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Cinco estrelas

Posted on 21 outubro, 2014

A turma hospedada num tradicional hotel de Santos. O amigo gringo que fala português e tenta incansavelmente traduzir o comportamento brasileiro faz check-out às gargalhadas. Encaminho-me para o guichê ao lado e ouço, como não poderia deixar de ser, a conversa entre ele e a funcionária que o atende.

– Mas essa insônia custou caro para o senhor, hein? Foram três águas, duas Cocas, um pacote de salgadinho e três chocolates!

– Pois é…

Olha para mim constrangido.

– Pelo menos o senhor tem bom gosto, vejo pelos chocolates que escolheu!

– É …

– Suflair, Kit Kat, Toblerone! Só marca de primeira!

– Sim…

E então chega a minha vez. O rapaz com sorriso sádico:

– Algum consumo do frigobar?

Entro em pânico e sussuro:

– Um chocolate.

E ela, meio corpo para o lado, espiando minha ficha no computador do colega:

– Nossa, Diamante Negro! Aí já caiu o nível! Nem se compara com o meu hóspede!

Vintage

Posted on 12 outubro, 2014

Mr e Mrs Grunfeld, judeus poloneses idosos, eram nossos vizinhos em Nova York. Dela me lembro pouco. Gorda, desarrumada, sorriso apagado, carregava as dores de uma doença séria e mais sério do que isso, as dores da sobrevivência à guerra na juventude. Nunca deixava a casa e, pela porta entreaberta onde conversávamos às vezes, espiei a sua tristeza nas cortinas fechadas, os móveis cobertos, sombras no chão. O marido, ao contrário, extrovertido e vaidoso, andava sempre na estica, qualquer feriado era motivo para a gravata e o paletó.  A calvície era mal disfarçada com o melancólico recurso de arrastar os fios de uma orelha à outra, procurando em seguida fixá-los na testa com gel. Os números tatuados no pulso, uma série longa e mal acabada, ele não escondia. É importante olhar para isso todos os dias, eu, minha mulher e sobretudo vocês. Não para sentir raiva, mas para não esquecer. A história é cíclica! declamava. A verdade é que ele não conseguia escapar do que ficou gravado ali na pele.
Tinha admiração por meu marido, jornalista, com quem gostava de conversar sobre os rumos políticos do mundo. Não expressava apenas uma opinião, era sempre um discurso exaltado. Mandava recados para os líderes globais com orientações precisas sobre o que apoiar e o que combater em suas regiões. Comigo era sobre as crianças: Duas meninas? Que falta de sorte! Menina custa muito caro! Contava o que se lembrava dos filhos pequenos e exibia os netos sempre que apareciam. Ficou desapontadíssimo quando conheceu nosso carro, um Volkswagen Passat, e fez questão de chamar a nossa desatenção para a origem alemã da marca. Éramos estrangeiramente cúmplices no cotidiano gringo. Tirávamos a neve da calçada deles. Quando acabava o inverno, ele emprestava as ferramentas para recuperarmos a terra do jardim de casa que, na verdade, tínhamos uma preguiça enorme de recuperar. É mata tropical, brincávamos com ele. Pouco antes de virmos embora, Mr. Grunfeld saiu lá do fundo da sala escura e me entregou uma minúscula bicicletinha amarela de madeira com cabeça de girafa. Quatro rodas azuis. Disse que tinha sido dos filhos, que eu brincasse com as crianças. Fiz outro uso do presente vintage. Acomodei na estante carregando vaso de flor, livros, arrastei vida afora. Não consigo escapar do que ficou gravado em mim daquele pedaço da história.

