Archive for

Para viajar

Posted on 29 junho, 2015

Amanhã eu vou viajar. Vou a contragosto porque viajo mais longe em casa, olhando as árvores pela janela, minha cabeça pegando fogo de inquietação e curiosidade. Mesmo as gentes que busco nos lugares distantes são mais distantes do que as das ruas aqui. Não tenho curiosidade geográfica, nenhuma paisagem transatlântica me assombrou mais do que a oficina do sapateiro do bairro, quanta história ali! E ainda que os cheiros e gostos do desconhecido me excitem os pensamentos, castanhas fumegantes nas esquinas estrangeiras, cobras e lagartos assando no chão de terra, mercados populares perdidos no tempo, um café turco com a minha sorte no fundo da xícara, se é tempo de pamonha em Guaxupé ou se a Milene inventa um bolo de paçoca porque não encontrou fubá, pronto, já fui e voltei à todas as emoções do mundo. Não há razão para tanto alvoroço, tanto deslocamento, digo já arrependida de dizer. Sei o que foi.
Dei uma volta no jardim há pouco e vi um passarinho morto. Pernas secas para o alto. Acho que foi esse vôo desastrado dele que me desanimou. Ou antes, a natureza dele de voar. Minha vontade disfarçada encontrando a vontade dele e as nossas pernas secas para o alto.

Sorte

Posted on 19 junho, 2015

Num tempo em que as donas de casa de classe média de São Paulo lavavam as calçadas, a dona daquela casa em Santana fazia exatamente isso com a mangueira na pressão máxima para empurrar a sujeira até a sarjeta sem precisar usar a vassoura. Caprichou no rastro da areia que voou da reforma do vizinho, perdeu tempo mirando os cantinhos escuros, o mato que crescia no vão do cimento rachado da entrada da garagem. Tudo sem molhar a sandália saltinho anabela separada só para o serviço. Foi quando viu o que pensou ser um papel branco colado ao chão. Apontou a mangueira com convicção. Não conseguiu movê-lo. Insistiu. Cutucou com a vassoura. A coisa desprendeu-se, mas não agarrou-se à piaçava como ela esperava. Fez, então, o que as suas costas doloridas pediam para não fazer. Abaixou-se e tocou com a mão. Com a pontinha dos dedos e uma ponta de nojo, levantou um lenço masculino branco dobrado, pesado, pingando. Desembrulhou o tesouro. Cerca de sete mil cruzeiros em notas de mil e de quinhentos cuidadosamente acomodadas no tecido sujo. Pouco mais do que um salário mínimo. O que pagaria para a empregada que não tinha e o que economizava mensalmente mentalmente porque nunca recebeu, claro, remuneração pelo serviço doméstico. Com as notas molhadas nas mãos, olhou para os lados procurando um dono. Adivinhou a aposentadoria de um senhor vindo do banco com o pacote valioso sacudindo num bolso largo ou rasgado. O coração se apertou. Entrou atordoada para dentro de casa, ligou a televisão num gesto automático e passou a espalhar as notas sobre a mesa da cozinha para secar. Fez a conta da tristeza alheia. Pensou em perguntar na vizinhança. E quem nessa hora quer chamar atenção? Recolheu-se. Durante muitos anos guardou o dinheiro na poupança em silencio, rendendo um miudinho, esperando um dono que sabia nunca apareceria. Foi com relutância que, quando a situação pediu, resgatou o montante e pagou o vestido de noiva da filha. Fez bonito. Mas até hoje acredita que o casamento não durou porque o dinheiro não era para ser.

Tradução

Posted on 15 junho, 2015

Ele não sabe o que é saudade. Acha que é uma coisa boa, sinônimo de amor. Porque não fala português, não entende que saudade significa sentir falta de uma coisa boa. Que é a dor causada pela distância de alguém que a gente ama. E que não tem poesia, não tem arte, não tem beleza nisso, saudade é feio, quase um defeito que a gente carrega. Fica a olhar-me achando graça na explicação. Faço de conta que é uma questão de idioma e que ele sente saudade sem saber.