Casou-se com a italiana desejada pelo bairro. Lindinha e séria, aos 25, carregava o sotaque nas esculturas que fazia nos fundos de casa, um renascimento adaptado para o Brás conservador daquele momento. Apaixonou-se com respeito e admiração pela artista que ela se tornaria, era um jornalista de família quatrocentona, gente de muitos livros e referências, em termos intelectuais, sabia no que estava se metendo. Quando conheceu a futura sogra, descobriu Sofia Loren viúva, os vestidos pretos decotadíssimos, olhos verdes realçados com delineador num luto provocador. Mãe e filha brigavam e amavam-se com a mesma intensidade, ele paulista de fala baixa e palavras escolhidas, camisa social e gravata, assistindo LaTraviata ao vivo na cozinha. Um dia, a sogra deixa cair o sapato e esfrega de leve o pé no calcanhar dele por debaixo da mesa. Olhou para os lados, ninguém notou, fez que não sentiu nada, sentindo o mundo explodir por dentro. Ao sair do banheiro uma noite, ela segurou a porta e deixou que ele a visse quase desembrulhada na toalha. Tantos convites inaceitáveis! Bastava um copo de vinho e então era como se não houvesse mais ninguém ali além dos dois e Jesus sofrendo na cruz empoeirada da sala. Ela fumava. Ele engolia o macarrão, os olhos na mulher, todo o resto na outra. Estava sempre pronto para uma possibilidade que afinal nunca aconteceu. Além da tensão física, havia uma conversa que não terminava sobre as artes, o cinema, a música e até a política onde ela era mais conservadora do que nos outros assuntos. Davam-se bem os três naquele estranho equilíbrio, o interesse de uma no que vinha da pedra, o da outra no que estava encerrado, o dele no que escapava das duas.
Hoje, vi a foto postada durante uma viagem à Itália. A mulher ainda séria e bonita olhando para o mar, ele careca conduzindo a sogra, joelhos à mostra, numa cadeira de rodas. A fidelidade não merece a má fama que tem.