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Sem voz

Posted on 30 dezembro, 2014

Era feito de papel. Fibra moída, vontade prensada. A mulher pegava aquela maleabilidade e fazia dobradura dele. Depois deixava enfeitando a casa. Mantinha sob controle tudo o que respirava ali. E o que não respirava, não questionava, não resistia, ela dobrava. A vida cumpria-se burocraticamente a cada virada do mês. Tarefas, refeições, compromissos, planos, planilhas. A garantia da sanidade. A fotografia na parede. Ele calado, submetido, dobrado num origami milenar. Um dia, arriscou: Não sei se te amo mais. Claro que ama, ela encerrou. Agora me ajuda aqui a subir o zíper e vai trabalhar. O amor faz da gente gato e sapato.

Papai Noel

Posted on 23 dezembro, 2014

Meu pai veste-se de Papai Noel desde que tornou-se pai. A farda já foi cerzida, colada, remendada e finalmente substituída por uma nova, menos convincente porque os chineses não acreditam ou não conseguem reproduzir o que o genuíno Papai Noel usava no Polo Norte. Diferentemente dos comerciais que a gente assiste nessa época do ano, ele não assume a personalidade do bom velhinho a cada peça que veste, não se orgulha, não tem olhos marejados, não faz reverência, mas é um legítimo representante do espírito natalino entre os católicos porque abraça a causa sem questioná-la. Mantêm-se coerente com a incoerência que marca sua existência e que nos custou, aos filhos, muita terapia para entender outros pais. Foi coroinha na infância, frequentador de missa, amigo do padre do bairro e é dono do presépio mais democrático que conheço. Ao lado da Virgem Maria e de São José, estão convidados para o nascimento do menino Jesus, o Mickey Mouse, o Topo Gigio, o Snoopy, a Mafalda e qualquer outro personagem que estiver ao alcance da mão. Os netos se queixam de que alguns brinquedos somem ao longo do ano para reaparecer na cena natalina.
Na noite de Natal a coreografia é sempre a mesma. A pedidos, arrasta-se até um quarto da casa onde se dará a ceia e submete-se rendido à completa transfiguração pelas mãos de alguma mulher da família. Impaciente, queixa-se do calor, da má qualidade da roupa e ajuda a amarrar a bota, pregar a barba, ajeitar o cinto sobre a barriga, esta sim, original. Depois, usando óculos falsos para não ser reconhecido dentro dos seus, carrega um sininho com uma das mãos, o saco de presentes na outra e adentra o ambiente onde é recebido com gritos histéricos pelas crianças e mães das crianças, ho ho ho, devolve com ar complacente. Se um parente mais entusiasmado entra com um samba, ele samba. Alguém aponta a criança que corresponde ao nome no presente, ele já não enxerga mais nada com o gorro enterrado nos olhos e o suor escorrendo pela testa. Sem direção de cena, puxa a calça caindo e dispara observações inapropriadas com a boca coberta pela barba branca fora do lugar. Antes da hora, decide-se que é hora de Papai Noel subir no trenó e seguir para outras casas, mais cinco minutos e qualquer criança de colo saberia quem ele é. Então, desaparece a contra-gosto, empurrado porta afora pelos guardiões da data.
Há muitos anos, nesse mesmo cenário, eu pequenininha, tive sorte e consegui me posicionar bem ao lado dele na distribuição de presentes. Primos, irmãos, avós e tios também disputavam um lugar. Encantada, coração disparado pela proximidade com a figura mágica de outra forma inacessível, notei um relógio debaixo da sua luva e tentei tocar aquela humanidade. E ele, com a liberdade de pai, deu um tapa de leve na minha mão. Fez mais. Irreverente, chamou minha atenção na frente de todos. Meu rosto pegou fogo e o coração congelou. Quis chorar, já não podia. Fui engolida pela confusão de gritos, papéis rasgados, fitas coloridas, pernas, braços, carnaval em dezembro. Fiz farra com as crianças, mas guardei mágoa. Na saída, ele mexeu com carinho no meu cabelo o que me confundiu ainda mais. Segui acreditando em Papai Noel até hoje. Os homens…

