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Quem casa quer faca

Posted on 26 fevereiro, 2014

marinoiva

Gostaria de entender o critério da memória. O que mais me marcou na minha festa de casamento, há muitos anos, foi um convidado desconhecido que me entregou um presente em mãos. Fiquei algum tempo, vestida de noiva, segurando o embrulho do tamanho de uma caixa de sapatos de um lado para o outro, sem jeito de me desfazer daquilo. Mais tarde alguém abriu e me mostrou: era uma faca elétrica da GE.

Aqui e lá

Posted on 20 fevereiro, 2014

Atrás das esculturas de mármore do museu, quebrando o silencio de pedra, os dois funcionários consertam uma porta. Testam uma peça de metal que deveria fixá-la ao chão e que teima em lhes escapar das mãos na hora de prender. Estão sérios e compenetrados como os apreciadores da boa arte, mas diferente dos visitantes, concentram sua atenção no próprio trabalho, nas suas mãos, na solução do problema que enfrentam naquele momento. Trocam palavras num espanhol sem rodeios, comandos simples de segurar, apertar, soltar. Sem reflexões profundas ou elaborações estéticas. Encurvados sobre a sua dificuldade em uniformes cinza, ignoram respeitosamente o ambiente.
A mostra reúne gigantescas peças esculpidas em carrara que, como se de papel ou tecido, dobram-se, curvam-se, movimentam-se naturalmente seduzindo o observador. As reentrâncias e saliências aparentemente macias, pedem para ser tocadas, vem o desejo de passar a mão no sentido mais vulgar da expressão, o puramente sensual, apesar da advertência para que não o façamos. E então, o silencio ecoando no teto alto contra o som das ferramentas no chão. Me interessa agora não mais a arte ou os visitantes nem o que nos provocam as obras. Antes, o contrário disso, o que distingue aqueles trabalhadores de todo o resto, a sua distância das circunstancias, a sua isenção da atmosfera artística, a sua condição ensimesmada, ali e alheios ao que ocorre ali.
Penso nos funcionarios dos hospitais que limpam burocraticamente o chão enquanto a dor, o medo e a morte entram e saem. O sangue e as lágrimas torcidos nos baldes em panos desinfetados e a rotina pessoal paralela às tragédias atendidas ali, o celular que não funciona, a cor do batom no catalogo da Avon, do preço do material escolar, o trem que atrasou naquela manhã. Há quase um conforto na idéia de que a vida segue por caminhos diferentes em universos paralelos e possibilidades distintas.
Penso no pessoal de terra dos aeroportos, os que não embarcam conosco em ferias cheias de expectativas, reuniões tensas de trabalho, no vai e vem ininterrupto de malas, objetos, documentos e gente mudando a alma de lugar. Alheios a tudo, no final do expediente, tiram o uniforme, tomam banho, comem e vão dormir em suas camas. Sempre senti inveja dessa gente. Sempre desejei, ao atravessá-lo, que o aeroporto fosse só o meu emprego e que eu pudesse olhar as pessoas passageiras por ali sem sentir a emoção descontrolada da viagem, sem me contaminar com o frenesi do lugar, preocupada apenas com o movimento do supermercado na volta para casa.

 

 

 

 

 

 

 

O fim

Posted on 18 fevereiro, 2014

À mostra, indefesa, está a nuca e o cabelo úmido terminando ali, no começo de tudo. De costas, nú, inteiro, pesado, entregue ao sagrado, desacordado, ele. Eu o vejo morto e quando respira, a pele elevando-se lentamente, estou feliz como Neruda no poema, feliz de que não seja verdade. Os olhos esquecidos do que viram, mais fechados do que a boca que guarda semi aberta a memória de gostos em cantos e flancos sombrios. O fio de luz dos dentes. Branco sobre o fundo branco, o contorno descuidado, meu coração periciando o corpo caído, despregado do céu, jogado no lençol. Eu o acolho distante, prenha de compaixão, mãe do menino que dorme. As mãos soltas, inúteis, abrindo mão do momento. Nada acontece agora que a luta está esgotada, quando a tarefa de manter-se vivo está cumprida. O trabalho ininterrupto de um homem, a existência dedicada ao gozo. Vencido. O suor seco resfriando as costas. Descansa e se esquece, alimentado de mim. Suas pernas, os pés tortos, descobertos, abandonados, afinal. Ele dorme e me comove.