As pedras no caminho

Posted on 23 setembro, 2014

Mais preocupada com a vida do personagem de Goldfinch, o Pintassilgo, em português, do que com a minha, só me dei conta de que ia perder o ônibus de volta para São Paulo quando faltavam impercorríveis doze quarteirões em cinco minutos até a rodoviária de Parati. Joguei o livro pesado na bolsa e tentei correr.
A mini-maratona sobre pedras em sandalia deslizante seria vencida, talvez, não fosse o tamanho da mala carregada de geléia e pinga da região. Já surfava a terceira rua, quando um taxista compadeceu-se e ofereceu carona: Tá doida? Sobe aí, não te cobro nada. Procurei a passagem e chequei em voz alta o horário querendo me enganar: Já deve estar na avenida de trás, disse ele. Abriu caminho entre os pedestres, cachorros e bicicletas feito uma ambulância, buzinando e agitando o braço para fora como se tivesse se preparado há muito tempo para essa situação. De fato, o ônibus já envergava o corpanzil em direção à estrada e foi preciso ultrapassar e fechá-lo para impedir que seguisse viagem sem mim. O taxista gritou qualquer coisa em paratinês, motorista parou, abriu a porta achando graça, subi. Ainda tentei pagar a corrida, mas o taxista não aceitou de jeito nenhum. O credito pareceu suficiente. Se não fosse essa carona ela ficava aqui com nóis, disse alto para o ônibus inteiro ouvir. Fui efusivamente cumprimentada pelos outros passageiros pela minha sorte grande. E voltei ao livro, de onde nunca queria ter saído.

Amor em São Paulo

Posted on 9 setembro, 2014

Quando a temperatura subiu dentro do carro blindado, beijos e cheiros, ela desvencilhou-se do cinto e quis, mais do que passageira, ser a condutora daquela historia. Partiu para cima dele, jato de adrenalina, sem medo do que havia lá fora e do que a esperava ali dentro. Errou o giro e ficou presa no volante, o traseiro buzinando ininterruptamente. Passantes, que até aquele momento só viam o que não viam através dos vidros escurecidos com insofilm, pararam tentando adivinhar. Em tempos de violência urbana, romance é a ultima alternativa. Ele ameçou vestir-se, querendo desenroscá-la, ligar o ar-condicionado, os braços curtos para qualquer tarefa. Ficaram naquela dança imóvel, besouros nadando no couro do banco, até que o suor azeitou os corpos e escorregaram, exaustos, mal amados, para a rua congestionada, o rush. A luz pontilhada dos faróis incidiu sobre os espelhos com ar de festa. No retrovisor, o cabelo colado à testa. A Voz do Brasil desafinando o momento. Arrependido da investida, ele lembrou-se das placas. Era dia de rodízio.

Revanche

Posted on 7 setembro, 2014

O amigo avisou que estaria no programa do David Letterman naquela noite. Não deu mais detalhes. Era cinegrafista de uma emissora de TV brasileira em Nova York e, de quebra, trabalhava como garçon no restaurante brasileiro da rua 46. O Brasil havia vencido os Estados Unidos num importante campeonato de basquete e o apresentador queria revanche. Assim, sacou um telefone e ligou da sua mesa, como fazia com frequencia, para o restaurante onde encomendou um “flan”, o nosso pudim de leite condensado. Queria que a sobremesa fosse entregue pelo garçon mais alto do lugar. E então, alguns minutos depois, entra em cena o nosso amigo, uniformizado e carregando o pudim numa bandeja. A outra mão atrás do corpo, como manda a etiqueta. Ele não é alto, deve ter  1,70m , mas era nossa melhor opção naquele momento porque o único da equipe a falar inglês. Foi o que ficamos sabendo mais tarde, quando reclamamos da escalação. Depois de uma rápida conversa no palco, descortina-se uma quadra de basquete e ele é convidado a fazer uma série de arremessos contra o Letterman. Além de muito mais baixo que o adversário, estava nervoso e, como a maior parte dos brasileiros, mal tinha tocado numa bola de basquete na vida. Errou todas as cestas. Foi uma derrota vergonhosa que felizmente teve pouca repercussão no mundo do esporte. E durante um tempo, nosso amigo, que foi bem pago por sua participação, seguiu recebendo um cheque da emissora cada vez que o programa era reprisado.

A ciência

Posted on 6 setembro, 2014

Tive que rebolar para me enquadrar na pioneira equipe da National Geographic, comandada pelo Matthew Shirts, na Editora Abril. Não aceitava com facilidade os desmandos científicos internacionais que queriam nos enfiar goela abaixo. Sou católica e, acima de tudo, carrego o ceticismo mineiro nas veias. Não me venha com balelas acadêmicas e experiências de laboratório que a fé não explica e que ninguém nessa vida vai comprovar sem isenção de interesse. Acredito no milagre porque vi a santa chorar sangue. Matthew, um cientista social norte-americano, brasilianista por vocação e grande maestro das idiossincrasias locais, invariavelmente tinha que lidar com isso:

-Marina, chegou de Chicago essa informação sobre a descoberta de um tipo raro de planta que talvez tenha originado todas as flores de tom azulado da face da Terra. Prepare uma nota sobre isso.

