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A partida

Posted on 9 outubro, 2015


De dentro do carro dele que eu manobrava todos os dias, várias vezes ao dia nos anos em que dividimos a garagem do prédio, espiei sua vida menina deslanchar.  
O primeiro carro que ganhou do pai era pequeno, usado, com as marchas teimando em dificultar o meu já sofrível manejo da direção. E foi ali que ganhamos intimidade, nas raspadas que vez ou outra as portas dele sofriam nas minhas mãos. Os bilhetes com explicações técnicas, a miopia, a pressa, as colunas erguidas no lugar errado, eram desnecessários. Ele sabia que eu era bração, achava tudo bobagem e deixava os envergonhados pedidos de desculpas amarelando no banco durante muito tempo junto com papel de bala e chiclete como quem não dava confiança. Sorria gentil. 
Ouvia rock alto. Era a gente virar a chave e entrava, de ré, num show ao vivo. Eu deixava tocando, a porta aberta enquanto trocava os carros, nem gostando tanto, mas querendo gostar também. No piso, marcado de areia ou de barro do final de semana na estrada, havia quase sempre umas havaianas numa numeração gigante que eu não sabia que existia, garrafas d’água e energético, alguma camiseta comemorativa de evento e um quimono que ele usava para lutar jiu-jitsu. Era o maior menino que eu conhecia. E o mais lindo. E o mais doce. Quando ele saía com a Nina, a cachorra, o bairro parava na lindeza do caminhar deles. Tentei, sem sucesso, que uma das minhas filhas se interessasse, não aconteceu. 
A nossa história feliz deu-se na improbabilidade. Fiz coisas horríveis que só uma mulher ansiosa, cheia de compromissos e fios soltos na cabeça pode fazer. Ele me perdoou de coração aberto e isso me doía ainda mais. Xinguei a sua gentileza que me enchia de culpa. Uma, entre tantas vezes, deixei o carro dele preso na garagem e na volta tinha tinha um recado no vidro, escrito em letra cursiva numa folha de caderno, explicando que ele tinha ido de onibus para a faculdade e que talvez fosse legal a gente pensar num esquema melhor para nós dois. Assinava, sem malcriação, um beijo, Luiz.
Depois, por merecimento, porque era um bom aluno de engenharia na Mauá e um esportista campeão, veio outro carro, esse novinho. Ficamos ligados, eu e ele, na seriedade do momento, nada de areia dentro e nem um risquinho por fora. Até a rádio ganhou amadurecimento. Uma manhã, ainda escuro, a música era tão boa que não consegui descer do carro até terminar e até anotei onde tocava para ouvir outras coisas que ele agora ouvia. 
O último bilhete de desculpas que deixei e que depois foi reforçado pessoalmente, dizia que mandasse o pai se entender comigo se ficasse bravo por causa de um “amassadinho à toa” que sobrou da volta de uma noite mais agitada. Quando dei com ele no elevador, abri a conversa numa velocidade excessiva tentando disfarçar o mal-estar no meu destrambelhamento natural e ele lindo e tranquilo e gentil, me parecendo quase perfeito, sorriu como sempre fazia, o sorriso mais afetuoso que alguém pode ter, e explicou que estava preocupado com o primeiro emprego e que, como se uma coisa tivesse a ver com a outra, não poderia pensar noutro assunto. 
Eu já imaginava que a vida dele estava mudando porque o interior do carro tinha me contado. Havia agora umas botinas e dois capacetes desses de visitar obra, um branco e um vermelho no banco da frente. E atrás, seguia o jaleco da Mauá, todo amassado de entrar e sair da mochila, além do quimono embrulhadinho e amarrado pela faixa feito um presente. Tive vontade de escrever a história de um menino vista de dentro do seu carro. Mas não deu tempo e já não posso.
Ontem eu estranhei seu carro estacionado na vaga. Não era rodízio e à essa altura eu já conheço seus hábitos de cor. Fui atrás sentindo o peito apertado num pressentimento de mãe e soube que ele tinha resolvido partir. Deixou, como era de hábito, uma carta carinhosa pedindo desculpas e se despedindo. Tomou a estrada para não voltar nunca mais. Ficamos órfãos, com um buraco ainda maior do que ele dentro de nós, loucos de dor. De repente, parou tudo.

Lamento mineiro

Posted on 1 outubro, 2015

Sentada no alpendre, a tia reclama do calor. Está desanimada, sem vontade prá nada. O olhar longe. “E então,” a fala numa velocidade nunca alterada pelas circunstâncias, “abri o congelador e tirei um peito de frango. Deixei prá fora um quase nada e estava descongelado.” Afasta uma mosca com a mão e segue ganhando tristeza.”Desfiei bem desfiadinho com dois garfos. Piquei cebola e alho,  juntei o caldo de galinha feito com ossos e refoguei. Um bocadinho de farinha. Cheiro verde. Enrolei. Deu quase sessenta croquetes.”