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Jogos do amor

Posted on 21 agosto, 2014

O sutil jogo do amor. Desde sempre.
Em Grease, Nos Tempos da Brilhantina, John Travolta finalmente sai com Olivia Newton-John para umas bandas no carro conversível. Num clima romântico perfeito, avança sobre ela e leva um tapa na cara. 
Minha filha pequena querendo entender:
– Mãe, ela não gosta dele?
– Gosta. 
– E não quer ser beijada por ele?
– Quer.
– Então por que bateu nele?
– Porque era assim. Você queria, mas fazia que não queria porque era feio querer. O importante era deixá-lo saber que, apesar de parecer que não, você continuava querendo.

Furacão Doméstico

Posted on 20 agosto, 2014

Denise, a diarista, me foi recomendada por uma amiga astróloga: “Não tem erro, sagitariana pé de boi, energética, honesta, boa gente”, assegurou, “e bate com o seu signo”.  Tive medo dela quando falamos ao telefone. A voz firme, assertiva e cheia de razão, como é comum aos cariocas falastrões que tenho conhecido, de cara, garantiu a ela uma negociação favorável em relação ao salário e o numero de horas trabalhadas. Imaginei uma figura enorme, forte e furiosa e me preparei para o pior. Sou covarde como um rato, já me casei uma vez por incapacidade de dizer não, essa mulher me faria de gato e sapato, estava certa disso. Quando abri a porta no dia da faxina, dei de cara com uma linda jovem, baixa, redondinha, cheia de carnes, negra como a asa da graúna, olhos grandes e puxados, o cabelo cuidadosamente encaracolado. Parecia uma boneca africana, de vestido estampado, brincos e pulseiras douradas, batom vermelho, sandália de salto alto. A voz grave e o tom imperativo confirmaram a imagem que fiz pelo telefone. Do tipo que pergunta respondendo: “Nós não vamos tirar esse tapete para limpar, não é?” Eu só concordando. E quando, timidamente arrisquei uma gentileza, a resposta veio franca e direta: “Você vai querer receber o dia de hoje?” “E o que eu disse para a senhora quando combinamos?” “Que seria por mês.” “Então.”
A autoridade dela está também na atitude decidida. A impressão é de que está sempre pronta para o confronto, embora nunca tenha demonstrado o menor sinal de raiva ou impaciência. Como Mike Tyson, que conheci em Nova York de bermuda e chinelo, fora do ringue. Uma força bruta em estado de repouso.
É tão bonita e vaidosa que fico imaginando o seu sucesso nos bailes da Baixada, onde mora, rodando nos braços de todos os homens que ela escolher. Diz que gosta de festa, que ficou viúva com 29 anos, que namora, mas não quer mais pagar o cartão de crédito de homem nenhum. Quando estou por perto, puxa conversa e invariavelmente terminamos fazendo planos para enriquecer com pequenos negócios artesanais, sócias numa produção de sabonetes decorativos que ela aprendeu a fazer num curso pela internet.”Aqui na zona sul, não, mas se organizarmos um café com torta e bolo e convidarmos a mulherada lá da Baixada, vendemos tudo”. Quem sou eu para contradizer?
Meu marido tem muito medo do “furacão das terças-feiras”, como apelidou nossa funcionária. Às vezes está distraído tomando café da manhã e a lembrança vem como um raio, a expressão dele muda:”E´dia de furacão?” Pega a chave do carro e some pela porta. Nas poucas vezes em que o deixei sozinho com ela, trancou-se no quarto e jura que ouviu a casa tremer: “Os móveis se arrastam. Ou é ela ou uma energia sobrenatural emanada por ela”.
Havia aqui uma mala de roupas de festa, chiquérrimas e semi-novas, herdadas de uma amiga que precisava de espaço no armário para novas roupas chiquérrimas de festa. Minha vida social e meu tamanho não justificam a doação. Raramente vou à eventos que exijam algum rigor no traje e sou muito menor do que minha amiga, alta e cheia de massa onde me falta. Porque não sei dizer não, arrastei a mala luxuosa para casa e deixei num canto até decidir o que fazer com ela. E foi numa manhã, quando a Denise me pediu e o pedido dela é uma ordem, sem nenhum pudor ou insegurança, uma roupa emprestada porque ela havia esquecido a sua de trabalho em casa, que a herança se mostrou providencial. Assim que saí do choque inicial e pude raciocinar, me veio a saída: “Você sabe que eu ia mesmo te dar umas coisas?”, respondi desesperada para não contrariar a moça. Tirei da mala um vestido de seda cor de rosa pintado à mão, bem rodado, de alcinha e entreguei a ela: “Pois agora você pode usar para trabalhar, depois lava e vai pro baile.”
Cinco minutos depois, ela aparece num figurino de gala estilizado. Tipo miss em desfile de traje típico. Descalça, com o cabelo preso num lenço, o decote generosíssimo deixando `a mostra o sutiã colorido, a saia puxada para cima e presa dos lados na calcinha, de forma a deixá-la curta o suficiente para não se atrapalhar com os baldes. Era a coleção working class da Daslu. Não fez nenhum comentário, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. Aumentou o volume da musica no celular e saiu rebolando o traseirão pela casa. Nem pisquei para não atrapalhar.

Pilhado

Posted on 12 agosto, 2014

Tive um momento de intimidade com Robin Williams. Dessas pessoas que passam por nós feito um ciclone e somem na estrada girando na própria poeira. Marcamos uma entrevista em Nova York para a TV Manchete. Fiz cabelo e maquiagem, me vesti com capricho, até lencinho no pescoço amarrei. Ele chegou pontual, educado, contido. Perguntou meu nome e ficou repetindo varias vezes baixinho “Marina from Brazil”, experimentando vozes diferentes. Estava entrando no personagem dele mesmo. Quando o camera deu o sinal para começarmos, ele saltou da cadeira, microfone colado na camisa e tudo e avançou sobre mim. Num movimento rapidíssimo com as duas mãos, me deixou completamente descabelada, desarrumou minha roupa, arrancou meu lenço, colocou no próprio pescoço, sentou-se novamente e, recomposto, gritou: Go ahead, I’m all yours!

Importante

Posted on 5 agosto, 2014

Eu na maternidade e a Manu com minha mãe em casa.

– Vó, preciso falar com a minha mãe.

– Fala prá mim, eu te ajudo.

– Tem que ser com ela.

– Mas acho que só amanhã a gente vai visitá-la.

– Tem que ser hoje, é importante.

– Não pode ser por telefone?

– Não.

-Preciso ir lá para falar uma coisa com ela.

A avó percebe a urgência fabricada. No quarto do hospital, a Manu fala no meu ouvido:

– Mãe, perdi meu aparelho.