-A favor ou contra?

Tony Bennett

Posted on 5 setembro, 2014

Saía da escola das crianças no Upper West Side e me enfiei no taxi procurando abrigo para o frio. A música já corria solta e ao menor gesto de receptividade, ele abriu a conversa. Dirijo para pagar as contas como muitos artistas fazem. Sou compositor e intérprete, tenho varias canções gravadas. Subiu o volume. Ouça essa! Sorri. Não sei dizer não nem expressar desagrado para gente estranha. Observe o violão agora. Imitava o movimento solando o instrumento e abandonando a direção do carro por um momento. O trânsito infernal de Manhattan. Sugiro que ele atravesse o Central Park. Faz a conversão cantarolando, não interrompe o show. A baqueta invisível percutindo no volante para acompanhar a bateria. Meteu a mão no porta-luvas e sacou vários CDs com capinha e tudo. Na foto ele parecia diferente. Mais jovem, pinta de galã, posicionado à frente de três músicos mal ajambrados, de olhar congelado, uma imagem que me lembrou a primeira banda que acompanhou Johnny Cash e era formada por dois mecânicos amigos. Falava e gesticulava sem parar e algumas vezes virava o corpo totalmente para trás enquanto eu assumia mentalmente o controle do carro. Quando subíamos a rua 57, ele jogou para o meio fio e freou brusco sem avisar. Abriu a porta e já desceu gritando: Hey, Tony! Tony Bennett, elegante num casaco de lã até os joelhos e cachecol vermelho, vinha pela calçada e também brecou o corpo sorrindo surpreso com a intimidade do taxista. Educado, estendeu a mão na luva de couro e o cumprimentou. Não sei o que falaram nos poucos segundos que isso durou. O motorista voltou para o carro, escolheu alguns CDs e entregou para o cantor. Quando arrancamos, ainda impactada pelo inusitado da situação, fui seguindo-o com os olhos, a farta cabeleira branca, até vê-lo sumir no vidro traseiro do carro. O motorista ligou o som. Sujeito sensacional esse. Sou um grande fã, comentou. Vai ouvir minhas músicas. Se gravar, anote aí, só entro novamente num taxi pela porta de trás.

Jogos do amor

Posted on 21 agosto, 2014

O sutil jogo do amor. Desde sempre.
Em Grease, Nos Tempos da Brilhantina, John Travolta finalmente sai com Olivia Newton-John para umas bandas no carro conversível. Num clima romântico perfeito, avança sobre ela e leva um tapa na cara. 
Minha filha pequena querendo entender:
– Mãe, ela não gosta dele?
– Gosta. 
– E não quer ser beijada por ele?
– Quer.
– Então por que bateu nele?
– Porque era assim. Você queria, mas fazia que não queria porque era feio querer. O importante era deixá-lo saber que, apesar de parecer que não, você continuava querendo.

