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Par

Posted on 24 abril, 2016

O varal tem pernas de bambu fincadas na grama, corpo de arame e uma franja de pregadores de madeira. Pela janela do quarto da minha avó, observo as roupas balançando e tento adivinhar a quem pertence cada peça. Depois, conto as meias em pares e sinto pelas ímpares, suas metades perdidas antes de chegar ali. São meias separadas, viúvas, meias sem serventia, sem respeito, sem razão de existir. Digo que quero ficar com elas e acham graça por eu ter pena das meias solitárias. Tenho é medo. Quando elas voltam cheirando amaciante, emboladas nas suas diferenças, ajeito com carinho na gaveta, fazendo a conta em voz baixa. Deus está vendo isso e vai me arrumar um par perfeito um dia.

Existencialismo

Posted on 21 abril, 2016

Passeando pelo parque em Nova York com Manu, a criança pragmática, passamos pelo esquilo morto em decomposição na grama. 
-Mãe, o que aconteceu com ele?
-Morreu. 
-Ái!
-Manu, é da natureza. Todo ser vivo nasce, vive e morre. Ele vai ser absorvido pela terra e virar adubo para as plantas.
-E o que mais?
-Mais nada, uai.
Algum tempo depois, me procura a mãe de uma amiguinha filipina da escola.
-Vocês têm alguma religião em casa?
-Somos católicos, mas não praticantes. Por que?
-É que a Stephanie andou muito angustiada com a idéia da morte e para tranquilizá-la nós dissemos que quando alguém morre, ele vai para o ceu, um lugar lindo, e pode inclusive levar suas coisas preferidas, bichos de pelúcia, o que quiser para brincar no paraíso. Ela, então, contou para a Manuela e ouviu uma resposta definitiva:
-Não é verdade. Quando a gente morre, desmancha na terra e acabou-se.

Casamento

Posted on 11 abril, 2016

No carro, com minha mãe e a adolescente.
Eu- Casamento é uma merda. Já deveríamos ter aceitado isso e parado de tentar nos encaixar numa coisa que não funciona.
Minha mãe- Não fale assim na frente da menina.
Adolescente começa a chorar.
Eu- Ah, chega de hipocrisia.
Minha mãe- Ela tem fantasias, sonhos.
Adolescente chora mais alto.
Eu- Você quer manter as aparências. Melhor que ela veja as coisas como são.
Minha mãe- Você é que não sabe casar.
Eu- O que você quer dizer com isso?
Minha mãe – Sempre teve maridos bons. Insatisfeita. Sua sorte é que você é minha filha e não minha nora.
Adolescente atende o celular.

Viúvo

Posted on 9 abril, 2016


Ficou na casa com o cachorro e o gato, encolhido na cama larga, meio shampoo, meio sabonete, meia pasta de dente. As datas marcadas na folhinha sem pista. A empregada esperando instrução. Correu os olhos pelas almofadas, vasos, luminárias, porta-retratos, o sentido ficava longe dali. Tinha seguido com ela nas suas opiniões, desejos e necessidades. Achou o controle remoto no sofá e sentiu-se reconfortado, acolhido. Ligou a TV e a vida seguiu.

o Gordo

Posted on 6 abril, 2016

Mal aboletei-me na poltrona da primeira classe comemorando o upgrade às custas das milhas corporativas e uma multidão barulhenta avança na minha direção. No centro, celebridade experiente, paciente, sorridente, estava Ronaldo, o Fenômeno, gordíssimo na época. Senta-se ao lado conversando com a turma, com os comissários de bordo, assinando autógrafos, suado, agitado, gostando da coisa. Levanta-se. Tira da bagagem de mão uma roupa confortável, a camisa ele troca ali mesmo, exibindo o barrigão sem constrangimento. Ainda em pé, de frente para a torcida, saca um colírio, pinga e esfrega os olhos. Saca umas gotas para o nariz, funga e assoa emitindo sons molhados desagradáveis. Esvazia uma garrafa de água num gole só. Segue, então, para o banheiro e fica tanto tempo lá dentro que decido não entrar ali nem que todos os banheiros do avião estejam interditados. Quando volta, mete protetor nos ouvidos, joga-se na cadeira e ronca. Alguns metros atrás, na classe executiva onde, definitivamente, eu deveria estar, distrai-se com um livro, o Raí, inesquecíveis suéter e meias azuis, um príncipe lindo, elegante e educado. Este clássico, pensei, o São Paulo ganhou de goleada.