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Estrela

Posted on 30 outubro, 2016

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A notícia triste “chegou pelo interurbano em longas espirais metálicas”, escreveu Vinicius de Moraes. Recebi pelo celular, mas doeu igual. Dona Janine teve um AVC e está na UTI, em São Paulo. Eu a imagino, aos 79, de camisolinha de renda, batom, cabelo arrumado e unhas vermelhas, pé e mão, presa`a cama impessoal do hospital. Posso vê-la, vaidosa e coquete, pedindo, ou melhor, cobrando um espelho da enfermeira, preocupada com a aparência descuidada na frente dos médicos e das visitas, para quem ela detestaria parecer estar entregando os pontos. Queria poder entrar com uma pinça escondida na bolsa e tirar um ou outro fio desalinhado da sobrancelha que ela capricha para não perder o desenho `a Marlene Dietrich, embora seja fã mesmo de Marilyn Monroe. A sua festa surpresa de 70 anos teve o “Furacão Marilyn” como tema. O neto, chef de cozinha, fez o bolo de três andares decorado com a figura da loira no famoso vestido voando sobre o bueiro do metrô. As filhas, genros, netos e o namorado, 30 anos mais novo que ela, cuidaram de ambientar o espaço com imagens de cenas famosas da estrela. A homenageada chegou pronta para crime, vestida num modelito curto com estampa de oncinha, sandálias douradas de salto 12, uma flor no cabelo: “É preciso estar sempre pronta para uma oportunidade que talvez nunca aconteça”, preconizou.
Nunca vi Dona Janine sem salto. Ou sem um figurino que tenha lhe tomado, pelo menos, algumas horas na frente do espelho. Sentada elegantemente na mesinha da recepção do consultório odontológico onde a filha e o genro nos atendem, cuida da agenda de pacientes como quem escreve um diário, anotando à mão os horários e as observações pessoais que julga necessárias: Beatriz- Passar na frente porque tem aula de inglês, Luciana- Lembrar de entregar o creme da Natura , Sergio- Perguntar sobre emprego para o filho de fulado de tal, num networking invejável. A porta é também responsabilidade dela e o molho de chaves se agita a cada toque da campainha. Em passinhos miúdos e o gingado particular da idade, abre o consultório sem qualquer restrição e acolhe solidária as dores e queixas alheias. Sorte dos ladrões que no dia do assalto levaram tudo, até as próteses dentárias descansando no balcão, que Dona Janine não estava ali. Ninguém passa impunemente por ela.
Além do crochê ininterrupto, da TV ligada, do telefone que não para, das consultas ao site da Bolsa de Valores, ela usa o tempo no consultório para vender roupas, a maior parte de couro, material que ela adora, e justas. Se a peça não ficar agarradíssima, ela não libera. Me faz experimentar ali mesmo na ante-sala e desfilar para ver se ficou como imaginava. Comprei algumas peças que, é claro, nunca usei, mas quem consegue convencê-la de que uma mulher pode ser feliz sem usar e abusar das curvas que Deus lhe deu? As saias curtas com meias arrastão, saltos altíssimos e um bom decote ela guarda para o baile do domingo que frequenta com o jovem namorado “ciumentíssimo, o único defeito dele”. Sempre dançou muito e quando o rapaz se cansa, sai rodando pelo salão com outros homens e diz que flerta respeitosamente com seus pares, afinal é educado corresponder aos movimentos, mesmo dos olhos, do outro.
Quando ligou animadíssima me convidando para o lançamento do Calendário Sensual da Terceira Idade, não entendi que ela era um dos meses. Foi só com o meu exemplar em mãos que vi as suas fotos ilustrando Junho, frente e verso. Apoiada num piano, de vestido longo vermelho, olhos nos olhos com um senhor de terno igualmente elegante e na piscina, meio corpo para fora da água, num maiô dourado combinando com a touca na cabeça. E matei a charada: Dona Janine é muito maior do que a sala de espera daquele consultório, ela é uma estrela de fato, a nossa Marilyn Monroe.
Estou aqui, fazendo o que ela sempre me pediu que fizesse pelos outros, rezando e torcendo pelo seu bem-estar. Que ela se levante, faça um penteado que valorize a cabeleira loira, pinte as unhas, pé e mão, com o esmalte mais vermelho que houver, retoque as sobrancelhas, vista um modelo justíssimo, o salto 12 e vá já para o consultório abrir a porta para mim!

