Archive for

As meninas albinas

Posted on 23 dezembro, 2015

Escurecia e o playground na praia estava inabitado. A sombra dos brinquedos refletida na areia pela luz da lua. Haveria um pezinho de sandália, uma pá enterrada, uma mamadeira, sinais da passagem das crianças por ali. Diariamente, debaixo do sol carioca e sob os olhares modorrentos de pais e babás, as crianças escalam degraus, escorregam em rampas coloridas, balançam-se, erguem castelos, abrem buracos. Corpinhos bronzeados, cabeças suadas, risadas, choros, gritos atravessando o ar quente, areia voando na gaiola a céu aberto. Mas não àquela hora. Àquela hora, o parquinho era uma estrutura erguida no deserto. Esvaziada de sentido. Fantasmagórica.

E então, brilhando no escuro, surgiram as meninas albinas. Duas irmãs ainda pequenas, branquíssimos os cabelos, pelos, cílios e sobrancelhas, rosada pele, olhos de bolinha de gude, fadinhas esculpidas em delicada porcelana.

Vinham com a mãe e assim que soltaram-se dela, correram para os brinquedos, significando o vazio, reacendendo o lugar. Como se uma luz emanasse de seus corpinhos, as irmãs albinas cintilavam na noite quente. Saltitavam descalças chacoalhando as alvas cabeleiras encaracoladas, espuma do mar, indo e vindo, entre risadas, suor e areia, divertidas como as do dia, as criaturas noturnas.

A um chamado, voltaram o olhar translúcido para o calçadão onde a mãe esperava ao lado do pipoqueiro, ele também vagalume, o carrinho aceso, enchendo os saquinhos de pipoca doce, cor de rosa, encantada, pigmentando tudo. Agora, a lua baixa alcançando o mar, a volta para casa e o sono das meninas que não podem dormir.

 

 

Toró

Posted on 10 dezembro, 2015

 

A chuva caiu sem avisar. Desceu vomitada, já com os pingos largos, num crescendo acelerado de tiroteio, estourando pipoca, jorrando-se no asfalto, não para lavar nem para refrescar, chuva de verão.

Apertamos o passo abrindo as pernas para saltar as poças e recolhendo depois para recuperar o equilíbrio na chegada, olhos pregados no chão, segurando a bolsa, a saia, tentando ser civilizados, com vontade de sair correndo feito gato assustado.

Um carrinho de bebê me ultrapassou pela direita na maior velocidade, joguei o corpo para o lado, encostei de leve numa senhora que caminhava altiva tentando manter a dignidade que a idade exigia, pedi desculpas para outra, aquela já ficara para trás, ninguém pensou no guarda-chuva, foi traição do tempo na cara dura.

O mendigo com a cama desfeita, distribuía papelão. Esticava a mão e, na correria, quem pôde pegou. Não sei como a coisa começou, se foi gente tirando lasquinha da sua pobreza ou se foi ele mesmo que, por um momento, quis sentir-se importante. Postou-se ao lado da banca com um ar quase profissional, como se não houvesse coisa mais séria no mundo e ficou ali descalço, encharcado, trabalhando, entregando papelão.

Muita gente pegava e saía rindo sozinho com aquele guarda-chuva improvisado, feito menino fazendo coisa escondida, excitado, contaminado pela farra do momento.

Tão rápido quanto chegou, o aguaceiro foi embora. Parou de vez, nem um pingo a mais, nem um chorinho. Ainda vi o homem de longe, parado na calçada, a sua figura magra contra o sol, voltando a ser mendigo.