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A portaria

Posted on 30 junho, 2014

Mendonça, o porteiro, tem nome e personalidade emprestados de Nelson Rodrigues. Simpático, ar sofrido de homem inutilmente honesto, passa o dia despachando da mesinha, pernas jogadas para a frente, dialogando com funcionários, entregadores, visitantes e o síndico, um senhor já bem idoso e igualmente falante, “a quem só levo péssimas notícias, fazer o que?”, lamenta valorizando a posição. Num arrastado sotaque carioca, estende-se  em conversas longuíssimas, recheadas de detalhes e descrições minuciosas, inclusive pelo interfone quando acionado por alguma solicitação banal de um morador. São justificativas que acompanham o que não será feito e às vezes até o que é feito e que de tão simples, a seu ver, pede uma explicação. 

O zumbido do ventilador confunde-se com o do radio ligado num volume inaudível, exceto aos domingos durante o futebol quando, coincidentemente, cai o movimento na portaria e ele se acompanha do jogo. À noitinha, na virada do turno, sai numa estica de fazer inveja, roupa bem passada, sapato bacana, cabelo cuidadosamente levado para trás no gel e tudo. A diarista da minha casa, colega de quadra na Mangueira de uma prima dele, confidenciou-me exaltada que quem paga as contas na casa do Mendonça é a mulher: “Uma vergonha. Quem sustenta homem é cadeia! Eu, hein?” Dizem que o salário fica no balcão do boteco em frente ao ponto de ônibus. Já vi, mas prefiro não me manifestar para não perder os privilégios. O Mendonça me trata feito rainha.
Há 26 anos cumpre expediente no edifício, fato relativamente comum entre os cariocas dessa categoria, uma espécie de funcionário público com emprego vitalício, desde que mantenha a rotina dentro dos conformes. O Rio aprecia essa herança da Corte e, ignorando as curvas econômicas, mantem diversos prestadores de serviço prestando serviços claramente delegados a eles por pura preguiça ou vício cultural mesmo. Assim, dezenas de homens circulam por este edifício, vinculados formalmente a ele ou não, numa variedade de uniformes e títulos e negociações que me confunde. Nunca sei se devo dar apenas uma gorjeta para o sujeito que aparece para resolver o problema da luz da sala ou se é um eletricista terceirizado a quem devo pagar pela visita. Muitas vezes, o Mendonça desloca um profissional de uma obra num dos apartamentos ou infiltra outro. Escala de acordo com a habilidade e disponibilidade do momento.”Está subindo aquele que vai solucionar-lhe o problema”, anuncia o Mendonça do seu posto. E é tudo.
Quando cheguei no Rio, precisei de ajuda com o gás do fogão e pedi ao Mendonça que me indicasse alguém. Veio o Fernando. O coelho comeu o fio da televisão, de novo o Fernando. O varal arrebentou, surge o Fernando. O tanque entupiu, tarefa para o Fernando.”Mas Mendonça, tudo aqui quem resolve é o Fernando?”, inquiri. “Veja,” e engatou o linguajar elaborado que os cariocas adotam quando querem atribuir seriedade a um ponto claramente duvidoso, “ele é verdadeiramente um encanador, mas não pode se deter apenas nessa especialidade.”

