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Uma D R

Posted on 25 maio, 2014

Todos os dias quando corro na praia eu converso mentalmente com você.

 Mesmo?

 Sim, pelo menos 40 minutos de discussão.

 E sobre o que discutimos?

 Sobre a nossa relação, o que mais? Ainda no alongamento, otimista, descansada, olho aquele mar azul e me/te digo que está tudo bem conosco, tudo lindo, mas que sinto falta de empenho seu.

  Lá vai.

Relaxo e revejo a nossa história com uma perspectiva elástica, muita flexibilidade, um estica e puxa que pode nos levar longe, entende?

 Não entendo, mas acho bom.

 Aí começo a correr e me dou conta de que você não me acompanha, não tem pique, não tem vontade ir mais longe.

  Meu ritmo é diferente.

  Acelero o passo e cobro uma posição. Você fica repetindo que me ama e que vai tentar.

   Meu vocabulário é reduzido. Não funciono bem sob pressão.

  Isso me irrita demais. Estou ali suada, fazendo um esforço enorme e você no mesmo lenga-lenga preguiçoso em relação à tudo e sobretudo a nós.

   Certo.

  Viu? Você concorda! A essa altura estou aos berros porque você não me ouve, não dá importância ao que sinto. Digo que quero terminar o namoro.

  Nem aí eu reajo?

  Na cara dura elenca as suas qualidades de homem dedicado. Xingo você, as lágrimas se misturam com o suor, fico acabada.

  Prá que tanto desgaste, meu amor?

  Pois é, então estou terminando a corrida, exausta, querendo colo. Tomo uma água de coco, penso no seu jeito lindo de olhar prá mim, nesse sorriso sem vergonha, nas mãos que eu adoro e faço as pazes com você. Ái, como eu te amo!

Pertencimento

Posted on 22 maio, 2014

Da janela da fazenda, a gente via a chuva cair sobre o morro. Uma ducha molhando apenas aquele cocuruto verde. E depois, no céu azul, ainda se desenhava o arco-íris sugerindo uma auréola multicor sobre ele. O tio, me vendo encantada, anunciou que dava o morro de presente. Passei a infancia inteira achando que o imensurável era meu. Só mais tarde, conquistas e desamores, entendi que a gente pode até tomar posse, mas não é dono de nada nessa vida.

Cena paulista

Posted on 21 maio, 2014

Domingo, 8h da noite em que as ruas do bairro da Aclimação ficaram cobertas de granizo. Entro no elevador do prédio onde moram meus pais quando estão em São Paulo. Atrás de mim, estão duas menininhas orientais vestindo roupa de inverno cor de rosa, incluindo gorro, botas e luvinhas. Cada uma carrega um baldinho de praia com gelo coletado na farra da rua. E por um instante, estou de volta a NY, numa das centenas de nevascas que enfrentei e que enchiam de alegria o coração da molecada.