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Contador também tem coração

Posted on 29 julho, 2014

O contador está conosco há muitos anos. Veio recomendado por outros clientes de longa data, gente cujo valor do patrimônio só pode ser declarado, ou não declarado, por um profissional experiente e confiável. Entregar nossa parca administração financeira a um escritório desse porte nos deu a segurança de que precisávamos para tocar a vida sem sustos nesse território. Há histórias horríveis aí fora de golpes, trambiques ou pura incompetência contábil que tiram o sono do meu marido como perder uma liquidação anual da Tiffany tiraria o meu. Não havia nenhuma razão para estranharmos os emails recentes escritos com muito mais erros de portugues do que de costume. Nem para desconfiarmos das últimas notas fiscais que nos enviaram, escaneadas umas sobre as outras, como uma estampa de letras e números impressa na tela do computador. Não suspeitamos nem quando ele, em geral excessivamente zeloso, não deu falta do meu informe de rendimentos e achou graça quando foi comunicado.
Foram as malcriações da filha e braço direito do contador que chamaram a atenção. Os “façam como acharem melhor” ou “tratem direto com meu pai”  absolutamente inapropriados que começamos a receber na troca de correspondências de uns tempos para cá. Meu marido queria reunir a família inteira (o outro filho dele, esse um zero `a esquerda, também dá expediente no escritório) para reclamar do atendimento, mas contemporizei lembrando que toda mulher tem altos e baixos muito justificáveis. Ponderei que deveríamos fazer vista grossa para o seu mau humor desde que isso não interferisse na entrega do serviço . Vista grossa é a expressão que tem sido usada contra mim desde então. Não cabe vista grossa no universo de um contador. Nem no do cliente de um contador às vésperas da entrega do IR.
Ainda estávamos tentando nos esconder na zona de conforto quando a bomba explodiu. A filha do contador ligou anunciando que o pai, um senhor de cerca de 70 anos, estava apaixonado pela secretária do escritório, tinha se separado da mulher e se mudado para um sítio com a namorada. O plano dele era seguir trabalhando remotamente. “Que se encontra longe no tempo e/ou no espaço”, sentenciou sem pena o dicionário. Ela então, em solidariedade à mãe, estava se demitindo.
Com o telefone na mão, branco de susto, meu marido parecia estar recebendo as instruções de um sequestrador. Guaguejava monossilábico, anotando o telefone do sítio, onde ela nos alertou “internet e celular pegam mal”.
Como ocorre ao pessimista clássico, seus piores pesadelos eram agora realidade. Tentei quebrar o clima de pânico descrevendo em voz alta o casal em clima de lua de mel caliente, transando em cima da mesa sobre os documentos, derramando champanhe na nossa declaração de renda, anotando os nossos numeros a lapis na banheira. Meu marido estava transtornado. Não havia mais tempo para mudar o jogo. Querendo acreditar que, mesmo apaixonado, um contador continua um homem das ciências exatas e, portanto, mais frio e focado do que a média, decidiu seguir esta última empreitada com ele.
Hoje o dia será longo e tenso. É o prazo final para a entrega da declaração do imposto de renda e não conseguimos avisar a Receita Federal de que pode haver um errinho ou outro por conta da situação amorosa do nosso (in)fiel prestador de serviços.