Liberdades

Posted on 29 junho, 2014

Estendia a roupa no varal. Se passasse um enterro, e a casa estava plantada nos arredores do cemitério, recolhia e lavava tudo novamente. A vizinhança conhecia bem Dona Vida, Euvídia, na certidão, e suas cismas. Achava errado marcar hora para comer e a família se submetia às vontades do estômago dela, almoço de manhã ou no meio da tarde, jantar à luz do dia ou meia-noite. O primeiro café do dia, ela passava e em seguida, ainda quente, dispensava na terra do quintal. A vida toda. E desdobrava as manias. O marido, que só ligava o carro quando os dois bancos, motorista e passageiro, estavam perfeitamente alinhados, exigia couve todo dia, rasgada numa refeição, cortada fininho na outra. As crianças cresceram na casa que queimava. Pintada de amarelo, quando batia o sol, acendia o bairro inteiro. Todo ano, separavam parte das economias, compravam tintas com uma pitada de ouro e incendiavam o lar. A história começou antes, dizem, com a avó que teve um mal-estar, caiu e morreu queimada no tacho de goiabada fervendo. A menina assistiu tudo e tomou licença para o que teve vontade na vida. Nunca usou sapato nem andou com o pé inteiro no chão. Era descalça ou de chinelo, sempre na ponta, o resto do pé para o alto num salto invisível, ela esticada não querendo compromisso com a realidade. Vivia na igreja, nave mãe adotiva, admirada dos seus sons internos, ecos, sinos, cânticos, cochichos e rezas, a palavra cantada das missas. Com os domingos vinha a cerimonia dos anjos, recém-nascidos que morriam antes de serem batizados e eram absolvidos dos pecados originais pelo padre para garantir-lhes um lugar no céu. Levados em caixõezinhos brancos do tamanho de caixas de sapato, muitas vezes, os bebês eram fotografados na porta da igreja, geralmente rodeados pela família e por crianças que estivessem ali brincando e quisessem participar. Vida uma delas. Muita gente guardou a lembrança daquele dia triste em fotos lavadas onde apareciam vestindo suas melhores roupas, com olhares vazios, ao lado da menina sorridente na ponta dos pés. Mais tarde, já esquecida dos anjinhos, inventou de rearranjar os altares, trocando as velas de lugar, reposicionando os crucifixos, distribuindo flores que arrancava do jardim da igreja pelas toalhas brancas junto às imagens dos santos. Queria a atenção do padre por quem tinha uma atração não realizada, coisa de mocinha em ebulição, sem traquejo com os masculinos até ali. Admirava o andar altivo, as mãos brancas enlaçadas atrás do corpo, a sua autoridade e poder. Além do bigode, igual ao do pai que não conhecera pessoalmente, mas com quem conviveu num quadro pintado sobre a fotografia e emoldurado em dourado na parede da sala. Dedicava-se com destemido afinco à tarefa de  perturbar o sacerdote em sua inabalável condição de enviado de Deus. Esquecia-se de ser feliz na rua para detestar-se diariamente na presença gelada do padre. Era o cabelo excessivamente loiro e crespo? As pernas finas? Os seios ainda não crescidos, escondidos dentro do uniforme da escola? Exceto pelos estragos nos altares e no jardim, nunca foi notada por ele que, ademais, tinha olhos para outras colaboradoras mais encorpadas. Foi o primeiro de uma série de amores frustrados, vieram ou não vieram depois o médico do posto de saúde, o guarda municipal, o porteiro do cinema. Nesse ínterim, conheceu aquele que  se tornaria o marido, ajudante de pedreiro, responsável pela recuperação da escadaria lateral da igreja. Não era inteligente, tinha uma leve deficiencia mental que o impedia de apreender as letras e os numeros. Bobo não era. Exibiu autoridade  proibindo qualquer um de usar aquela entrada da igreja até que a tarefa fosse terminada sabendo que com isso impressionaria a menina. Pois bastou. Hipnotizada pelos repetidos movimentos com a pá sobre o cimento, passou a contar as pedras à medida em que o pedreiro as assentava e só parou quando chegou a um numero incontável, dizem. Par desrespeitava a santíssima trindade, ímpar não era certo. Fez plantão ao lado dele pelos trinta anos seguintes garantindo a estabilidade da família com rituais cotidianos baseados em interpretações pessoais da bíblia. A Vida.

Espelho

Posted on 24 junho, 2014

Dei com o louco na rua.
Fiz que ia e voltava algumas vezes, atraída pelo que dele escapava, uma força incontrolada, costurada na lona sobre o corpo, casulo em metamorfose.
Procurei a história, inventei um itinerário e terminei com ele ali, se perdendo dele mesmo num final infeliz.
Empunhou expressão sofrida, não tentou me aliviar, externou o drama.
Estava ocupado com o que não se via, cuidando do que não se percebia, ameaçado.
O cadarço solto no sapato. Pensei nas minhas amarras frágeis, nos meus disfarces mal acabados, meus discursos inconsistentes, na minha loucura domesticada. Tive medo.
Moço, me ajuda, o senhor ficou louco de dor ou a loucura é para enganar a sua dor?