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Contentamento

Posted on 28 agosto, 2015

Muitos escritores costumam anotar pensamentos e idéias que lhes ocorrem a qualquer momento para depois usá-los em seus textos e reflexões. Daquele breve lembrete nascem diálogos, descrições, personagens, livros inteiros às vezes. Eu também sempre tive mania de registrar no papel ou no celular coisas que me chamassem a atenção. Não tinha a menor pista da serventia daquilo e na maior parte das vezes revelaram-se banais e sem propósito nenhum. Houve uma época em que bastava beber para que todo mundo me soasse genial e eu imediatamente passasse a anotar o que se dizia apenas para no dia seguinte me perguntar por que diabos achei aquilo interessante. Noite passada acordei com a palavra contentamento entalada na garganta. Tão bonita e fiel ao seu significado. Anotei. Hoje ouvi de alguém que amor é contentar um ao outro. Achei que devia escrever sobre isso. 

Paulão

Posted on 25 agosto, 2015

É seu? Demais, hein, cara! Olhou para trás para ver se falavam do mesmo cachorro. Estava há algum tempo pescando na beira do açude como fazia todas as tardes desde que mudou-se para a fazenda. Como na meditação, pensava não pensando. O silêncio ocupando tudo. Trouxe, quando veio, a mulher, filhos e os cachorros de raças variadas, algumas mais nobres que outras. O único que partilhava do prazer da pescaria era aquele que o recém chegado mencionava. Conferiu. Paulão tinha inúmeras qualidades admiráveis, a inteligência, a coragem, a rapidez, a lealdade, mas era inegavelmente um animal muito feio. Pequeno e magro, de rabo longo e fino como um pedaço de arame torto, a cabeça desproporcionalmente grande e orelhas de morcego sempre apontadas para cima.

Achou que o visitante estava brincando e aí, sim, defenderia a honra do Paulão contando, por exemplo, que ele era o cérebro do bando que atacava as aves do vizinho sem deixar pistas, nem uma pena sequer que pudesse incriminá-los. Mas não foi preciso. Era um elogio honesto que o visitante fazia. E seguiu: E essas orelhas! Só pode ser da raça da minha! Que sorte, tão raro encontrar dois iguais! Estendeu o braço e arriscou um carinho que o cachorro, ele também mal acreditando, não aceitou. A raça a que ele se referia era aquela que não consta das enciclopédias e que canil nenhum abriga, a dos vira-latas. E que, nesse caso, deve ter resultado do encontro improvável, mas quem sou eu para julgar, de uma ratazana com um lêmure. Nasceu o Paulão.

Ficaram ali, lado a lado, o visitante agora identificado, tinha vindo indicado por um amigo comum para pescar. E conversaram sobre os problemas locais, o estado da estrada de terra depois da chuva, o preço do café e da laranja. Quando a luz começou a cair, as costas doendo, os peixes rebolando no anzol, levantaram, despediram-se prometendo um reencontro algum dia e caminharam em direções contrárias. Paulão com a cabeça erguida, de tempos em tempos checando o dono com o olhar, intuindo que alguma coisa estava a seu favor e comprovando isso quando chegou em casa e foi efusivamente ovacionado por todos que ouviram a história.

Ontem o Paulão esteve fora. Os outros cachorros inquietos com a sua ausência. A galinhada com as asinhas de fora dando voltas no terreiro sem qualquer tipo de coação. Paulão só volta quando tiver cumprido a missão para qual foi convocado, que é cruzar com a cachorrinha da sua raça que está no cio e pode dar à luz outros exemplares com características tão especiais. Um filhote, garantiu o dono dela, e pode escolher, fica com o Paulão.

 

 

 

Um livro

Posted on 22 agosto, 2015

O ilustrador disse: ilustra-te.

A mim?

Ao seu texto, que é você.

E você acha que eu preciso me explicar?

Ninguém se basta.

Me dá um lápis de cor, então. Vou desenhar a palavra.

Seu traço sozinho não diz nada.

Me dá sua mão, então. Me significa.

 

 

 

 

 

 

 

Contemporaneidade

Posted on 18 agosto, 2015

Entramos no elevador e o comunicado de falecimento estava lá, parcialmente refletido no espelho, como sempre acontece quando morre alguém do prédio. O nome do morador em caixa alta, o número do apartamento, o endereço do cemitério. Quase sempre esse anúncio é depois substituído pelo da missa de sétimo dia. Brinco com minha filha: Um dia meu nome estará aí. Pressiono o botão do nosso andar. Ela diz: Ái, mãe. Mas sinto espaço para um conforto no lamento dela e completo: É uma sensação boa essa, a de pertencer a um grupo, conviver com as pessoas, ver as crianças nascendo, a molecada namorando, depois envelhecer e morrer. Tudo em casa e no seu tempo. Ela concordou: Pior que é.

