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O pé

Posted on 20 janeiro, 2016

Eu vi o pé do morto. O pé não estava morto como o resto. Escapava vivo do plástico preto estendido sobre o homem. Aquecido pelo sol, solto, em movimento. A meia branca, grossa, apertando o calcanhar, tive ímpeto de afrouxar, o tênis colorido, quase novo, barato. O pé não o deixava morrer por inteiro debaixo do plástico preto. Vibrava na luz cheio de informação. Dizia: hoje cedo, eu me levantei, escolhi e vesti essa meia branca apertando o calcanhar. Escolhi e vesti esse tênis quase novo, colorido, barato. A minha história precisa começar aqui, no meu pé que não aceita a morte anônima debaixo do plástico preto. Foi o que eu ouvi e, então, resolvi contar.

Poetar

Posted on 16 janeiro, 2016

Peguei as palavras aleatoriamente, como pedrinhas no chão durante a caminhada, e as coloquei em linha formando uma frase bonita. Não dizia muita coisa, descrevia o óbvio, mas tinha musicalidade e me remetia a um lugar fora do alcance da vista. Achei que era ilusão de ótica. Reli friamente, sem exageros e, mais uma vez, meus olhos seguiram em frente, saltaram as palavras, atravessaram a frase e foram parar lá longe numa imagem viva e muito próxima de mim. Achei que podia ser poesia. Li em voz alta. Não desafinava. Troquei as pedras de lugar. Continuava bom. O coração acelerou. Então a poesia está em tudo! Basta catar as palavras pelo caminho, redondas, pontudas, pequenas, grandes e alinhá-las de forma que os olhos vejam mais do que está escrito ali.

Jaboticaba

Posted on 9 janeiro, 2016

 

Compramos a casa e queríamos jaboticaba no pé. Os passarinhos adivinhavam e já bicavam o ar doce no quintal. E então, à toa, o caminhão passou chacoalhando as árvorezinhas na caçamba, frescas, arrancadas enquanto cresciam, os pés sujos de terra e o ar desencantado dos condenados. Foi uma decisão impensada, decidida com o coração, contra os princípios mineiros de ver a coisa surgir da terra e, por merecimento, se firmar. Os pomares formados ao longo de varias gerações com as suas sombras e cheiros. Tive pena e achando que ninguém mais escolheria, fiquei com duas magrinhas raquíticas, com poucas frutas coladas à pele e nenhuma perspectiva de desabrochamento imediato. Estavam enredadas, abraçadas em pânico, deu trabalho soltar uma da outra, nem precisava, pensei, mas o jardineiro insistiu, quebrou uns galhos com firmeza e as separou. Abriu buracos enormes na terra, desproporcionais a meu ver, e meteu as coitadinhas ali à força, como se pudessem fugir, sem dar tempo a elas de entender o que se passava. Senti que demoraria até que se sentissem em casa novamente. Todos os dias, eu abria a mangueira e deixava a água escorrer ali nos seus pés, encharcando as suas raízes, afogando suas memórias, dizendo a elas que a vida comigo seria, talvez, melhor. Porque eu as amava muito. Porque eu entendia o seu sofrimento. Porque estaria com elas todo o tempo e nunca permitiria que as tocassem de modo desrespeitoso ou inconsequente. E as jaboticabeirazinhas olhavam-se em silencio e com a enorme paciência das árvores, deixavam que eu expressasse a minha humanidade.