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A janela

Posted on 30 setembro, 2015

Sem se preocupar com a hora nem com o que tinha que fazer, a salada pingando dentro da pia, ficou a olhar os desenhos que evoluíam na enorme tela azul emoldurada pela janela. As formas surgiam lentamente, desobrigadas de qualquer finalidade, espreguiçando-se, esticando-se e encolhendo-se, desdobrando-se arredondamente nas pinceladas do vento. Isso foi o que de certa forma provocou seu afeto. Cansada de situações pontiagudas e gentes duras, buscava acolhimento e agora o encontrava nas curvas macias e inexatas das nuvens. Ela também bunda, peitos, cintura e coxas. Sentia-se parte do movimento grandioso, tudo mexendo-se, o céu sendo o tudo sem se mexer e ela, as nuvens e o vento fazendo o que bem quisessem, plenos de desejo e expressão. A liberdade ao quadrado na esquadria da janela. Apoiou as mãos no mármore a avançou com o corpo num gesto inútil de aproximação, levando a sério a vontade de ser mutável e de perder-se em formas variadas sem prestar contas a ninguém nem terminar de lavar a salada. Queria sair pela janela e saiu. Foi nuvem pensando em nada mais do que o sensual desdobrar-se feminino, na delícia do abrir-se para tudo, cabendo tudo, os proibidos, os sonhados, os esquecidos. Soltou um pouquinho os pés nas sandálias querendo desproteção. E chegou perto da contraditória sensação do prazer egoísta, solitário, humano, único. Nascido nela e para ela. A janela aberta. O céu, os pensamentos, a alma em movimento. Tocou o intangível. Podia tudo. Sentiu o azul atravessado. Mas, ái, os gostos e cheiros cozinhando em fogo médio, sem pressa e no tempo certo, destampados em pequeninas nuvens de vapor na cozinha fria, azulejos, piso e metal. O almoço.

Zen dentista

Posted on 2 setembro, 2015

Vamos ter que tratar o canal. Olhei para ele com incredulidade. Não era a primeira vez e na anterior me convenceu a enfrentar a provação sem anestesia, sinalizando com a mão quando doesse. Doeu diversas vezes. É importante que eu tenha a resposta do paciente para saber o que estou fazendo, explicou. Aqui é quase um vôo cego. Tentei argumentar que junto com o comprometimento socio-cultural e ambiental, assunto que ele adora, a globalização deve ter trazido até aqui tecnologia suficiente para que se saiba até onde afundar a agulha dentro do dente e nos poupar de passar por esse sofrimento todo, o da dor antecipada. Mostrei minhas mãos suadas. Respire fundo. Tente esvaziar a cabeça de todos os pensamentos. Descreveu sua experiência pessoal, uma hora por dia concentrado, mas não conseguiu que eu meditasse na cadeira.

Foi transparente. Não gosto de anestesia, acho agressivo, mas tenho horror à dor. Sou um banana, não aguento nada. Como é que a gente faz? Decisão difícil essa. Então vai na minha, doutor, e usa anestesia, por favor. Foi buscar a seringa. Corri os olhos pela parede do consultório coberta de fotos de instrumentos rudimentares usados por indianos e aborígenes para tratar os dentes. O bisturi de pedra. Sobre a bancada, as imagens de Shiva e Ganesha que ele trouxe da ultima viagem à India onde confirmou a suspeita de que não pertence a esse mundo sem espiritualidade. As coisas relevantes se dão noutra dimensão, sentenciou com a seringa no ar e os olhos azuis mergulhados em algum lugar muito longe dali.

Tinha acabado de chegar de uma yoga rave e ainda estava impactado pelas 24 horas de mantras eletrônicos ao ar livre. Lembrei-me de uma vez quando a assistente recebeu de um entregador um banquinho de madeira, desses de tirar leite da vaca, e explicou que era para ele levar numa clausura de 10 dias em que ficaria acocorado ali, de castigo, sem pronunciar nem uma palavra.

Picou uma, duas, três vezes. Vê como minha mão treme? É natural, estou ficando velho. Nós todos, aliás. Fiz que não ouvi. Não vou abrir mão do corpo assim fácil, me poupe. Você vai sentir a adrenalina agora. Leve taquicardia. Detesto fazer isso. Procuro pensar que o meu trabalho ajuda as pessoas, mas não conheço ninguém, eu incluído, que não tenha pavor de se sentar aí. Mantenha a boca aberta.