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Na cozinha

Posted on 21 março, 2014

Dona Rejane veio cozinhar. Deixar a provisão congelada para os próximos dias. Liga o radio e fala com Fred, o coelho. Baiana simpática e cheia de atitude, tem autoridade para fazer a carne amaciar acolhendo o recheio de cenoura e ervas, o feijão render-se na medida certa ao louro, ao bacon e até ao hortelã. Na malícia, permite à farinha de rosca roçar de leve o bife para a milanesa e ao pimentão fazer uma graça para a carne moída. Muito alho, cebola e pimenta. Diz que limpa e guarda tudo de tal forma que da sua passagem por aqui fique só o cheiro no ar. Delícia, metade do sabor é cheiro. Me pede colher de pau. Não tenho. Panela de pressão. Não tenho. Espremedor de batata. Saio para comprar. Para me vingar, digo que não posso com coentro. Matei a baiana, penso. Ela me olha com pena. Uma mulher sem colher de pau nem tempero. Começo a explicar, como alguém pego no pulo fazendo coisa errada, que tenho também uma casa em São Paulo e que  as coisas da Ilhabela estão se perdendo entre lá e cá, e que aqui no Rio me faltam acessórios, mas ela já não ouve. Volta para o radio e a conversa com o Fred. Não mereço sua atenção dirigida agora para uma panela grande onde a carne, chã de dentro, picadinha e lambuzada de páprica, espera pelos legumes sem pressa. Fico de longe espiando os movimentos decididos dela e a invejo, não no talento ou na experiência, mas na plenitude do momento. A interação perfeita de uma pessoa com a sua atividade. A segurança da vocação e do destino. Ela mete a colher, prova o caldo na palma da mão e a limpa no avental. Tampa e segue em frente.

Hein?

Posted on 16 março, 2014

“Minha barriga está roncando. Pode queixar-se à vontade que não vou lhe dar comida.” A elegante senhora, carioca do tempo em que se morava em Copacabana, não deixa claro se fala comigo, com a sua acompanhante ou com ela mesma. A outra, uma prima? parece-se com ela, mas é mais séria e calada. E não poderia ser de outra forma.

Ainda no solo, olha pela janelinha: “Como o Rio é bonito, não, dona Rosinha?” Tratam-se de modo formal apesar da clara intimidade entre as duas. O diálogo é sempre de uma mão só.

“Estou com tosse, não posso com o ar-condicionado. Você trouxe o xarope? Hein?” Sem esperar  resposta, dirige-se à comissária de bordo:

“Meu bem, vocês tem uma bala aí? Minha garganta está coçando.” A jovem acha graça no tom dela e  desculpa-se numa resposta negativa.

“Vamos rezar para esquecer a tosse”, propõe a outra. Abrem as bolsas, tiram as bíblias.

“A sua está feia demais, dona Rosinha. Vou lhe dar uma nova.”  Não chegam a começar.

“A senhora avisou a Gilda que iríamos a São Paulo?”

“Não.”

“Hein?”

“Não avisei.”

“E por que?”

“Porque não.”

“Por que?”

“Não quero ninguém cuidando da minha vida.”

Atravessamos uma leve turbulência.”E esse avião que sumiu com mais de 200 pessoas a bordo, hein, dona Rosinha? Estão dizendo que foi levado para outro planeta.”

“É o fim do mundo.”

“Eu, graças a Deus, só vôo de Azul. Até mudei a data da cirurgia para me adequar aos horários deles, não foi mesmo?Hein?”

A conversa segue tratando dos detalhes da tal cirurgia que se dará dentro de dois dias, no Einstein, em São Paulo. “Estou levando um presente para a secretária do médico das hemorróidas. Ela é muito atenciosa. Como é mesmo o nome dela?” E direto para mim:

“Essa sua pulseira é de onde? Muito bonito o desenho clássico dela.” Respondo baixinho:

“É da Tiffany”

“Hein?”

“Da Tiffany”, repito.