 

Livro, o de papel

Posted on 18 fevereiro, 2014

O livro, encomendado do sebo virtual, chegou cheio de anotações. Feitos a lápis numa caligrafia redondinha e caprichada que eu arriscaria pertencida a uma estudante mineira em curso de literatura, os registros reproduziam a fala do professor. Aborreceu-me um pouco a análise de texto subserviente à formalidade das regras e nomenclaturas, a oralidade, a estrutura e o estilo, intrometidamente nos espaços entre palavras inventadas com a liberdade que Guimarães Rosa a custo conquistou. As originalidades grifadas. Mas foi só. Em Corpo de Baile, não seria o lápis da menina a me afastar do meu propósito, “me desafligi” e toquei.
Não me incomodo com isso, ao contrário, livro manchado, sujo, com orelhinhas dobradas, rabiscado, revela o percurso da sua história pessoal. Sinal de que foi desejado e carregado para todo lugar, no mínimo, manuseado pelo leitor. Corpo sem marcas é corpo não experimentado. Gosto de imaginar o café que pingou na página aberta na mesa da copa, o vinho esparramado no braço do sofá, o chocolate derretido na mão distraída, a água respingada da piscina no papel agora ondulado.
Muito bom emprestar livro para quem tem prazer na leitura. Como minha cunhada, que é uma leitora voraz e exigente, mulher apaixonada mas não cega de amor, que compartilha o exemplar com meu irmão, outro degustador dedicado, e me devolve com comentários decorrentes das discussões do casal sobre a obra. Ela mora numa cidade pequena do interior, trabalha numa biblioteca pública e faz a maior ginástica para ter em mãos os livros que quer. Quando me visita, vem sempre com uma sacola grande e se põe em frente à estante para a pescaria mais difícil do mundo naquele oceano de títulos, quase todos já conhecidos dela. O prazer é recebê-los de volta com as observações mais inteligentes e sensíveis que, muitas vezes, me devolvem ao que já li e não vi. Num Natal há alguns anos, presenciamos sem muita surpresa uma cena em que ela proibia os filhos, ávidos mini-leitores, de mergulharem numa caixa de livros herdados dos primos mais velhos: “Nada disso! Vocês só vão ler lá em casa. Podem guardar tudo com os brinquedos que o Papai Noel trouxe!”
No reverso, os livros carregam uma mensagem de quem os lê. Os meus tem fotografias esquecidas dentro, às vezes uma florzinha secando, um bilhete de filho, de amigo, memórias aleatórias que compõem e completam uma vivência enquanto ela durar. De tanto gosto, já me peguei beijando um livro maravilhoso e fazendo carinho nele de gratidão. Outros, a maioria desiluminada, é esquecida ereta, em formação, geminada múltiplas vezes numa colagem vertical avolumando a prateleira.
Meu pai, que sempre acrescenta ao já existente, inventou de marcar os livros com um elástico esticado entre as páginas correndo pela lombada afora e, dependendo do tamanho, querendo arrebentar. A prática é inteligente, mas não tem muitos seguidores. Nessa matéria de valor literário, não faz média e dependendo da escrita devolve com elástico e tudo. Foi o que fez quando, considerando sua relação estreita com as artes plásticas, dei-lhe de presente a biografia de Chagall e pouco tempo depois ele me devolveu com a consideração de que não gosta da sua pintura, “se faz de ingênuo”, portanto, não tem interesse na sua trajetória pessoal.
Sem nunca ter um marcador à mão, minha filha, a Manuela, enfrenta a jornada sem bússola nem direção. Perde-se pelo caminho, volta diversas vezes ao que já conhece e dá saltos no curso dos fatos. Talvez por isso prefira leituras menos lineares e mais poéticas, escritas em que a ação é substantiva e onde cada palavra vale uma experiência sensorial. Isso é a essência dela, o caos é seu trampolim intuitivo para o alvo.
Uma tarde, pego a Luisa, a irmã, com o Mia Couto aberto no colo, as lágrimas correndo pelo rosto “entre o desejo de ser e o receio de parecer, o tormento da hora cindida”, molhando a poesia sul-africana. Me emocionei e tive orgulho da emoção dela.
A passagem do tempo se dá nessa contagem também, a das páginas viradas. “Não há de quê”, respondi ao amigo que levou agradecido a coleção de livros infantis aposentada por tempo de serviço. Na saída, ainda puxei de volta um deles como se o gesto resgatasse uma infância inteira que se ia ali. Era o nosso preferido e tinha muita história para contar.