Só se for por escrito

Posted on 10 dezembro, 2014

Escalada para entrevistar Tom Jobim em Nova York, fui ter com ele sentado ao piano de cauda no Hotel Plaza. Tocou, cantou, conversou ajeitando atrás da orelha o cabelo que insistia em lhe cair sobre os olhos. Depois me convidou para almoçar ali mesmo no secular Oak Bar. 
Bebemos um tanto, comemos quase nada, e dessas coisas que só profissional entende, ele quis mudar de chopp. Mr Jobim era cortejado pelos maitres dos principais bares e restaurantes de Manhattan e fomos atendidos como reis. Seguimos assim, de chopp em chopp, o que não era fácil em Nova York, até escurecer. Apoiada no braço dele, lindão, vestindo um longo casaco preto de lã e cachecol vermelho, eu ia pensando, “Puxa vida, nessa hora não encontro nenhum conhecido! Se estivesse fazendo alguma coisa errada seria flagrada no ato!”
A certa altura, confortável na mesa de um bar e autorizada pelo álcool, me queixei de uma frustração antiga, que minha voz não era boa, que eu não era afinada. Tom então, galante e gentil, me incentivou a cantar para ele no que foi prontamente atendido. Abri com Águas de Março passei por Garota de Ipanema e encerrei, já confiante, com o Samba De Uma Nota Só. Quando enalteceu minha performance dizendo que eu poderia cantar para ele a vida inteira, exigi que fosse por escrito e meti a mão trôpega na bolsa sacando um pedaço de papel qualquer. Havia pouca luz e minha capacidade de foco estava reduzida. Agradeci quando escreveu umas linhas e assinou. E seguimos para casa, já noite, rever as nossas Luisas. Eu também tinha uma pequena na época.
No dia seguinte, encontrei o papelzinho amassado na bolsa com o aval de Tom Jobim para soltar a voz. Para minha surpresa e desgosto, era o mesmo papel, um guardanapo, onde numa situação inusitada outro ídolo, Muhammad Ali, havia carinhosamente desenhado um coração com nossos nomes dentro: Muhammad Ali x Marina.
Assim, tenho em casa as mensagens generosas, sobrepostas e quase indecifráveis, de dois grandes homens, certificando uma história da qual sou a única testemunha. 

O príncipe

Posted on 4 dezembro, 2014

O cara mais cobiçado da redação. Lindo sem ser. Educado. Elegante. Um príncipe. Dizia-se que dormia de pijama mesmo em cobertura de guerra. Escrevia bem. Falava baixo. Falso tímido. Galanteador assumido. Um precursor do coxinha. Naquele dia, veio algumas vezes até a minha mesa, disfarçou, fez pirueta, voltou para o aquário. Era chefe. A mulherada só filmando. Meu coração inexperiente batendo fora do ritmo. Quando sentiu que a frente estava livre, chegou pertinho e perguntou se queria acompanhá-lo a um show. Não escutei mais nada. Na quinta-feira, quando a campainha da casa dos meus pais tocou, me despedi deles como quem não garante se volta. Era um quarteto de cordas no bar de um hotel bacana. Caprichei no ar inteligente que o momento pedia acrescentando uma pitada da ingenuidade adquirida. Intelectual loira. Depois da apresentação, me convidou para dançar. Senti seu perfume discreto quando executamos uma coreografia envergonhada do sem querer querendo, um roçar de corpos e os beijos que mulher nenhuma ousaria negar. E então, ele me pega pela mão e sobe a escadaria em direção ao lobby do hotel perguntando e já respondendo que deveríamos passar a noite ali. Senti o enorme lustre de cristal rodar sobre a minha cabeça, zonza com a surpresa. E deixei que a onda me carregasse, o mar tinha a sua sabedoria. No balcão, ele pede um quarto com a segurança com que um cavalheiro escolhe o presente na joalheria. Sem assombro nem brincadeira. Baixo os olhos constrangida, princesa cortejada. Ele pergunta o preço com o cartão entre os dedos e eu faço que não ouço, distraída com a sandália. E então, o príncipe levanta a voz: Quanto? Ah, não vai dar não! Isso é um roubo! Vamos embora!
Recolhe a carteira. Agora encaro, cúmplice, a recepcionista. Atravessamos novamente o piso marmorizado, dois cavalos trotando num gigantesco tabuleiro de xadrez cinza e branco. Ele um pouco à frente numa passada decidida. Eu manquitolando, arrependida de ter nascido.
No carro, ajeita a camisa bem passada e o retrovisor enquanto se queixa do valor do quarto querendo cumplicidade. Não tenho vontade de por o cinto. A caminho de casa, o sapo ainda pergunta se eu gostaria de tomar um sorvete. 

O grupo

Posted on 4 dezembro, 2014

Minha mãe, incansável, organizando um grupo de cinema em Guaxupé em conversa com a tia:
– Quem eu poderia convidar?
– Ah, ninguém tem tempo para essas coisas.
– Se eu chamar a Ismênia?
– Tá enxergando pouco.
– A Nenê?
– Não ouve nada e não usa o aparelho.
– E a Divina?
– Não é todo dia que tá com a cabeça boa.

