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Na praia

Posted on 30 janeiro, 2015

O menininho de cócoras com o peixe na mão. Tinha encontrado ali no raso entre as conchas, metade mergulhado na areia molhada. Pescou. Vi o que ele via, o bicho prateado e mole, olhos arregalados. Apertados, os do menino. A mãozinha, só uma, segurando firme feito anzol, sem a frieza do anzol, antes com encantamento e nojo. A imagem abriu quando me afastei na corrida, ele sozinho, agachado, tatu-bolinha. Ái, como eu queria de volta essa dedicação distraída. Esse estar inteiro numa coisa só. Esse interesse gratuito e urgente só me tomando, me seduzindo, me satisfazendo. Quantas possibilidades estariam disputando a imaginação do menino nesse momento! A do peixe ainda vivo, doente, desmaiado, levado para casa no baldinho com água salgada. A do peixe filhote engolido e vomitado pela enorme baleia em alto mar. A do peixe precisando ser explorado, apalpado, espetado com vareta e devolvido mutilado para quem o trouxe. Estendi a coluna, prendi a barriga, respirei. Pensei na liberdade do menino. No despojamento que a situação promovia. O corpinho arqueado, pés enterrados, areia colada na pele, no cabelo. Ele na sua totalidade. Depois, voltando para o guarda-sol. O peixe fisgado pelo rabo para exibição. Tive inveja da sua emoção limpa. Do que ele sentia e não escondia. De não saber nada e intuir para explicar, de inventar a verdade e acreditar. Carreguei aquele menino comigo no percurso, a sua leveza me pesando no peito. Fui longe, mas não pude com ele. Era tanta infância que não coube em mim.

Qualquer maneira de amor

Posted on 21 janeiro, 2015

O cara carregando um colchão, suado feito um porco, a camiseta do uniforme erguida e o barrigão peludo à mostra, gritou do outro lado da rua: ô mulher linda! Se você aceitasse, eu largava esse colchão e casava com você agora!
Fiz cara feia e apressei o passo, já reconsiderando: um homem romântico, de atitude. E nem é tão gordo assim.