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Literatura infantil

Posted on 27 novembro, 2014

A pedido do ilustrador, tentei fazer um livro infantil. Ele já tinha o traço desde a primeira letra. Eu acreditando que para escrever bastava escrever. A primeira versão da história do meu rabo era para crianças idiotas, daqueles que nem eu fui num tempo em que a gente entrava no carro para as férias sem perguntar para onde iria. Consegui falar com as palavras mais previsíveis do vocabulário brasileiro numa conversa pobre e desinteressante, já perdendo as crianças pelo caminho, eu mesma vendo televisão e passeando no facebook enquanto escrevia. Depois achei de gritar com letras grandes e sons onomatopaicos como se os leitores, além de pouca idade, tivessem problema de visão e audição. Me parecia que a compreensão se daria naquele exagero, desconsiderando que as crianças hoje já nascem sabendo ou desconfiando. Na ultima tentativa me superei. Fui didática no que isso pode ter de mais emburrecedor, com um discurso falsamente generoso, moralista, politicamente correto, do tipo “quem nunca teve um rabo que atire a primeira pedra.” Senti vergonha e decidi escrever para as crianças que fomos.

O rabo surgiu da curiosidade da minha filha com uma pequena cicatriz que carrego nas costas, resultado da retirada de um cisto. Na hora, achei que falar de fisiologia era muito menos atraente do que descrever a vida de uma menina que nasceu com um lindo rabo de raposa. Como a reação dela foi de credulidade e interesse, fui acrescentando elementos à história, explicando que com o rabo fui sempre o centro das atenções, que todo mundo na nossa família achava bacana e que, infelizmente, numa certa altura tive que cortá-lo porque o mundo não estava preparado para ele. Foi só muito tempo depois que ela soube que Papai Noel não existe, nem a fadinha do dente, nem o rabo da mamãe. Mas que sapo, sim, se ela beijar com amor, vira príncipe. O livrinho, chamado A natureza das coisas, seria assim:

Mãe, e esse risquinho estranho?

Apontou o dedinho para a marca nas minhas costas enquanto eu me vestia.

Foi o que ficou do meu rabo, não sabia?

Ela me olhou assustada.

E você teve um rabo, mãe?

Não tinha me preparado para o momento, mas a idéia deve ter passado muito tempo cozinhando na minha raiva, desde quando ganhei aquela cicatriz feia. Para não sair perdendo na pergunta dela, me dei de presente um rabo que, afinal, parecia muito mais divertido do que um cisto sem graça.

Seu avô, que conta tantas histórias, nunca contou essa para você? Eu nasci com um ossinho pequeno, logo acima do bumbum, examinaram na maternidade e acharam que ali cresceriam asas e que eu era um bebê anjo.

E você era?

A expressão séria, curiosa.

Tive que ser honesta.

Não, eu era o avesso disso.

E avesso de anjo é o que?

É criança levada, desobediente, bagunceira.

Ah eu queria ter bebês anjos gêmeos, um menino e uma menina, com asinhas! Animou-se.

Interrompi.

Aí, foi crescendo um rabinho, que virou um rabo médio e depois transformou-se num rabão maravilhoso de raposa. Vem aqui, me ajuda o zíper, pedi, tentando esconder o assunto.

Mas ela cutucou.

Saía daqui, é?

Saía. Não era um rabo “se acha” de gato, ou um rabo agitado de cachorro, ou um rabicó de porco, não. Era mesmo bem peludo e elegante e vermelho, o mais bonito de todos, um rabo de raposa!

Mais lindo do que a tatuagem da tia Beatriz?

Muito mais! Eu nasci assim, ela teve que desenhar na pele.

Mais legal do que o piercing do Murilinho?

Claro! O rabo veio comigo, combinava perfeitamente, o piercing do seu primo só ficou dele depois que colocou na orelha.

Enriqueci a história quando senti reação positiva na platéia, o brilho nos olhos.

Era a maior briga na hora do banho. Todo mundo queria passar shampoo, secar, fazer chapinha, trança. Até rabo de cavalo, imagina!

E o que aconteceu?

Ele cresceu demais, começou a me incomodar, não conseguia sentar direito na carteira apertada da escola, pegava poeira, molhava na chuva, dava muito trabalho para cuidar. E ficava muita gente perguntando. Aí eu pedi e a vovó me levou ao hospital para tirar.

Ái! Fez expressão de aflição. Doeu?

Nada, mas ficou a marquinha.

E por que eu não tenho rabo também?

Não sei, minha filha, a natureza é assim, tem suas próprias regras e exceções. Já pensou se eu fosse careca como o vovô?

