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As pedras no caminho

Posted on 23 setembro, 2014

Mais preocupada com a vida do personagem de Goldfinch, o Pintassilgo, em português, do que com a minha, só me dei conta de que ia perder o ônibus de volta para São Paulo quando faltavam impercorríveis doze quarteirões em cinco minutos até a rodoviária de Parati. Joguei o livro pesado na bolsa e tentei correr.
A mini-maratona sobre pedras em sandalia deslizante seria vencida, talvez, não fosse o tamanho da mala carregada de geléia e pinga da região. Já surfava a terceira rua, quando um taxista compadeceu-se e ofereceu carona: Tá doida? Sobe aí, não te cobro nada. Procurei a passagem e chequei em voz alta o horário querendo me enganar: Já deve estar na avenida de trás, disse ele. Abriu caminho entre os pedestres, cachorros e bicicletas feito uma ambulância, buzinando e agitando o braço para fora como se tivesse se preparado há muito tempo para essa situação. De fato, o ônibus já envergava o corpanzil em direção à estrada e foi preciso ultrapassar e fechá-lo para impedir que seguisse viagem sem mim. O taxista gritou qualquer coisa em paratinês, motorista parou, abriu a porta achando graça, subi. Ainda tentei pagar a corrida, mas o taxista não aceitou de jeito nenhum. O credito pareceu suficiente. Se não fosse essa carona ela ficava aqui com nóis, disse alto para o ônibus inteiro ouvir. Fui efusivamente cumprimentada pelos outros passageiros pela minha sorte grande. E voltei ao livro, de onde nunca queria ter saído.

Amor em São Paulo

Posted on 9 setembro, 2014

Quando a temperatura subiu dentro do carro blindado, beijos e cheiros, ela desvencilhou-se do cinto e quis, mais do que passageira, ser a condutora daquela historia. Partiu para cima dele, jato de adrenalina, sem medo do que havia lá fora e do que a esperava ali dentro. Errou o giro e ficou presa no volante, o traseiro buzinando ininterruptamente. Passantes, que até aquele momento só viam o que não viam através dos vidros escurecidos com insofilm, pararam tentando adivinhar. Em tempos de violência urbana, romance é a ultima alternativa. Ele ameçou vestir-se, querendo desenroscá-la, ligar o ar-condicionado, os braços curtos para qualquer tarefa. Ficaram naquela dança imóvel, besouros nadando no couro do banco, até que o suor azeitou os corpos e escorregaram, exaustos, mal amados, para a rua congestionada, o rush. A luz pontilhada dos faróis incidiu sobre os espelhos com ar de festa. No retrovisor, o cabelo colado à testa. A Voz do Brasil desafinando o momento. Arrependido da investida, ele lembrou-se das placas. Era dia de rodízio.

Revanche

Posted on 7 setembro, 2014

O amigo avisou que estaria no programa do David Letterman naquela noite. Não deu mais detalhes. Era cinegrafista de uma emissora de TV brasileira em Nova York e, de quebra, trabalhava como garçon no restaurante brasileiro da rua 46. O Brasil havia vencido os Estados Unidos num importante campeonato de basquete e o apresentador queria revanche. Assim, sacou um telefone e ligou da sua mesa, como fazia com frequencia, para o restaurante onde encomendou um “flan”, o nosso pudim de leite condensado. Queria que a sobremesa fosse entregue pelo garçon mais alto do lugar. E então, alguns minutos depois, entra em cena o nosso amigo, uniformizado e carregando o pudim numa bandeja. A outra mão atrás do corpo, como manda a etiqueta. Ele não é alto, deve ter  1,70m , mas era nossa melhor opção naquele momento porque o único da equipe a falar inglês. Foi o que ficamos sabendo mais tarde, quando reclamamos da escalação. Depois de uma rápida conversa no palco, descortina-se uma quadra de basquete e ele é convidado a fazer uma série de arremessos contra o Letterman. Além de muito mais baixo que o adversário, estava nervoso e, como a maior parte dos brasileiros, mal tinha tocado numa bola de basquete na vida. Errou todas as cestas. Foi uma derrota vergonhosa que felizmente teve pouca repercussão no mundo do esporte. E durante um tempo, nosso amigo, que foi bem pago por sua participação, seguiu recebendo um cheque da emissora cada vez que o programa era reprisado.

A ciência

Posted on 6 setembro, 2014

Tive que rebolar para me enquadrar na pioneira equipe da National Geographic, comandada pelo Matthew Shirts, na Editora Abril. Não aceitava com facilidade os desmandos científicos internacionais que queriam nos enfiar goela abaixo. Sou católica e, acima de tudo, carrego o ceticismo mineiro nas veias. Não me venha com balelas acadêmicas e experiências de laboratório que a fé não explica e que ninguém nessa vida vai comprovar sem isenção de interesse. Acredito no milagre porque vi a santa chorar sangue. Matthew, um cientista social norte-americano, brasilianista por vocação e grande maestro das idiossincrasias locais, invariavelmente tinha que lidar com isso:

-Marina, chegou de Chicago essa informação sobre a descoberta de um tipo raro de planta que talvez tenha originado todas as flores de tom azulado da face da Terra. Prepare uma nota sobre isso.

-A favor ou contra?

Tony Bennett

Posted on 5 setembro, 2014

Saía da escola das crianças no Upper West Side e me enfiei no taxi procurando abrigo para o frio. A música já corria solta e ao menor gesto de receptividade, ele abriu a conversa. Dirijo para pagar as contas como muitos artistas fazem. Sou compositor e intérprete, tenho varias canções gravadas. Subiu o volume. Ouça essa! Sorri. Não sei dizer não nem expressar desagrado para gente estranha. Observe o violão agora. Imitava o movimento solando o instrumento e abandonando a direção do carro por um momento. O trânsito infernal de Manhattan. Sugiro que ele atravesse o Central Park. Faz a conversão cantarolando, não interrompe o show. A baqueta invisível percutindo no volante para acompanhar a bateria. Meteu a mão no porta-luvas e sacou vários CDs com capinha e tudo. Na foto ele parecia diferente. Mais jovem, pinta de galã, posicionado à frente de três músicos mal ajambrados, de olhar congelado, uma imagem que me lembrou a primeira banda que acompanhou Johnny Cash e era formada por dois mecânicos amigos. Falava e gesticulava sem parar e algumas vezes virava o corpo totalmente para trás enquanto eu assumia mentalmente o controle do carro. Quando subíamos a rua 57, ele jogou para o meio fio e freou brusco sem avisar. Abriu a porta e já desceu gritando: Hey, Tony! Tony Bennett, elegante num casaco de lã até os joelhos e cachecol vermelho, vinha pela calçada e também brecou o corpo sorrindo surpreso com a intimidade do taxista. Educado, estendeu a mão na luva de couro e o cumprimentou. Não sei o que falaram nos poucos segundos que isso durou. O motorista voltou para o carro, escolheu alguns CDs e entregou para o cantor. Quando arrancamos, ainda impactada pelo inusitado da situação, fui seguindo-o com os olhos, a farta cabeleira branca, até vê-lo sumir no vidro traseiro do carro. O motorista ligou o som. Sujeito sensacional esse. Sou um grande fã, comentou. Vai ouvir minhas músicas. Se gravar, anote aí, só entro novamente num taxi pela porta de trás.