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Tranquilo

Posted on 30 abril, 2014

Rapaz da farmácia, gari e dono da banca de jornal onde dividem um bolo que a mulher dele mandou de lanche.
Coroa da banca assopra afastando as migalhas de cima da minha Piauí, pergunta se eu quero pegar uma mais limpa e segue:
– O ano está tranquilo. Tirando esses lances de quebra-quebra por conta de promessas não cumpridas pelo prefeito, onibus queimado e tal, e de confrontos com os PMs lá em cima, estou, no meu caso, mais sossegado do que pai de menina feia.

 

Destino

Posted on 26 abril, 2014

Uma manhã, o gato apareceu no jardim. Branco, pelo curto, rabo em pé antenado para as novidades da situação. Atravessava o gramado naquele andar felino elegante, carregado de independencia e soberania, e  subitamente parou, pressentindo, preparando-se para a sobrenaturalidade do viria a acontecer. Menos instinto do que predestinação, seus olhares se cruzaram. A menina, recém acordada, nenhuma palavra ainda, camisolinha amassada, pé com meia, pé sem meia, estendeu o pesadelo com o monstro do sono até ali. O gato e o dragão. O sol iluminou o corpo miúdo sem asas e ela apaziguou-se com a impossibilidade de um ataque feroz, quase entendendo a metáfora. Pelos olhos dela, fio desencapado de emoção, o bicho experimentou um encontro ancestral e desacelerou também o seu coração. Amar é reconhecer -se no outro. Virou a cabeça lentamente observando os pássaros na trepadeira, o muro que o trouxe até ali. Desejou um deles na boca. Penas e sangue. Os pézinhos dela, patas curiosas, quiseram se aproximar e já dona do que não lhe pertencia, estendeu o pão com manteiga. O silencio dizia que sim. Cheirou e, no pão, sentiu a menina. Não havia mais lugar para arrependimentos. Um encontro de outras vidas, sete outras, de referências distintas, cheiros, gostos, Egitos antigos, quintais, jardins, memórias passadas, antepassadas, agora reencarnadas na pele, no pelo. Tinham fomes, caçavam e se buscavam. Tirou delicadamente a coleira dele, examinou, jogou longe. Na não territorialidade se pertenceriam.

Paixões

Posted on 20 abril, 2014

Paixão em Minas, nunca entendi, é sofrimento. Estar apaixonado pode significar na linguagem popular, estar infeliz. “Ele ficou apaixonado quando cortaram a quaresmeira da frente da casa”, a tia conta cheia de pena. E, por um segundo, você acha que virá uma história de amor daquele caso que acabou bem ali, na tristeza do vizinho.

Qualquer um sabe que as paixões, mesmo quando bem sucedidas, carregam o risco da dor. Mas não acho que é daí que os mineiros extraíram o significado pessimista da expressão. A pepita tão valiosa da sua personalidade condoída. Se tudo em Minas é pesaroso, difícil demais, por que não estender a bíblica Paixão de Cristo para os tantos infortúnios que a vida cotidianamente nos traz, o desconsolo pela quaresmeira derrubada?

Crianças, em Guaxupé, acordávamos cedo e, sem escola, íamos direto para o quintal brincar com a recomendação expressa de não falar alto nem dar risada porque é pecado ser feliz na Sexta-Feira Santa, a Sexta-Feira da Paixão. Aquilo era a melhor farra do mundo, a proibição transformava-se num desafio e a gente caprichava na provocação para a briga ou a gargalhada. Naquele dia fazia-se um silêncio puro, de pedra. A gente só ouvia cachorro latindo, bicicleta descendo as ladeiras de paralelepípedo ou o sino da Catedral tocando. O único momento do ano em que o rádio do quarto de costura da minha tia, preso à parede por um fio remendado, não cantava nem baixinho. Era também a folga da empregada, a Sá Maria, e a gente ficava se perguntando para onde ela iria já que morava conosco desde sempre e não parecia conhecer a vida do portão para fora.

Minha avó era uma inspetora rigorosa dos assuntos religiosos e de vez em quando aparecia no quintal reclamando de uma manifestação mais evidente de diversão. “Hoje é dia de tristeza, de compadecimento, de outra forma não se justifica Jesus ter sofrido e morrido por nós.” E explicava com imagens fortes o episódio do calvário e da crucificação de Cristo. A gente ouvia cheios de medo, mas não entendíamos o que isso tinha a ver com o tom das nossas vozes ou com um mergulho na piscina do clube que era o nosso programa nos feriados, à exceção desse e o do Natal.

Na época, havia um revezamento preventivo entre os sócios no uso da piscina. Dias masculinos e dias femininos. Homens e mulheres não se encontravam dentro d’água. Depois, a regra evoluiu para uma divisão dos metros cúbicos de lazer. O clube atravessava uma corda dividindo a piscina ao meio, calções de um lado, biquinis de outro. E, claro, bastou essa medida para passarmos o tempo todo mergulhados com os olhos bem abertos naquele tanque de cloro espiando pelo muro virtual os corpos se mexendo em câmera lenta do outro lado. Falsos pudores mineiros. Atrás dos vestiários, embrulhados em toalhas, acontecíamos tudo. A piscina foi durante muito tempo o maior ponto de encontro da cidade. Abrir mão disso, ainda que pelo sofrimento de Cristo, nos doía muito.