Quem sabe

Posted on 20 novembro, 2014

O árabe de olhos tristes e cílios longos procura as lâmpadas que vim buscar no armazém. É uma casa de ferragens daquelas que fazem meu coração bater mais forte, baldes de metal, vassouras de palha, cestas de todo tamanho. Memórias viajadas do Largo da Batata para o Leblon. Ainda de costas, mergulhado no emaranhado de produtos, começa a se lamentar: Temos que sair daqui, dessa cidade estressante, violenta e cara, acabou-se a ilusão. Vai tirando as lâmpadas da embalagem e testando uma a uma num bocal empoeirado. Ninguém mais tem ânimo para viver, ninguém mais quer casar, ter filhos. Saquei a carteira e argumentei com segurança: Ah, não é verdade, não. Eu mesma já me casei algumas vezes e vou seguir me casando até morrer. E tenho filhos, gostaria de ter mais. Ele coça a barba e propõe: então casa comigo, sou viúvo, tenho a loja. Dei uma olhada em volta, pensei nas incursões futuras. Olha, moço, já sou comprometida, mas vamos deixar a conversa em aberto. Outra hora a gente segue.

 

Divã

Posted on 15 novembro, 2014

Depois de anos de trabalho exaustivo tentando parecer equilibrada e saudável para a terapeuta e creditando o fato de não ter alta à dependência dela à minha hipnotizante personalidade, nos cruzamos por acaso ontem no teatro. Tenho inveja do carioca que divide com naturalidade a praia com o dentista e o boteco com o professor do filho. Sou de quatro paredes. Encontrar o analista fora do consultório, numa situação informal, é uma experiência aterrorizante. Você é pego desarmado, sem filtro, sem discurso para se defender. Não tive tempo de preparar o personagem. Achei que atrás dela surgiriam homens de branco com a seringa e a camisa de força. Sorri nervosa. No escuro, cumprimentei-a e à loira ao lado dela com um beijo e um abraço exagerados. A moça, uniformizada, me olhou com pena: Não estou com ela. Eu trabalho aqui no teatro.

A camisa

Posted on 14 novembro, 2014

Pelo armário entreaberto pude ver as camisas penduradas com disciplina em cabides iguais. As mangas, que só conheci amassadas, estavam alinhadas em formação militar, impecáveis pelo calor do ferro de passar. Estendi a mão e puxei a cor de rosa, testemunha frequente do que não deveria. Cheirei o amaciante, senti a textura macia e soltei. Ali se encontravam duas estranhas, a casa e a rua. Os cabides acomodavam o antes de tudo, o anterior a nós, o escolhido e institucionalizado. Nós éramos o tempo suspenso, o que não cabia no armário. Tomei coragem e abri o cesto onde as roupas sujas, despojadas, misturadas, garantiam o carater familiar. Procurei ansiosa por algum tecido que tivesse sido momentaneamente meu e uma calça cáqui do avesso, despudoradamente enredada na alça de um vestido, me olhou de revés. Senti inveja daquela intimidade e da singeleza que ela carregava. Da crença que eu já não tinha e das tantas possibilidades para aqueles que crêem. O que se passou ali podia não ser real, mas existia nos meus pesadelos. O pertencimento é uma noção adquirida muito cedo. Mais adiante, quando toquei o peito abrigado na camisa recém saída do cabide e senti o coração batendo forte lá dentro, entendi que é preciso desvestir os sentimentos para nos casarmos com eles.

A bicicleta

Posted on 5 novembro, 2014

Olhei para ela ali pendurada no gancho, como uma borboleta de alumínio pregada na parede, e o coração apertou. Bicicleta parada é nada, escultura inanimada.Nem tinha tanta vontade assim de pedalar. Foi mais por ela, por sua triste condição de espectadora, que me estiquei e a desci cuidadosamente, as rodas ensaiando um movimento no ar.Ainda no piso de tacos, experimentei a altura do banco sem saber quem esteve ali por ultimo. Ela me vestia justinho. Levei-a para a rua, pesei o pé no pedal, um só, e soltei o corpo no corpo dela. Descemos a ladeira. Primeiro devagarinho, escorregando, até ganhar velocidade e levantar vôo. Pássaro, foguete, avião, planamos em silencio sem asas, sem motor, furando o céu com o rosto. Minhas mãos nos seus braços encontrando cumplicidade. Sou eu, somos nós, meu coração dizia, protagonistas da nossa emoção, girando a roda solar, deslocando-nos no tempo, no espaço, trocando a alma de lugar. Avançamos pela avenida vazia. O vento no centro de tudo, olhos, ouvidos e o chão, uma linha riscada e interrompida, riscada e interrompida. E então, estávamos livres, ora ziguezagueando embriagadamente ora marchando com disciplina enquanto as imagens corriam ao lado, postes, árvores, pernas, o meio-fio. Outras tantas bicicletas, nossos pares movíveis, sugeriam um arrebatamento coletivo em curso. Mas escolhemos a casa. Senti as pernas arderem na subida, a puxada doía nela também. Fomos até a parede onde a dependurei novamente transpirando poeira. Recuei ofegante e nos despedimos, agora plenos de sentido.