“Ah, sabia! Morei muito tempo em Nova York. Vivia com os olhos colados naquelas vitrines. Onde você comprou?”

“Em São Paulo, no Shopping Iguatemi.” Agora para a outra:

“E se a gente passasse lá a caminho do hospital, dona Rosinha?” Volta para mim:

“Fica muito fora de mão?”

Depois do lanche, quando quer um café com leite “daquele de astronauta, em pó, que vocês nos servem aqui”, reclama que as mãos estão sujas,  pede um guardanapo molhado para a comissária e ganha lencinhos umidecidos.”Isso não havia no nosso tempo, hein, dona Rosinha? Que invenção! Obrigada, meu bem, tome, recolha isso agora. Serviço nota 10 dessa companhia!”

Encara a outra por um momento e comenta:” A sua sobrancelha está linda. Quem tira ainda é a Wilma? Hein? E a minha está boa?” Pega o espelhinho na bolsa, checa a sobrancelha, aproveita passa batom..” A sobrinha da Wilma está na Petrobrás. Nem precisou de concurso. É inteligente e tem estampa, a senhora não acha?” A outra alisa a capa do livro, Os Sete Passos Vitais para Receber o Espírito Santo, querendo ler. Ela espia um comercial na pequena tv. “A cerveja da Copa, a Brahma, está uma coisa! Parece um chopp! Hein? Meu fígado não acha graça, mas é problema dele. Não vou me privar por sua causa.”

O avião inicia a descida. Ela aponta lá fora: “São Paulo deve estar entre as cidades mais feias do mundo, não, dona Rosinha?Hein?”

A rua

Posted on 14 março, 2014

Às 5h45 da manhã, a caminho do aeroporto, passo por um conhecido mendigo do bairro. Embrulhado em sacos de estopa deixando tecido solto nas costas numa espécie de capa, o super herói das calçadas está de pé, vigilante, chupando um picolé.

Espírito de porco

Posted on 13 março, 2014

Bebia com afinco, o Zé Raé. Trabalhava na roça, apanhar café, tocar o gado, alimentar os porcos, essas coisas. Sumia por dias, às vezes. Quando voltava da bebedeira, lanhado, amassado, sujo, botava a culpa nas almas de outro mundo, que o perseguiam por crimes não cometidos. Imagine que noite dessas, eu atravessava a pinguela lá embaixo e comecei a levar tapa, chute, soco de todo lado. Coisa do espírito do meu tio Tonin. Pelo doído eu sabia, ele bate assim, ó, com a mão virada. Rasgou minha roupa, rancou butão e tudo. Gritei : ô tio, é o teu sobrinho Zé Raé! Só aí ele parou: perdoa, Zé, não te reconheci! E me deixou passar. Tenho que me benzer.

 

 

 

 

 

O velho e o mar

Posted on 10 março, 2014

O senhorzinho de sunga vermelha, aparência frágil, encurvado e muito magro, surgiu no alto da duna e veio caminhando devagar pela areia em direção ao mar. O vento jogava sobre o seu rosto a farta cabeleira branca, afastada com as pontas dos dedos em gestos delicados, como se a mão estivesse em carne viva. Era um beduíno nú vagando nomademente no deserto. Tive medo de que não fosse capaz de terminar o que havia começado. Foi. Fincou os pés na areia molhada e sentiu a temperatura da água mostrando a nuca bronzeada. Lentamente levantou os olhos e encarou o inimigo: não banque o esperto que eu te conheço não é de hoje, cara. Pensei nele jovem, a prancha, o mergulho, uma intimidade oceânica. Avançou pelas 7 ondas do raso, espuma, concha, chão. Agora, com os braços ao longo do corpo, joelhos abrindo caminho, cortando o mar desassossegado. Eu plantada na areia quente. Passou a rebentação, teste dos amadores, e sumiu da paisagem por longos segundos até que sua cabeça cinza surgisse pequena na distancia. Respirei. Ficou ali brincando remansamente, vencedor, por muito tempo. Esperei ele voltar, queria ter certeza. Saiu com ar cansado, andar trôpego. Mais tarde o reencontrei e depois outras vezes, caminhando pela calçada de sunga vermelha, descalço, arqueado, um homem.

