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Pedras e beijos

Posted on 30 novembro, 2016

Abro os olhos e dou com a Manu a pouca distancia da cadeira, magrela no biquíni, pezinhos enterrados na areia. O sol  e o calor queimando tudo. Duvida que eu jogue uma pedra em você? Aos dois ou três anos, já e sempre em atitude combativa, espera imóvel a resposta. Não me dei conta, no entanto, naquele momento tão estrangeiro, de Camus, de que se pudesse “destruir o equilíbrio do dia… naquela praia onde havia sido tão feliz” e arrisquei: Duvido.

A pedra escondida na mãozinha dela voou certeira, me cortou de leve a testa. Cobri o rosto mal acreditando e chorei de dor e de susto. Ela assustou-se também, mais com as minhas lágrimas do que com o sangue, sobretudo com o impacto da realidade, e seguiu calada atrás de mim para dentro da casa. Mais tarde, galo na testa, vendo-a brincar distraída com um gato, compreendi a sua necessidade de ser notada, magrela no biquíni, pezinhos enterrados na areia, por aquela mãe tomando sol de olhos fechados para ela. E me deu uma vontade cheia de culpa de colocar no colo e cobrir de beijos a criatura malcriada. A psiquiatria absolveu a sociedade moderna de todos os crimes.

Minas

Posted on 22 novembro, 2016

Conversa em Guaxupé, um lugar onde o que importa é a temporada de jaboticaba.
– A Maria da Glória foi para a praia, tadinha.
– Nossa! Por quanto tempo?
– O marido queria ficar 15 dias, mas ela conseguiu negociar e volta em uma semana.
– Graças a Deus.

A vida como ela é

Posted on 17 novembro, 2016

Formou-se à duras penas no curso noturno de contabilidade, o diploma necessário para uma eventual promoção no emprego. Durante um ano, deixou as crianças com o marido, jantar pronto no fogão e seguiu para o segundo turno do dia. Pouco depois da formatura, aparece o fotógrafo no portão com o álbum do evento. Entra, acomoda-se na mesa de jantar, pede um copo de água “temperada”, abre a maleta e saca uma pasta com folhas plásticas contendo as fotos ampliadas. Dois mil reais. Ela agradece e diz que não quer encomendar o álbum. Ele responde que sem a capa de couro, pode fazer por mil e quinhentos. Ainda é caro. Ele oferece fotos avulsas. Não, obrigada, ela diz, não estou podendo gastar. Três pelo preço de duas, no papel brilhante. Hoje não, meu senhor. Ele, então, expressão distorcida, vai retirando lentamente uma foto de cada vez dos plásticos, rasgando em quatro e fazendo uma pilha diante dela sobre a mesa. A regra é clara, ele explica, saboreando o momento, tenho que inutilizar as fotos que não são vendidas. Antes de se levantar, separa uma cópia do tamanho de uma unha usada para identificação dos clientes e entrega para ela. Fica de recordação para a senhora.

Casando-me

Posted on 13 novembro, 2016

Quando me casei pela primeira vez, eu tinha 14 anos e sabia exatamente o que estava fazendo. Posicionei o menino no altar, caminhei de volta até a porta da Catedral de Guaxupé e, com um buquê de flores colhidas na praça, fiz a entrada triunfal, passo a passo com paradinha e tudo, até encontrá-lo novamente no alto com a expressão quase tão sofrida quanto a do enorme Cristo crucificado atrás. A ordem era para que ele não se movesse até a chegada da noiva e então, que me desse o braço e me acompanhasse até a saída, com seriedade, como se os convidados, distribuídos pelos bancos da nave, estivessem nos observando. Apesar de um ano mais velho e pelo menos 30 centímetros maior do que eu, ele obedeceu sem negociar. Sabia que era assunto serio e que se seguisse à risca, talvez eu topasse brincar de briga de galo, montada nos seus ombros para derrubar um casal de primos na piscina do clube mais tarde.
Muitos anos e alguns casamentos depois, ele não achou estranho me encontrar com três filhas numa livraria em São Paulo. Disse, dando risada, que sempre desconfiou que esse era o meu plano. E que só encarou porque eu era excelente parceira na briga de galo.