Sem cerimonia

Posted on 17 agosto, 2015

Vinham caminhando pela calçada numa marcha desorganizada. Pais, avós, irmãos e um ou outro que aparentemente não dividia o DNA, amigo, padrinho, talvez. Em ares, roupas de festa, paletós e saias longas, deixaram o cartório do bairro e seguiam animados para algum lugar onde o almoço de casamento se daria, calculei. A noiva, discreta, num vestido justo de renda pérola logo acima dos joelhos, sapatos da mesma cor que, e isso sempre me comove, de muito novos, pareciam maiores do que seus pés. Fez questão de um delicado arranjo de flores no cabelo que a distinguia das demais moças do grupo. Mas mais do que isso, era a noiva pelos olhos, emoção escancarada. Uma menininha ficou para trás reclamando que o sapatinho dourado estava machucando. Havia à frente outra vestida igual, mesmo sapato inclusive, pendurada no braço de um senhor grisalho, essa já quase adolescente, fora da medida, mas feliz sentindo-se parte oficial do momento. Único de gravata, o noivo carregava o paletó no braço e óculos escuros na mão, suando e tentando apressar o passo da turma. Liderando o grupo, um fotógrafo com a câmera pendurada no pescoço, flash, cabo e tudo, parecia procurar algum angulo fotografável no percurso e tive medo quando se deteve por um minuto diante de uma casa de carnes cuja construção de mau gosto reproduz um casarão antigo. O cortejo, então, teve que atravessar uma feira livre e mergulhou no caos de dezenas de donas de casa de chinelo puxando carrinhos, gente carregada de sacolas pesadas, feirantes disputando compradores no grito. Os vestidos longos agora erguidos para escapar da sujeira de cascas e restos de frutas, resultado da delícia que é experimentar aquelas maravilhas que os vendedores nos oferecem espetadas na ponta da faca e ainda jogar o que sobra no chão, debaixo da barraca. Todo mundo viu e admirou-se daquela festa se desenrolando ali, os perfumes se misturando, peixe, flores e frutas, saltos, penteados e maquiagem, uns agarrados nos outros para não se perderem na multidão.

Parada com o pastel na mão, lembrei-me do dia em que me casei no City Hall, em Nova York. Era alto verão, eu tinha também um vestido claro e curto, mas não flores no cabelo. Não há charme nenhum em se colocar diante de um juiz de paz que casa as pessoas por ordem de chegada, não consegue pronunciar seu nome direito e desconfia das suas intenções se você não é americano. Levamos uma amiga como testemunha, nossa madrinha, neta de banqueiro, loira (em Minas, loiro é sinônimo de bonito), chiquérrima, jóias e tailleur vermelho, muito compenetrada do seu papel, até chorou. Meu marido, de paletó azul marinho, tinha que trabalhar em seguida, pusemos o romance de molho e fomos almoçar no China Town, ali ao lado. A madrinha abrindo caminho com a carteira Chanel nas ruas coalhadas de chineses indo e vindo. Agarrados uns nos outros, desviamos de homens com caixas na cabeça, portas de metal descidas sobre as calçadas e baldes de gelo sujo atirados por cima de nós. Todo tipo de animal depenado e despelado pendurado nas vitrines. Das bancas de verdura, frutas e, sobretudo, peixe, polvo e outras indescritíveis criaturas do mar, vinha um cheiro forte que ficou impregnado na nossa memória matrimonial. O almoço, pato e champanhe, correu por conta da madrinha, que depois viajou conosco numa suposta lua de mel. Engoli o último naco do pastel e agradeci o rapaz de traços orientais. Chinês? forcei a coincidência. Coreano, disse. E mudou o final da história.

 

 

 

Dia dos Pais

Posted on 15 agosto, 2015

Pouco antes do Dia dos Pais, em Nova York, anos 90, fomos convocados para uma reunião na escola infantil onde minhas filhas estudavam. Para comemorar a data, a escola propôs que os pais passassem o domingo consertando o encanamento, o telhado, pintando os móveis e paredes, recuperando o que estava desgastado ali onde seus filhos passavam boa parte do tempo. O que nos parecia uma punição eram tarefas relativamente rotineiras para os americanos, mesmo os de Nova York, que se orgulhavam de economizar dinheiro não terceirizando os serviços. Conheci gente que fazia troca de óleo no carro, afinava o piano e cortava o cabelo dos filhos em casa. A idéia do mutirão foi recebida com entusiasmo.
Naquele ano, um casal de mulheres fazia parte do grupo e a discussão arrastou-se longamente quando elas anunciaram que queriam participar da atividade. Os homens achavam injusto que fossem homenageadas naquela data como pais e adiante, talvez limpando as salas e lavando o chão, como mães.