Têtêretê

Posted on 9 março, 2014

Show de Jorge Ben Jor em Nova York. Início dos anos 90. A emissora me pede uma matéria. Nosso produtor  acerta uma entrevista com o cantor no camarim após a apresentação. Assisto o show e me preparo para a conversa. A equipe aproxima-se da porta e pede ao segurança que  o avise . Minutos depois vem a resposta. Ele desistiu, não quer mais dar entrevista. Insisto quase chorando. O agente aparece, pede desculpas, diz que vai tentar convencê-lo. Volta com a negativa. Ele não está bem, enfrenta problemas pessoais, não quer ver ninguém. Fico desesperada, argumento que vou perder o emprego, que me comprometi a fazer a matéria para o programa de domingo, que daremos destaque, que a matéria vai encerrar o programa. O rapaz sensibiliza-se com a aflição da jovem repórter. Volta ao camarim e sai muito tempo depois dizendo que Ben Jor concordou, mas que eu me prepare porque ele está de mal humor, que devo ter jogo de cintura. Estou suando, entre aliviada e assustada. Entro. E entrevisto Jorge Ben Jor vestindo apenas uma diminuta cueca branca. Fechamos a câmera no rosto dele. Era isso ou nada. Foi isso.

Fora do lugar ( emprestado de Edward Said )

Posted on 8 março, 2014

Desde criança, sonho repetidamente que estou de pijama em locais inapropriados, na escola, no trabalho, num restaurante, numa festa. Para piorar o mal-estar, o pijama é feio, grande, velho, de flanela xadrez. Ao contrário do que  a situação poderia sugerir, o sentimento não é de conforto, mas o oposto disso. Só me dou conta de que vim com o traje errado quando já estou naquele lugar, com diversas pessoas à minha volta. Entro, então, no momento mais tenso do sonho, quando provavelmente aperto os dentes dormindo e tenho que tomar uma decisão: ou disfarço agindo como se estivesse vestida numa roupa normal acreditando que com isso vou convencer os outros de que sou o que não sou ou trato de assumir a piada fazendo de conta que o descuido foi proposital e que estou achando muito engraçado. Nenhuma das duas saídas acontece a tempo e me vejo, por uma câmera no alto, atuando ridiculamente naquele cenário. Acordo de camisola, porque nunca usei pijama, aliviada por estar na cama, contente por não ser a louca do sonho. Precisamos trabalhar esse seu sentimento de inadequação, diz o analista. Por mim, a essa altura, bastava trocar o modelo do pijama por um mais bonitinho.

A natureza das idéias

Posted on 5 março, 2014

Ouço o episódio de um jogador de futebol que, criticado por ter velocidade, mas pouca objetividade com a bola, explicou: Ou corro ou penso. Faço a analogia com a escrita e concordo: se disparar, erro o gol. Os pensamentos, inúmeros, vivos, energéticos, ziguezagueando em todas as direções, excitam-se e impulsionam-se rapidamente para o alto em combustão. São rojões a explodir e a se derramar em partículas inteligentes emocionadas multiplicadas e descontroladas, perdidas no infinito, esparramadas no chão. Quero disparar em desabalada carreira atrás daquele alvoroço mental e agora sei que, como o atleta confesso, não posso. Deixo, então, a euforia do desejo me ultrapassar. Escolho as palavras, uma a uma, invento jogadas, fujo das ensaiadas. Num dado momento, brota.

Minas

Posted on 2 março, 2014

As minhas filhas sabiam, as outras tantas crianças também. Quando laçadas pelo braço por alguma tia centenária nas festas familiares em Guaxupé, respondiam com precisão à pergunta que, afinal, ajudava a tocar as conversas:
– Ô bem, ocê é de quem?
– Sou filha da Marina, neta da Uda, bisneta da Neti.