Sem ter a real medida do que aquela escadaria íngreme significava, Elias, cego desde bebê, tomou coragem e fôlego e iniciou a subida até o topo. Ele sabia que a cada degrau o compromisso de encarar, ainda que figurativamente, o rapel de cerca de 15 metros, tornava-se inexorável. Sentia o coração disparado, as mãos suadas e o corpo balançando com o vento. O óbvio fazendo sentido, estar no alto era estar longe do chão. A gritaria da turma torcendo lá embaixo mais assustava e ele ria nervoso. Parava, respirava, seguia. O bombeiro atrás, agora estrela também. Dando-se conta do que acontecia, os músicos da banda do coreto foram parando de tocar, um a um, suspensos pela emoção, e a festa popular de Espírito Santo de Pinhal entornou sua atenção para o rapaz que escalava sem pressa a estrutura de madeira. Elias, um massagista de 33 anos, faz parte do grupo Olhos da Alma que reúne deficientes visuais em vários estágios e desenvolve atividades ao ar livre, culturais e de estudo. Foi uma das líderes do grupo que o empurrou para a aventura daquele dia quando ele esboçou desejo de fazer a descida. E é muito alto? perguntou. Suficiente para você sentir a adrenalina, ela assegurou. Confiança é palavra-chave para quem não enxerga. Em você mesmo e, sobretudo, no outro. Um exercício de entrega. Jogou-se. Já na plataforma de acesso, aceitou o braço do funcionário e caminhou para a beirada onde foi preso com uma corda de segurança à barra do rapel. Veio a lufada de vento. Com o som abafado pelo capacete, entreouviu a conversa dos organizadores, as instruções para a descida, passos no piso de madeira, a respiração ofegante do rapaz que o segurava. Alguém soprou no ouvido do animador. Microfone em punho, foi rápido e, do palco, anunciou a atração: Olha lá minha gente, quanta coragem, o Elias vai descer no escuro! O povo respondeu com uivos. Achou graça, virou-se para comentar, mas era tarde. Veio a ordem e ele saltou. Voou com o corpo solto, pernas para o ar, olhos fechados. Depois brincou que foi para ter “a sensação de não ver nada.” Ainda tinha a barba que deixou crescer para encarnar Jesus Cristo na encenação de Páscoa da cidade. Ator amador, conhecia cada movimento que faria no tablado e conduziu o sofrimento de Jesus com segurança e desenvoltura. Ali também foi celebridade instantânea. O Cristo agora descia o rapel cheio de medo e alegria, santificando o momento. A praça ensolarada e silenciosa. Aquela gente mal acreditando no espetáculo imprevisto. Veio devagarinho, cuidadoso, experimentando o vazio. E então as palmas e os pés no chão.