João Ubaldo morreu

Posted on 21 julho, 2014

Não conheci pessoalmente o escritor, não deu tempo. Fomos vizinhos de casa e de bar no Leblon. Desde que me mudei para o Rio e o descobri entre os personagens do bairro, seu Leandro da barraca de coco, o Marcio da farmacia, o mudinho do Hortifruti, minha vida se iluminou. Ele era a minha personal celebrity. Quase todo mundo aqui tem pelo menos uma. São atores da Globo, músicos, modelos, diretores de cinema, personagens das redes sociais com quem os cariocas da zona sul cruzam com frequência na praia e botequins e passam a se dizer amigos.
Quis o destino que o meu fosse João Ubaldo. Vê-lo passar de bermuda e chinelo, naquele andar sem pressa entre carioca e baiano, envergando o bigode e os óculos redondos, fazia meu coração bater mais forte. Um escritor de verdade. Reli inúmeras vezes Viva o Povo Brasileiro e Sargento Getúlio, memorizei alguns trechos, queria estar preparada para quando a conversa com ele acontecesse. Porque aconteceria.
O esforço sensibilizou minha filha adolescente que acabava cedendo alguns minutinhos a mais na mesa do restaurante de onde eu o espiava com provável olhar de devoção. Fui a fã tarada, uma stalker mesmo, aquela que com o tempo vai acreditando que o objeto de admiração pertence a ela. Quando contava para alguém que estava morando no Rio, já inseria o aposto, no Leblon, perto do João Ubaldo.
Minha estratégia era simples. Sempre que íamos almoçar ali, eu e a inocente útil, posicionava-me de forma a ficar de frente para ele com pelo menos uma mesa entre nós, deixando-o à vontade para gesticular e soltar o vozeirão que o caracterizava. Não queria que ele perdesse o charme para me conquistar. O que me encantava era o olhar malicioso, meio de mau humor. Elaborava: A vida não anda fácil para intelectuais como ele, minha filha. Em Itaparica, vivia entre os pescadores, a gente simples e sábia que dá sentido à tudo. Agora qualquer produtor da FLIP acha que pode vir e sentar-se à mesa com ele.
João Ubaldo estava sempre com um amigo ou dois a quem eu invejava sem medo de pecar. Conversavam e comiam devagar, nunca o vi beber, uma pena. Quis muito fazer uma foto com ele, cheguei a levar os livros para a rua com essa intenção, tê-los assinados e aproveitar a intimidade para pedir um registro com a câmera. Mas cadê coragem de interromper a conversa, o caminhar, os pensamentos tão superiores dele?
Um dia, quase nos conhecemos de fato. Foi quando fiz uma curva acelerada na Dias Ferreira e por pouco não o atropelei atravessando a rua. Não chegou a tirar as mãos dos bolsos da bermuda, mas apressou o passo e ainda olhou para trás, talvez amaldiçoando o movimento de carros no bairro. Ái, que emoção! A brecada em cima do imortal marcou minha existência medíocre. Contei para a família em Minas, espalhei entre amigos e conhecidos, com o tempo passei a dizer que cheguei a encostar o carro nele.
No sábado, minha filha ligou para a fazenda onde eu estava e deu a notícia: “Mãe, você viu que aquele escritor que a gente quase atropelou, o João Ubaldo, morreu?” Fiquei com muita raiva.

Diadorim

Posted on 20 julho, 2014

Um amigo conta a história recém-acontecida. Recebe o telefonema do irmão avisando que a Tita morreu. Nem sentiu muito porque é como se alguém dissesse que a lua apagou ou que o mar secou, uma força permanente da natureza não cessa de existir e a Tita não era diferente de uma montanha ou de um cafezal, sendo mineira e tendo vivido sempre em Minas. A mulher, negra, neta de escravos, nasceu na colonia da fazenda e, diferentemente dos pais e irmãos que trabalhavam no campo, logo cedo quis ir para a sede, a poucos metros dali, onde ficou servindo a família ao lado de outros empregados de confiança.
Ninguém nunca a viu noutros trajes que não fossem as saias claras de tecido grosso cobertas por um avental amarrado à cintura e blusas na mesma tonalidade, confeccionadas uma vez por ano com o algodão barato comprado aos metros pela dona da casa para essa finalidade. Um lenço eternamente amarrado à cabeça escondia o cabelo crespo, que ela raro mostrou, sempre alisado e preso para trás, em missas, casamentos e batizados da família, quando era convidada: Não é porque é preta que não iríamos levá-la, dizia a dona da casa descensuradamente.
Acompanhou uma geração inteira de fazendeiros com hábitos e manias que sabia de cor e cuja manutenção dava-lhe segurança e conforto. Horários rigorosos, quantidades determinadas, sabores e temperaturas inalterados. Das mulheres foi dama de companhia no resguardo, fazendo a canja na panela de ferro para fortalecê-las enquanto recuperavam-se do parto. As muitas crianças que chegaram, meu amigo uma delas, cresceram sob os cuidados da Tita. Dava banho de bucha, curava machucado, tirava piolho e carrapato, gritava os nomes, batia o sino para chamar para as refeições, fazia gemada, café com leite e doce de abóbora escondido quando dava vontade nos meninos. A mesma roupa, o mesmo lenço na cabeça, o chinelo acomodando pés que cresceriam num outro calçado. E tinha as mãos da Tita. Duras e encurvadas como luvas grossas, as palmas profundamente marcadas por poucas e distintas linhas da vida, a determinação de um destino único e certo.
À noite, quando as crianças se recolhiam e os adultos ouviam rádio e liam, ela bordava toalhas e peças de enxoval para uma das meninas. Cantarolava baixinho, com a voz grave, hinos religiosos que falavam de amor e oração e castigo e tristeza e clamava por Nosso Senhor e pela Virgem Maria como se vivesse em pecado permanente. Pobre da Tita, que foi solteira e pura, sem contato físico ou intimidade com ninguém já que não conheceu homem e saiu de casa cedo e, embora se dissesse que era como se fosse, não fazia parte da família dos donos da fazenda também.
Das delicadezas, tinha a do café. A qualquer sinal, surgia com a bandeja, sua imagem longilínea refletida no bule, a figura magra e relativamente alta para as medidas locais. Era forte, carregava lenha em enormes feixes às costas, cestas de laranja e manga, mexia o tacho de doce no fogão como um canoeiro manobrando o remo. As crianças pediam emprestada a Tita para as brincadeiras, empurrar o carrinho de mão com os os meninos dentro no terreiro de café, amarrar a corda com firmeza para fazer balanço, caçar morcego no porão. Não tinha para ninguém!
Quando morreu, depois de padecer anos com câncer no intestino sem nunca concordar em ir ao médico, tratando as dores com chás e remédio receitado pelo farmacêutico, era uma negra pesada, embora sem muita barriga ou seios largos, comuns nas mulheres da sua raça. Foi-se como viveu. Em silencio. Sem incomodar ninguém. Uma manhã, não acordou.
A surpresa do meu amigo, acontecida no telefonema do irmão, foi que ao examiná-la para fazer o atestado de óbito, o médico descobriu um segredo guardado debaixo das suas roupas de algodão grosseiro. A Tita era homem.