Literatura infantil

Posted on 27 novembro, 2014

A pedido do ilustrador, tentei fazer um livro infantil. Ele já tinha o traço desde a primeira letra. Eu acreditando que para escrever bastava escrever. A primeira versão da história do meu rabo era para crianças idiotas, daqueles que nem eu fui num tempo em que a gente entrava no carro para as férias sem perguntar para onde iria. Consegui falar com as palavras mais previsíveis do vocabulário brasileiro numa conversa pobre e desinteressante, já perdendo as crianças pelo caminho, eu mesma vendo televisão e passeando no facebook enquanto escrevia. Depois achei de gritar com letras grandes e sons onomatopaicos como se os leitores, além de pouca idade, tivessem problema de visão e audição. Me parecia que a compreensão se daria naquele exagero, desconsiderando que as crianças hoje já nascem sabendo ou desconfiando. Na ultima tentativa me superei. Fui didática no que isso pode ter de mais emburrecedor, com um discurso falsamente generoso, moralista, politicamente correto, do tipo “quem nunca teve um rabo que atire a primeira pedra.” Senti vergonha e decidi escrever para as crianças que fomos.

O rabo surgiu da curiosidade da minha filha com uma pequena cicatriz que carrego nas costas, resultado da retirada de um cisto. Na hora, achei que falar de fisiologia era muito menos atraente do que descrever a vida de uma menina que nasceu com um lindo rabo de raposa. Como a reação dela foi de credulidade e interesse, fui acrescentando elementos à história, explicando que com o rabo fui sempre o centro das atenções, que todo mundo na nossa família achava bacana e que, infelizmente, numa certa altura tive que cortá-lo porque o mundo não estava preparado para ele. Foi só muito tempo depois que ela soube que Papai Noel não existe, nem a fadinha do dente, nem o rabo da mamãe. Mas que sapo, sim, se ela beijar com amor, vira príncipe. O livrinho, chamado A natureza das coisas, seria assim:

Mãe, e esse risquinho estranho?

Apontou o dedinho para a marca nas minhas costas enquanto eu me vestia.

Foi o que ficou do meu rabo, não sabia?

Ela me olhou assustada.

E você teve um rabo, mãe?

Não tinha me preparado para o momento, mas a idéia deve ter passado muito tempo cozinhando na minha raiva, desde quando ganhei aquela cicatriz feia. Para não sair perdendo na pergunta dela, me dei de presente um rabo que, afinal, parecia muito mais divertido do que um cisto sem graça.

Seu avô, que conta tantas histórias, nunca contou essa para você? Eu nasci com um ossinho pequeno, logo acima do bumbum, examinaram na maternidade e acharam que ali cresceriam asas e que eu era um bebê anjo.

E você era?

A expressão séria, curiosa.

Tive que ser honesta.

Não, eu era o avesso disso.

E avesso de anjo é o que?

É criança levada, desobediente, bagunceira.

Ah eu queria ter bebês anjos gêmeos, um menino e uma menina, com asinhas! Animou-se.

Interrompi.

Aí, foi crescendo um rabinho, que virou um rabo médio e depois transformou-se num rabão maravilhoso de raposa. Vem aqui, me ajuda o zíper, pedi, tentando esconder o assunto.

Mas ela cutucou.

Saía daqui, é?

Saía. Não era um rabo “se acha” de gato, ou um rabo agitado de cachorro, ou um rabicó de porco, não. Era mesmo bem peludo e elegante e vermelho, o mais bonito de todos, um rabo de raposa!

Mais lindo do que a tatuagem da tia Beatriz?

Muito mais! Eu nasci assim, ela teve que desenhar na pele.

Mais legal do que o piercing do Murilinho?

Claro! O rabo veio comigo, combinava perfeitamente, o piercing do seu primo só ficou dele depois que colocou na orelha.

Enriqueci a história quando senti reação positiva na platéia, o brilho nos olhos.

Era a maior briga na hora do banho. Todo mundo queria passar shampoo, secar, fazer chapinha, trança. Até rabo de cavalo, imagina!

E o que aconteceu?

Ele cresceu demais, começou a me incomodar, não conseguia sentar direito na carteira apertada da escola, pegava poeira, molhava na chuva, dava muito trabalho para cuidar. E ficava muita gente perguntando. Aí eu pedi e a vovó me levou ao hospital para tirar.

Ái! Fez expressão de aflição. Doeu?

Nada, mas ficou a marquinha.

E por que eu não tenho rabo também?

Não sei, minha filha, a natureza é assim, tem suas próprias regras e exceções. Já pensou se eu fosse careca como o vovô?

