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A culpa

Posted on 28 abril, 2015

Subi para cobrar o prejuízo que o vazamento do apartamento deles tinha custado ao meu. Foram quase quarenta dias entre encanador, pedreiro e pintor, barulho, sujeira e dinheiro escorrendo da conta sem parar. Certo é que conhecer o Geléia, encanador encantador, quase fez valer a dor de cabeça. Mulato alto, entre forte e gordo, invariavelmente envergando as cores da seleção em camisetas sem manga, tênis em tons cítricos, corrente dourada, tatuagem, brinco numa orelha, um clone do Adriano Imperador, do Flamengo, com tudo o que isso significa. Já gostei. Meu critério para os fornecedores é sempre esse, esqueça a técnica, abrace a personalidade. Tenho tido sorte, acredito. Na média, o carisma dos que me atenderam até hoje compensou a entrega técnica de seus serviços. Geléia chegava aqui atrasado iluminando o dia, sorrindo com o maior numero de dentes que eu já vi numa boca. Aceitava o café, contava uns causos desgraçados do bairro dele encerrando sempre com um “mas vamos em frente, graças a Deus”, agradecia os vales adiantados lembrando que as pensões das ex-mulheres e diversos filhos não podiam atrasar. Depois, metia-se no banheirinho úmido dobrando de tal forma o corpanzil que a gente tinha medo de que ele não voltasse ao tamanho original. Mas voltou. E arrumou o gesso do teto sem precisar de escada. Ainda novo, foi empregado doméstico em casa de família, em Vitória da Conquista. Lavava, passava, tirava pó, cozinhava. O andar pesado compensado pelas delicadezas. Falava com as ferramentas, dava ordens a elas, elogiava quando faziam o que ele queria. Ao longo dos dias, enviava-me mensagens de áudio pelo WhatsApp de onde estivesse comentando azulejos que via, peças em promoção e até pedindo opinião sobre outras obras (que estava tocando ao mesmo tempo, claro). Brincava fazendo voz de feirante, de radialista, gritando meu nome repetidas vezes antes de deixar o recado. Foi-se o Geléia, aportou o Valdir para a pintura. Valdir era depressivo, olhos tristes de passarinho, não piava. Tão cuidadoso que nem no dia de lixar, em que os pintores ficam cobertos de pó feito sobrevivente de terremoto, ele se sujou. Já tinham me avisado que ficasse atenta porque ele tinha perdido um irmão numa briga e desde então bebia mais do que antes e poderia sumir de repente. A recomendação era de que não o deixássemos sozinho, que fizéssemos companhia para distraí-lo da sua tragédia e focá-lo no que fazia muito bem que era pintar parede. A gente então se revezava dando atenção a ele e acho que exageramos porque a pintura não terminava nunca e ele passou a fazer pequenos consertos pela casa e quando foi embora levou anotado o telefone da Milene que trabalha aqui para combinar alguma coisa. Encerrado o serviço, juntei os recibos e notas e fui ao andar de cima ter com os proprietários uma conversa sobre o ressarcimento, já que o problema tinha vindo de lá e é de praxe que o responsável assuma a despesa. Eram onze da manhã e o casal de idosos estava terminando de almoçar. Ofereceram café passado no bule e fizemos um tour pelo apartamento observando infiltrações, rachaduras e manchas. Ela à frente, guia, descrevendo detalhadamente as circunstâncias de cada incidente. Ele atrás, resmungando qualquer coisa que tinha a ver com os custos. Dizia cruzeiros e então corrigia-se para reais. O banheiro culpado era de um cor de rosa forte que não existe mais. Lembrava o da casa dos meus avós, a pia e o espelho pequenos, perdidos numa parede enorme. O sabonete tinha um decalque de flor e a toalha estava presa numa argola barroca. No quarto, as fotografias da família sobre a cômoda , cortinas combinando com as colchas, duas camas, a Nossa Senhora e a vela acesa, o radio relógio no criado-mudo. Fiz que prestava atenção às suas queixas sobre o relacionamento com o prédio em bodas de ouro domiciliares. Ela impecável com o cabelo cinza arrumado num coque perfeito. Ele zeloso da sua história em trajes de executivo aposentado, camisa branca e calça de tergal cinza, cinto preto, meias e chinelo. Quando voltamos à cozinha eu já tinha desistido de falar sobre o que me deviam. Imagino que tenham feito essa procissão sensibilizadora outra vezes. Comigo funcionou.

 

 

 

Castelo de areia

Posted on 6 abril, 2015

Como muitos homens nessa função, o pai levava a sério a construção do castelo de areia. Enquanto as crianças observavam em silencio, às vezes distraídas pelo vai e vem das ondas, ele concentrava–se na escavação de um enorme buraco. A areia que saía dali terminava assentada numa estrutura delicada provida de muralhas, terraços, torres e até um fosso que circundava tudo. Nem o sol do meio-dia desanimou o arquiteto operário. Ajoelhado, trabalhava obstinado com as duas mãos, talvez premido pelo horário de almoço das crianças ou desafiado pelos olhares dos banhistas que paravam admirados com a sua movimentação. Estava quase terminada a obra, ele cuidava agora de reforçar uma ou outra parede, quando surgiu o vira-lata branco e caramelo, rabo longo e olhos vivos que, com a displicência natural dos vira-latas e para absoluto encanto dos meninos, levantou a perna e num jorro forte destruiu boa parte do castelo, enchendo o fosso de xixi.