Ata

Posted on 8 julho, 2014

Convocada para uma reunião do board da barraca de coco com direito a cadeira de graça e sombra no guarda-sol da chefia. Presentes senhor Edu, o dono, Leandro, filho e herdeiro do negócio, e o funcionário Rafael, que há anos chega tarde e passa metade do tempo que sobra explicando como mora longe e como custa caro vir trabalhar. Seu Edu abre os trabalhos.
– Dona Marcia (decidiram que sou Marcia, agora fico constrangida de desmentir), foi um verão difícil prá gente, muita multa da fiscalização, essa merda desse negócio na internet, o Rio $urreal, pegando no nosso pé por causa do preço da caipirinha, a gente sem lugar para estacionar a caminhonete para descarregar o material. E o pior, a prefeitura não nos permitiu uma parceria com a Havaianas, fechada aqui mesmo onde estamos sentados! Só eles querem ganhar dinheiro!
Eu de biquini, cabelo molhado, pernas cruzadas, em atitude profissional, tentando parecer séria para quem passava.
– O pessoal aqui do Leblon tem pose de rico mas é tudo fachada. São malandros (citam diversos nomes e sobrenomes com respectivos apelidos para reforçar a afirmação), ninguém paga.
Faço ar solidário, ajeito a canga no colo.
– A senhora não acha que os turistas que virão prá Copa vão preferir um bar para assistir os jogos? Não acha que a praia vai tomar prejuízo? Não conhece ninguém na Prefeitura que libere um telão prá gente?

O tempo

Posted on 6 julho, 2014

O homem da barraca de coco encara o horizonte com ar pensativo. Pele marcada pelo sol, pés fincados na areia, mãos nos quadris. Acompanho seu olhar em direção ao mar desasossegado e pergunto crédula: O senhor acha que o tempo vai mudar? Vira amanhã. Puxa, de novo? E vai ficar desse jeito, pelo menos, até o final de semana, responde com a segurança de quem atravessou o mundo numa jangada. Meu coração romântico querendo emoção: Como o senhor sabe? É pelo vento? Ele, sem mudar a expressão: Não, pelo Climatempo mesmo.

Para trás

Posted on 5 julho, 2014

Meu pai liga para checar a veracidade de uma história contada pelas primas num café hoje à tarde em Guaxupé. A de que há muitos anos eu atropelei 3 filhotinhos de cachorro recém-nascidos. Confirmei. Era uma linda tarde de verão, estávamos saindo da fazenda, a família inteira na varanda acenando, dei marcha a ré e pus fim à metade da ninhada. Meu pai calou-se do outro lado da linha desacreditando. Expliquei que tenho dificuldade com a ré. Já estourei uma enorme pilha de sacos de lixo saindo do estacionamento do cabelereiro. O barulho foi tão alto que os vizinhos acharam que eram bombas explodindo. Destruí, diante dos olhos de um amigo, a lata de lixo dele, daquelas altas fixas na calçada, fazendo uma manobra para virar o carro. Por ultimo, Deus permita, atropelei o motoboy da empresa onde trabalhava, dentro da garagem escura do prédio. Ele caiu, os colegas acudiram. Além de pagar o prejuízo da moto, dei de presente uma Nossa Senhora da Aparecida que ficou na sala dos motoboys a partir daquele dia para protegê-los de gente perigosa como eu. Mas é só na ré, papai.