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Religiosidades

Posted on 30 novembro, 2013

Dedo apontado para uma impressionante escultura do Cristo com a coroa de espinhos fincada na testa, nosso guia em Ouro Preto lembrou-se do que descreveu como “o momento mais emocionante da sua vida”, que foi quando viveu Jesus Cristo na procissão da Via Sacra. Mulato de olhos escuros, dificilmente conquistaria o papel, mas como a enorme cruz de madeira bruta era pesada demais, ficou à frente dos clarinhos magrelas que se candidataram a protagonistas da mais solene representação do calendário religioso da cidade. O desempenho pediu dele mais sacrifício do que imaginava. Nem precisou fingir a dor que deveras sentia. O ombro sangrava, o manto sagrado empapado de suor. E tinha a peruca loura, longa e lisa, feita de cabelo verdadeiro, escapando da cabeça, provavelmente menor do que a do seu antecessor. Achou que não chegaria ao final da caminhada pelas ladeiras de paralelepípedos da cidade. A família toda, incluindo o irmão obeso “que mamou na minha mãe até os 7 anos”, rezou e acompanhou o cortejo compenetrada.
Quando chegou ao Calvário, no alto da colina, olhou para a multidão de fiéis e se sentiu próximo de Deus e de Hollywood: “Durante um tempo, fiquei em dúvida entre ser padre e ator.” Perguntamos pelas fotos, queríamos vê-lo no figurino bíblico. “Não tinha esse negócio de fotografia, não. A gente era pobre por demais. Guardei a imagem que vi no espelho do banheiro antes de sair com a cruz.”

Acima de qualquer suspeita

Posted on 10 novembro, 2013

No auge dos atentados terroristas dos anos 90, o casamento implodia e ela achou de apaixonar-se por outro. O mundo andava vigiado, cismado, pronto para o flagrante, de olho na mochila abandonada no banco do metro de Londres, no pacote que chegava sem remetente no escritório do governo americano. Assombradas por Bin Laden, agencias de segurança se antecipavam a proteger o que mais tarde mostrou-se inevitável. Ligações eram gravadas, pessoas fotografadas, movimentos farejados, relações ilícitas identificadas, vidas mapeadas.
Pouco afeita a rompantes, ela estava insegura sobre o sucesso do plano traçado em cima da hora e a preocupavam as consequências que a decisão poderia acarretar na vida de pessoas inocentes. Deixou instruções minuciosas pregadas no imã da geladeira, o marido e as crianças aos cuidados da empregada e seguiu para Londres numa suposta viagem de descanso com uma prima que não tinha idéia do papel de inocente útil a que se prestava naquele momento. Foram dias de compras, museus e impaciência, telefonemas escondidos, recados picados e o coração acelerado, muito mais do que o tempo, que demorava a passar e adiava o final do passeio quando a parente seguiria sozinha para a Grécia e ela estaria com seu amor ilegítimo por dois dias inteiros.
Quando o momento chegou, com a adrenalina disparada e o coração aos pulos, tomou o metrô e desceu na casa do amante, que vivia na companhia do cachorro desde que se separou da mulher. Era correspondente de uma importante revista, haviam se conhecido numa cobertura internacional há poucos meses e desde então ele insistia que fosse visitá-lo. Foram dias de paixão declarada e escondida. Um esquema perfeito, sem pistas nem rastros, preparado por profissionais, ele no terceiro casamento, ela no quinto affair. Na despedida, surpreendeu-a com um presente de jornalista romântico, um minúsculo gravador com tecnologia de ultima geração e um design tão fantástico que mal se identificava a peça, uma massa disforme de plástico colorido. O gadget era tão moderno que ela demorou a encontrar o botão que deveria pressionar para ouvir a mensagem gravada por ele, um poema de Fernando Pessoa sobre um amor à distancia. A contradição do objeto vanguardista versus o lirismo do poeta escolhido foi um detalhe premeditado. Lágrimas escorrendo pelo rosto, ela jogou com carinho o gravadorzinho na bolsa e seguiu, agora de taxi, para o aeroporto de Heathrow. Ao aproximarem-se do local, o motorista inglês anunciou no tom formal que a função e sua origem determinavam: “There must be a problem, madam. The area is isolated. I am extremely sorry.” De fato, o aeroporto estava cercado por inumeros carros de policia, bombeiros, ambulancias. Ela teve que descer longe, foi arrastando a mala e só parou quando dois policiais da Scotland Yard pediram para examinar sua bagagem. Houve um protocolo que se demorava, ela começou a ficar com medo de perder o vôo, perguntou o motivo de tanta confusão: “Fomos alertados sobre uma bomba.” Mandaram esvaziar a bolsa, vistoriaram cada objeto e foi nesse momento que, por alguma razão, o gravador começou a falar sozinho. Pausadamente, como convém a um poema de amor, a voz masculina declamava estrofe por estrofe, “Quero ser o teu amor amigo. Nem demais e nem de menos. Nem tão longe e nem tão perto. Na medida mais precisa que eu puder.” Ela sorriu sem graça. O amante flagrado dentro do armário. Pressionou o aparelhinho com força tentando, sem sucesso, obrigá-lo a calar-se. Queriam saber que língua era aquela e o que dizia. Começou a gaguejar. Desconfiaram. Onde você esteve? Com quem? Em que hotel? Queremos os nomes e números de telefone para checagem. Ela havia saído dois dias antes do hotel, mas para todos os efeitos acabara de fazer check-out. Vamos ligar para a sua casa. Mentiu que não havia ninguém lá. Suava desesperada. A pedido das autoridades, o gravador foi desmontado e montado varias vezes. Agora manipulava o mimo com raiva. Os policiais desconfiavam que fossem instruções gravadas. Senhor, no meu caso, a bomba é de efeito moral. A piada não ecoou no humor inglês. Sacou a última arma para se defender. Chorou e contou a verdade. Que o casamento era péssimo, que estava frustrada, que as crianças davam trabalho, que teve um amante por dois dias, que tingia o cabelo, usava botox, tinha um dente falso, que não era o seu primeiro caso extra-conjugal, que estava há meses no cheque especial, que não assinava o segundo nome, Edileusa, porque tinha vergonha. Foi a última passageira a entrar no avião. Afivelando o cinto, agradeceu a Nossa Senhora prometendo ser a mais fiel das esposas. O gravador ficou estratégicamente esquecido na salinha da revista e seguia solitário, sem medo ou constrangimento, “E por isso eu te suplico paciência. Vou encher este teu rosto de lembranças, Dá-me tempo, de acertar nossas distâncias…”

Depressão

Posted on 5 novembro, 2013

Conversa entre dois cariocas, faixa de 70 anos, no elevador :
– Que calor, hein?
– Pior é sair de casa só para perder tempo.
– Onde você estava?
– Na terapia, mas abandonei a sessão. Estou realmente decepcionado. Para dizer o mínimo.
– Você ainda vai na doutora Heloisa, ali na Dias Ferreira?
– Não sei se volto lá. Ela estava alcoolizada.
– Não é possível !
– Voltou bêbada do almoço e foi me atender. Ficou cochilando, não conseguia entender nada do que eu dizia, me pedia para repetir as coisas. Uma total falta de respeito!
– Você poderia entrar com um processo…
– Eu entendo a gente tomar um aperitivo, uma cervejinha no almoço. Eu mesmo, você sabe, sempre bebi bem, mas seguia direto do restaurante para casa. Ela teve o descaramento de ir para o consultório, 400 reais a sessão! Mas para variar, o chato sou eu. Até a terapeuta tem que beber para me aguentar.