Foi durante o Carnaval. Dormi com a Mangueira se esparramando alegre pela avenida e em algum lugar onde as raízes devem se encontrar, sonhei com a frondosa mangueira mineira, tão distinta da carioca no recato e no silencio, tão próxima na melancolia das montanhas, do morro, o relevo sentimental de cada um, imagino. 
Sonhei com a manga que a gente chupava na fazenda, madura, caída do pé, manga coquinho, manga comum, manga espada. Amarelíssima, pintada de escuro aqui e ali feito pele de onça, a gente descascava com os dentes e largava tudo ali mesmo, juntando bicho, virando esterco no pomar. Chupávamos até não sobrar caldo nenhum, fiapos ardendo entre os dentes e então púnhamos o caroço para secar no sol deixando só um punhado de fios dourados no cocuruto, a cabeleira loira dos bonequinhos que fazíamos do que sobrava da fruta, costurando roupinha e pintando as carinhas que queríamos para eles. Não éramos crianças pobres nem o contrário disso, nunca questionamos ter ou não ter, brincar ali, irmãos e primos, era o que a vida nos oferecia e a gente aceitava, um prazer concreto e nenhuma outra expectativa para além dos alqueires familiares. Durante a noite, inconsciente, sem guarda, os mangueirais tomaram conta e encheram o sonho de significado. O que era suco, carne, caroço, traduziu-se para afeto e segurança. Eu chupava manga com as mãos, deixando aquilo escorrer pelo corpo, me sentindo alimentada, pai e mãe dentro de mim. Acordei com a Mangueira campeã e um gosto doce na boca que a menta da pasta de dente depois subtraiu.