Quem sabe

Posted on 20 novembro, 2014

O árabe de olhos tristes e cílios longos procura as lâmpadas que vim buscar no armazém. É uma casa de ferragens daquelas que fazem meu coração bater mais forte, baldes de metal, vassouras de palha, cestas de todo tamanho. Memórias viajadas do Largo da Batata para o Leblon. Ainda de costas, mergulhado no emaranhado de produtos, começa a se lamentar: Temos que sair daqui, dessa cidade estressante, violenta e cara, acabou-se a ilusão. Vai tirando as lâmpadas da embalagem e testando uma a uma num bocal empoeirado. Ninguém mais tem ânimo para viver, ninguém mais quer casar, ter filhos. Saquei a carteira e argumentei com segurança: Ah, não é verdade, não. Eu mesma já me casei algumas vezes e vou seguir me casando até morrer. E tenho filhos, gostaria de ter mais. Ele coça a barba e propõe: então casa comigo, sou viúvo, tenho a loja. Dei uma olhada em volta, pensei nas incursões futuras. Olha, moço, já sou comprometida, mas vamos deixar a conversa em aberto. Outra hora a gente segue.

 

Divã

Posted on 15 novembro, 2014

Depois de anos de trabalho exaustivo tentando parecer equilibrada e saudável para a terapeuta e creditando o fato de não ter alta à dependência dela à minha hipnotizante personalidade, nos cruzamos por acaso ontem no teatro. Tenho inveja do carioca que divide com naturalidade a praia com o dentista e o boteco com o professor do filho. Sou de quatro paredes. Encontrar o analista fora do consultório, numa situação informal, é uma experiência aterrorizante. Você é pego desarmado, sem filtro, sem discurso para se defender. Não tive tempo de preparar o personagem. Achei que atrás dela surgiriam homens de branco com a seringa e a camisa de força. Sorri nervosa. No escuro, cumprimentei-a e à loira ao lado dela com um beijo e um abraço exagerados. A moça, uniformizada, me olhou com pena: Não estou com ela. Eu trabalho aqui no teatro.

A camisa

Posted on 14 novembro, 2014

Pelo armário entreaberto pude ver as camisas penduradas com disciplina em cabides iguais. As mangas, que só conheci amassadas, estavam alinhadas em formação militar, impecáveis pelo calor do ferro de passar. Estendi a mão e puxei a cor de rosa, testemunha frequente do que não deveria. Cheirei o amaciante, senti a textura macia e soltei. Ali se encontravam duas estranhas, a casa e a rua. Os cabides acomodavam o antes de tudo, o anterior a nós, o escolhido e institucionalizado. Nós éramos o tempo suspenso, o que não cabia no armário. Tomei coragem e abri o cesto onde as roupas sujas, despojadas, misturadas, garantiam o carater familiar. Procurei ansiosa por algum tecido que tivesse sido momentaneamente meu e uma calça cáqui do avesso, despudoradamente enredada na alça de um vestido, me olhou de revés. Senti inveja daquela intimidade e da singeleza que ela carregava. Da crença que eu já não tinha e das tantas possibilidades para aqueles que crêem. O que se passou ali podia não ser real, mas existia nos meus pesadelos. O pertencimento é uma noção adquirida muito cedo. Mais adiante, quando toquei o peito abrigado na camisa recém saída do cabide e senti o coração batendo forte lá dentro, entendi que é preciso desvestir os sentimentos para nos casarmos com eles.

A bicicleta

Posted on 5 novembro, 2014

Olhei para ela ali pendurada no gancho, como uma borboleta de alumínio pregada na parede, e o coração apertou. Bicicleta parada é nada, escultura inanimada.Nem tinha tanta vontade assim de pedalar. Foi mais por ela, por sua triste condição de espectadora, que me estiquei e a desci cuidadosamente, as rodas ensaiando um movimento no ar.Ainda no piso de tacos, experimentei a altura do banco sem saber quem esteve ali por ultimo. Ela me vestia justinho. Levei-a para a rua, pesei o pé no pedal, um só, e soltei o corpo no corpo dela. Descemos a ladeira. Primeiro devagarinho, escorregando, até ganhar velocidade e levantar vôo. Pássaro, foguete, avião, planamos em silencio sem asas, sem motor, furando o céu com o rosto. Minhas mãos nos seus braços encontrando cumplicidade. Sou eu, somos nós, meu coração dizia, protagonistas da nossa emoção, girando a roda solar, deslocando-nos no tempo, no espaço, trocando a alma de lugar. Avançamos pela avenida vazia. O vento no centro de tudo, olhos, ouvidos e o chão, uma linha riscada e interrompida, riscada e interrompida. E então, estávamos livres, ora ziguezagueando embriagadamente ora marchando com disciplina enquanto as imagens corriam ao lado, postes, árvores, pernas, o meio-fio. Outras tantas bicicletas, nossos pares movíveis, sugeriam um arrebatamento coletivo em curso. Mas escolhemos a casa. Senti as pernas arderem na subida, a puxada doía nela também. Fomos até a parede onde a dependurei novamente transpirando poeira. Recuei ofegante e nos despedimos, agora plenos de sentido.