada: “Filha, você ainda é muito nova para pensar nisso. Me dá aqui a revista, vamos falar de outra coisa. O que você quer ser quando crescer?” O rapaz em frente tentou ajudar: “Uma princesa, tenho certeza.” A mãe desesperou-se sentindo que perdia o controle da situação. “Médica, não é?”, perguntou respondendo. E a menina, triste sem a revista, “Qualquer coisa que dê bastante dinheiro para eu me casar com a Gabi”.

Ferramentas

Posted on 18 outubro, 2013

Pendurado por uma cordinha, o funcionário sobe e desce os 18 andares consertando a tubulação num espaço interno do edifício. Converso com ele pelo vitrô do banheiro.
-Claudionor, é a Marina do 1103, dá para você ver se o cano aqui está furado? Há um vazamento…
-Oi dona Marina, vou já verificar. A senhora tem whatsup?

Rotina

Posted on 12 outubro, 2013

Sentiu o peito apertado quando o despertador, determinado, cumpriu com um toque vigoroso sua tarefa diária. A vida segue à nossa revelia. Não era raiva, ao contrário, só uma desvontade enorme, um não querer aquilo nela, a angústia presa na camisola amassada. Foi para o banheiro arrastando o chinelinho e de lá para a cozinha onde o sol forte se esparramava impiedoso, um soco quente na cara. Desorientada, atravessou novamente o corredor estreito, devagar, dedos tocando de leve na parede, hora de um lado, hora de outro. Tropeçante. Não pesava mais do que 50 quilos e se movimentava puxando um corpo pesado, indesejado. Vestiu uma roupa confortável, nada era confortável e saiu do apartamento sem saber que rosto tinha naquela manhã. O peito apertado, como se alguma coisa pudesse, fosse acontecer. Mexia no celular mecanicamente com o dedo, num toque nervoso e viciado. Entrou no carro e ainda na garagem avistou pelo retrovisor o vigia lá no fundo, sentado num banquinho plástico. Numa fração de segundos, fez a fotografia minuciosa dele. Camisa de manga curta azul clara, calça social preta, puro poliéster, chinelo. O fio branco do fone escorrendo do ouvido, olhar mergulhado na escuridão, uma pessoa escondida na umidade e na fumaça da garagem. No chão, viu o balde e o pano usados para lavar os carros. Além de um extra, a sensação de acelerar o relógio em dias longos naquela caverna. A solidão e a vida indigna daquele homem entraram no carro e se acomodaram no banco ao lado dela. Os pés no chinelo tocaram o chão e o olhar perdido na musica do celular encontrou o seu. A falta de perspectiva, a resignação ao exercício diário de sobreviver: comer, vestir-se, trabalhar, deitar-se, tomaram o volante e seguiram pela rua congestionada, o radio desligado, o peito apertado. Não tinha onde acomodar a dor comum, a dele agora justificando a dela. Zanzou durante horas, dirigindo-se a compromissos desimportantes e desistindo de cada um deles, o sapateiro, o supermercado, o mecanico. Na garagem, o vigia estica as pernas com preguiça, ela é amiga da minha mulher, pois é, pois é. Olha para o Honda do 121, sujo, e se lembra de que o proprietário prometeu umas roupas semi-novas, coisa boa do coroa elegante. Faz as contas já sabendo que vai ter que adiar novamente o acerto com o socio do cunhado de quem tomou uma quantia emprestada para bater a laje, aquele fdp. Pensa com gosto na laje. Prepara, que agora, é a hora, do show das poderosas, que descem e rebolam. Na salinha sem janela, esquenta a marmita feita pela esposa ainda de madrugada. Com pouco, entra a ligação da morena que conheceu outro dia, oi princesa, como vai, sorri cutucando a comida. Sim, saio às 3h, fala de boca cheia. A vida nunca parando. Folheia a VIP antiga e pensa na bunda da morena. Sem pressa, alcança a toalha para lavar-se na torneira de serviço e quem sabe pegar o Honda. Não vê quando a mulher entra de volta na garagem, deixa o carro desalinhado na vaga e sobe. Ela vem carregando o sofrimento dos desvalidos, dos solitários, dos abandonados, dos vigias nas garagens escuras. Ela precisa chegar rapido em casa, fugir da luz, dos sons, do controle das circunstancias. Entra, tranca a porta, pendura a bolsa com o dinheiro que tirou no caixa eletronico, atravessa a sala e joga-se pela janela. Um grupo se aproxima do corpo, o porteiro corre, gritaria. A água com sabão escorre pelo capô e ele esfrega de leve o pano para não riscar. Capricha para justificar as roupas do coroa elegante, quem sabe hoje mesmo visto uma camisa dele, vodka ou água de côco pra mim tanto faz, gosto quando fica louca, e cada vez eu quero mais, cada vez eu quero mais.

Alma Verde

Posted on 1 outubro, 2013

O marinheiro Yuri, nascido e criado na Ilhabela, foi nosso guia naquelas águas paradisíacas durante os anos em que o barco ficava lá. Tinha orgulho disfarçado, fazia ar de naturalidade diante do nosso encantamento quando atravessávamos as águas transparentes da Ilha entre corais, cardumes de peixes e tartarugas gigantes. Conhecia as histórias de cada praia e de cada morro e de cada construção erguida irregularmente ali. Nome, cpf e tudo. Dava lições de sustentabilidade e cuidados com o meio ambiente. Ensinava como lidar com as queimaduras de arraias e picadas de borrachudo, o vinagre. Encostava nosso barco nos barcos dos pescadores que vendem lula fresquinha, negociava com vantagem para os colegas, a gente com ar de naturalidade. Me apresentou a caipirinha de folha de mexerica num botequinho à beira-mar onde uns parentes dele faziam o melhor peixe da região. Pés de anfíbio, esparramados e colados no convés, nunca os vi na água, dizia que marinheiro não entra no mar. E achei gostoso imaginar que ele teria brincado a infância toda na praia, mergulhando, catando siri, jogando bola na areia depois da escola, como qualquer garoto de cidade brinca na rua.
Considerando tudo isso, quando perguntei como era seu nome no Facebook e ele respondeu “Yuri Alma Verde”, achei aquilo de uma poesia sem igual. E desandei a elogiar a sensibilidade do nosso lobo do mar. Ele ouviu com expressão de estranhamento e explicou que, apesar de gostar demais do litoral brasileiro, em especial da região onde vive, a tal alma verde, longe de uma homenagem à natureza, pertence ao palmeirense fanático que ele é.