Uma blusa bonita

Posted on 24 outubro, 2016

Passou por mim com uma blusa muito bonita e me ocorreu que a gente só precisa, de verdade, de uma roupa bonita quando fica mais velho. Foi meu ultimo pensamento antes de receber o jorro de água morna no lavatório do cabeleireiro. Quando me levantei, toalha na cabeça, a dona da blusa bonita estava fazendo as unhas e a sua expressão refletida no espelho era indefinida, entre assustada e pensativa, olhos arregalados, fixos no infinito, a boca aberta como se gargalhando sem som. Tinha o celular apertado na mão que a manicure não manipulava. Provavelmente a notícia tinha chegado por ali. Começou a balbuciar qualquer coisa que não pude ouvir direito por causa do secador. Não havia ainda um interlocutor definido, falava com ela mesma. E então rompeu-se a barragem. As lágrimas lavavam seu rosto como eu só tinha visto em novela. Mas era muito mais do que um choro, era uma hemorragia transparente. E, diferentemente do que acontece nas novelas, ela não fazia força nem emitia som nenhum, só deixava as lágrimas correrem soltas, misturando-se ao que lhe vazava pelo nariz, descendo até o queixo e ali se acumulando. A dor deve fazer a gente suar. Ela suava muito, mesmo no ar-condicionado do pequeno salão, a testa molhada, o cabelo perdendo a forma, o rímel borrado, a blusa bonita encharcada. Trouxeram um copo d’água. Dirigia-se agora à manicure dobrada à sua frente e terminava cada frase com um “entende?” que a moça fazia que entendia concordando com a cabeça. Talvez para disfarçar a tensão do momento ou porque não soubesse que outra coisa fazer, foi buscar o carrinho de esmaltes e puxou uma cor que eu daria tudo para saber qual era. Que não fosse um vermelho a reforçar o drama. Que fosse rosinha aceitando um colo. A mulher estendeu a mão de forma automática e seguiu chorando e declamando sua desgraça em versos improvisados, de soquinho, puxando o ar. As pernas e os pés chacoalhavam nervosamente no ar. O corpo todo chacoalhava. Houve um clarão no ambiente barulhento suficiente para eu escutar uma frase e entender que tratava-se de uma traição do marido descoberta ou revelada naquele momento. Era tanta dor e tanta perda e tanto sofrimento naquela constatação que eu quis me levanter e dizer a ela que iríamos juntas maltratar quem a maltratava. Quis dizer a ela que terminasse as unhas, mas que nem esperasse o esmalte secar porque iríamos fazer sofrer quem impunha aquele sofrimento todo a ela. Não me importavam as circunstancias nem os motivos nem exatamente o que havia acontecido. Eu só queria acabar com aquele martírio e com a minha culpa, agora clara, pela tristeza que infligí a outros dessa forma. Eu não iria com ela a parte alguma. Não poderia confortá-la. Não teria o que dizer além de que ninguém faz isso para ferir, mas para dar sentido ao vazio que carrega. E que a blusa dela era muito bonita. Pena que a gente só precisa, de verdade, de uma roupa bonita quando está mais velho.

Ora, pelos

Posted on 21 outubro, 2016

Empolgada com o clima dos últimos encontros, pediu à depiladora que fizesse um coração. Pequeno, simples, o mais barato do catálogo. A mulher foi, mexeu, puxou, errou na curva, consertou, exagerou e terminou desenhando uma caveira peluda, escavados olhos, nariz e boca na vertical. O fim onde deveria estar o começo de tudo. Experiente na coisa, já teve o escudo do Flamengo e um rabo de sereia delineados com cera quente quando outras ocasiões pediram, não se deixou abater com a barbeiragem da profissional. Assumiu a caveira cabeluda entre as pernas em atitude hard core, lingerie de couro preto, dominadora, agressiva, acatando o que o destino birrento mais uma vez aprontava para ela. Enxugou as lágrimas. Acertou com a pinça os pelinhos desalinhados. Romance é para os fracos.

Perdido

Posted on 17 outubro, 2016

Em que momento a gente se perde da gente mesmo? Quando é que a gente, menino, deixa de observar a formiga carregando a folha e começa a olhar para os olhos de quem nos vê? Quando nasce o outro?
O outro que me autoriza, que me dá a medida, que me descreve para mim mesmo. O outro que é autor da minha historia. O outro que toma emprestada a minha alma. O outro que fala por mim, que é dono da minha voz. O outro que me aponta os defeitos com o dedo duro da delação. O outro que me define. O outro que me reflete no espelho alheio em que eu me miro. O outro que elejo para me representar na vida. O outro tão necessario para eu me sentir importante. O que me fez perder a formiga, a folha e a mim mesmo.

Uma mãe

Posted on 12 outubro, 2016

As três meninas pequenas comigo no quarto. Sinto um aperto no peito, daqueles que vêm do medo do mundo, e irrompo emocionada: “Queria que tudo parasse agora. Que vocês não crescessem. Que eu não envelhecesse. Que a gente ficasse exatamente assim, num espaço perfeito, para sempre, aqui, na segurança do quarto.” 
Uma delas vai devagarinho, abre porta e todo mundo sai correndo.

Solidariedade

Posted on 9 outubro, 2016

 

– Precisamos apresentar alguém para o Antonio.
– Quem é ele mesmo?
– O irmão mais velho do Henrique. Cinquenta e cinco anos, bonitão, lembra o Tom Jobim quando jovem, arquiteto, divertido, boa companhia, cozinha bem, não trabalha há anos, aliás, nunca trabalhou, vive na aba dos amigos. Ele anda deprimido, estou preocupado.
– Mas, vagabundo assim ninguém vai querer!
– O defeito dele é ser homem. Se fosse mulher, arrumava um marido amanhã.
– Não é verdade, ninguém mais quer uma mulher que não trabalha.
– Os homens da minha idade não se importam, desde que ela tenha as qualidades do Antonio.
– E essa depressão?
– Ele vai ao psiquiatra quando aparece uma grana. Se arrumar uma mulher legal que o sustente, nem vai precisar de remedio.
– Tá, vou pensar.