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Água para as visitas

Posted on 23 março, 2015

 

 

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Foto de Luiz Braga

Água para as visitas, 2001. Vila de Santa Maria do Maú, Pará.

 

A mulher entrou com a assadeira bem areada, a sua imagem deformada no reflexo do alumínio batido e marcado pelo uso. A gente esperava a água com muita sede e quando ela chegou com os copos naquela bandeja improvisada parecia que nos servia generosidade pura. Estávamos há horas na estrada da fazenda debaixo do sol quente. Foi idéia do meu primo Nato que parássemos os cavalos e pedíssemos água naquela casa sem porta, de chão vermelho, janelas irregulares. Vassoura cercando o cisco, descansando na parede. A mulher estendeu os copos sem levantar o rosto. Sentados no sofá de courvin diante da televisão de tela azul, tomamos tudo de um gole só, agradecemos e saímos sem olhar para ela. A vergonha era apropriada e recíproca. Depois, tive muito arrependimento de não ter trocado nem uma palavra. De não ter dito que achei a casa dela bonita e muito limpa. E deixado ela explicar que a água era fresca porque vinha da bica. Teria sido tão bom!

 

Um ponto de vista

Posted on 14 março, 2015

Tamanho não é documento e Os melhores perfumes vêm em frascos pequenos são ditados populares gastos e sem eco dentro de mim. Devem ter sido criados por gente complexada como Napoleão Bonaparte ou Dustin Hoffman que, à despeito do gigantismo profissional, fizeram história pisando em quem esteve ainda mais baixo que do eles.  Às demonstrações inconformadas com minha diminuta estatura, tive que ouvir repetidamente ao longo da vida essas e outras máximas das minhas avós que mediam menos de 1 metro e meio, tinham pézinhos 33 e pertenciam a uma geração de brasileiros anões.
Até uma certa idade, ser pequena tinha suas vantagens. Eu era a queridinha das professoras, a que se sentava no colo das tias, fui até emprestada para daminha de honra num casamento bacana. Por outro lado, se era a primeira da fila para sair da sala de aula, era também a primeira a tomar vacina.
Minha implicância com homens baixinhos deve ter nascido nessa época, quando os pares eram formados por ordem de tamanho para dançar quadrilha ou desfilar nos eventos cívicos. Os meninos que que faziam dupla comigo eram todos “inhos” e eu sonhava com um “ão”.
Na adolescência ainda não existiam os tênis com salto, largamente adotados por cantores sertanejos que querem parecer mais altos agora na cidade grande. Fugi, então, do estilo esportista. Me equilibrava em saltos plataforma enormes que felizmente eram moda mas, usados 12 horas por dia machucavam meus pés e cansavam minhas pernas. A expressão “pular Carnaval” não existia para mim. Só jogava a cabeça para o alto, sambando do pescoço para cima e o resto do corpo se mantinha fincado no chão. Foram tantos tombos que ganhei joelhos de skatista e quando não quero parecer radical, passo base para esconder as marcas escuras.
Não posso reclamar, porém. Com as minhas pernas de pau alcancei o céu ao lado dos meninos que quis. Sempre altos, não pareciam notar a diferença, não se dançava de rosto colado, ninguém se agarrava de pé em publico, olhos nos olhos eram reservados para o escurinho do cinema. Só eu sei o que me custaram aqueles passeios de mãos dadas, o braço adormecido de tanto se esticar para o alto.
Além disso, não estava sózinha. Minhas irmãs eram baixinhas como eu e meu irmão que, graças a alguma interferência divina tem uma boa estatura, gostava de nos maltratar dizendo que vivíamos na casa dos 7 anões. Lembro-me do meu pai conversando com um amigo no clube e ao ouvir um elogio às filhas tentou justificar: “Elas são  baixinhas, mas estão bem encaminhadas”, querendo dizer alguma coisa positiva que até hoje não entendi. Minha mãe é uma mulher pequena tão brava e segura que certamente ninguém sabe dizer a altura dela. Essa estratégia natural nenhuma de nós herdou.
De vernissages e coquetéis desisti desde que percebi que tanto fazia ir como não ir. São situações em que as pessoas querem ver e serem vistas, o que, no meu caso era inviável. Minha linha de observação se limitava à barriga dos homens, o quadril das mulheres, com sorte, a bandeja dos garçons. Para abrir caminho, ia cutucando o bumbum dos convidados. O teste final foi um evento grandioso onde deveria ter comparecido representando a empresa. Olhei para o vestido longo pendurado no cabide, para as pernas de pau no chão e decidi ficar. Troquei comentários com outros convidados. Ninguém notou que não estive lá.
Mas devia ter desistido muito antes. Num barzinho em Guaxupé, ouvi um rapaz atrás de mim comentar com o outro:”Essa menina quando crescer vai ser um mulherão!” Eu já tinha 25 anos.

Arquitetura

Posted on 4 março, 2015

A filha, diferente no ritmo, no tempo das coisas, contemplativa, analítica. Uma aquariana, até onde isso explica. Eu, ansiosa, inquieta, impulsiva. A gente se ajustando ou não se ajustando dia a dia. Ela silenciosa e calma. Eu falante e agitada. Ela melhor do que eu. Um dia da sua infância em Nova York, vou buscá-la na aula de escultura, um programa extra classe que desenvolvia experiências estéticas com o uso de materiais reciclados. Aos cinco, seis anos, concentrada no projeto como se nada mais houvesse, tentava montar uma peça com diversos objetos encaixados uns sobre os outros. Na base, apoiando aquela enormidade, um canudinho plástico. A escultura multiforme era claramente muito maior e mais pesada do que o canudo que ela apertava com a mãozinha. Atravessei o momento e em descompasso com a sua natureza, questionei o raciocínio, mostrei o absurdo da situação, a impossibilidade de colocar a geringonça de pé. Ela continuou séria e calada olhando para o canudo, a mãozinha agora devolvendo-o para a mesa. Dias depois, volto à escola para a mostra de encerramento do curso. Os trabalhos expostos com os nomes das crianças. Ao lado da plaquinha Ana Luisa, havia uma grande estrutura engenhosamente montada com sobras e partes de objetos de papelão, plástico e madeira. Segurando tudo estava o canudinho plástico, de alguma forma firme o suficiente para ser o único pilar da peça. Eu era jovem e arrogante, mas não cega. Li a mensagem e meu coração se apertou naquela hora por ela, por nós, pela delicadeza que a vida exige e que a gente não sabe.

Tomie Ohtake, Pampulha, BH

Tomie Ohtake, Pampulha, BH