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O homem medroso

Posted on 20 setembro, 2016

O homem mais medroso do mundo está sentado na cozinha tomando café e lendo o jornal. Faz comentários agressivos sobre os descaminhos da política no país. Tem a solução para os que não concordam com ele, no revólver, no cacetete, na bomba. Passa os olhos pelo caderno de cultura, faz uma piada sobre o músico gay e ri sozinho. Manda a empregada cortar um mamão decidindo começar a dieta ali. A mão na barriga estendida e o tanquinho do músico gay no jornal. Manda a mulher levar o carro na oficina porque o imbecil do vizinho de garagem deu um toco de porta e vai ter que pagar, ah, vai mesmo! À noite, o homem mais medroso do mundo toma uma dose de uísque e um comprimido para poder dormir. Há muitos inimigos dentro dele e todos têm a cara dele. Enfrentá-los é ferir-se de morte. Amanhã, ele se levanta e aí, sim, dá um jeito nesse bando de idiotas.

Casando as diferenças

Posted on 12 setembro, 2016

Ele chora desde o Patinho Feio, que assistiu pela primeira vez aos seis anos, e desde então nunca mais parou de chorar. Vale ópera, bilhete de filho, apresentação de amigo em teatro amador. Sou durona. Nas brigas com meus irmãos, o que os enfurecia era a minha estóica capacidade de não verter uma lágrima até o final do embate. O reservatório quase transbordando e fechado.
Guerra é um tema para ele. Filme, livro, fotografia, reportagem. Toma partido, acompanha, torce. Emociona-se com a entrega de um soldado leal à causa. Sou pacifista, mais do que isso, mineira. Prefiro sempre um acordo, mesmo que sem vergonha. Diferente dele e de muitas mulheres, fujo de uniforme. Nem marinheiro italiano de licença na Sardenha me fala às partes.
É gastador, perdulário, generoso com ele mesmo e com os outros, não faz conta. Tem mais sapatos do que Imelda Marcos nos bons tempos. Tem, inclusive, um par de couro verde. Verde. E vários tênis iguais, brancos, com pequenas diferenças que só ele reconhece. Sem culpa. Na minha religião, o céu é dos pobres. Na dele, os ricos são bem recebidos. Fui criada nos rigores de uma mãe mineira que compra a salsinha num lugar e a cebolinha noutro porque “compensa.” Ainda assim, tenho meus luxos. Ela que não me leia, mas se o dinheiro for pouco, levo flores e deixo as verduras na feira.
Ele vive viajando para a China. Mete-se em automóveis cheios de chineses em ruas superlotadas de chineses. Toma cerveja quente para ser gentil. Aprendeu a desviar o pé das cusparadas no chão e a desconsiderar o som da comida chupada do hashi sem cerimônia à mesa. Não se queixa. Quando acorda, estou indo dormir. Vai para a cama quando já levantei. Acha que essa vida invertida é até romantica e que saudade é coisa boa. Odeio sentir saudade. Odeio fazer mala. Odeio ficar muito tempo longe de casa.
Ele cozinha bem, come bem. Reconhece um prato pelo cheiro dos ingredientes numa invejável relação de intimidade. Vê beleza em esculturas cozidas, verdade no cru, respeito no ponto para mal. Lê cardápios com a calma e o prazer de um Dostoiévski, discutindo passagens, procurando sentido nas entrelinhas e achando graça nos exageros dramáticos do redator. Não mede esforços. Pode passar o dia vigiando uma carne arder no forno. É capaz de atravessar o mundo com um jamon de nove quilos na mala. Quando pergunto do almoço com alguém, ele descreve o que comeram. Eu só querendo saber o que conversaram. Sou desprovida desse sentido, o paladar na comida. Na boca, não distingo mandioquinha de xuxu. Abraço sem medo sal e açucar, dois inimigos da sociedade contemporânea. Não tenho orgulho disso. Antes, estou aprendendo a ficar quietinha na mesa, sem brincar com os talheres (ou com o celular) observando atenta o interminável ritual da degustação.
Sei que há um longo caminho até que as nossas almas se misturem irreversivelmente, até que possamos confundir os nossos medos e vontades e que ainda assim saiamos inteiros do outro lado. Depois de muito tempo juntos, quando um tem sede, o outro bebe água, dizia minha avó. Não vejo a hora!

 

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