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Admirando-me

Posted on 11 fevereiro, 2015

Quilombo do Pau Furado, Marajó, PA

Quilombo do Pau Furado, Marajó, PA

O menino quilombola escalou a palmeira rápido como um lagarto. Outro corria na frente e de repente ressurgia lá atrás num alegre truque de ilusionismo. Um terceiro andava de costas, olho no olho comigo. De tempos em tempos esticava o braço para arrancar frutinhas que metia na boca e então distraía-se com aquilo e sumia na mata, as folhas balançando na sua passagem. Eu maravilhada com as crianças bicho e o imaginado, saci, curupira, boto, invejada, querendo ser. O coração aos pulos com a velocidade do que acontecia e que era só o tempo real das coisas, do rio, das nuvens, do sol, de uma caminhada no Marajó. No meu registro ansioso, o presente imediatamente passado. De repente, foi a menina batendo as asinhas e metendo o nariz em cada flor, me, se enfeitando, cabelo, barriga e pés, pétalas coladas no suor, confete. Acharam graça no meu encantamento, riram-se de mim, divertiram-se, eu também mergulhei na gargalhada esparramada e à toa. Um deles, pendurado de cabeça para baixo num galho sobre o rio, observou: Essa aí admira-se de tudo! Falou baixo para ele mesmo querendo que eu ouvisse a provocação. E me definiu.

Susan Sontag dizia que para escrever é importante ser curioso, ir atrás das coisas, “Atenção é vitalidade. Conecta você com os outros.” Sem a consciência intelectual da Sontag, anotei na alma a observação do menino. Sinto esse fio amoroso me conectando ao redor. É mais do que curiosidade. É fome mesmo. Engulo o que me apetece aos bocados, sem mastigar e ainda cru, só sentindo o gosto bom ou ruim daquilo na boca e jiboiando depois com a barriga cheia, alimentada, saciada. Na digestão dá-se o entendimento. Daí, pelos maus modos, talvez a leitura do garoto achando que o natural deveria ser a regra e não o exageramento que me toma. Gosto de explorar meu desconhecimento. Não saber até sentir e, então, saber. Abrir mão do experimentado. Receber o novo com virgindade e surpresa. Aí o prêmio maior, a emoção da descoberta. Eu, de novo, admirando-me de tudo.

 

Sintonia fina

Posted on 1 fevereiro, 2015

sintonia fina

 

Encontrei Santiago Pinha em San Antonio, leste do Uruguai, na pradaria sem começo nem fim ao longo da praia de mar aberto. Era um galho pequeno, magro e seco com corpo e cabeça de menino, caído de alguma árvore. Perfume de macela e eucalipto, pinheiros da altura de edifícios. Vento, vento, vento. Santiago estava de bruços no solo arenoso, ensaiando uma cambalhota, talvez. O bracinho mais curto apoiando o mais longo naquela geometria inexata dele. Achei graça, me compadeci da sua condição irregular, da feiúra, do olhar baixo, da timidez do adolescente gaúcho. Peguei. De pé, fincado na areia, ele era exatamente quem eu imaginava. Então, claro, carreguei-o comigo para o Brasil na mala cuidando para que não se machucasse, com medo de que a Polícia Federal mal interpretasse minha intenção materna e desse cabo dele confundindo com “objetos pontiagudos e cortantes, ferramentas como serra, furadeira ou lança, martelos, alicates, objetos esportivos como remo, tacos de beisebol ou golfe e outros que interfiram nos equipamentos das aeronaves.” Queria contar a sua história, ainda penso nisso, a saga de Santiago Pinha, o menino dos pampas, tão feio que vivia só entre os carneiros que pastoreava e mais tarde virou herói nacional fazendo o gol da vitória do Uruguai contra o Brasil numa final de Copa do Mundo. A ver.

Na volta, meu pai espiando as fotos no celular, arrasta o dedo ansioso e corre as imagens sem intervalo, filhas, irmãos, primos, as férias anotadas. De repente, congela na figura de Santiago Pinha. Fica alguns segundos examinando o galhinho com ar de gente e pede com naturalidade:

– Me passa essa foto?

– Por que papai?

– Gostei dele.