Tentações

Posted on 5 fevereiro, 2014

Aos 79, a tia acaba de voltar da excursão à Aparecida do Norte. Veio com terço perfumado, água benta em vidros de tamanhos variados, CD autografado do padre cantor e a Nossa Senhora negra, padroeira do Brasil, num modelo mais moderno, feita a partir de material reciclado, a capa azul em palha natural. Já tive imagens mais bonitas, observou com a santa na mão. Assistiu nove missas em dois dias. Está empolgadíssima, ocupando-se agora da organização da próxima saída do grupo para um santuário em Goiás, o do Pai Eterno. A tia tem convicções rigorosas. Esquecida da sombrinha, chegou da rua encharcada de chuva. E por que não correu? Eu, uma mulher casada, correndo na rua? Alguém queria notícias da vizinha, viúva recente. Ela respondeu irônica, sem tirar os olhos do escorredor: Deve estar bem, a frente da casa está toda enfeitada para o Natal… Na véspera da viagem à Aparecida, foi ao salão de beleza tingir o cabelo e fazer as unhas. Instalado nos fundos da casa da proprietária, o salão acolhe domesticamente as clientes. O tanque que lava a roupa da família é o mesmo que recebe a cabeça das freguesas, lado a lado estão a mesinha da manicure e a de passar roupa. Há anos, a tia frequenta o quintal da Zilú, 68, colega de novena e de grupo de bordado. Na intimidade entre elas cabe a inusitada situação da tia ficar sozinha com tinta no cabelo esperando a Zilú dar um pulo na catedral para participar de um terço e voltar a tempo de terminar o serviço. Pode fazer um café, se estiver com frio, comadre. Compartilham, entre outros, a fé nos desígnios de Deus, o que tiver que ser, será, há que se acatar com resignação. E foram, ambas, postas à prova no dia da visita do Roliudi (Santiago Filho) ao salão. Estavam lá, a tia e outras senhoras da fina sociedade local, quando adentrou o cinquentão playboy. O primeiro homem a visitar o quintal. Rato no galinheiro. Ajeitaram-se nas cadeiras improvisadas, puxaram as saias, abraçaram as bolsas, baixaram os olhos. Sem cerimonia, pediu à Zilú que aparasse os pêlos do nariz e ouvidos e ajeitasse as costeletas, que ele mantem longas à altura do queixo. Roliudi veio pobre do norte e ficou rico no comércio local. Gosta de carros esportivos, de moto, de roupas chamativas. A irmã, cliente do salão, foi quem sugeriu que ele procurasse a Zilú. Passado o susto inicial, a profissional concordou e atendeu com uma seriedade quase rude. Não queria que mal falassem dela por algum excesso de liberdades. Ele, então, apontou a tabela de preços afixada na parede e pediu o impedível: queria o peito e as costas depiladas com cera quente. Propôs o valor equivalente à depilação de meia perna e virilha. As senhoras, a tia incluída, fingiram que não ouviram e mantiveram o olhar firme no chão. A Zilú não podia negar. Foi em atitude compungida preparar a cera no fogão, ao lado do varal. Livrái-me de todo o mal, Senhor. Roliudi tirou a camiseta e recebeu os golpes. Primeiro na frente, depois atrás. Não gemeu, não reclamou. Podia ter sido pior, mas havia da parte dela, um cuidado escondido ali, um jeito de aliviar a dor, um acalmar a ardência. As mãos na pele. A tia se dava conta e rezava para que aquele calvário, o dela, terminasse logo. Que Deus a levasse naquele momento, já tinha vivido o suficiente. E Ele, na sua infinita misericórdia, poupou-a do constrangimento. A manicure avisou que tinha terminado o serviço, ela podia ir embora. Levantou-se chacoalhando as mãos no ar, os dedos separados em atitude pós esmalte e disparou: Zilú, estou indo para a igreja. Venha que é dia de confissão.