A gente deixava, então, aquele longo dia, cheio de restrições passar, escondíamos qualquer sinal de alegria e acompanhávamos a procissão até a Catedral com ar contrito, certos de que se Deus nos visse sofrendo teria compaixão de nós e, na sua infinita misericórdia, aceleraria o tempo empurrando-nos rapidamente para o sábado de Aleluia, com direito a baile e tudo, e todo mundo voltaria a ser feliz.

Mas a vocação dessa gente “da tristonha cultura montanhesa”, como dizia o Otto Lara, é mesmo a de apaixonar-se no sentido mais trágico da palavra. Sendo a vida uma longa penitência para aplacar as culpas, com curtos intervalos de regojizo, na época da jaboticaba, por exemplo. A vida reverenciando a sua mortalidade.

Minha mãe nos dá conta que o Correio do Sudoeste reproduziu um recado do Vaticano liberando a carne na Sexta-Feira Santa. “Justo agora que o povo está com poder aquisitivo para comprar um bacalhauzinho”, foi o comentário do gerente do supermercado para ela. Nada, nunca uma boa notícia.

 

 

 

O gesto

Posted on 14 abril, 2014

Ainda que tivesse se dado conta, a senhora, negra e obesa, não poderia abaixar-se ali para amarrar o cadarço. O vagão do metrô estava lotado e ela carregava uma criança no colo. Fiquei olhando os longos fios soltos escapando do tenis, esparramados no chão. Tinha tomado o trem muito antes, na Union Square, e garanti um lugar sentada, motivo de comemoração pessoal a cada solavanco sádico do condutor. Havia outros tantos pés mal acomodados, fincados no chão aos pares, bípedes em trânsito coletivo. Ela segurava-se com firmeza na argola de metal pendurada no teto, bolsa atravessada no braço, casaco até a altura dos joelhos. Os cadarços livres, esquecidos, prestes a serem atropelados pela falta de espaço e pela pressa. Acenei timidamente, mais para enganar a culpa do que para resolver, apontando para o meu assento sem sucesso. Ela ensaiou um rearranjo no corpo como quem procura aliviar o peso e ganhar equilíbrio. Estava abrindo a guarda para desembarcar, desamarrada e indefesa.

Fiz então o que a minha história demandou. Medi a distancia com o braço e, avaliando que não alcançaria, escorreguei o corpo até a beiradinha do banco e abaixei-me de forma a poder tocar seus calçados. Espremidas entre tornozelos desconhecidos, pontas de guarda-chuva e sacolas, minhas mãos agarraram os fios apartados, primeiro um e depois o outro e, com a urgencia de quem não pode errar, deram um laço firme e certeiro. O movimento, sem nenhuma intenção de alarde, abriu um espaço circular de rinha de galo. Pernas afastadas e cabeças para baixo, olhares curiosos na minha direção. Os colegas de banco retesaram-se em reação ao gesto inesperado. Senti o rosto quente e virei-o para fora tentando amenizar a atitude talvez inadequada para o padrão novaiorquino de convivência social. A mulher, agora gigante, passou a caminho da porta e, antes de sair, absolveu-me com a voz grave: Thank you, darling. You certainly don’t belong here.

A camisa

Posted on 11 abril, 2014

Pelo armário entreaberto pude ver as camisas penduradas com disciplina em cabides iguais. As mangas, que só conheci amassadas, estavam alinhadas em formação militar, impecáveis pelo calor do ferro de passar. Estendi a mão e puxei a cor de rosa, testemunha frequente do que não deveria. Cheirei o amaciante, senti a textura macia e soltei. Ali se encontravam duas estranhas, a casa e a rua. Os cabides acomodavam o antes de tudo, o anterior a nós, o escolhido e institucionalizado. Nós éramos o tempo suspenso, o que não cabia no armário. Tomei coragem e abri o cesto onde as roupas sujas, despojadas, misturadas, garantiam o carater familiar. Procurei ansiosa por algum tecido que tivesse sido momentaneamente meu e uma calça cáqui do avesso, despudoradamente enredada na alça de um vestido, me olhou de revés. Senti inveja daquela intimidade e da singeleza que ela carregava. Da crença que eu já não tinha e das tantas possibilidades para aqueles que crêem. O que se passou ali podia não ser real, mas existia nos meus pesadelos. O pertencimento é uma noção adquirida muito cedo. Mais adiante, quando toquei o peito abrigado na camisa recém saída do cabide e senti o coração batendo forte lá dentro, entendi que é preciso desvestir os sentimentos para nos casarmos com eles.

O ter

Posted on 10 abril, 2014

Luna, Marina e Oceane são os nomes das filhas do marinheiro francês. Achei bonito ele trazer para casa o que, de outra forma, não possui. Ser, por decreto, pai do infinito, senhor dos mares e do céu, dono do impossuível. Mas em breve, as suas meninas também serão o irrefreado, o mutante, o ingovernável. E de novo o marinheiro francês será só um homem levando o barco.