Archive for

Carona

Posted on 28 novembro, 2015

Era verão em Nova York e a mulher deitava-se sobre a maca, uma cadeira de rodas reclinada, num minúsculo vestidinho de alça que mal a cobria, o que ela mostrava era uma pele curtida de sol, pernas atrofiadas sobre o lençol branco. Aguardava na horizontal o sinal para atravessar uma rua movimentada na altura da 30 com a Segunda Avenida. Perguntei, com medo porque em Nova York a gente nunca sabe se vai receber de volta um sorriso ou uma malcriação, se queria ajuda. Nunca tinha visto uma pessoa circulando numa cama com rodinhas daquele jeito, mas, de novo, era Nova York. Já na saída senti o peso da coisa e tive dificuldade de iniciar a subida, a Segunda Avenida é inclinada em quase toda a sua extensão. Achei que todo mundo olhava para mim, pequenininha, desajeitada, pilotando aquele estranho veículo. Ninguém me via. A mulher ia falando num inglês acelerado demais para o meu na época, eu entendia uma palavra ou outra e tentava responder, o cérebro ocupado em livrar-me logo daquela missão. Vermelha, suando, manobrei a maca entre as pessoas, desviei de obstáculos, ela ali esparramada tomando sol. Começou a dar raiva. A distância só aumentava. Ela queria ir até a rua 59 para tomar o tramway para a Roosevelt Island. Pediu para parar duas vezes. Numa banca de jornais para comprar o NY Post e numa deli onde a estacionei na porta, entrei e saí com um maço de cigarros que ela abriu e começou a fumar com vontade. Era preconceituosa e de direita, fazia comentários desagradáveis sobre imigrantes “que só falavam as suas proprias línguas” como se com isso elogiasse a minha capacidade de arfar em inglês. Contou que veio de família rica, que estudou em Yale, só não explicou como foi parar ali na cama com rodinhas. Quando eu desacelerava para tomar fôlego, ela me lembrava dos horários rígidos do tramway e eu apertava o passo empurrando o que agora me parecia um caminhão de cimento. Eu pensava, não vou amaldiçoar o momento em que me meti nesse calvário porque aí ao invés de ir pro céu vou pro inferno. E imediatamente me penitenciava pelo mau pensamento. Quando finalmente chegamos ao destino, o dela porque o meu eu já tinha esquecido, à porta do elevador que a deixaria na plataforma do bondinho, ela agradeceu sorridente e disse como se já tivesse dito antes, que poderia ter acionado a rodinha elétrica, mas que nesse caso não teríamos a companhia uma da outra. Eu nunca soube que tive essa opção. Não ouvi ou não entendi. Mas fiz que concordava. E ao longo do tempo, concordei.

Super Homem

Posted on 23 novembro, 2015

Chegou arrastado pela mãe num impecável uniforme do Palmeiras, meião, chuteiras oficiais e tudo. Parou em frente ao espelho com cara de choro. A franja escorrida vinha reta, fazia uma curva acentuada à direita, subia apressada e então voltava e seguia seu curso normal. O desenho irregular do cabelo abria espaço para um corte horizontal na testa do menino, ainda inchado, fechado com pontos escuros. Veio a cabeleireira, uma japonesa elegante, séria, monossilábica e mandou tirar a camisa verde e branca. A mãe obedeceu, ele submetido, peito magrelo, ossinhos de fora, olhos colados no reflexo da sua tristeza. As lágrimas caindo. Fecharam o velcro do avental com desenho do Super Homem e foi ali que ele ganhou força. Tá me enforcando! Não consigo respirar! Quero ir embora! A mãe falou qualquer coisa num tom baixo e firme e reforçou a mensagem com um aperto na mão dele. A japonesa sacou a tesoura. Quando os primeiros fios voaram ele chorou alto e dolorido. As chuteiras chutando o ar. A boca aberta, ele babando, fazendo que ia vomitar. Tem cabelo na minha língua! A mãe veio com uma toalha secando a baba. Tem cabelo nos meus dedos, olha! Abria a mão e mostrava os dedinhos. A japonesa passou para a máquina e com um movimento seco empurrou a cabeça dele para frente. Começou a trabalhar a nuca. Eu não tou vendo nada! Quero ver! Tá doendo muito! A mãe endurecendo de constrangimento. Alguém chega com dois pirulitos vermelhos em formato de coração e três balas. Se você deixar ela terminar direitinho pode ficar com tudo. Engoliu o choro olhando para os doces no colo e conferiu, dois pirulitos e três balas. Limpou o cabelo que caía sobre eles. Levantaram a franja desfiada, passaram gel. Cabelo de jogador de futebol! a mãe salientou. Mas já não interessava. Abriu o pirulito e meteu na boca vitorioso.