Furacão Doméstico

Posted on 20 agosto, 2014

Denise, a diarista, me foi recomendada por uma amiga astróloga: “Não tem erro, sagitariana pé de boi, energética, honesta, boa gente”, assegurou, “e bate com o seu signo”.  Tive medo dela quando falamos ao telefone. A voz firme, assertiva e cheia de razão, como é comum aos cariocas falastrões que tenho conhecido, de cara, garantiu a ela uma negociação favorável em relação ao salário e o numero de horas trabalhadas. Imaginei uma figura enorme, forte e furiosa e me preparei para o pior. Sou covarde como um rato, já me casei uma vez por incapacidade de dizer não, essa mulher me faria de gato e sapato, estava certa disso. Quando abri a porta no dia da faxina, dei de cara com uma linda jovem, baixa, redondinha, cheia de carnes, negra como a asa da graúna, olhos grandes e puxados, o cabelo cuidadosamente encaracolado. Parecia uma boneca africana, de vestido estampado, brincos e pulseiras douradas, batom vermelho, sandália de salto alto. A voz grave e o tom imperativo confirmaram a imagem que fiz pelo telefone. Do tipo que pergunta respondendo: “Nós não vamos tirar esse tapete para limpar, não é?” Eu só concordando. E quando, timidamente arrisquei uma gentileza, a resposta veio franca e direta: “Você vai querer receber o dia de hoje?” “E o que eu disse para a senhora quando combinamos?” “Que seria por mês.” “Então.”
A autoridade dela está também na atitude decidida. A impressão é de que está sempre pronta para o confronto, embora nunca tenha demonstrado o menor sinal de raiva ou impaciência. Como Mike Tyson, que conheci em Nova York de bermuda e chinelo, fora do ringue. Uma força bruta em estado de repouso.
É tão bonita e vaidosa que fico imaginando o seu sucesso nos bailes da Baixada, onde mora, rodando nos braços de todos os homens que ela escolher. Diz que gosta de festa, que ficou viúva com 29 anos, que namora, mas não quer mais pagar o cartão de crédito de homem nenhum. Quando estou por perto, puxa conversa e invariavelmente terminamos fazendo planos para enriquecer com pequenos negócios artesanais, sócias numa produção de sabonetes decorativos que ela aprendeu a fazer num curso pela internet.”Aqui na zona sul, não, mas se organizarmos um café com torta e bolo e convidarmos a mulherada lá da Baixada, vendemos tudo”. Quem sou eu para contradizer?
Meu marido tem muito medo do “furacão das terças-feiras”, como apelidou nossa funcionária. Às vezes está distraído tomando café da manhã e a lembrança vem como um raio, a expressão dele muda:”E´dia de furacão?” Pega a chave do carro e some pela porta. Nas poucas vezes em que o deixei sozinho com ela, trancou-se no quarto e jura que ouviu a casa tremer: “Os móveis se arrastam. Ou é ela ou uma energia sobrenatural emanada por ela”.
Havia aqui uma mala de roupas de festa, chiquérrimas e semi-novas, herdadas de uma amiga que precisava de espaço no armário para novas roupas chiquérrimas de festa. Minha vida social e meu tamanho não justificam a doação. Raramente vou à eventos que exijam algum rigor no traje e sou muito menor do que minha amiga, alta e cheia de massa onde me falta. Porque não sei dizer não, arrastei a mala luxuosa para casa e deixei num canto até decidir o que fazer com ela. E foi numa manhã, quando a Denise me pediu e o pedido dela é uma ordem, sem nenhum pudor ou insegurança, uma roupa emprestada porque ela havia esquecido a sua de trabalho em casa, que a herança se mostrou providencial. Assim que saí do choque inicial e pude raciocinar, me veio a saída: “Você sabe que eu ia mesmo te dar umas coisas?”, respondi desesperada para não contrariar a moça. Tirei da mala um vestido de seda cor de rosa pintado à mão, bem rodado, de alcinha e entreguei a ela: “Pois agora você pode usar para trabalhar, depois lava e vai pro baile.”
Cinco minutos depois, ela aparece num figurino de gala estilizado. Tipo miss em desfile de traje típico. Descalça, com o cabelo preso num lenço, o decote generosíssimo deixando `a mostra o sutiã colorido, a saia puxada para cima e presa dos lados na calcinha, de forma a deixá-la curta o suficiente para não se atrapalhar com os baldes. Era a coleção working class da Daslu. Não fez nenhum comentário, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. Aumentou o volume da musica no celular e saiu rebolando o traseirão pela casa. Nem pisquei para não atrapalhar.

Pilhado

Posted on 12 agosto, 2014

Tive um momento de intimidade com Robin Williams. Dessas pessoas que passam por nós feito um ciclone e somem na estrada girando na própria poeira. Marcamos uma entrevista em Nova York para a TV Manchete. Fiz cabelo e maquiagem, me vesti com capricho, até lencinho no pescoço amarrei. Ele chegou pontual, educado, contido. Perguntou meu nome e ficou repetindo varias vezes baixinho “Marina from Brazil”, experimentando vozes diferentes. Estava entrando no personagem dele mesmo. Quando o camera deu o sinal para começarmos, ele saltou da cadeira, microfone colado na camisa e tudo e avançou sobre mim. Num movimento rapidíssimo com as duas mãos, me deixou completamente descabelada, desarrumou minha roupa, arrancou meu lenço, colocou no próprio pescoço, sentou-se novamente e, recomposto, gritou: Go ahead, I’m all yours!