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Partida

Posted on 24 julho, 2015


Levou meu coração na mochila junto com a garrafinha d’água e os livros. Fiquei parada na plataforma sem sentir nada porque já não tinha coração. Dizem que ele batia tão forte que chacoalhava a mochila e que todo mundo no trem tinha pena daquele coração fora do corpo, sozinho, procurando quem o quisesse. O dono da mochila, de costas para a agonia alheia, só sentia o peso dos romances que carregava fechados ali dentro. No final foi bom. Morri longe de mim, sem dor nenhuma.

Vida passarinha

Posted on 7 julho, 2015

Ouvimos os sons de asas batendo rápido e uma coisa como um miado engasgado. Larguei o jornal e corri. Era domingo de manhã, o janelão da sala estava aberto e da copa das arvores verdejando ao longo da parede, os passarinhos cantavam. Do lado de cá, dois gatos hipnotizados. O terceiro, patas fincadas no sofá, tinha um passarinho debatendo-se entre os seus dentes e parecia não saber o que fazer com ele. Sacudia a cabeça, impaciente, querendo terminar logo com aquilo e, entre instinto e desorientação, talvez se perguntasse qual seria o próximo passo. O passarinho, na dor, decidiu por ele. Piou e bateu as asinhas no focinho do inimigo arrancando forças de onde a gente não imagina, obrigando-o a assumir o ato. A maior parte das vítimas dessa tipo de ataque não é inocente ou distraída. Ao contrário, são passarinhos curiosos, destemidos, que voam longe para espiar o diferente, os muros, as floreiras e os terraços da gente. Não é uma escolha, é da natureza destes. Joguei o chinelo no gato e ele deve ter apertado ainda mais o bichinho. Pingou sangue. O tapete estampado de classificados e penas. As meninas, ainda nas camisolas, choravam e batiam as mãos e os pézinhos, dançando de aflição. Armada de uma vassoura, ameacei o gato exigindo que largasse a criaturinha. Ele obedeceu a vassoura quase com desdém. Abriu a boca e deixou que o passarinho rolasse para o chão onde permaneceu imóvel. Conferi de longe e avisei aliviada: “Não chorem, ele está inteirinho. Vamos ajudá-lo a voar de volta para a árvore.” Peguei o bichinho quente com jeito e o coloquei no parapeito ensolarado. Ele ficou ali alguns segundos olhando para fora, dando tempo para a gente respirar. Depois virou-se para nós naquela fragilidade que o próprio nome traduz e mostrou a cabeça arrancada pela metade, um olho, meio bico, o Fantasma da Ópera. Voou.