 

 

 

 

Refugiados

Posted on 4 novembro, 2015

Estamos contentes porque conseguimos um bom lugar no trem de Berlin à pequena Calw, no sul da Alemanha, terra de Hermann Hesse. São dois sofás ao lado da janela e há uma mesa entre eles onde acomodamos um vinho, pretzels fresquinhos, uvas e maçãs. A viagem é muito verde e longa e tem diversas paradas. Numa delas, entra um grupo de sírios, homens, mulheres, bebês, crianças, malas, sacolas. Caminham até o meio do vagão olhando para os lados, atordoados, mudos. Só as crianças falam e os bebês choram. Um rapaz parece mais à vontade e orienta os outros a ocuparem os assentos vazios aqui e ali, mas eles não querem se separar e ficam amontoados de pé, com os bebês e a mudança nos braços. Saímos da mesinha, nós também carregando deselegantemente nossas coisas, comida, bebida e tal, e oferecemos os lugares que funcionariam bem para a turma. Em silencio, vão se ajeitando ali, o rapaz mais à vontade agradece num inglês quebrado e nos ajuda com as malas. Depois, vimos que ele levava as pessoas ao banheiro, ao restaurante para comprar o lanche. Sorria educado quando passava. Pedi à Deus por ele, para que cumpra seu papel com sucesso, para que seja a ponte entre seu mundo desmoronado e o novo mundo que precisa ser construído por todos nós.

Recreio

Posted on 4 novembro, 2015

O homem chacoalhou o galho com força. A amoreira estava vermelhinha lá no alto. As frutas mais fáceis tinham sido apanhadas por outros frequentadores do parque ou derrubadas na chuva da noite passada. O homem não teve pena e fez o galho entregar tudo. Pensei que se quebraria, mas ele sabia mais. As frutas caíram na grama e fomos catando, alguns timidamente fazendo que era só acaso, outros, ele mesmo, enchendo as mãos e a boca com vontade. O garotinho achava graça quando conseguia pisar tirando sangue delas. Mais gente chegou. Um senhor dobrou-se lentamente num movimento de apanhar às avessas, alcançou o que pode no chão e colocou na pochete atada à cintura. O guarda olhou feio, pensei que daria fim à farra. Acendeu o cigarro e fumou. Escolhi uma gordinha, escura, com cara de gostosa. Tirei uma sujeirinha colada nela e meti na boca. Explodiu. Era uma geleia pronta. Foi o que ouvi das mulheres ao meu lado. Sorrimos em comunhão reconhecendo a delícia das amoras maduras e do momento. O agachar e levantar mil vezes atrás das melhores numa gincana infantil cheia de memórias pessoais. Senti o gosto disso também lembrando-me da calçada manchada da minha infância. De vez em quando o homem dava uns chacoalhões de novo sendo dono do que não era. O guarda fumava. A gente recolhia o que caía. Eu podia ter seguido a minha corrida e estou me cobrando até agora, mas a vida às vezes desencaminha a gente dos nossos planos. E só um tonto não obedece.

Um mexicano pelo outro

Posted on 4 novembro, 2015


Enquanto o amigo me esperava num restaurante bacana, de arquitetura contemporânea e cardápio refinado, entrei por engano num outro, pequeno e simples, música ranchera, sombreros nas paredes, burritos, tacos e tal. Copos com caveiras aplicadas, cactus como paliteiros. O carrinho com as inevitáveis paletas, sobremesa self service, estacionado ao lado do balcão. Uma pia entre as mesas onde, como num ritual, os frequentadores lavavam as mãos depois de comer. A garçonete pediu licença e passou pano no chão debaixo das minhas pernas.
Achei exótica a escolha do amigo e enquanto o esperava sentada ao lado de uma falsa loira tatuada do pescoço aos pés, imaginei a história que justificaria o encontro naquele lugar. A fachada discreta no centro de São Paulo reuniria sobreviventes da guerra do tráfico, o elenco de Narcos encontrando-se ali para degustar, a preços populares, a autêntica comida mexicana preparada por uma descendente da cozinheira asteca que servia a Casa Azul, de Frida Khalo e Diego Rivera. Questionei minha rigidez estética diante da decoração duvidosa do lugar incluindo o design do cardápio, um coiote uivando para as estrelas no deserto, achei que era para ser engraçado e ri e agradeci mentalmente a oportunidade de conviver com gente original e sem preconceitos como meu amigo.
Quando a Corona já estava quente, o celular tocou e a história era outra. Dessas coisas improváveis, os dois restaurantes mexicanos eram praticamente vizinhos. Vi meu amigo acenando lá fora, disfarcei e encaminhei-me constrangida para o mexicano chique.

Marmelada

Posted on 4 novembro, 2015

Me contou que a avó sofria de epilepsia, teve uma convulsão, caiu no tacho de goiabada quente e morreu. Fiquei encantada com a força daquele episódio. Fiz repetir várias vezes e a cada uma delas eu via mais de perto. Aquela avó já era a minha, o doce eu tinha comido com os primos na fazenda. O fogão era de lenha, o tacho de cobre, a colher de pau. O velório no casarão aconteceu com o caixão fechado escondendo o rosto queimado, untado de doce, o cabelo cor de rosa colado num coque.
Escrevi a história assim mesmo, imaginando os detalhes que ele nem tinha, sem colorir muito porque o fato em si era dramático o suficiente.
Agora vem dizer que não sabe se aconteceu de verdade ou se inventou. Desculpe, fui longe demais com isso para devolver. Emprestei nome, corpo, cheiro, dor e medo. Assinei. E como diria minha mãe, esparramei pela internet.