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Moldura

Posted on 18 agosto, 2016

O artista fez o desenho dela. Apaixonou-se primeiro pelo desenho, depois pelo artista. Quando a paixão apagou-se, tentou apagar o desenho e já não pode porque estava protegido dentro da moldura. Devia ter emoldurado a paixão, pensou.O artista fez o desenho dela. Apaixonou-se primeiro pelo desenho, depois pelo artista. Quando a paixão apagou-se, tentou apagar o desenho e já não pode porque estava protegido dentro da moldura. Devia ter emoldurado a paixão, pensou.

Natureza

Posted on 15 agosto, 2016

O beija-flor veio na minha direção, fechado em mim, olho no olho, querendo me beijar. Batia intensamente as asinhas naquela velocidade acelerada que os mantêm flutuando sem sair do lugar e sem perder altura. O bico longo furando o ar. Achei que não era comigo, procurei a flor, mas era eu mesmo. Veio cheio de onda, o corpinho de poucos gramas refletindo em azuis e verdes metálicos a luz do sol, ainda carregando o mel da fêmea anterior e querendo mais. Polinizando. Senti um frio na barriga. A certeza na escolha dele encheu-me de compromisso e responsabilidade. Respondi instintiva, o corpo inteiro agora fincado no chão, todo o meu néctar, perfumada flor, feminina. Esperei o encontro sem saber como se daria e já querendo. E então, o inesperado, sempre tão distante da natureza harmoniosa das coisas. Havia um vidro entre nós. Limpíssimo, transparente, atravessando o destino. Eu também não percebi, ocupada com a minha vaidade, só via a ele e ele a mim, perdemos o radar. Bateu o bico, a cabeça, as asas, estatelou-se contra o nada. Ouvi o som duro do impacto e assisti sua queda desequilibrada na grama. Corri e peguei o corpinho quente com cuidado, meu coração disparado de dor, coloquei na mesa do jardim. Que má sorte a minha e de quem quer que me deseje! Morto o beija-flor! Morta a nossa vontade! Morto o momento! Fui, aos gritos, pedir socorro. Quando voltamos, agora com as diferenças contabilizadas, o beija-flor, sapo que não beijei, seguia inerte sobre o mármore. Dobramos- nos sobre ele, auscultávamos o que já não batia. Durou um, dois minutos aquela morte e bateram-lhe novamente asas, coração, o rabo. Milagroso ou espontâneo, veio a ordem e ele ressuscitou do pequeniníssimo desmaio. Saiu voando, desorientado e ressentido, eu sei, do que era tão certo e não aconteceu.

O outro

Posted on 10 agosto, 2016

Eu morava em Nova York quando soube da morte do Rubem Braga, no Rio. Fiquei imensamente triste. Com medo. Era uma sensação estranha de que todo mundo que eu gostava morreria enquanto eu estava fora. Morte à traição. A gente se distrai, olha para o outro lado e pronto, acontece. Estou de volta e vira e mexe essa mesma angústia me assalta. A morte é sempre traição.

Quitando

Posted on 3 agosto, 2016

Foi ao banco acertar a última das 36 parcelas do carro. A funcionaria do caixa, dando-se conta da importância do momento, parabenizou-a em voz alta de tal forma que todo mundo ali ouvisse e então seguiu-se uma gritaria nas filas, preferenciais e comuns, nas mesas dos gerentes, entre os motoboys, o cliente preso na porta giratória, a turma dos boletos, a do cheque especial, a da senha cancelada, a que não confia na internet. No alto do seu posto, imagino, o vigilante arriscou uma sambadinha contida também. A vitória dela era a de cada um ali. Com as bochechas vermelhas de vergonha e alegria, voltou correndo e foi direto para o fogão, fez um bolo de chocolate e brigadeiros, que é como ela sabe comemorar. A Milene, que trabalha aqui em casa.